terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O golpe de Estado contra João Goulart.

     A reunião em que Kennedy decidiu o golpe militar contra Goulart

 

21 de janeiro de 2014


Neste 22 de janeiro de 2014, ano que marca o primeiro cinquentenário do Golpe de 64 e data em que Leonel Brizola completaria 92 anos de idade, cabe uma reflexão sobre o papel exato que teve o presidente John Kennedy em recorrer aos militares para depor o presidente João Goulart.
Está tudo documentado e postado na internet, pelo Miller Center of Public Affairs, da Universidade de Virgínia. creio que há mais de 10 anos. No meu livro El Caudillo Leonel Brizola, editado pela Aquariana, em 2008, eu traduzo a transcrição que peguei pelo site do Miller, daquela reunião determinante. ocorrida na Casa Branca, em 30 de agosto de 1963 e também postada em meu blog cafenapolitica.com.br, em 15 de dezembro daquele ano.
Dessa reunião participaram além de Kennedy e do embaixador no Brasil Lincoln Gordon, o subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin e o assessor especial para Assuntos de Segurança Nacional, McGeorge Bundy
Brizola, considerado o grande empecilho na aproximação com Goulart, é citado oito vezes nos diálogos.
Não sei por que tanto frenesi em torno da primazia desta informação, desatado com a publicidade do relançamento da quadrilogia do jornalista Élio Gáspari sobre a ditadura. Talvez porque a matéria respectiva da Folha afirme que "a informação é uma das novidades da reedição de "A Ditadura Envergonhada", primeiro volume da série de Gaspari". O economista Luiz Gonzaga Belluzzo rebateu, no artigo "Que revelação é essa?", a suposta na novidade, na Carta Capital, no que foi respaldado pelo editor Mino Carta, num vídeo postado no site da revista.
O que importa, porém, é o fato de o presidente americano ter comandado pessoalmente, na sede daquilo que é projetado como a maior democracia do mundo, uma reunião golpista e subversiva, sob todos os pontos de vista, para depor pela força bruta o presidente constitucional do Brasil. Nesta reunião, foi traçado um esboço de plano do golpe, que começaria com a mudança do adido militar, cargo para o qual foi logo designado o então coronel Vernon (Dick) Walters, adido na Itália. Sua principal credencial: falava português e era amigo do general Castello Branco (primeiro presidente da ditadura de 64), quem tinha conhecido em plena II Guerra Mundial, nos campos italianos.
Vejamos só este trecho da reunião, para termos uma dimensão da conspirata:

Presidente Kennedy: O que temos de fazer para chegar aos militares…
Goodwin: Acho que temos de fortalecer nossas relações com os militares, precisamos deixar isso bem claro para eles. Talvez McNamara (Secretário de Defesa) tenha de rever o pessoal que tem lá e vê se ele pode (ininteligível).
Lincoln Gordon: Bom, nós precisamos e precisamos mesmo de um novo adido militar.
Goodwin: Então, o que mais…
Gordon: O Exército é muito… é … a mais importante das três forças. Este é o homem-chave no nosso relacionamento.
Presidente Kennedy: E nosso homem lá (o adido), ele é bom?
Gordon: Nosso homem atual… ele é legal, mas é muito burro. Eu falei com o general (ininteligível) sobre isso…
(...)
Presidente Kennedy – Há alguém que já tenha estado lá antes, que tenha boas relações e pode ser mandado de volta?
Goodwin: Que tal este (cara) do Eisenhower (ininteligível)?
Gordon: Dick Walters?
Goodwin: Sim.
Gordon: Ele está em Roma.
Presidente Kennedy: E ele sabe alguma coisa de português?
Goodwin: Ele fala português fluentemente.
Gordon: Ele fala português fluentemente. É excelente e ainda tem um grande feeling político.
Goodwin: Ele era o intérprete de Eisenhower (durante a guerra) lá, não era?
Gordon: Sim. Ele seria maravilhoso. Ele era…
Presidente Kennedy: Então, o que vamos fazer ? Eu digo, quem vamos escolher? Nós temos que mandar para lá alguém que possa estabelecer ligações muito rápidas… e tem de falar em português.
Goodwin: Por que não falamos com o Ros Gilpatric2 ou alguém…
Presidente Kennedy: Ótimo, mas isto tem de ser feito hoje.
ÍNTEGRA

Daí a importância de reproduzir o trecho de El Caudillo, na página 187, Na verdade, esta é a primeira das gravações que o Presidente John Kennedy mandava fazer das conversas e despachos que tinha com seus interlocutores, no chamado Oval Office:

"Naquela conversa, ocorrida entre 11h55m e 12h20m, de 30 de julho de 1962, na presença do subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin e do assessor especial para Assuntos de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, travou-se o seguinte diálogo entre o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, que tinha vindo a Washington relatar a conversa pessoal que havia tido com o presidente João Goulart, no último dia 23 de julho, em Brasília:
Reunião sobre o Brasil
Kennedy começou a gravar quando o embaixador Gordon descrevia sua reunião de 23 de julho com o Presidente Goulart.
Lincoln Gordon – …(ininteligível) nós ainda estamos muito bem, em termos pessoais, o que é muito bom. E ele me parece muito franco. Tivemos uma conversa na segunda-feira sobre seu partido (o PTB). Eu disse que teria de explicar a várias pessoas, inclusive ao senhor (Kennedy), como é que o novo ministro de Relações Exteriores diz que a Aliança pra o Progresso é uma coisa maravilhosa, enquanto a estratégia política do partido, vem sendo conduzida pelo seu cunhado (Leonel), um cara jovem da extrema esquerda do Partido Trabalhista; e (Francisco) San Tiago Dantas, que se bandeou para a extrema esquerda desde que o senhor o viu (na viagem de Goulart aos EU, em abril de 1962), com uma posição marcadamente antiamericana e anti-Aliança para o Progresso, em sua plataforma.
Presidente Kennedy – Eles se declaram como anti ou (isso é entendido) de uma forma indireta?
Lincoln Gordon – As falas de Brizola, na essência, são muito ruins. Uma atrás da outra na televisão… muito dinheiro. Quando começou, combatia apenas as empresas americanas. Agora, se voltou contra o governo dos Estados Unidos, dizendo que o senhor está no bolso dessas empresas. Eu ainda não fui atacado, pessoalmente, mas espero que isso ocorra nestes dias. Mas é certo. (Ele diz coisas como) Os Estados Unidos estão sugando o país, as empresas americanas estão drenando o país. Nós somos os responsáveis pelo atraso no desenvolvimento brasileiro. Eles são uma colônia dos Estados Unidos . Nós somos responsáveis pela mortalidade infantil e tudo o que é de ruim que ocorre debaixo do sol. Tudo… muito irracional e altamente emocional. (ininteligível)
Agora, a resposta de Goulart para isso é que a esquerda representa apenas 30% do Partido Trabalhista: “Eu realmente simpatizo é com os 70% , que são muito mais moderados. Esta é minha posição pessoal. Mas, no momento, estou entre essas duas correntes porque os conservadores do país são todos contra mim e eu preciso da esquerda como minha tropa de choque contra a maioria parlamentar.
