domingo, 19 de maio de 2013

Lamarca não tinha sustentação teórica.


"Dilma acusou Lamarca de não ter sustentação teórica", diz ex-guerrilheiroWellington Diniz assaltou, foi acusado de assassinatos, preso, torturado, exilado e produziu filmes. Ele fala às vésperas de ser julgado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
Fonte: Diário de Pernambuco.


Publicação: 19/05/2013 13:02 Atualização:

O guerrilheiro rompe o silêncio, em entrevista exclusiva. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press
O guerrilheiro rompe o silêncio, em entrevista exclusiva. Foto: Beto Novaes/EM/D.A Press
Quem observa o senhor franzino, de 66 anos, morador do Bairro Carmo, em Sete Lagoas, é incapaz de imaginar o peso da história que ele carrega. Wellington Moreira Diniz lutou contra a ditadura militar no Brasil, participou de ações armadas em bancos e quartéis para abastecer organizações como Colina, Var-Palmares e VPR com armas e dinheiro; foi responsável pela segurança do ícone da resistência, o capitão Carlos Lamarca, e presenciou a jovem Dilma Rousseff, então com 21 anos, discutir asperamente com Lamarca.

Fez, ainda, parte do grupo que roubou US$ 2,598 milhões (R$ 15 milhões, atualmente) do cofre da amante do político Adhemar de Barros; foi preso e cruelmente torturado, depois libertado em troca do embaixador suíço que havia sido sequestrado por seus companheiros. Exilado no Chile, foi segurança do então presidente cubano, Fidel Castro, quando este visitou o país governado por Salvador Allende, em 1971. Trabalhou como assistente em produções do diretor de cinema chileno Miguel Littín e do italiano Roberto Rosselini, e lutou pela independência de Angola, ao participar da tomada do aeroporto na capital Luanda.

Até a quarta-feira da semana passada, Wellington nunca havia contado sua trajetória. Em um depoimento de quase três horas, ele revelou ao Correio/Estado de Minas detalhes da sua biografia. Acusado de 38 assaltos, entre bancos, quartéis e automóveis, e de ter matado 12 pessoas em ações de resistência à ditadura, ele será julgado na próxima sexta-feira (24) pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. O deputado federal e ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT-MG) será o relator do processo de Wellington e destaca: "A anistia não discrimina luta armada e luta pacífica. Em uma situação de ditadura é considerado lícito que os militantes peguem em armas."

"Se eu era bravo? Bravo é boi. Eu seguia as necessidades do momento, entende Wellington." A ficha do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão do Exército à época, imputa-lhe 38 ações, mas ele garante ter participado de 45. Sobre as 12 mortes de que é acusado, garante não ser realidade."Eu sempre atirei para cima. Se alguém trombou na bala não é problema meu", ironiza. Um dos apelidos que recebia dos companheiros e também dos militares era 90. Uma alusão às duas pistolas .45 que sempre carregava na cintura, durante as ações. Outro apelido que ele não gosta, aliás 2014 era: "John Wayne da guerrilha. Isso é folclore", rebate.

Distante da época elétrica, Wellington recita sua vida como se estivesse contando para si próprio, sobre quando vivia entre um aparelho e outro. Chegou a assaltar três bancos no mesmo dia, sendo um no Rio de Janeiro e outros dois em São Paulo. Em quase três horas de depoimento fumou 18 cigarros, bebeu mais de uma garrafa de café sem açúcar e fez longas pausas. Existem as pessoas que passam pela história e as pessoas que fazem a história. Foi uma opção de vida fazer história", atesta, deixando o cigarro queimar até o filtro.

"Teve um embate e eu estava presente. Dilma tinha a convicção dela, que era uma visão mais antimilitar. E nós tínhamos uma visão mais militar. Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato."

sexta-feira, 17 de maio de 2013


Estado de S. Paulo - 17.05.2013.

