OS ESTUDANTES E O REGIME MILITAR NO RIO GRANDE DO NORTE.

Resgatar a história do movimento estudantil e a resistência a ditadura militar no Rn.

sábado, 10 de agosto de 2013

Carta Capital - Política
Programa
O destino de Alcântara
Enquanto o Brasil for ocupado ideologicamente, não conseguirá fazer política soberana em temas como o programa espacial
por Roberto Amaral — publicado 08/08/2013
Divulgação

Lançamento do foguete brasileiro de médio porte VSB-30 V07 da Base de Alcântara, em 2010

 
O Estadão (29 de julho, p. A6) diz que o "Brasil volta a negociar uso de base de Alcântara com os EUA." Há, no título o primeiro erro, pois não se trata de uso de "base de Alcântara", que não existe, mas de cessão de território estratégico brasileiro, para que nele os EUA e, mais tarde,"europeus e japoneses", continua o jornal, instalem bases para lançamentos de satélites, suprindo assim suas (deles) atuais carências, exatamente aquelas que hoje tornam concorrencialmente viável o projeto espacial brasileiro – o qual tem (ou deveria ter) objetivos estratégicos determinantes e fins comerciais secundários.
Os europeus não devem ter interesse na empreitada, pois já possuem, em pleno funcionamento, a base de Kourou, na Guiana Francesa, cuja localização geográfica, a 5,0º ao Norte da linha do Equador, preserva algumas das muitas vantagens oferecidas pela península de Alcântara, no Maranhão. Ela poderia interessar aos russos, pois suas atuais bases de lançamento, como a de Baikonur, mediterrâneas, exigem o sobrevoo do satélite sobre áreas habitadas; mas eles estão associados aos franceses em Kourou, de onde serão lançados os foguetes Soyuz, e com ucranianos, noruegueses e norte-americanos da Boeing trabalham  o lançamento de satélites a partir de um navio lançador, o Sea Launch, fundeado na linha do  Equador. Coisa que até aqui,  felizmente, não se revelou comercialmente viável. Por enquanto, portanto, a abertura de Alcântara é o seu fechamento para a exploração dos EUA, e o anunciado réquiem de nosso projeto de programa espacial autônomo.
A matéria diz que as discussões são levadas a cabo pelo Itamaraty, "que espera ter um acordo pronto para ser assinado na visita da presidente Dilma Rousseff a Washington, em outubro". Como se vê, ou a coisa vem de longe ou é levada a toque-de-caixa. A primeira hipótese é a mais provável, é o que deduzo de mais uma informação do jornal, aquela que diz que "o assunto é ainda classificado como secreto pelo governo". Mas eu me pergunto: como é secreta  informação à qual o jornal tem acesso? E me pergunto, ainda: por que matéria de tal relevância é tratada de forma secreta? Em qualquer hipótese, não sabemos a opinião da Agência Espacial Brasileira - AEB, autarquia brasileira encarregada legalmente de monitorar o programa espacial brasileiro (Qual sua parte nesse negócio? Foi tudo feito à sua revelia?). Não se conhece a opinião do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais- INPE (responsável pelo programa brasileiro de satélites). Não se sabe, tampouco, a opinião da Alcântara Cyclone Space-ACS (a bi-nacional resultante da associação do Brasil com a Ucrânia, responsável pela  construção, em andamento, em Alcântara, de uma base habilitada ao lançamento do foguete, médio, Cyclone-4). Não se sabe, a opinião do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a cuja jurisdição estão subordinadas essas instituições. E não se conhece a opinião da SBPC, tão fogosa e falante nos idos de 2003. Se alguém sabe de alguma coisa, a reportagem sonegou aos leitores essas informações.
E a cidadania não sabe, nem lhe é dado saber, qual a importância, para seu cotidiano, de um programa espacial, que controla desde o espaço aéreo de nosso país à prospecção de nosso território, passando pelo controle das comunicações e das condições meteorológicas e de nossas safras.
Mas voltemos ao Estadão.
A mesma matéria, assinada por Lisandra Paraguassu, diz que  "O governo vê a localização de Alcântara – que, segundo especialistas, reduz em até 30% o custo de um lançamento – como um ativo que deve ser explorado, inclusive para financiar o próprio programa espacial brasileiro". Esse é raciocínio típico de contador, passando ao largo de todas as questões estratégicas.