Esta é a posição de Goulart até à eleição (de 1962). Não sei que diabo ele vai fazer se obtiver mais poderes. Ele quer desesperadamente ter mais poderes. Nesta conversa de uma hora e meia, ele parecia um disco de vitrola: ia e voltava 20 vezes para dizer que o Parlamentarismo não é bom.
Presidente Kennedy – Acho que isso seja verdade, não? Ele não tem nada a fazer com (um) partido.
Gordon – Ele tem uma influência tremenda.
Presidente Kenendy – Sim.
Gordon – Se ele quisesse trabalhar com o gabinete (o ministério), poderia funcionar. Mas ele não quer trabalhar dessa maneira. Isto está claro, está nítido.
Presidente Kennedy – Você acha que ele mesmo sabe o que quer? Ou é apenas uma questão de ele navegar nas ondas? Ou ele tem algum objetivo, um objetivo de longo alcance?
Gordon – Não acho que ele tenha qualquer objetivo de grande alcance. Não, acho que ele quer é mais poderes.
Presdiente Kennedy – Salles (Walter Moreira Salles, ex-embaixador em Washington e considerado pro-americano), ele é o (novo) ministro da fazenda?
Gordon – Ele aceitou. Aceitou
.
Presidente Kennedy – Ele vem aqui para nos ver.
Gordon – Não sei.
Presidente Kennedy – Temos algum novo acordo financeiro que devemos..
Gordon – Temos discutido isto nos últimos dois dias. Eu vi o Salles no domingo, enquanto ele estava se decidindo.
Presidente Kennedy – Você lhe disse todas essas coisas que me disse?
Gordon – Oh, claro, sim. Não tem nenhum problema onde ele se posicione..
Presidente Kennedy – Sim, mas quer dizer o fato de que nós não podermos – você sabe, mandar estes caras para nos ver, eles são razoáveis e é claro que nos entendemos, mas depois eles caem…
Gordon – Bom, ele perguntou…
Presidente Kennedy – …
Gordon – Bom, ele disse que estava impondo umas condições para aceitar (o cargo de ministro da Fazenda),um programa anti-inflacionário bem vigoroso. E ele disse: “Se eu realmente realizar isso (o programa), e minhas condições forem aceitas, você acha que haverá alguma chance de os americanos apoiá-lo? E eu respondi: “Em face do que ocorreu nos últimos dois meses, eu acho que ele (o Presidente Kennedy) iria gostar, mas desta vez tem de haver algum resultado. E ele disse: “Uma promessa é só… não vai convencer a alguém?
Meu feeling diz que devemos prosseguir na assistência à estabilização, evitando que seja suspensa. Mas para para impulsionar certos projetos, que poderiam ser divulgados, que poderiam tornar-se em manifestações concretas da Aliança para o Progresso.
O único problema com a estabilização financeira é que, você sabe, (é) que nós não conseguimos nenhum crédito para ele…
Presidente Kennedy – Correto.
Gordon – …exceto com um punhado de banqueiros e economistas…
Presidente Kennedy – Correto, eu acho que devemos esquecer isso.
Gordon – .. e …
Presidente Kennedy – Temos alguma assistência de estabilização para encaminhar?
Gordon – Restam cerca de 90 bilhões do pacote aqui negociado.
Presidente Kennedy – E quanto nós lhes demos nos últimos 12 meses?
Gordon – Bom, nós liberamos – o total foi de 328. Então nós liberamos… qual a diferença disso?
Presidente Kennedy – Duzentos milhões. Simplesmente desapareceu?
Gordon – Exato. Exatamente. E neste momento, tanto o suporte para o balanço de pagamento como o suporte orçamentário é como água no ralo. Quer dizer, eles têm mais ou menos…
Presidente Kennedy – (Ininteligível) Nós o congelamos? Quer dizer,não vamos entregá-lo agora? Devemos tomar alguma medida para impedir algum outro?
Gordon – Sim, claro. Pouco antes que o presidente (Goulart) veio em abril, liberamos 30 milhões mais ou menos, dependendo do desempenho ou dos desempenhos das fábricas. Têm sido altamente negativo.
Um dos projetos, (no) nordeste, por exemplo, acho que devemos ajudar. Há alguns governadores, como o do Rio Grande do Norte. Não sei se ele viu o senhor. Aluísio Alves, mas ele encontrou-se com to mundo aqui. Ele estava por aqui há cerca de três semanas. É um grande cara.
Presidente Kennedy – Esse é o Vicento – isto nã oé o Rio, é?
Gordon – É um pequeno estado do nordeste.
Presidente Kennedy – Entendo. Não,não o vi.
Gordon – Este é um pequeno estado do nordeste. Ele é um rapaz de 40 anos, cheio de energia, não é demagogo, honesto. Ele é…
Presidente Kennedy – Qual é a força dos comunistas lá?
Gordon – como partido, é fraco.
Presidente Kennedy – MAS ELES ESTÃO SE APROVEITANDO…
Gordon – (Ininteligível) Nós como…
Presidente Kennedy – Mas agora eles acabam de assumir grande parte da esquerda?
Gordon – Eles assumiram muita coisa na esquerda. E estão em alguns postos-chave e têmorganizado…
Presidente Kennedy – O Goulart lhes dá amparo?
Gordon – Ele os abriga tantono governo comonos sindicatos.
Richard Goodwin – E eles não…
Gordon – (Ininteligível) nos sindicatos sob disfarce, mas talvez ainda mais.
Goodwin – E eles estão aliados aos nacionalistas numa porção de áreas importantes, que não são comunistas propriamente ditas mas que têm objetivos mútuos nesta altura.
Presidente Kennedy – Acabei de ler alguma coisa sobre isso no Washington Post agora de manhã, alguns estudantes em visit…
Gordon – Sei.
Presidente Kennedy – … sobre… o motivo era… em outras palavras…
Goron – Bem, há…(resmungos).
Presidente Kennedy – O que?
Gordon – Tem um grupo de estudantes em visita aqui.
Goodwin – É isto mesmo.
Gordon – É este mesmo? Não vi a reportagem do Post. Eles estão fazendo uma tour na Casa Branca amanhãpela manhã, entre 09:15 e 09:50 hs.E eu gostaria muito que o senhor lhes desse uns cinco minutos, apenas para um aperto (de mãos)..
