domingo, 28 de julho de 2013

Nos anos sessenta, em Natal, poucos estudantes leram Guerra e Paz. Apenas um, cujo nome não recordo, levava um exemplar para a sessão dominical do Cinema de Arte,nos Cines Rio Grande ou Nordeste Ele usava um pseudônimo alemão.


Retrato de um gigante - Tolstoi.

Fonte: Estadão. 27.07.2013.


Influência de Tolstoi volta a ser sentida um século após sua morte - Arquivo Estadão
Influência de Tolstoi volta a ser sentida um século após sua morte
Tradutora e biógrafa de Chekhov, a acadêmica inglesa Rosamund Bartlett nem sequer pestanejou quando seu agente lhe perguntou há oito anos, ao concluir a biografia do autor de As Três Irmãs, qual seria seu objeto de estudo seguinte. “Tolstoi”, respondeu a acadêmica, especializada em literatura russa e conhecida no meio musical por seus estudos sobre Shostakovich. Lançada há três anos na Inglaterra, para marcar o centenário de morte do escritor, Tolstoi - a Biografia chega agora ao mercado brasileiro pela Editora Globo. É um monumental estudo sobre as contradições de um autor não menos grandioso, um gigante que, em sua definição, “queria ser maior que a vida”. E foi.
A influência de Tolstoi, diz a pesquisadora, por telefone, de Londres, volta a ser sentida um século após sua morte no resgate de um certo cristianismo primitivo – ao qual a Igreja Católica se dedica – e nas manifestações antibélicas que pipocam num mundo bárbaro e militarizado. Pacifista, ele foi a grande influência de Gandhi e mentor de sua filosofia de não violência, lembra a biógrafa, destacando o papel do autor de Guerra e Paz como educador, um homem que abriu mão de sua origem aristocrática para ensinar seus servos analfabetos quando isso era impensável na Rússia czarista – ainda que tenha abusado sexualmente deles em sua “senzala” de Iásnaia Poliana, propriedade rural da família, onde mantinha 300 criados, satisfazendo na cama seus desejos interclassistas. 
O senhor das terras Tolstoi não era do tipo que levava a luta de classes para dentro de casa. Para isso, já bastavam as brigas com sua burguesa mulher Sófia Behrs (depois Tolstaya), retratada com maior simpatia na biografia de Bartlett que no best-seller A Última Estação (1990), do norte-americano Jay Parini, em que ela beira a histeria. Rosamund não leu o livro, mas viu o filme. “Há nele uma certa trivialização que distorce o conflituoso relacionamento que Tolstoi manteve até o fim da vida com a mulher”, observa a biógrafa, evocando as constantes brigas do casal por absoluta discordância ideológica. Ela, filha de um médico, pensava na herança dos filhos (eles tiveram 13, dos quais 8 chegaram à vida adulta). Ele, já seduzido pelos ideais socialistas e após renunciar ao título de conde, pensava nos camponeses e discípulos, em nome dos quais abria mão dos direitos autorais. Parini até aborda a questão, mas romantiza a relação.
O nobre Tolstoi, filho de conde e princesa, já era vigiado pela polícia secreta do czar em sua Iásnaia Poliana, quando se casou com Sófia, em 1862, três anos após abrir a primeira escola para os filhos dos camponeses da região. Continuou perseguido 20 anos depois, após renunciar à fé ortodoxa e pedir clemência para os assassinos do czar Alexandre II, que vendeu para os americanos o Alasca (onde o tio de Tolstoi foi abandonado). Numa Rússia em turbulência pela morte do czar, acossada pela supressão dos direitos civis e a brutalidade policial, Tolstoi formou um verdadeiro exército de seguidores de sua filosofia – que cruza os quatro Evangelhos, o vegetarianismo, o pacifismo, o controle interno do corpo (ele, que teve uma vida dissoluta antes de sua conversão) e a desobediência ao poder constituído. Tolstoi foi excomungado pela Igreja Russa, que o tornou proscrito em 1901 – por “pregar fanaticamente contra o dogma ortodoxo”. Na verdade, ela tentava minar sua influência.
A biógrafa concede bastante espaço ao papel de Tolstoi como líder da nação e aos ancestrais do escritor, associando, quando necessário, sua vida à obra. Ela não chega a dizer que Tolstoi era Anna Karenina de calças, mas há uma série de personagens que a biógrafa identifica no autor. “Há muito do Vronski de Anna Karenina e do Nekhlyudov de Ressurreição em sua personalidade, além de nítidas referências aos antepassados em seus romances”, diz, lembrando que Tolstoi, após sua conversão religiosa, em 1877, não apenas renunciou aos prazeres sensuais, ao fumo e à bebida, como adotou uma atitude confessional em seus livros, mais exatamente em Ressurreição, sua obra derradeira. Tolstoi usa como avatar Nekhlyudov, que, ao se tornar militar (e Tolstoi foi um deles na juventude), é corrompido e corrompe Katiusha, até o mea-culpa final, quando a segue até a Sibéria e se dá conta do sofrimento dos prisioneiros políticos.
Esse movimento circular não indicaria um sujeito bipolar? “Não arriscaria um diagnóstico médico, pois não sou da área, mas, evidentemente, persistia nele um certo desequilíbrio, notável em gênios ou artistas como Nureyev, para os quais uma vida parece pouco diante de tudo o que aspiram”, diz Rosamund, que se dedica justamente a uma nova tradução inglesa de Anna Karenina, uma mulher além de seu tempo, na qual ela identifica alguns traços da personalidade de Tolstoi. “Há um forte elemento feminino que faz com que Tolstoi pense nas mulheres de maneira diferente de seus contemporâneos.” Gorki dizia que Tolstoi amava Chekhov, admirando o jeito delicado e feminino como o dramaturgo andava no parque. Bartlett insinua que a falta de confiança da mulher de Tolstoi em seu amigo e discípulo Chertkov não se restringia a questões políticas ou filosóficas. De fato, em seu diário, Sófia acusa Chertkov de ter tomado seu lugar no coração do marido, criticando a paixão senil do escritor e acusando-o ainda de escrever cartas secretas de amor ao discípulo.