Expliquemos.
Nossa única vantagem, posto que não dominamos a tecnologia de lançamentos (dependente do êxito da ACS) é geográfica, isto é, deriva da proximidade de nosso litoral Norte-Nordeste em relação à linha do Equador: o município de Alcântara está a 2,2º e o Nordeste brasileiro a 3,2º Sul do Equador, e Kourou, vimos, a 5,0º ao Norte. São duas as vantagens nossas daí consequentes. Primeiro de tudo,  essas condições nos possibilitam realizar, a partir de um único centro, lançamentos em todas as direções de órbitas utilizadas para os satélites e outras espaçonaves. Os EUA são obrigados a ter bases nas suas costas Leste e Oeste, e a Rússia em várias áreas de seu território e mesmo em outro país, o Cazaquistão.
Às vantagens decorrentes da proximidade com o Equador, somam-se, ainda no caso brasileiro, condições favoráveis de segurança, pois, além de evitar sobrevoos sobre regiões habitadas, dispomos de todo o mar como área para retombamento dos estágios e coifas ('narizes' de foguetes, onde armazenam-se cargas) que são ejetados durante o voo. E essas vantagens fazem cair as despesas com seguro, baixando ainda mais os custos de quaisquer lançamentos a partir de Alcântara. Enquanto isso, para evitar acidentes e invasão de territórios estrangeiros, os veículos que partem dos cosmódromos russos são obrigados a proceder a grandes e custosas manobras em voo, determinantes de maior consumo de combustível e de perda de capacidade de colocação de carga útil em órbita. Os lançamentos a partir das bases dos EUA também precisam efetuar manobras – custosas – para entrar em órbita no Equador.
A grande  vantagem geográfica brasileira é, além do litoral aberto, a proximidade com o Equador.
Como vemos, por estarem localizados no hemisfério Norte, os veículos da maioria dos países do clube espacial, para entrar em órbita equatorial, têm de fazer uma manobra (denominada em inglês dog leg) para injetar seus foguetes em órbitas equatoriais, o que exige muito mais combustível, em comparação a lançamentos realizados na proximidade da linha do Equador, como é o caso do Centro Espacial de Kourou e será o do futuro Centro de Lançamentos da ACS, o nosso, o qual não requer a manobra adicional.  De acordo com as leis da mecânica espacial, quando um lançamento é realizado em direção ao Leste, e o mais proximamente possível do Equador, conta com a vantagem total da rotação da terra, com o chamado "efeito catapulta" maximizando a carga útil e, em consequência, minimizando o custo de lançamento.
Qual é o nosso patrimônio, único? A localização, que torna os lançamentos a partir de Alcântara altamente competitivos, ao proporcionar uma redução, reconhece o jornal, de até 30% do custo (estimado entre 25 e 30 milhões de dólares) ou um acréscimo de 30% no peso da carga transportada, em face, por exemplo, de um lançamento dos EUA ou da Rússia. Insisto: somente esta vantagem geográfica nos torna competitivos em face dos EUA, da Europa, da Rússia, da China e do Japão.
Qual a proposta comercial de nossa única base de lançamentos, a futura ACS? Disputar o mercado internacional de satélites, a começar pelo maior de todos, o dos  EUA, oferecendo-lhe  lançamentos mais baratos. E o que anuncia o jornal? Que vamos jogar fora essa vantagem competitiva. Quando os EUA e os demais concorrentes puderem fazer seus lançamentos a partir de Alcântara, transferiremos para eles a economia dos 30%, e os nossos lançamentos e os deles passarão competir no mercado com o mesmo preço, donde o total desinteresse de proceder a lançamentos a partir de nossa base.  O que sobrará para o Brasil? De player, nosso projeto original, seremos, a partir da concretização dessa nova política, mero agente imobiliário.
Eis um caso ilustrativo de como, quando não se tem estratégia própria, adota-se a estratégia do outro – julgando aproveitar, assim, maravilhosas vantagens. Ou, dito de outro modo: é difícil, impossível quase, fazer política soberana em país ocupado ideologicamente.