Presidente Kennedy – Quem são eles?
Gordon – São 70 estudantes de quatro diferentes Estados. Eles foram recrutados por uma senhoramuito ativa, Mildred Sage, uma bostoniana, que foi casada com um homem de negócios americano. Ela levantou 90 por cento do dinheir,em grande parte entre comunidade americana de negócios de lá, os outros 10 por cento vieram do Departamento de Estado. Eles estiveram em Harvard duranet duas semanas.Formam um grupo de tendências variadas, desde uma formação fortemente democrática, pró-americana até outra quase comunista, altamente nacionalista, mas anti-americano. Sage os reuniu todos.
Estive com eles no sábado,na hora do almoço, falando sobre (ininteligível), por uma hora e meia,perguntando-lhes como tinha sido sua passagem por Harvard. Eles responderam: Muito bem. Aprendemosmuito, e não fomos propagandizados.
Acho que é bom. Acho que fizemos algum progresso com eles. Eles vão se encontrar com Ted (moscoso) esta tarde, durante uma hora e meia ecomum pessoal de apoio regional.Eles estão reunidos com o HEW agora de manhã e vão estar com o Departamento de Estado amanhã à tarde. Então decidiram que nós (ininteligível) às daus da tarde. Mas acho que o senor poderia sair e rebê-los no Jardim Rosado.
Presidente Kennedy – Tudo bem, se você puder providenciar isso. Diga-me qual é sua reclamação contra os negócios americanos. Há alguma reclamaçãolegítima?
Gordon – Não, nenhuma significativa.O mito que tomou corpo é que a remessa de lucros está drenando a economia brasileira. Isso é mito puro. Há uma docmuentação brasileira e nossa também (e torno disso).
Presidente Kennedy – Quanto a gente tira por ano?
Gordon – Nós tiramos, oficialmente, algo em torno de 40 milhões de dólares e deve haver alguns lucros disfarçados, alcançando um máximo de outros 20. O total de 60 não é só nosso, americano, mas de todos os investidores estrangeiros. Temos talvez 60% disso.
Presidente Kennedy – Bom, em outros palavras,nós estamos tendo uma retirada de 30 milhões de dólares por ano?
Gordon – (Ininteligível) Não, na verdade…
Presidente Kennedy – Na verdade,nós estamos investindo…
Gordon – Na verdade isso é ninharia,o senhor vê…
Goodwin – Mesmo os investimentos privados estão investindo nesse nível?
Gordon – Agora, eles têm… alguém me entregou esses dados,hoje de manhã.
Presidente Kennedy – Bom, o que acontece quando esses são enfatizados? Ninguémos enfatiza?
Gordon – Sim, a gente os enfatiza…
Presidente Kennedy – Você quer dizer que os investidores privados estão investindo quase este montante:além disso nós investimos em ajuda e todas essas coisas, e ainda compramos o café deles.
Gordon – Muitas dessas pessoas ou não acreditam nestes dados ou ele s não são enfatizados de maneira suficiente e eficaz.Isto é algo que vamos ter de cuidar nos briefings (comunicados) durante esta semana – para tratar disto (ininteligível)
Presidente Kennedy – Com quem – comunicar a quem?
Gordon – Bem, issto estaria com a AID e o Estado (Departamento de Estado).
Presidente Kennedy – Mas eu me refiro, não podemos contar com todos?
Gordon – A estes estudantes, quer dizer, estes estudantes…
Presidente Kennedy – Sim, mas eles são apenas..
Gordon – Eu sei…
Presidente Kennedy – Eles são apenas uma fração.Mas eu pergunto, há alguém lá que vá se incomodar empropagar esses dados?
Gordon – Bom…
Presidente Kennedy – O que os Estados Unidos deram em ajuda nos últimos dois anos; os lucros que foram auferidos são tão grandes; o total de compras feitas pelos Estados Unidos…
Gordon – Isto foi feito de formamuito eficaz pelo relatório à Comissão Conjunta do Senado e da Câmara brasileiros sobre esse projeto remessas de lucros, mas eles (ininteligível. Mas esses caras vão dizer: “Bom, você sabe, ele é instrumento dos truts (multinacionais). Ele é um reacionário. Ele é..Tem um senador do Rio Grande do Sul… Brizola e…
Presidente Kennedy – Qual é o cargo de Brizola agora?
Gordon – Ele é aina governador. Vai ser governador até janeiro. E está concorredo à Câmara pela Guanabara…
Presidente Kennedy – Bom, nós temosdito quese eles quiserem comprar (as companhias americanas de serviço público)… Que percentagem do investimento americano (local) há (no) (uma observação ininteligível de Gordon).
Gordon – Não que (ininteligível).
de serviço público)Eles não têm feito nada para comprar essas companhias, não?
Gorodon – Não, eu falei comeles sobre o assunto semana passada quando o govero começou as reuniões (ininteligível) com o grupo American Foreign Power Company, (ininteligível), omaior, que temuma nova proposta (ininteligível) para discutir.
Goulart acha que tem um compromisso pessoal como senhor a este respeito.
E ele diz que vai se esforçar para isso. E acho que há uma chance de que ele possa conseguir.Tudo o que fizeram foi criar essa comissão, que deve negociar o tratadoe fetivo, mas, na verdade, eles nunca dão prosseguimento. Tem havido muito pouca açãoem torno disso, pelo menos desde (ininteligível) as conversas de abril. Isto é …
Presdiente Kennedy – Há muito desestímulo no Brasil entrre osmdoerados?
Gordon, Ah eles não estão desestimulados ao ponto de desistirem. Eles estãomuito insatisfeitos. A forma com que esta crise política foi administarada foi extremaente ruim.
Agora, um cara como Aluízio Alves quer organizar um centro forte, umcentro ligeiramente de centro esquerda. E acho que a gente tem de dar todo apoio a esta iniciativa.
(Seis minutos cortados como informação classificada)
Gordon – Nós examinamos bem isso antes deminha viagem. Achoque ele ficou mais importante. Houve um curto período quando éramos um tanto complacentes. Já passamos disso. Não podemos mais nos dar ao luxo de sermos complacentes. Acho que temos de fazer mais e acho que devemos fazer mais com um pouco menos de preocupação com possíveis desgastes ou controle.Os rapazes têm um pouco da filosofia do GAO (General Accounting Office). O senhor sabe que eles querem saber se seu dinheiro está sendo gasto devidamente. Bom, istoé um bom preconceito para ter, mas só temos dois meses na frente. Temos esta organização chamada IPES, por exemplo,que é progressista (ininteligível) e precisa alguma ajuda financeira; tem (ininteligível) apoio e achoque temos de ajudá-los. Não poderemos conseguir uma prestação de contas detalhada das retiradas e como cada retirada, em particular, será gasta. Eu sóacho que nós não podemos correr riscos.