Agentes da ditadura são acusados por matar Mario Alves em 1970

SÃO PAULO - O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro denunciou nesta quinta-feira, 16, cinco agentes do regime militar acusados pelo sequestro qualificado, tortura e morte, em 16 de janeiro de 1970, do jornalista e militante de esquerda Mario Alves. Segundo testemunhas e documentos obtidos pelo MPF, Alves, que tinha 47 anos e era um dos líderes mais importantes do Partido Comunista Brasileiro, foi capturado na rua, perto de sua casa na zona norte do Rio de Janeiro e "barbaramente espancado" até de madrugada nas dependências do DOI-Codi do Rio.

Veja também:

Exatamente um ano depois - a 20 de janeiro de 1971 - foi preso, também no Rio, e morto pelo mesmo DOI-Codi o então deputado Rubens Paiva.
Os cinco acusados agora denunciados pelo MPF são Luiz Mário Valle Correia Lima, Luiz Timótheo de Lima, Roberto Augusto Duque Estrada ("Capitão Duque Estrada"), Dulene Aleixo Garcez dos Reis e Valter Jacarandá. Os procuradores pedem que todos eles sejam condenados pelo crime de sequestro qualificado, com o reconhecimento das circunstâncias agravantes (entre as quais motivo torpe, tortura e abuso de autoridade). A denúncia propõe ainda a perda do cargo público dos denunciados, cancelamento de suas aposentadorias ou qualquer provento remunerado que ainda recebam - e, por fim, uma indenização de R$ 100 mil à família.
Segundo a denúncia, Alves, que militou desde os anos 50 ao lado de figuras como Carlos Marighella e Jacob Gorender, saiu de casa na noite daquele 16 de janeiro e não voltou mais. Foi capturado e levado ao DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita. Na manhã seguinte, prossegue o relato do MPF, ele foi visto pela última vez por outros presos numa cela, em péssimo estado mas ainda vivo.
Comunista filiado ao PC na Bahia, já aos 15 anos - em pleno Estado Novo - o baiano de Sento Sé, onde nasceu em 1923, participava de campanhas estudantis contra a ditadura Vargas. Depois de um ano em Moscou, voltou já para o comitê central do PCB, onde se tornou diretor do jornal Novos Rumos. Preso em 1964, libertado por um habeas corpus, juntou-se Apolônio de Carvalho e Gorender, entre outros, para fundar o PCBR e organizar a resistência armada contra o regime militar.

Em 1987, a União reconheceu sua responsabilidade civil por sua prisão, morte e danos morais. Foi o primeiro caso em que a União reconheceu sua responsabilidade por um desaparecido político. 



domingo, 5 de maio de 2013

Os livros do meu tio, cheios de boa vontade.


Por João Bosco de Araújo
Jornalista  boscoaraujo@assessorn.com  
 
Estava eu inclinado a ler a obra de Jacques Maritain? Não por acaso, mas pelas circunstâncias daquela ocasião. O certo é que nem sabia de quem se tratava. Na casa de minha avó Luzia uma pilha de livros encostada em um canto da “Oficina Velha” adornava aquele ambiente, sempre às portas fechadas, com outros objetos de que dias outrora foram vividos, intensamente. Pequenos instrumentos de percussão, roupas de fantasias, latinhas vazias de lança-perfume, além de folhinhas de santos, cordão de crucifixo, etc. etc. Olha que o local não era tão pequeno e serviu, anteriormente, de ponto de trabalho do meu avô Severino Tavares, na fabricação de chapéu de couro.

Então! Lá estava eu, minuciosamente, com um exemplar do filósofo francês debaixo do braço e a ler, atenciosamente, sem pretensão de alcançar altos conhecimentos da matéria. Apenas pura curiosidade! O maior interessado - e dono daquela coleção de livros - estava longe dali e de seu objetivo principal, o meu Tio Antenor Tavares de Araújo, que fora morar em Sampa nos idos de 1960. “Titenor” abandonara há tempos àquela leitura no Colégio Nóbrega, em Recife, onde fora seminarista no tradicional Mosteiro de São Bento, em Olinda. Reprovado em matemática - e na vocação -, foge  alegando que não aprendera a matéria ensinada no Ginásio, em Caicó, depois de um ano confinado na rigorosa Ordem Beneditina, em Pernambucano. Certamente que Deus o perdoou, sua vocação era outra.
 