 
Este texto pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte "Carta Capital on line".
Leia mais em www.ramaral.org

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sexta-feira, 9 de agosto de 2013


Saite abre arquivos digitalizados da ditadura e revela certidão de óbito de Marighella.

Do UOL, em São Paulo
09/08/201315h00

  • Reprodução
    A certidão de óbito do guerrilheiro Carlos Marighella é um dos documentos digitalizados para o site
    A certidão de óbito do guerrilheiro Carlos Marighella é um dos documentos digitalizados para o site
O projeto Brasil Nunca Mais lançou nesta sexta-feira (9) um site com mais de 900 mil páginas digitalizadas de 710 processos envolvendo a repressão praticada durante a ditadura militar no país (1964 a 1985). Entre os documentos estão a certidão de óbito do guerrilheiro Carlos Marighella, morto por policiais do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) em 1969, e páginas do processo movido contra Dilma Rousseff por sua militância em organizações clandestinas entre na década de 1970.
A interface do site permite a procura nos processos por nome, Estado ou organização política. Antes de exibir os resultados da pesquisa, uma janela alerta o internauta: "Parcela expressiva dos depoimentos de presos políticos foram obtidos com uso de tortura e outros meios ilícitos."
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Intelecto de Dilma e dinheiro de Pelé foram alvo da ditadura14 fotos

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Documentos do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de São Paulo, órgão subordinado ao Dops (Departamento de Ordem Política Social), principal órgão de inteligência e repressão durante a ditadura militar, divulgados em 1º de abril, mostram que regimes autoritários ficharam figuras públicas como o ex-jogador Pelé, o cantor Roberto Carlos, os apresentadores Silvio Santos e Hebe Camargo e o escritor Monteiro Lobato. As fichas e prontuários podem ser consultadas no site "Memória Política e Resistência", vinculado ao Arquivo do Estado. Configura algumas personalidade fichadas pela ditadura Leia mais Arte/UOL
Dilma, que militou nos grupos Colina (Comando de Libertação Nacional) e a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) - rotulados pela ditadura como "organizações terroristas" durante os anos de chumbo -, é citada em 36 páginas dos processos. Ela ficou presa por quase três anos entre 1970 e 1972.
Já a certidão de óbito de Marighella - baleado na alameda Casa Branca, região central de São paulé assinada pelo legista Harry Shibata, que foi alvo de protestos em 2012 acusado por grupos de defesa dos direitos humanos de ocultar em seus laudos as mortes provocadas sob tortura.
O Brasil Nunca Mais foi desenvolvido pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo nos anos 80, sob a coordenação do Reverendo Jaime Wright e de dom Paulo Evaristo Arns, para "evitar que os processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da ditadura militar, obter informações sobre torturas praticadas pela repressão política e que sua divulgação cumprisse um papel educativo junto à sociedade brasileira."
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Mostra em SP registra 'ausências' de famílias de desaparecidos políticos16 fotos

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Em 1969, Gustavo Germano (à esq.) e seus três irmãos posaram para este retrato de família na Argentina. Vários anos depois, eles acabariam sendo vítimas da chamada ""Guerra Suja"" do país, na qual cerca de 30 mil pessoas foram sequestradas, torturadas ou mortas pelos governantes militares do país, que tomaram o poder em um golpe em 1976. Muitos dos que foram capturados passaram a ser conhecidos como ""desaparecidos"" e seus restos mortais nunca foram encontrados Leia mais Gustavo Germano
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Comissão da Verdade investiga crimes contra povo indígena13 fotos