Voz não identificada (Unidentified) – Eu concordo com a substância…
Gordon – Nós temos…
Goodwin – Acho que a eleição vai ser mesmo o grande momento.o Linc a está comparando às eleições da Itália, em 1948 (quando uma operação americana impediu que o Partido Comunista assumisse o poder naquele país).
Presidente Kennedy – Eu sei. Bom, quanto vamos ter que colocar nisso?
Gordon – Ah isso é coisa de uns poucos milhões de dólares, digamos.
(sete segundos cortados como informação classificada)
Presidente Kennedy – Isto é muito dinheiro. Porque, você sabe, afinal,para uma campanha presidencial aqui você gasta cerca de 12. E nossos custos – pelos menos acho – que 8 milhões de dólares seria uma enorme quantidade de dinheiro para uma eleição.
Gordon – Correto.
Presidente Kennedy – (Ininteligível)
Gordon – É um cenário político incrivelmente complicado….
Presidente Kennedy – Bom, agora, isto está sendo mesmo dispendido, agora? Você vai em frente com isso?
(39 segundos cortados como informação classificada)
Presidente Kennedy – Bom, acho que agora não posso fazer nada com Goulart ali. Não tem nada…
Gordon – Bom, acho que tem. Este é o ponto importante da estratégia, em geral. Uma coisa que quero alertar é a possibilidade de uma ação militar. Esta é, esta é uma grande possibilidade nas cartas.
Presidente Kennedy – Agora, deixe-me perguntar – nós temos sido muito críticos da açãomilitar no Peru…
Gordon – (Ininteligível)
Presidente Kennedy – … o que é inteiramente diferente. Não podemos ser exatamente.. Os militares fizeram um excelente trabalho um ano atrás. Tudo depende das circunstâncias de uma ação militar.
Gordon – Eu acho,eu acho…
Presidente Kennedy – Em outras palavras, nós éramos contra ação militar na República Dominicana. Tínhamos nossas reservas em relação aos militares depois que eles prenderam Prado. Mas vamos recuar e reconhecê-los na próxima semana, ou esta semana; mas a questão é mesmo de como… qual nossa atitude emdireção ao que seria.
Goodwin – Bem, acho que o que deveríamos fazer… Este é um negócio muito difícil e temos que nos proteger muito cuidadosamente. Não acho que que queiramos estimular um golpe.
O que realmente queremos fazer com Goulart, acho, são duas coisas: queremos fazer uso do fato de que ele tem uma grande consideração com o senhor. E ele está muito orgulhoso que esta relação com os Estados Unidos (ininteligível) foi estabelecida. E há algumas coisas… Acho que nós conseguiremos em breve e finalmente (resolver) este caso da IT&T (observação ininteligível do Presidente Kenedy). Nós temos sua carta para Goulart. Faleicomele novamente na segunda-feira. Acho que vamos resolver aquilo. Espero que evitemos outras expropriações desta vez. Acho que podemos fazer algum progresso nesta cosia das companhias de serviço público. Istoémuito negativo,mas acho que devemos trabalhar o mais que pudermos.
A principal coisa é ao mesmo tempo, organizar as forças que são tanto políticas como militares para, ou reduzir o seu poder…num caso extremo afastá-lo, se for preciso. Isto dependeria de uma ação aberta de sua parte. Ele está jogando que está bem preparado (ininteligível).
Goodwin – Ele mudou muitos comandantes,comandantes militares nas guarnições?
Gordon – Ele mudou um certo número e está ameaçando mudar outros. Até que ponto ele vai nessas mudanças vai depender um pouco da resistência dos militares.
Acho que um das nossas tarefas importantes é de fortalecer a espinha dosmilitares. Para falar claro, discretamente, que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo demilitar ou coisa que o valha se ficar claro que o motivopara a açãomilitar for…
Presidente Kennedy – Contra a esquerda?
Gordon – … Ele está entregando o maldito país para …
Presidente Kennedy – Os comunistas.
Gordon – Exatamente. E há muitas provas de que Goulart, querendo ou não querendo, tem sido (ininteligível) isso.
Há algumas semanas logo depois da derrota de Dantas (San Thiago Dantas para primeiro ministro) no Congresso,ele (Goulart) tinha um plano específico, que contou ao Kubitsheck. Kubitsheck me disse em primeira mão. Um plano para nomear um gabinete (ministério) só seu sem (ouvir) o primeiro ministro. Ele disse ao Congresso que esperaria que o Congresso ratificasdse (isso), mas esperava que o Congresso,que vai ser eleito em outubro, o faria .E convocar um plebiscito agora para fazer retornar o regime presidencial em outubro.
O Kubitsheck levou esta (informação) a 30 altos oficiais militares e eles lhe disseram, unanimemente, que isto seria inconstitucional e se Goulart tentar, eles se oporiam a ele. Ele perguntou se poderia dizer aquilo a Goulart. Eles todos responderam sim e alguns disseram: “Bom, seria melhor assinar nossos nomes num manifesto”. E ele voltou a Goulart e Goulart desistiu.
O senhor vê o tipo de coisa. Isto é… ele estápensando ativamente num tipo de golpe branco, como eles dizem. E se os militares estão temerosos… se eles sentirem que não há nenhum apoio emalgum lugar, dentro ou fora, especialmente fora – o que significa nós – se eles agirem, então eles.. Eles estavam,medisseram.. Infelizmente, eu estava doente de cama na semana anterior e só agora gradativamente voltando à forma.
Presidente Kennedy – Sim.
Gordon – … esta semana antes de eu vir para cá na quarta-feira, consegui ver Goulart eo novo ministro do exterior e o primeiro ministro na terça-feira e Walter Moreira Salles no domingo.
(11 segundos cortados como informação classificada)
Gordon – Os militares, eu vejo que eles nos são muito simpáticos; muito anti-comunistas, muito desconfiados de Goulart. E eles expressaram grande surpresa quanto à nossa posição no Peru.
Bom, posso explicar a eles o que são as circunstâncias políticas. Acho que é importante que deixemos claro a esta gente amiga, aqueles que nós realmente sabemos que sãoamigos…
Presidente Kennedy – Mas pelo…
Gordon – Aquele caso do Peru não é necessário…
Presidente Kennedy – Sim,mas nesta semana eu vou voltar atrás e reconhecer o governo peruano.
Goodwin – Bom, acho que… contanto que eles entendam que a açãomilitar é para salvar a legalidade…
Presidente Kennedy – (grunidos)
Goodwin- … está bem. Então,acho que esta é a razão pela qual não poderemos realizar a reunião da OEA pois isto iria desencorajar os militares. Se você começar a reunir todos esses países juntos e..