De volta ao Seminário caicoense, ficou também pouco tempo, fugindo numa noite de Carnaval para um baile que acontecia em um clube da cidade. Padre João Agripino foi quem não o perdoou. Professor de matemática no então Ginásio Diocesano Seridoense (GDS), soube depois de seu insucesso nos estudos e de sua defesa infeliz. Ao se encontrarem, deu-lhe um carão, reclamando do jovem ex-seminarista por ter lhe dedurado em Olinda pelo mal-ensino da matéria. O padre Agripino não merecia!
 
Estou eu, novamente, a retratar aqueles livros deixados para trás por meu tio. Comigo também não fora diferente. Deixei-os antes mesmo de tomar qualquer decisão que fosse àquela de Titenor, embora nunca tenha passado pela vontade de seguir a vocação seminarista. Ao menos me deixara o interesse pela leitura. Confesso não ser uma vocação, mais por uma necessidade e capricho de aprendizagem. Um esforço que, obrigatoriamente, me dá prazer.
 
Limitado ao meu conhecimento, ainda por cima o filosófico, estava eu a retirar da leitura afinca de um livro de Jacques Maritain (1882-1973), de tantos outros de sua intensa obra publicada praticamente por toda a primeira metade do século 20, uma frase que me levou a copiar nos rodapés dos manuscritos escolares: “É a vontade e não a inteligência, por mais perfeita que seja, que torna o homem bom e direito”.
 
Não recebi qualquer ensinamento acadêmico-escolar desse teórico tomista. Apenas uma frase, que deixei gravar no meu subconsciente com a vontade de não mais esquecer.
 
Não sei onde estão, hoje, os livros de Maritain do meu Tio. Sei que fadado à mediocridade, sempre estive, com a vontade de superar as adversidades. Vontade que me encoraja a enfrentar as dificuldades. Também sei que de uma legião de boas vontades o mundo está cheio. Faltam vontades de praticá-las. São muitos os que as praticam para o mau.
 
Um cérebro medíocre, sim. Mas com uma vontade danada de um coração bondoso!


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 5/05/2013 12:15:00 PM

sábado, 4 de maio de 2013

04/05/2013 - 14h24
Fonte: UOL.

Comissão da Verdade ouve militares perseguidos pela ditadura


MARCO ANTONIO MARTINS

DO RIO
As comissões da verdade Nacional e do Rio realizam, neste sábado (4), uma audiência pública para ouvir relatos de militares e de seus filhos perseguidos pela ditadura militar (1964-1985). O evento acontece na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Centro do Rio.
O encontro foi motivado a partir do depoimento do brigadeiro Rui Moreira Lima, em outubro de 2012, que relatou as perseguições e prisões sofridas por ele durante o governo militar. Um grupo de trabalho criado na Comissão Nacional da Verdade calcula que 7.488 militares foram perseguidos e 30 acabaram mortos.
A comissão toma como base relatórios do projeto Brasil Nunca Mais que apontam 6.500 perseguidos pelas Forças Armadas junto com um estudo da historiadora Flávia Burlamaqui, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que contabiliza os 7.488.
"O termo ditadura militar esconde essa situação paradoxal de militares que foram perseguidos. Foram militares que resistiram ao golpe e pagaram com o alto preço tendo uma série de direitos cassados. São estigmatizados como traidores ou desertores", afirmou Wadih Damous, presidente da Comissão da Verdade do Rio.
Integrante da comissão nacional, Rosa Cardoso citou os filhos dos militares que também foram perseguidos sendo impedidos até de estudar nos colégios militares durante o encontro.
"Fui impedido de estudar no colégio militar. Acabou sendo uma punição. Aliás, não foi apenas o meu pai que foi torturado, foi toda uma família", contou Pedro Luiz Moreira Lima, 63, filho do brigadeiro Moreira Lima.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Revisão da Anistia volta à discussão