“Chertkov usou sua influência junto ao escritor para conseguir os direitos sua obra e, ao partir para o exílio, em 1897, um ano após ser criada a primeira colônia tolstoísta na Inglaterra, já pensava em fundar uma editora para publicar seus livros em inglês”. O discípulo voltaria para morrer em Moscou em 1936, quando foi aprovada a Constituição Soviética, dando poder aos camponeses, sonho de Tolstoi que virou um pesadelo: a ditadura stalinista.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O dia em que o prefeito de Natal deu uma tapa no capitão.

Lembranças do ex-cabo que prendeu Djalma Maranhão em 1964
Luiz Gonzaga Cortez
Jornalista e pesquisador

O cabo Carvalho foi um dos homens que prenderam o prefeito Djalma Maranhão, no início de abril de 1964, no Palácio Felipe Camarão, na rua Ulisses Caldas, Centro de Natal. Foi uma operação militar, sem violência, conta Luiz Gonzaga de Carvalho, funcionário aposentado da Assembléia Legislativa, onde trabalhou muitos anos na Diretoria Legislativa, com o diretor Antonio Dantas, Toinho Careca, já falecido. Reencontrei "Luiz Manchinha", como é mais conhecido, no Bar Cabeça do Bode, em Candelária, um dos pontos mais conhecidos e freqüentados pelos boêmios da zona sul. Ele não teve medo de falar sobre a repressão militar durante e após o golpe militar de 1964, que teve apoio das elites políticas do Rio Grande do Norte, a partir das suas lideranças conservadoras, como Aluízio Alves e Dinarte de Medeiros Mariz, e dos empresários e entidades de classe (patronais e trabalhadoras), além dos clubes de serviço e outras organizações civis, como a maçonaria, por exemplo. Esta apoiou desde o começo. Naquela época, os maçons temiam o avanço do comunismo e das esquerdas em geral. Mas isso é outra história.
Certo dia (o cabo Carvalho, nº 3333, não se lembra da hora, mas garante que foi à tardinha), ele saiu do quartel do Regimento de Obuses, em Santos Reis, onde servia na 2ª Companhia, num comboio comandado pelos capitães Leitão e Torquato e o tenente Maia, que hoje seria general, para prender o prefeito Djalma Maranhão, que estava no seu gabinete de trabalho com assessores, enquanto uma multidão lotava as dependências da prefeitura. Há versões de que o povo correu quando as tropas chegaram. "Eu vi quando o capitão Leitão deu voz de prisão a Djalma Maranhão, depois que sugeriram que ele renunciasse ao cargo de prefeito. Levamos Djalma, escoltado por mim e outro colega,  num Simca Chambord, preto, um carro oficial da prefeitura, para o QG do Exército, ao lado da Catedral. De lá, foi conduzido um jipe militar para o quartel do 16º RI, no Tirol, sempre muito bem tratado pelos oficiais e soldados. Eu garanto isso porque eu fui  um dos que escoltaram Djalma Maranhão e vi tudo. Ele não resistiu à prisão, que considerou uma ilegalidade, mas os oficiais disseram que estavam cumprindo ordens. Mas ao chegar no 16° RI, a coisa pegou porque o capitão Lacerda (Ênio Lacerda), um dos encarregados da repressão e dos inquéritos contra presos políticos, famoso (ou famigerado?) pela sua (truculência), agrediu o prefeito com palavrões e deu uma "mãozada" em Djalma, mas este foi mais rápido, se abaixou e meteu-lhe uma tapa do pé do ouvido dele, que caiu "pronto" no chão. Ô tapa segura!, meu irmão. Os oficiais não deram apoio ao seu colega agressor, além de repreenderem-no, pois se tratava de um preso, sob a guarda do Exército", afirma Luiz Gonzaga de Carvalho.