Presidente Kennedy – Sim.
Godwin – … aprovando resoluções contra…
Presidente Kennedy – Isto é o que quero dizer hoje a esta (ininteligível).
Goodwin – Porque nós podemosmuito bemquerer que eles (os militares brasileiros) que assumar até o fim do ano, se eles puderem.
Gordon – Nós temos aquela frente militar. E acho que sua função é primeiramente manter Goulart nos eixos..
Presidente Kennedy – Que tipo de ligação nós temos com temos com osmilitares>
Gordon – Bem, é muito boa.
Os militares não estão unidos, o que faz complicar as coisas. Há uns poucos oficiais que são francamente de esquerda, incluindo uns poucos em altas posições: o comandante do I Exército, que fica no Rio de Janeiro… um cara muito perigoso. Goulart brincou com a idéia de fazê-lo ministro da Guerra mas depois desisitiu porque houve muita (ininteligível).
Presidente Kennedy – Você acha que se Goulart tivesse poderes…
Você sabe, você pode ter essas brigas com o Congresso e usa qualquer coisa para seguir em frente. Você acha que se ele tivesse poderes, agiria? Ou isto é apenas uma tática?
Gordon – Acho que… tenho dúvidas de que seja, não acredito que o homem seja um comunista. Acho que ele provavelmente faria algo como… mais como (o antigo ditador Juan) Perón. Um tipo assim…
Presidente Kennedy – Ditador pessoal.
Gordon- … um tipo de ditador pessoal e populista.
Presidente Kennedy – Sim.
Goodwin – Eu, não … Acho que a gente tem de se lembrar que ele pode não ter um objetivo, mas Dantas tem um objetivo. E Brizola tem um objetivo e este objetivo não é peronista, no final pode ser nasserista ou titoista.E acho que a presença deles, que eles (têm), e a dominação intelectual que eles podem ter poderia sensibilizá-lo. Porque não tem.. se você for desempenhar um papel na cena mundial, você sabe, hoje em dia você não pode ser um Perón. Você tem de ir além e é isso o que eles querem.
Presidente Kennedy – Sim.
Goodwin – Não tenho dúvida..
Gordon – Eles querem isso. O Goulart não dá a mínima para política externa. Na verdade, ele está ….
Goodwin – Bom …
Gordon – … ele está interessado em (ininteligível)
Presidente Kennedy – Vaidade.
Goodwin – … bem, você sabe, ele é um homem grande vaidade e de desejopelo poder…
Presidente Kennedy – (Ininteligível)
Goodwin – Não, acho que há 80 por cento de chances que ele force para a esquerda com aqueles dois caras.
Gordon – Bom, eu não acredito que (ininteligível).
Goodwin – Ele não seria um ditador local, não ficaria satisfeito com (ininteligível)
Gordon – Há muitas chances de que eles o derrubem.
Presidente Kennedy – Dantas?
Gordon – Não, que eles tentariam derrubar Goulart em certas circunstâncias.
Presidente Kennedy – Sim, mas o Dantas é… Agora, o que devemos fazer? Acho que temos este problema de quanto podemos fazer contra Goulart e quanto tentaremos fazer com ele.
Gordon – Acho quenós temos de tentar…
Presidente Kennedy: O que temos de fazer para chegar aos militares…
Goodwin: Acho que temos de fortalecer nossas relações com os militares, precisamos deixar isso bem claro para eles. Talvez McNamara (Secretário de Defesa) tenha de rever o pessoal que tem lá e vê se ele pode (ininteligível).
Gordon: Bom, nós precisamos e precisamos mesmo de um novo adido militar.
Goodwin: Então, o que mais…
Gordon: O Exército é muito… é … a mais importante das três forças. Este é o homem-chave no nosso relacionamento.
Presidente Kennedy: E nosso homem lá (o adido), ele é bom?
Gordon: Nosso homem atual… ele é legal, mas é muito burro1. Eu falei com o general (ininteligível) sobre isso…
Presidente Kennedy – Mas é claro que não temos muitos caras que saibam falar português, não é?
Gordon: Bom, nós temos alguns por aí, não muitos. Mas acho que o McNamara…
Presidente Kennedy: Tudo bem. Agora vamos ao … Quando você está voltando para lá?
Dez segundos (da gravação) suprimidos por razões de segurança nacional
Gordon: Sim
Presidente Kennedy: Quando examinarmos isso antes de nós… então sabemos para onde vamos?
Gordon: Bom, o senhor tem a última…
Presidente Kennedy: Sobre este (adido) militar… Com quem é que você vai falar sobre a mudança do adido militar?
Gordon: Eu falei com o general (ininteligível)
Presidente Kennedy: Bom, adianta alguma coisa mudar um cara (o adido) se em três meses (provavelmente das eleições) você poderá… terá de.. ele poderá estabelecer essas ligações em três meses?
Gordon: Ah, sim…
Presidente Kennedy – Há alguém que já tenha estado lá antes, que tenha boas relações e pode ser mandado de volta?
Goodwin: Que tal este (cara) do Eisenhower (ininteligível)?
Gordon: Dick Walters?
Goodwin: Sim.
Gordon: Ele está em Roma.
Presidente Kennedy: E ele sabe alguma coisa de português?
Goodwin: Ele fala português fluentemente.
Gordon: Ele fala português fluentemente. É excelente e ainda tem um grande feeling político.
Goodwin: Ele era o intérprete de Eisenhower (durante a guerra) lá, não era?
Gordon: Sim. Ele seria maravilhoso. Ele era…
Presidente Kennedy: Então, o que vamos fazer ? Eu digo, quem vamos escolher? Nós temos que mandar para lá alguém que possa estabelecer ligações muito rápidas… e tem de falar em português.
Goodwin: Por que não falamos com o Ros Gilpatric2 ou alguém…
Presidente Kennedy: Ótimo, mas isto tem de ser feito hoje.
(Quinze segundos suprimidos como documento classificado).
Presidente Kennedy – Você diz que não é preciso que eu escreva ao Goulart novamente, para pedir-lhe alguma coisa?
Gordon – Não,não.
Goodwin – O senhor sabe, seu irmão esteve na reunião inicial que organizou este programa político. Foi basicamente a partir deste impulso que ele conseguiu avançar.
Presidente Kennedy: Bom, adianta alguma coisa mudar um cara (o adido) se em três meses (provavelmente das eleições) você poderá… terá de.. ele poderá estabelecer essas ligações em três meses?
Gordon: Ah, sim…
Presidente Kennedy – Há alguém que já tenha estado lá antes, que tenha boas relações e pode ser mandado de volta?
Goodwin: Que tal este (cara) do Eisenhower (ininteligível)?
Gordon: Dick Walters?
Goodwin: Sim.