Extraído de: Associação do Ministério Público de Minas Gerais  - 17 horas atrás

Fonte: Boletim de jusbrasil.com.br

Revisão da Anistia volta à discussão

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Paulo Sérgio Pinheiro, afirmou ontem que o trabalho do colegiado deve servir para futura investigação judicial e responsabilização criminal de agentes de Estado que operaram na estrutura repressiva da ditadura militar. Ele frisou que no relatório final da comissão deverá haver recomendações para que o Brasil respeite uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que questiona a validade da Lei de Anistia. "Existe uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que diz que as autoanistias não são aceitáveis", ele destacou ontem, em encontro em São Paulo com membros das comissões estaduais de Memória Verdade e Justiça. O que aconteceu no Brasil foi uma autoanistia, afirmou. Na ocasião da sentença proferida pela corte, o então ministro da Defesa, Nelson Jobim declarou que a decisão não teria efeitos práticos, se baseando em posição do Supremo Tribunal Federal (STF), que rejeitou ação pedindo a revisão da Lei da Anistia. Rosa Cardoso, também integrante da CNV, disse que espera uma revisão da decisão do Supremo.
Pressionada pelos membros de comitês estaduais por mais agilidade e transparência, a CNV anunciou também que deve divulgar um relatório parcial de seus trabalhos e partes dos depoimentos colhidos por ela. A comissão está sinalizando uma mudança de rumo. Está reorientando o trabalho porque começa a perceber que é preciso que suas investigações repercutam agora na sociedade. O trabalho dela é também pedagógico, não é simplesmente fazer um relatório e dar a coisa por encerrada, avaliou o vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, Marcelo Zelic, presente ao evento.
A coordenadora do núcleo de lutas pela terra da CNV, a psicanalista Maria Rita Kehl disse anteriormente ao Estado de Minas que há casos em que é importante manter o sigilo das investigações para que elas não sejam prejudicadas.
Demissão No encontro, foi anunciada a saída do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Gilson Dipp, da CNV, por motivo de saúde. Afastado do STJ já há sete meses, ele havia informado a comissão há onze dias, mas a decisão só foi confirmada publicamente ontem.
Um grupo de trabalho do Ministério Público Federal chamado Justiça de Transição já trabalha de acordo com a linha defendida pelo presidente da CNV e instaurou 170 investigações criminais, sustentando que os crimes de sequestro, homicídio, tortura e ocultação de cadáver não prescrevem. Pelo menos quatro delas deram origem a ações penais. (Com agências)
Ustra é denunciado
O Ministério Público Federal apresentou ontem denúncia contra o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra e o delegado aposentado Alcides Singillo por ocultação do cadáver do estudante de medicina Hirohaki Torigoe, de 27 anos, morto em janeiro de 1972, em São Paulo. Tarigoe era militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento de Libertação Popular (Molipo) e teria morrido em confronto com policiais, segundo consta a versão oficial. No entanto, dois depoimentos, de André Tsutomu Ota e Francisco Carlos de Andrade, contestam a informação. Ambos estavam presos no DOI-Codi quando o estudante foi morto. (Estado de Minas)

quarta-feira, 24 de abril de 2013


Ex-delegado: Folha financiava operações na ditadura; Frias visitava o DOPS, era amigo pessoal de Fleury