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Desenho feito por um waimiri-atroari entre 1985 e 1986 mostra homem atirando contra um índio Leia mais Reprodução/Relatório Comitê Estadual da Verdade do Amazonas
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  • Repressão fichou figuras como Pelé, Hebe Camargo e Monteiro Lobato

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Do UOL, em São Paulo

01/04/201320h30

  • Comunicar erroImprimir
    Documentos do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de São Paulo, divulgados nesta segunda-feira (1º), mostram que regimes autoritários ficharam figuras públicas como o jogador Pelé, o cantor Roberto Carlos, os apresentadores Silvio Santos e Hebe Camargo e o escritor Monteiro Lobato. As fichas e prontuários podem ser consultadas no site "Memória política e resistência", vinculado ao Arquivo do Estado.

    FICHA DE PELÉ

    • Informações sobre transações financeiras feitas por Pelé que constam da ficha do jogador no Deops
    Também figuram na lista de fichados a atriz Fernanda Montenegro, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso eJuscelino Kubistchek, o ex-governador de São Paulo José Serra, o jogadorSócrates e o ex-arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns.
    Entre os fichados está ainda a presidente Dilma Rousseff, cujo prontuário traz informações dos momentos em que ela foi detida na época em que militou contra a ditadura militar.
    A ficha de Pelé, que aparece na página principal do portal, descreve em 11 páginas os movimentos financeiros do ex-jogador, recortes de imprensa com especial destaque para um atentado a tiros em 1973 contra a casa do ídolo do Santos e da seleção, e todos os boletins policiais das ações.
    Já a ficha de Roberto Carlos faz menção a uma reportagem de jornal na qual o cantor é acusado de dar um calote na Vasp (empresa aérea estatal de São Paulo).
    O Deops fez referência a dezenas de informações de jornais sobre Silvio Santos. As citações dizem respeito a denúncias contra o grupo do comunicador e ao "Baú da Felicidade", além de notícias do interesse de Santos em candidatar-se à Prefeitura de São Paulo e à Presidência da República.
    O Deops era subordinado ao Dops (Departamento de Ordem Política Social), principal órgão de inteligência e repressão durante a ditadura militar (1964-85) e o Estado Novo (1937-45), fase autoritária do governo de Getúlio Vargas.
    • Foto de Monteiro Lobato no momento em que ele foi fichado no Deops, em 1941
    A reportagem não conseguiu detalhes sobre todas as fichas das figuras públicas citadas em razão de problemas com a navegação na página.
    No total, o portal contém 274.105 arquivos sobre pessoas investigadas, disponíveis agora em formato digital, e 12.874 relatórios, mais breves, sobre particulares em São Paulo. Além disso, também foram divulgadas outras 39.996 fichas pessoais elaboradas na cidade de Santos, no litoral paulista.
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    domingo, 28 de julho de 2013

    Nos anos sessenta, em Natal, poucos estudantes leram Guerra e Paz. Apenas um, cujo nome não recordo, levava um exemplar para a sessão dominical do Cinema de Arte,nos Cines Rio Grande ou Nordeste Ele usava um pseudônimo alemão.


    Retrato de um gigante - Tolstoi.

    Fonte: Estadão. 27.07.2013.