Gordon: Ele está em Roma.
Presidente Kennedy: E ele sabe alguma coisa de português?
Goodwin: Ele fala português fluentemente.
Gordon: Ele fala português fluentemente. É excelente e ainda tem um grande feeling político.
Goodwin: Ele era o intérprete de Eisenhower (durante a guerra) lá, não era?
Gordon: Sim. Ele seria maravilhoso. Ele era…
Presidente Kennedy: Então, o que vamos fazer ? Eu digo, quem vamos escolher? Nós temos que mandar para lá alguém que possa estabelecer ligações muito rápidas… e tem de falar em português.
Goodwin: Por que não falamos com o Ros Gilpatric3 ou alguém…
Presidente Kennedy: Ótimo, mas isto tem de ser feito hoje.
Quinze segundos suprimidos como documento classificado.Sei.
Gordon – Agora.
Presidente Kennedy – Ele vai estar na reunião amanhã?
Goodwin – Pode ser uma boa idéia.
Presidente Kennedy – Você o avisaria?
Gordon – Tem um… tem dois outros pequenos problemas que eu tenho de resolver. O Kubitsheck escreveu ao senhor uma carta que tenho aqui.
Presidente Kennedy – Bom, ele está apoiando o Goulart?
Gordon – Não,não.
Presidente Kennedy – Ele está preocupado?
Gordon – Ele apoia… ele estápreocuado como diabo. Ele apóia o Goulart só quanto ao retorno dos poderes presidencaiis (ininteligível). Ele quer 1965. Ele gostaria de fazer alguma coisa para flexibilizar a Aliança para o Progresso.em termos de América Latina. Acho que devíamos estimulá-lo.
Esta carta diz muito pouco. (uma folha de papel é dobrada). Aqui está a tradução.O que definimos com Ed Martin é que ele vai falar com o Lleras Restrepo em Bogotá e vamos ver o Kubitsheck no rio… uma idéia para tentar pegar esta iniciativa. Foi escrita pelo Schmidt, claro, que sempre escreve essas cartas.
Goodwin – Sei.
Gordon – Ela não diz praticaente nada a não que isto não pode ser um programa técnico, precisa ter uma ênfase política e ele tem razão. Mas não diz como fazê-lo,
Acho que nós poderíamos aproveitar o Kubitsheck…
Goodwin – O senhor sabe… com a comissão de Ação Monnet.
Gordon – Sei.
...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fonte: Revista FORUM.
14/01/2014 8:55 am
EUA: pesquisa em 68 países aponta o país como a maior ameaça à paz no mundo
No entanto, uma visão enraizada na população norte-americana acredita que o país é uma força do bem no planeta e que qualquer ação destrutiva em outros países torna-se tolerável
Por Paul Street, em ZNet | Tradução: Vinicius Gomes
De acordo com uma pesquisa mundial publicada no final de 2013, com 66 mil pessoas em 68 países, conduzida pela Worldwide Independent Network of Market Research (WINMR) e Gallup International, a população mundial enxerga os EUA como a mais significante ameaça no planeta. Os EUA foram eleitos com uma larga margem (24%), enquanto em segundo lugar ficou o Paquistão (8%), seguido da China (6%). Afeganistão, Irã, Israel e Coreia do Norte empataram no quarto lugar (4%) 
 “Um cheque em branco em seu ‘McMundo’”
Foto: “War bonds”, poster de N.C. Wyeth, de 1942
Uma manchete da International Business sobre a pesquisa da WINMR-Gallup pareceu questionar a validade e/ou racionalidade do resultado: “Em pesquisa da Gallup, a maior ameaça à paz mundial é… a  América?”, dizia a manchete. Enquanto, na realidade, a visão mundial quanto ao status dos Estados Unidos como, de longe, a maior ameaça para a paz, deveria ser tudo, menos surpreendente para qualquer observador sério para com a politica externa norte-americana e o cenário internacional. Os EUA representam, afinal de contas, quase metade de todo o gasto militar no mundo. Mantêm mais de mil bases militares em mais de 100 nações “soberanas” por todos os continentes. A administração Obama autoriza a ação das Operações Especiais em 75 a 100 países (a administração Bush contava com 60 em seu final) e conduz regulares ataques letais com drones contra alvos qualificados como terroristas (e um número muito maior de civis inocentes) no Oriente Médio, Sudeste Asiático e África. Mantém também um programa massivo de vigilância global dedicado a eliminar, de fato, a privacidade na Terra – um programa que espionou até mesmo os telefones pessoais de estadistas europeus, incluindo Angela Merkel, na Alemanha. Como o mais famoso jornal alemão, Der Spiegel, escreveu em 1997: “Nunca antes na história moderna um pais dominou totalmente o planeta como os EUA o faz hoje, a América é agora o Schwarzenegger da política internacional: exibindo os músculos, intrusivo e intimidante, os americanos, na ausência de limites impostos por qualquer um, agem como se tivessem um cheque em branco em seu ‘McMundo’”.
Sem pedido de desculpas
Esse Schwarzenegger decidiu fazer as coisas um pouco sozinho no atual milênio. Os EUA, desde o 11 de Setembro, mataram, marcaram e desalojaram milhões ao redor do mundo muçulmano como parte de sua Guerra ao (de) Terror. A violência é sempre conduzida em nome da paz, liberdade, democracia e segurança. Um incidente ilustrativo na guerra norte-americana ao/de terror ocorreu na primeira semana de maio de 2009. Foi quando um bombardeio norte-americano matou mais de 140 civis em Bola Boluk, um vilarejo na província de Farah, no oeste do Afeganistão. Noventa e três dos locais mortos, destroçados pelos explosivos norte-americanos, eram crianças. Apenas 22 eram homens de 18 anos ou mais velhos. Como o New York Times reportou:
“Em uma ligação telefônica colocada no viva-voz na quarta-feira para o parlamento afegão, o governador da província de Farah, Rohul Amin, disse que cerca de 130 civis morreram, segundo o legislador, Mohammad Naim Farahi, ‘o governador disse que os locais trouxeram dois tratores cheio de pedaços de corpo humano para seu escritório, a fim de comprovar as mortes que ocorreram…todos estavam chorando, olhando para a cena chocante’. O sr. Farahi disse que conversou com alguém que conhecia pessoalmente, e tal pessoa havia contado 113 copos sendo enterrados, incluindo muitas mulheres e crianças”.