O cabo Carvalho ainda participou de diversas operações de buscas comunistas, esquerdistas, prefeitos acusados de corrupção, lideranças rurais, etc. Ele disse que nunca esqueceu da prisão de um cidadão de Nísia Floresta, considerado perigoso, que foi encontrado debaixo da cama da sua casa. Ele não se lembra do seu nome, mas era dado como elemento subversivo de alta periculosidade, mas só acharam livros, jornais e revistas na casa, apesar das informações de que lá existia um grande arsenal de armas pesadas. Os soldados do RO passaram  uma madrugada inteira, cercando a casa e quando invadiram a residência do homem provocaram um pandemônio, com gritos de mulheres e crianças, que acordaram assustadas com os soldados armados de fuzis e baionetas escaladas.

Tome peia - Carlos Alberto Galvão de Campos é funcionário público aposentado. Em abril de 1964 foi acusado de possuir uma estação de rádio que tinha comunicação direta com Moscou. Foi preso e levado para o quartel do 16º Regimento de Infantaria, na avenida Hermes da Fonseca, onde foi espancado pelo capitão Ênio de Albuquerque Lacerda, de triste memória, dele recebendo pancadas nos ouvidos. Ele me contou que um rapaz chamado Diógenes, de Macaíba, ficou perturbado mentalmente por causa dos choques elétricos  recebidos dentro de um tanque cheio de óleo. "O capitão Lacerda mandava mais do que o comandante do quartel, era um torturador e um homem cruel. No RO, segundo eu soube, foi pior, pois fizeram uma estrada com xiquexiques para os prisioneiros andarem por cima dos espinhos. Eu me lembro dos sofrimentos de um grupo de salineiros de Macau, que tinham amizade com mestres-arrais. Eles foram confundidos pelos militares como simpatizantes ou gente da família do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que era considerado como comunista pela direita. O capitão Lacerda perguntava aos salineiros se gostava de Arraes e, como eles pensavam que estavam sendo indagados sobre os mestres-arrais, eles respondiam que sim. O capitão Lacerda dizia: "Ah, é?", e tome porrada nos pobres salineiros. Os militares eram despreparados e desinformados para lidar com os trabalhadores. Muitos mestres-arrais de Macau e Areia Branca foram espancados", revelou Carlos Galvão.
Carlos esteve preso com Geniberto de Paiva Campos, Aldo Tinoco e José Arruda Fialho, dentre outros, no 16º RI, onde chegou a organizar uma comemoração pelo aniversário do prefeito eleito de Natal, Djalma Maranhão. Ele mora na zona sul de Natal.
Texto escrito e publicado em 09 de abril de 2006.

sábado, 20 de julho de 2013

DOCUMENTO DO GOVERNO AMERICANO REVELA QUE DITADURA BRASILEIRA COOPEROU COM OS ASSASSINATOS DA OPERAÇÃO CONDOR | Documentos Revelados