    Influência de Tolstoi volta a ser sentida um século após sua morte - Arquivo Estadão
    Influência de Tolstoi volta a ser sentida um século após sua morte
    Tradutora e biógrafa de Chekhov, a acadêmica inglesa Rosamund Bartlett nem sequer pestanejou quando seu agente lhe perguntou há oito anos, ao concluir a biografia do autor de As Três Irmãs, qual seria seu objeto de estudo seguinte. “Tolstoi”, respondeu a acadêmica, especializada em literatura russa e conhecida no meio musical por seus estudos sobre Shostakovich. Lançada há três anos na Inglaterra, para marcar o centenário de morte do escritor, Tolstoi - a Biografia chega agora ao mercado brasileiro pela Editora Globo. É um monumental estudo sobre as contradições de um autor não menos grandioso, um gigante que, em sua definição, “queria ser maior que a vida”. E foi.
    A influência de Tolstoi, diz a pesquisadora, por telefone, de Londres, volta a ser sentida um século após sua morte no resgate de um certo cristianismo primitivo – ao qual a Igreja Católica se dedica – e nas manifestações antibélicas que pipocam num mundo bárbaro e militarizado. Pacifista, ele foi a grande influência de Gandhi e mentor de sua filosofia de não violência, lembra a biógrafa, destacando o papel do autor de Guerra e Paz como educador, um homem que abriu mão de sua origem aristocrática para ensinar seus servos analfabetos quando isso era impensável na Rússia czarista – ainda que tenha abusado sexualmente deles em sua “senzala” de Iásnaia Poliana, propriedade rural da família, onde mantinha 300 criados, satisfazendo na cama seus desejos interclassistas. 
    O senhor das terras Tolstoi não era do tipo que levava a luta de classes para dentro de casa. Para isso, já bastavam as brigas com sua burguesa mulher Sófia Behrs (depois Tolstaya), retratada com maior simpatia na biografia de Bartlett que no best-seller A Última Estação (1990), do norte-americano Jay Parini, em que ela beira a histeria. Rosamund não leu o livro, mas viu o filme. “Há nele uma certa trivialização que distorce o conflituoso relacionamento que Tolstoi manteve até o fim da vida com a mulher”, observa a biógrafa, evocando as constantes brigas do casal por absoluta discordância ideológica. Ela, filha de um médico, pensava na herança dos filhos (eles tiveram 13, dos quais 8 chegaram à vida adulta). Ele, já seduzido pelos ideais socialistas e após renunciar ao título de conde, pensava nos camponeses e discípulos, em nome dos quais abria mão dos direitos autorais. Parini até aborda a questão, mas romantiza a relação.
    O nobre Tolstoi, filho de conde e princesa, já era vigiado pela polícia secreta do czar em sua Iásnaia Poliana, quando se casou com Sófia, em 1862, três anos após abrir a primeira escola para os filhos dos camponeses da região. Continuou perseguido 20 anos depois, após renunciar à fé ortodoxa e pedir clemência para os assassinos do czar Alexandre II, que vendeu para os americanos o Alasca (onde o tio de Tolstoi foi abandonado). Numa Rússia em turbulência pela morte do czar, acossada pela supressão dos direitos civis e a brutalidade policial, Tolstoi formou um verdadeiro exército de seguidores de sua filosofia – que cruza os quatro Evangelhos, o vegetarianismo, o pacifismo, o controle interno do corpo (ele, que teve uma vida dissoluta antes de sua conversão) e a desobediência ao poder constituído. Tolstoi foi excomungado pela Igreja Russa, que o tornou proscrito em 1901 – por “pregar fanaticamente contra o dogma ortodoxo”. Na verdade, ela tentava minar sua influência.
    A biógrafa concede bastante espaço ao papel de Tolstoi como líder da nação e aos ancestrais do escritor, associando, quando necessário, sua vida à obra. Ela não chega a dizer que Tolstoi era Anna Karenina de calças, mas há uma série de personagens que a biógrafa identifica no autor. “Há muito do Vronski de Anna Karenina e do Nekhlyudov de Ressurreição em sua personalidade, além de nítidas referências aos antepassados em seus romances”, diz, lembrando que Tolstoi, após sua conversão religiosa, em 1877, não apenas renunciou aos prazeres sensuais, ao fumo e à bebida, como adotou uma atitude confessional em seus livros, mais exatamente em Ressurreição, sua obra derradeira. Tolstoi usa como avatar Nekhlyudov, que, ao se tornar militar (e Tolstoi foi um deles na juventude), é corrompido e corrompe Katiusha, até o mea-culpa final, quando a segue até a Sibéria e se dá conta do sofrimento dos prisioneiros políticos.
    Esse movimento circular não indicaria um sujeito bipolar? “Não arriscaria um diagnóstico médico, pois não sou da área, mas, evidentemente, persistia nele um certo desequilíbrio, notável em gênios ou artistas como Nureyev, para os quais uma vida parece pouco diante de tudo o que aspiram”, diz Rosamund, que se dedica justamente a uma nova tradução inglesa de Anna Karenina, uma mulher além de seu tempo, na qual ela identifica alguns traços da personalidade de Tolstoi. “Há um forte elemento feminino que faz com que Tolstoi pense nas mulheres de maneira diferente de seus contemporâneos.” Gorki dizia que Tolstoi amava Chekhov, admirando o jeito delicado e feminino como o dramaturgo andava no parque. Bartlett insinua que a falta de confiança da mulher de Tolstoi em seu amigo e discípulo Chertkov não se restringia a questões políticas ou filosóficas. De fato, em seu diário, Sófia acusa Chertkov de ter tomado seu lugar no coração do marido, criticando a paixão senil do escritor e acusando-o ainda de escrever cartas secretas de amor ao discípulo.