publicado em 24 de abril de 2013 às 10:15
Fonte: Viomundo e Substantivoplural.com.br
Cláudio Guerra afirmou que os recursos vinham de bancos, como o Banco Mercantil do Estado de São Paulo, e empresas, como a Ultragas e o jornal Folha de S. Paulo. “Frias (Otávio, então dono do jornal) visitava o DOPS, era amigo pessoal de Fleury”
do portal Terra
O ex-delegado da Polícia Civil Claudio Guerra afirmou nesta terça-feira, à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, que foi o autor da explosão de uma bomba no jornal O Estado de S. Paulo, na década de 1980, e afirmou que a ditadura, a partir de 1980, decidiu desencadear em todo o Brasil atentados com o objetivo de desmoralizar a esquerda no País.
“Depois de 1980 ficou decidido que seria desencadeada em todo o País uma série de atentados para jogar a culpa na esquerda e não permitir a abertura política”, disse o ex-delegado em entrevista ao vereador Natalini (PV), que foi ao Espírito Santo conversar com Guerra.
No depoimento, Guerra afirmou que “ficava clandestinamente à disposição do escritório do Sistema Nacional de Informações (SNI)” e realizava execuções a pedido do órgão.
Entre suas atividades na cidade de São Paulo, Guerra afirmou ter feito pelo menos três execuções a pedido do SNI. “Só vim saber o nome de pessoas que morreram quando fomos ver datas e locais que fiz a execução”, afirmou o ex-delegado, dizendo que, mesmo para ele, as ações eram secretas.
Guerra falou também do Coronel Brilhante Ustra e do delegado Sérgio Paranhos Fleury, a quem acusou de tortura e assassinatos. Segundo ele, Fleury “cresceu e não obedecia mais ninguém”. “Fleury pegava dinheiro que era para a irmandade (grupo de apoiadores da ditadura, segundo ele)”, acusou.
O ex-delegado disse também que Fleury torturava pessoalmente os presos políticos e metralhou os líderes comunistas no episódio que ficou conhecido como Chacina da Lapa, em 1976.
“Eu estava na cobertura, fiz os primeiros disparos para intimidar. Entrou o Fleury com sua equipe. Não teve resistência, o Fleury metralhou. As armas que disseram que estavam lá foram ‘plantadas’, afirmo com toda a segurança”, contou.
Guerra disse que recebia da irmandade “por determinadas operações bônus em dinheiro”. O ex-delegado afirmou que os recursos vinham de bancos, como o Banco Mercantil do Estado de São Paulo, e empresas, como a Ultragas e o jornal Folha de S. Paulo. “Frias (Otávio, então dono do jornal) visitava o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), era amigo pessoal de Fleury”, afirmou.
Segundo ele, a irmandade teria garantido que antigos membros até hoje tivessem uma boa situação financeira.
‘Enterrar estava dando problema’
Segundo Guerra, os mortos pelo regime passaram a ser cremados, e não mais enterrados, a partir de 1973, para evitar “problemas”. “Enterrar estava dando problema e a partir de 1973 ou 1974 começaram a cremar. Buscava os corpos da Casa de Morte, em Petrópolis, e levava para a Usina de Campos”, relatou.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Os fornos de Cambahyba.



Fonte: cartacapital.com.br/sociedade/o-algoz-e-o-crematorio/

O algoz e o crematório

Na madrugada de 2 de abril, uma terça-feira, o ex-delegado capixaba Cláudio Guerra, atualmente em liberdade condicional, percorreu por quatro horas os cerca de 250 quilômetros entre Vitória, capital do Espírito Santo, e Campos, no norte do Rio de Janeiro. Foi revisitar a Usina Cambahyba, frequentada por ele nos anos 1970, período em que manteve ativa colaboração com o sistema de repressão da ditadura.
É a terceira visita de Guerra ao lugar desde o lançamento de Memórias de Uma Guerra Suja, livro que reúne depoimentos a Rogério Medeiros e Marcelo Netto. A primeira em companhia de um jornalista (à exceção da equipe dos autores do livro). Na obra, publicada no ano passado, o ex-delegado revelou ter queimado nos fornos da Cambahyba 12 cadáveres de militantes de esquerda torturados até a morte nos porões da ditadura. “Naquela época, vinha aqui e não sentia nada. Hoje me sinto mal pra caramba. Estou falando com você por misericórdia de Deus”, justificou-se.
 Confissões. Em suas memórias, histórias de crimes diversos