DOCUMENTO DO GOVERNO AMERICANO REVELA QUE DITADURA BRASILEIRA COOPEROU COM OS ASSASSINATOS DA OPERAÇÃO CONDOR

condor1 199x300 DOCUMENTO DO GOVERNO AMERICANO REVELA QUE DITADURA BRASILEIRA COOPEROU COM OS ASSASSINATOS DA OPERAÇÃO CONDOR
A revelação esta no informe que o alto funcionário do Departamento de Estado Norte Americano,  Harry W. Shlaudeman,  fez em 1976 ao Secretario de Estado Dean Rusk.
Nesse documento  o Assessor Especial para Assuntos Interamericanois, Shlaudeman informa “ foi estabelecido Operação Condor para encontrar e matar terroristas dos “Comitês Organizadores Revolucionários” em seus próprios países e na Europa. Brasil esta cooperando de perto com as operações de assassinatos.”
ACESSE O DOCUMENTO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS CLICANDO NO LINK ABAIXO 
NAO CLASSIFICADO
090376

DEPARTAMENTO DE ESTADO
Washington D.C.


PARA: O Secretario
DE: ARA – Harry W. Shlaudeman

ARA Relatório Mensal (Julho)
A ” Terceira Guerra Mundial” e a America do Sul
Os regimes militares do cone sul da America do Sul encontram-se sitiado.

- de um lado pelo marxismo internacional e seus expoentes terroristas, e
- do outro lado pela hostilidade da incompreensível democracia industrial mal informada pela propaganda Marxista.

Em resposta eles estão agrupando-se no que pode vir a ser um bloco político de coesão. Mas, o mais significativo, eles estão juntando forças para erradicar a “subversão”, uma palavra que vem se traduzindo em uma dissidência não violenta da esquerda e centro esquerda. As forças de segurança sulistas vão

- passar a coordenar as atividades de inteligência mais de perto;
- operar nos territórios uns dos outros em perseguição aos “subversivos”;
- foi estabelecido Operação Condor para encontrar e matar terroristas dos “Comitês Organizadores Revolucionários” em seus próprios países e na Europa. Brasil esta cooperando de perto com as operações de assassinatos.

Essa visão do mundo sitiado transformada em paranoia é talvez o resultado natural das convulsões dos anos recentes em que as sociedades do Chile, Uruguai e Argentina foram muito ameaçadas de ataque pela extrema esquerda. Mas os lideres militares, apesar de próximos a dizimação da esquerda Marxista no Chile e no Uruguai, além do acelerado processo em direção a esse objetivo na Argentina, insiste em que a ameaça permanece e a guerra precisa seguir em frente. Alguns falam na “Terceira Guerra Mundial”, com os países do cone sul como os últimos defensores da civilização Cristã.
AVISO DE ALERTA: FONTES DELICADAS DE INTELIGENCIA E METODOS ENVOLVIDOS. DISSEMINAÇÃO E EXTRAÇÃO DE INFORMAÇÃO CONTROLADA PELA ORIGEM.





domingo, 30 de junho de 2013

Relembrando a tentativa de guerrilha em Catolé do Rocha/PB (III)


Desculpem-me a falha técnica das postagens fac-similar da matéria "Expedito, o líder estudantil que desafiou os Maia" , de Catolé do Rocha, publicada na Tribuna do Norte, de Natal, no dia 21 de julho de 1991, a última da série "História da Resistência ao Regime de 64". Caso os leitores não estejam lendo os textos dos "recortes", favor enviar imeios.

Relembando a tentativa de guerrilha em Catolé do Rocha/PB (II)

 
Posted by Picasa

Relembrando a tentativa de guerrilha em Catolé do Rocha(PB).

A partir de hoje, 30 de junho de 2013, passo a postar algumas reportagens publicadas no jornal Tribuna do Norte, de Natal (RN). Esta é  uma das duas entrevistas com Luiz Ferreira de Aquino Filho, publicada na página 21 da edição de 30 de junho de 1991  ( 12ª reportagem da série "História da resistência ao regime militar de 64"), com o subtítulo "PCB foi o primeiro partido dos estudantes de Catolé". .
O gancho para esta postagem foi a lembrança do falecimento de Frei Marcelino de Santana, ocorrido recentemente, e a minha releitura do livro "Dramaturgia da Cidade dos Reis Magos", de autoria de Sônia Maria de Oliveira Othon, na qual ele é citado como diretor  da peça teatral "Marcelino, Pão e Vinho", adaptada por Stela Wanderley, estreada no dia 8 de junho de 1958, pelo Teatro de Amadores de Natal.