    “Chertkov usou sua influência junto ao escritor para conseguir os direitos sua obra e, ao partir para o exílio, em 1897, um ano após ser criada a primeira colônia tolstoísta na Inglaterra, já pensava em fundar uma editora para publicar seus livros em inglês”. O discípulo voltaria para morrer em Moscou em 1936, quando foi aprovada a Constituição Soviética, dando poder aos camponeses, sonho de Tolstoi que virou um pesadelo: a ditadura stalinista.

    Postado por Unknown às 04:20 Nenhum comentário:
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    terça-feira, 23 de julho de 2013

    O dia em que o prefeito de Natal deu uma tapa no capitão.

    Lembranças do ex-cabo que prendeu Djalma Maranhão em 1964
    Luiz Gonzaga Cortez
    Jornalista e pesquisador

    O cabo Carvalho foi um dos homens que prenderam o prefeito Djalma Maranhão, no início de abril de 1964, no Palácio Felipe Camarão, na rua Ulisses Caldas, Centro de Natal. Foi uma operação militar, sem violência, conta Luiz Gonzaga de Carvalho, funcionário aposentado da Assembléia Legislativa, onde trabalhou muitos anos na Diretoria Legislativa, com o diretor Antonio Dantas, Toinho Careca, já falecido. Reencontrei "Luiz Manchinha", como é mais conhecido, no Bar Cabeça do Bode, em Candelária, um dos pontos mais conhecidos e freqüentados pelos boêmios da zona sul. Ele não teve medo de falar sobre a repressão militar durante e após o golpe militar de 1964, que teve apoio das elites políticas do Rio Grande do Norte, a partir das suas lideranças conservadoras, como Aluízio Alves e Dinarte de Medeiros Mariz, e dos empresários e entidades de classe (patronais e trabalhadoras), além dos clubes de serviço e outras organizações civis, como a maçonaria, por exemplo. Esta apoiou desde o começo. Naquela época, os maçons temiam o avanço do comunismo e das esquerdas em geral. Mas isso é outra história.
    Certo dia (o cabo Carvalho, nº 3333, não se lembra da hora, mas garante que foi à tardinha), ele saiu do quartel do Regimento de Obuses, em Santos Reis, onde servia na 2ª Companhia, num comboio comandado pelos capitães Leitão e Torquato e o tenente Maia, que hoje seria general, para prender o prefeito Djalma Maranhão, que estava no seu gabinete de trabalho com assessores, enquanto uma multidão lotava as dependências da prefeitura. Há versões de que o povo correu quando as tropas chegaram. "Eu vi quando o capitão Leitão deu voz de prisão a Djalma Maranhão, depois que sugeriram que ele renunciasse ao cargo de prefeito. Levamos Djalma, escoltado por mim e outro colega,  num Simca Chambord, preto, um carro oficial da prefeitura, para o QG do Exército, ao lado da Catedral. De lá, foi conduzido um jipe militar para o quartel do 16º RI, no Tirol, sempre muito bem tratado pelos oficiais e soldados. Eu garanto isso porque eu fui  um dos que escoltaram Djalma Maranhão e vi tudo. Ele não resistiu à prisão, que considerou uma ilegalidade, mas os oficiais disseram que estavam cumprindo ordens. Mas ao chegar no 16° RI, a coisa pegou porque o capitão Lacerda (Ênio Lacerda), um dos