A resposta inicial do Pentágono do Obama para esse incidente horrível – um entre muitos outros ataques aéreos maciços que mataram civis no Afeganistão e Paquistão desde 2011 – foi jogar a culpa das mortes às “granadas do Talibã”. A secretária de Estado, Hillary Clinton, disse “lamentar” a perda de vidas humanas, mas a administração se recusava a fazer um pedido de desculpas ou reconhecer a responsabilidade dos EUA. Em contraste, Obama havia acabado de oferecer um pedido completo de desculpas e demitir um funcionário da Casa Branca por assustar nova-iorquinos por conta de uma sessão de fotos do Força Aérea Um (o avião presidencial norte-americano) voando baixo sobre Manhathan o que lembrou as pessoas do 11 de Setembro.
A disparidade foi extraordinária: assustar nova-iorquinos levou o presidente Obama a um pedido de desculpas e à demissão de um funcionário da Casa Branca, enquanto matar mais de 100 civis afegãos não requeria o mesmo pedido. Ninguém foi demitido e o Pentágono teve a permissão de seguir com as afirmações absurdas de como os civis morreram – histórias levadas a sério pela mídia. Os EUA, subsequentemente, conduziram uma duvidosa“investigação” do massacre em Bola Boluk que reduziu a contagem de corpos e culpou o Talibã por colocar civis no caminho das bombas norte-americanas.
Filhas e Filhos
Outro claro exemplo do compromisso dos EUA com a paz e a segurança é Fallujah, no Iraque. Em um discurso sobre política externa na véspera do anúncio de sua candidatura à presidência, Barack Obama teve a audácia de dizer que “o povo americano tem sido extraordinariamente determinado. Eles viram suas filhas e filhos morrerem e se ferirem nas ruas de Fallujah”.
Fonte: globalresearch.ca
Essa seleção do lugar foi espantosa: Fallujah foi o local do maior atrocidade de guerra dos EUA – os crimes incluíram o assassinato indiscriminado de milhares de civis, ataques contra ambulâncias e hospitais e praticamente uma completa destruição de uma cidade inteira – pelos militares norte-americanos em abril e novembro de 2004. A cidade foi designada para destruição como um exemplo do incrível estado de terror prometido contra aqueles que ousarem resistir ao poder dos EUA. Em uma descrição:
“Os EUA lançaram dois ataques ferozes contra a cidade usando um poder de fogo devastador à distância, o que minimizou as baixas norte-americanas. Em abril, comandantes militares disseram ter alvejado com precisão forças insurgentes, no entanto, os hospitais locais reportaram que muitos ou a maioria das baixas eram civis, entre elas, mulheres, crianças e idosos…[refletindo uma] intenção de matar civis em geral. Em novembro, ataques aéreos destruíram o único hospital em território insurgente, para garantir que dessa vez ninguém pudesse documentar mortes de civis. As forças dos EUA então entraram na cidade, destruindo virtualmente tudo. Após isso, Fallujah parecia a cidade de Grozny, na Chechênia, quando as tropas de Vladimir Putin deixaram a cidade em escombros.
O uso de material radioativo nos ataques dos EUA em Fallujah ajudou a criar uma epidêmica mortalidade infantil, defeitos de nascimento, leucemia e câncer.
A cidade de Fallujah foi apenas um episódio especialmente ilustrativo de um vasto arco criminal de uma invasão que matou prematuramente pelo menos um milhão de civis iraquianos e deixou o país como “uma zona de desastre em uma escala catastrófica, dificilmente comparável na memória recente”.
 “Então jogue-os em Guantánamo”
Lawrence Wilkerson é um ex-combatente que já serviu como chefe de gabinete do então secretário de Estado Colin Powell. Conversando com o jornalista investigativo Jeremy Scahill, ele descreveu uma típica operação das forças especiais durante a ocupação do Iraque: “Você entra lá e colhe algumas informações e você diz ‘Oh, isso é realmente uma boa informação para ser usada como ataque. Aqui está a Operação Trovão Azul. Vá cumpri-la’. Então eles vão e matam 27, 30, 40 pessoas, que seja, e capturam sete ou oito. Depois você descobre que a informação era ruim e você matou um bando de gente inocente e que também você tem um monte de inocentes presos em suas mãos, então jogue-os em Guantanamo. Ninguém nunca saberá a respeito e então você prossegue para a próxima operação”. Realmente, um cheque em branco.
A Estrada da Morte em 1991 e outras maneiras de se matar
Em 1991, na primeira vez que os EUA estiveram no Iraque, as forças norte-americanas massacram dezenas de milhares de soldados iraquianos que já haviam se rendido e estavam saindo do Iraque, entre 26 e 27 de fevereiro daquele ano, no que ficou conhecido como “A Estrada da Morte”.
Além da violência física direta, existem outras maneiras de se matar também. Cinco anos após a Estrada da Morte, a secretária de Estado, Madeline Albright, disse ao programa 60 Minutos da CBS, que a morte de 500 mil crianças, devido às sanções impostas pelos EUA ao Iraque era um “preço que valia a pena pagar” para a continuidade dos objetivos norte-americanos.
Mantendo a “máquina de matar rodando”
Qualquer um que pense que a selvageria imperialista dos EUA entrou em algum tipo de misericordiosa pausa por conta da chegada de Barack Obama está vivendo em um mundo de fantasias. Obama pode ter tido a tarefa de acabar com as guerras que falharam no Iraque e no Afeganistão (o mesmo trabalho teria caído nos colos de McCain, caso eleito), mas xpandiu drasticamente a intensidade e o escopo da guerra com drones e a presença de tropas de forças especiais ao redor do mundo. Como o corajoso jornalista Allan Nairn destacou, Obama manteve a gigantesca e imperial “máquina de matar rodando”.
Foto: Mandel Ngan, AFP/Getty Image
O tom foi definido logo no começo, com Obama autorizando dois grandes ataques com drones no Paquistão em seu quarto dia como presidente. O primeiro ataque “matou de sete a quinze pessoas, todas elas praticamente civis”. O segundo “atingiu a ‘casa errada’ e matou de cinco a oito civis”, incluindo duas crianças. Menos de seis meses depois, mais um dos “ataques precisos com drones” atingiu um funeral e matou “inúmeros civis – com idades de 18 a 55 anos”. Em outubro de 2009, Scahill reportou: “Obama já autorizou, em 10 meses, a mesma quantidade de ataques com drones que Bush fez em seus oito anos de mandato”. Uma fonte militar contou a Scahill sobre uma operação de assassinato padrão das forças especiais na era Obama: “Se existe uma pessoa que eles estão atrás, mas no mesmo local estão outras 34, então 35 pessoas irão morrer”.