Confissões. Em suas memórias, histórias de crimes diversos

Nos escombros da usina, em cujas terras instalou-se um assentamento do MST, Guerra indicou as portas dos fornos onde os corpos eram jogados. “O primeiro foi o Cerveira. Não foi nos primeiros fornos não, foi mais no meio”, recorda-se, em referência ao major Joaquim Pires Cerveira, ex-militante da Frente de Libertação Nacional, “cremado” no início de 1974. Cerveira e o militante João Batista Rita foram presos pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury na Argentina e reenviados ao Brasil. Os dois morreram nas dependências do DOI-Codi do Rio de Janeiro.
Guerra afirma ter acompanhado o transporte dos cadáveres até a porta do forno, em companhia de dois empregados da usina, o capataz Zé Crente, falecido, e o ex-motorista Erval Gomes da Silva, o Vavá, única testemunha viva da queima dos de corpos. Em outros momentos, o ex-delegado não se deu ao trabalho de conferir se os corpos foram para o fogo. Preferia tomar uísque na casa de João Lysandro, o João Bala, filho de Heli Ribeiro Gomes, dono da usina, enquanto Zé Crente e Vavá faziam o serviço.
Todos os corpos foram recolhidos no DOI-Codi carioca, instalado no quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, no bairro da Tijuca, e na conhecida Casa da Morte, centro de tortura comandado por militares do Exército em Petrópolis, na região serrana fluminense. Segundo Guerra, um 13º corpo também acabaria lançado aos fornos da usina. O tenente do Exército Odilon Carlos de Souza, agente da repressão política, foi morto pelo ex-delegado diante de Bala e Vavá. Motivo: queima de arquivo.
A rotina era a mesma. Guerra estacionava o carro com os cadáveres na casa de Bala, a menos de 500 metros dos fornos. “Os corpos ficavam parados aqui”, mostrou, diante da residência, hoje com novo proprietário. “Quando dava 10-11 horas da noite, o Zé Crente ia lá, deslocava o pessoal de perto da boca do forno para outros lugares. Nós já tínhamos repassado os corpos para o carro da usina. Íamos e jogávamos no fogo.”
Ao rever o local dos crimes, a preocupação do ex-delegado era mostrar a profundidade dos fornos para derrubar os argumentos de outra herdeira da Cambahyba, Cecília Lysandro Gomes Ribeiro, vereadora em Campos. Segundo ela, não caberiam cadáveres nos queimadores. Guerra está certo: cabem.
O ex-delegado retornou a primeira vez à usina em junho passado na companhia do delegado federal Kandy Takahashi, por determinação do então coordenador da Comissão Nacional de Verdade, o ministro do STJ Gilson Dipp. Antes, havia prestado um detalhado depoimento à comissão, quando reafirmou suas ligações nos anos 1970 com o falecido coronel do Exército Freddie Perdigão, do Serviço Nacional de Informações. Manteve ainda a confissão da execução de militantes de esquerda, do assassinato do tenente Souza e da ocultação de cadáveres.
Desde o lançamento de suas memórias, paira uma desconfiança em relação a Guerra. Policial que se tornou bandido sanguinário no Espírito Santo, o ex-delegado se converteu na prisão à Assembleia de Deus. Justifica suas confissões recentes à fé adquirida na cadeia, mas poderia também estar em busca de holofotes no fim da vida. Ou disposto a confundir a apuração real de crimes da ditadura.
Fato ou ficção? Para o procurador Eduardo Santos de Oliveira, as histórias de Guerra são no mínimo verossímeis. Ao lado de quatro colegas do Ministério Público e na presença dos deputados federais Luiza Erundina (PSB-SP) e Jean Wyllys (PSOL-RJ), da Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça da Câmara, Oliveira ouviu o ex-delegado por nove horas. Convenceu-se da necessidade de novas investigações e defende que seja feita uma perícia nos fornos em busca de vestígios (restos de ossadas ou dentes). Erundina também se impressionou com a consistência do depoimento. E estranha a falta de “resultados práticos a partir do que vem sendo identificado”.
Contraprova. Guerra queria derrubar a versão da família dona da usina. Os cadáveres cabiam nos fornos. Foto: Marcelo Auler
Contraprova. Guerra queria derrubar a versão da família dona da usina. Os cadáveres cabiam nos fornos. Foto: Marcelo Auler
O procurador parece remar contra a maré. Em Campos, é nítida a tentativa de desqualificar as denúncias. Um exemplo partiu do promotor estadual Marcelo Lessa Bastos. Em agosto do ano passado, diante de um pedido de investigação do caso feito por Jorge Augusto, irmão de Cecília, Bastos apressou-se em tentar enterrar o caso. Sem ao menos ouvir Guerra, segundo o promotor uma “pessoa vinculada à Ditadura Militar (sic), do antigo Dops, portanto, sem nenhuma credibilidade”, rechaçou qualquer investigação, pois considerou as denúncias mera tentativa de autopromoção por meio da exploração do “mito que ainda gravita em torno dos atos praticados por ocasião da Ditadura Militar (sic) de 64, sendo que, como se sabe, os crimes da época foram todos anistiados”. Também achou desnecessário ouvir Vavá, o motorista da família que ajudaria na queima dos corpos.
Bastos concluiu: “A biografia do dono da usina, o já falecido Heli Ribeiro Gomes, pessoa respeitada na sociedade local, torna absolutamente inverossímil a malsinada narrativa, que pode, inclusive, constituir crime de calúnia”.
E o que Vavá, o motorista, tem a dizer? Em maio do ano passado, o delegado federal Takahashi o localizou. De pronto, Vavá negou inclusive conhecer o ex-delegado capixaba. Traiu-se, porém, ao vê-lo via Skype, um sistema que transmite som e imagem pela internet. “Oi Dr. Guerra”, deixou escapulir. “Aí caiu a casa”, diz o ex-delegado.
Takahashi quis levá-lo a Vitória para uma acareação ao vivo. Quem o impediu de ir foi o advogado Carlos Alberto Tavares Senra, acionado após a mulher de Vavá procurar a vereadora Cecília.
O afastamento de Dipp da Comissão da Verdade por motivos de saúde e a promoção de Takahashi para o comando da PF no Rio Grande do Norte levou a denúncia a cair no esquecimento. Sem terminar as investigações, o delegado federal não conseguiu confirmar ou afastar de vez a versão da cremação dos 12 corpos.
O policial federal não duvida, porém, dos eventuais serviços prestados por Guerra à repressão. Colaboração igualmente admitida pelo coronel do Exército Paulo Malhães, que dava expediente na Casa da Morte. Em junho último, em entrevista a O Globo, Malhães admitiu que Guerra atuou sob o comando de Perdigão, mas ressalvou: “É um mentiroso.
A participação do ex-delegado no assassinato de Ronaldo Mouth Queiroz, militante da ALN, morto em abril de 1973 na Avenida Angélica, em Higienópolis, São Paulo, foi confirmada pelo advogado Belisário dos Santos Jr., amigo de Queiroz. Segundo Santos apurou, o capixaba narra detalhes conhecidos apenas por quem realmente participou da operação.