encarregados da repressão e dos inquéritos contra presos políticos, famoso (ou famigerado?) pela sua (truculência), agrediu o prefeito com palavrões e deu uma "mãozada" em Djalma, mas este foi mais rápido, se abaixou e meteu-lhe uma tapa do pé do ouvido dele, que caiu "pronto" no chão. Ô tapa segura!, meu irmão. Os oficiais não deram apoio ao seu colega agressor, além de repreenderem-no, pois se tratava de um preso, sob a guarda do Exército", afirma Luiz Gonzaga de Carvalho.
    O cabo Carvalho ainda participou de diversas operações de buscas comunistas, esquerdistas, prefeitos acusados de corrupção, lideranças rurais, etc. Ele disse que nunca esqueceu da prisão de um cidadão de Nísia Floresta, considerado perigoso, que foi encontrado debaixo da cama da sua casa. Ele não se lembra do seu nome, mas era dado como elemento subversivo de alta periculosidade, mas só acharam livros, jornais e revistas na casa, apesar das informações de que lá existia um grande arsenal de armas pesadas. Os soldados do RO passaram  uma madrugada inteira, cercando a casa e quando invadiram a residência do homem provocaram um pandemônio, com gritos de mulheres e crianças, que acordaram assustadas com os soldados armados de fuzis e baionetas escaladas.

    Tome peia - Carlos Alberto Galvão de Campos é funcionário público aposentado. Em abril de 1964 foi acusado de possuir uma estação de rádio que tinha comunicação direta com Moscou. Foi preso e levado para o quartel do 16º Regimento de Infantaria, na avenida Hermes da Fonseca, onde foi espancado pelo capitão Ênio de Albuquerque Lacerda, de triste memória, dele recebendo pancadas nos ouvidos. Ele me contou que um rapaz chamado Diógenes, de Macaíba, ficou perturbado mentalmente por causa dos choques elétricos  recebidos dentro de um tanque cheio de óleo. "O capitão Lacerda mandava mais do que o comandante do quartel, era um torturador e um homem cruel. No RO, segundo eu soube, foi pior, pois fizeram uma estrada com xiquexiques para os prisioneiros andarem por cima dos espinhos. Eu me lembro dos sofrimentos de um grupo de salineiros de Macau, que tinham amizade com mestres-arrais. Eles foram confundidos pelos militares como simpatizantes ou gente da família do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que era considerado como comunista pela direita. O capitão Lacerda perguntava aos salineiros se gostava de Arraes e, como eles pensavam que estavam sendo indagados sobre os mestres-arrais, eles respondiam que sim. O capitão Lacerda dizia: "Ah, é?", e tome porrada nos pobres salineiros. Os militares eram despreparados e desinformados para lidar com os trabalhadores. Muitos mestres-arrais de Macau e Areia Branca foram espancados", revelou Carlos Galvão.
    Carlos esteve preso com Geniberto de Paiva Campos, Aldo Tinoco e José Arruda Fialho, dentre outros, no 16º RI, onde chegou a organizar uma comemoração pelo aniversário do prefeito eleito de Natal, Djalma Maranhão. Ele mora na zona sul de Natal.
    Texto escrito e publicado em 09 de abril de 2006.
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