Posted by Picasa

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Tortura é antiga no Brasil, mas após 1968 virou política do Estado.

Deu no O Globo de hoje. 


‘Com militares, prática da tortura se tornou sistemática’, dizem especialistas

  • Analistas elogiam relatório da Comissão: ‘É a primeira vez que o Estado brasileiro admite isso’
Tópicos da matéria:
SÃO PAULO - Ex-ministro da Justiça e ex-integrante da Comissão de Justiça e Paz, José Gregori diz que a prática da tortura sempre existiu no país, mas ganhou contornos de política de Estado no regime militar (1964-1985),principalmente depois da decretação do AI-5, em dezembro de 1968. Gregori lembra que nos primeiros momentos do regime, pressionado pela sociedade , o então presidente Castelo Branco chegou a criar uma comissão de averiguação das denúncias, comandada pelo general Ernesto Geisel. Mas, com o recrudescimento da ditadura, a tortura antes investigada acabou sendo incorporada ao governo:


— A tortura sempre existiu, inclusive antes do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), mas com os militares, tornou-se sistemática, orgânica. Foi incorporada como método de interrogatório de toda pessoa que, para eles, fosse suspeita de ameaçar o governo — disse Gregori.
O ex-ministro fala ainda que os militares franceses fizeram torturas pesadas durante o processo de independência da Argélia (1954-1962), e que sempre exerceram forte influência sobre os militares do Brasil. Para Gregori, a melhor forma de combater a tortura, que ainda persiste no Brasil, é transformando os direitos humanos em política de Estado. Ele disse ser contra a punição aos militares e torturadores da ditadura, que são protegidos pela Lei da Anistia.
— Não é preciso alterar essa anistia, que ajudou na redemocratização. Mandar meia dúzia de velhinhos, que sobraram, para a cadeia não é dizer que o país se regenerou. A Argentina fez isso, mas nem por isso a qualidade de sua democracia é melhor que a nossa.
Para Maria Amelia Teles, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, a denúncia feita pela Comissão da Verdade de que a tortura antecedeu o AI-5 não é nova, mas tem um grande significado por ter sido admitida pelo próprio Estado.
— Meu pai, o ferroviário Jofre de Almeida, do PCB, foi preso dias depois do golpe, em 1964. Ficou preso, sem que soubéssemos dele, por seis meses. Foi tão torturado que quase ficou cego. Não vi nenhuma novidade nessa informação de que a tortura antecedeu o AI-5. No entanto, é a primeira vez que o Estado brasileiro admite e isso é muito bom — disse ela.
Segundo Amelinha, até agora pouco se avançou sobre a elucidação das mortes e desaparecimentos de militantes políticos no país. O dossiê de mortos e desaparecidos aponta 437 vítimas.
— A novidade é a interpretação que se faz do relatório da Marinha em relação ao divulgado em 1993.
Integrante do Armazém Memória e do Grupo Tortura Nunca Mais, Marcelo Zelic afirma que a violência de Estado é ainda mais perversa porque a sociedade a condena, mas acaba tolerando a prática.
— A ideia de cordialidade esconde um país violento. A sociedade sempre tolerou a tortura contra o ladrão, o escravo, o pobre e o índio. Há essa tolerância dos Poderes em relação à tortura contra alguns tipos de brasileiros.
Marcelo Zelic disse que o relatório da Comissão da Verdade é positivo, mas que é preciso se aprofundar em diversas questões, como na tortura e morte dos indígenas durante o regime militar. Para ele, a comissão deve avançar ainda na proposta de mudança de condutas.
— Além de fazer a verdade vir à tona, é preciso que haja na sociedade um debate para propor a mudança de condutas. O “nunca mais” não pode ser apenas um bordão. Tem de ser como um desafio que englobe toda a sociedade.

Fonte: O Globo.