Lista dos militantes queimados por Guerra
Lista dos militantes queimados por Guerra
Sobre as dúvidas a respeito de suas denúncias, Guerra pede uma chance para prová-las e insiste: está pronto para participar de uma acareação não só com Vavá, mas também com Malhães e com o mais notório repressor ainda vivo, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O ex-delegado alega ter se reunido algumas vezes com Ustra. Este nega.
CartaCapital localizou Vavá em Campos. O motorista voltou a negar qualquer participação nos crimes. E desmentiu os relatos do uso da usina para queimar corpos de militantes de esquerda. Seria impossível realizar a operação ou mantê-la sob sigilo, afirma, pois os fornos eram vigiados 24 horas por 12 empregados em cada turno.
Vavá igualmente nega ter conhecido o tenente Souza ou ter presenciado seu assassinato. Apesar das negativas, no diálogo com Guerra pelo Skype, comentou-se sobre a queima de um sofá manchado com o sangue do tenente morto. O motorista pareceu saber do que se tratava.
Por causa desses detalhes, o Ministério Público desconfia da versão de Vavá. “É prematuro afirmar que Guerra imaginou tudo isso. Seu depoimento é verossímil, consistente, coerente. Já o depoimento do Vavá é repleto de inconsistência. Posso afirmar, com minha experiência, que existem coisas que ainda podem ser ditas pelo Vavá”, diz Oliveira.
O procurador guarda um trunfo, o depoimento de um ex-empregado da usina que espontaneamente foi à Procuradoria e relacionou Vavá ao uso de armas e à prática de violência, além de noticiar mortes nas quais recaem suspeitas de envolvimento de integrantes da família Ribeiro Gomes. Oliveira continua disposto a promover uma acareação. “Se o depoimento de Vavá se sustentar, as revelações de Guerra no livro se enfraquecem. Até para decidir se continuamos a investigação, precisamos confirmar ou não nossas suspeitas de que o depoimento do Vavá é inconsistente com os fatos da época.”