“Os Estados Unidos são os do bem”
Na semana passada, uma radialista do Irã me perguntou se eu pensei que a pesquisa do WINMR-Gallup iria incitar qualquer repercussão anti-imperial por parte dos cidadãos norte-americanos, eu tive que dizer que não, por três razões. Primeiro, por ter sérias dúvidas que qualquer parte da mídia dominante nos EUA iria prestar atenção a uma pesquisa que tivesse tido como resultado algo que eles considerariam radicalmente inconsistente com a já habitual ideia que os EUA são uma força de paz e estabilidade no mundo. Segundo, porque pesquisas similares já haviam sido – fracamente – reportadas em outras ocasiões e pouco impacto tiveram na opinião pública e na orientação política nos EUA, que permanece indiferente às visões que outras pessoas têm sobre a parte ruim do poder dos EUA.
Por ultimo, porque mesmo se a pesquisa e o que as pessoas no exterior pensam tivessem mais espaço na mídia norte-americana, parece irreal pensar que mais do que uma pequena minoria de cidadãos estejam prontos para aceitar a noção de que os EUA são realmente uma ameaça para a paz mundial, muito menos a maior ameaça. Considerando as reflexões do antigo correspondente internacional do New York Times Stephen Kinzer sobre as ações dos EUA na anexação do Havaí e das Filipinas, seu domínio sobre Porto Rico e seus golpes de Estado na Nicarágua e Honduras nos finais dos séculos 19 e 20:
“Por que os norte-americanos apoiam políticas que trazem tanto sofrimento às pessoas em terras estrangeiras? Existem duas razões para tal que, de tão interligadas, se tornam uma. A razão essencial é que o controle dos EUA em lugares distantes veio a ser visto como essencial para a prosperidade material dos EUA. Essa explicação, entretanto, está amarrada dentro de outra: a crença mais profunda da maioria dos norte-americanos de que o país deles é uma força para o bem no mundo. Então, consequentemente, até mesmo a mais destrutiva das missões em que os EUA embarcam para impor sua autoridade é tolerável. Gerações de políticos norte-americanos e líderes empresariais reconheceram o poder da nobre ideia do excepcionalismo dos EUA. Quando eles intervêm no exterior por razões estúpidas e egoístas, eles sempre insistem que, no final, suas ações irão beneficiar não apenas os EUA, mas também os cidadãos do país ao qual estão invadindo e, assim, por extensão, as causas da paz e da justiça no mundo”.
Esse problema do “excepcionalismo dos EUA” – a crença doutrinal de que os objetivos e comportamento dos EUA são inerentemente benevolentes, bem-intencionados e um bem para o mundo – permanece profundamente enraizado mais de um século depois. E é a principal razão para que as pessoas no mundo inteiro estejam corretas em identificar os EUA como a maior ameaça à paz no mundo. Nada é mais perigoso – e maléfico – que uma única superpotência militar que enxerga a si mesma além de qualquer reprimenda moral. Basta ler, a respeito disso, as seguintes declarações nacionalistas e narcisistas quanto à política externa norte-americana, tanto no partido democrata, quanto no republicano: “Um mundo uma vez dividido entre dois campos armados agora reconhece uma única e dominante potência, os Estados Unidos da América, e eles reconhecem isso sem temor, pois o mundo confia a nós com poder e o mundo está certo. Eles confiam em nós para sermos justos e comedidos. Eles confiam em nós para estar do lado da decência. Eles confiam em nós para fazermos o que é o certo”.  - Presidente George H.W. Bush, 1992.
“Quando eu fui eleito, eu estava determinado que nosso país entrasse no século 21 sendo ainda a maior força de paz e liberdade no mundo. Pela democracia, segurança e prosperidade”.  - Presidente Bill Clinton, 1996.
“A América foi escolhida para o ataque porque somos o mais brilhante raio da liberdade e oportunidade no mundo… Hoje, nossa nação viu o mal… Nossa força militar é poderosa e está preparada, nós iremos em frente para defender a liberdade e tudo o que é bom e justo em nosso mundo”. – Presidente George W. Bush, 11 de setembro de 2001.
“Nós lideramos o mundo combatendo males imediatos e promovendo o bem… A América é a última, a maior esperança da Terra… O maior propósito da América no mundo é promover e espalhar a liberdade. O momento americano não passou… Nós iremos aproveitar esse momento e renovar o mundo”.  - Candidato à presidência, Barack Obama, 23 de abril de 2007.
“Nossa segurança emana da justeza de nossa causa; a força de nosso exemplo; as qualidades moderadas de nossa humildade e comedimento”.  - Presidente Barack Obama, 20 de janeiro de 2009.
 “Os moralistas que pensam que não têm pecados”
Lendo essas declarações e considerando o quão criminosa, racista e imperial é a realidade da política externa dos EUA nesse e em outros séculos, pode-se pensar no que o M. Scott Peck, psicoterapista e autor do estudo do mal no ser humano, disse:
“O mal no mundo é cometido pelos moralistas que acham que não possuem pecados, pois não estão dispostos a sofrer do desconforto da autocrítica. Seu pecado mais básico é o orgulho – pois todos os pecados são reparáveis exceto o pecado de acreditar que não possui pecado. Uma vez que eles têm que negar sua própria maldade, é necessário enxerga-la nos outros. Eles projetam sua própria maldade no mundo”.
Isso soa como uma reflexão sobre a retórica norte-americana quanto ao “excepcionalismo dos EUA”. Quando combinada com o histórico alcance do poder militar norte-americano, o paralelo sugere que as pessoas no mundo estão perfeitamente certas em identificar a moralidade dos EUA como a maior ameaça à paz no planeta Terra.
O estudo de Peck, obviamente, era sobre indivíduos e não estruturas de poder. Até onde se sabe, Barack Obama é um indivíduo perfeitamente moral e caridoso em relação a sua família e amigos (o mesmo vale para George W. Bush).  Mas isso é irrelevante quando se fala de assuntos internacionais, onde o papel do presidente dos EUA e seus assessores de alto escalão é avançar no – encharcado de sangue – projeto imperial norte-americano, sob um pretexto de intenção benevolente e uma forma maligna e narcisista chamada de “excepcionalismo norte-americano”.
O mundo, claramente, não é mais enganado pela grande modificação de Obama quanto ao “Schwarzenegger da política internacional”. Ele entende, corretamente, que o primeiro presidente pós-Bush, eleito com as palavras “esperança” e “mudança”, não é nada mais do que um represente novo do império usando roupas velhas.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

José D. Costa seria o "seu Costa" dos anos 60 que foi a Catolé do Rocha divulgar o marxismo aos estudantes? Leiam a matéria publicada no Jornal de Hoje de Natal/RN.

Aos 81 anos, José Dantas Costa abre o baú para resgatar memórias

Por mais de 50 anos ele alimentou o sonho de transformar a realidade de camponeses esfomeados com um socialismo tropical

José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Foto: Divulgação
José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Foto: Divulgação
Conrado Carlos
Editor de Cultura
A menos de setecentos metros de alguns dos principais templos religiosos e capitalistas de Natal (a Igreja Universal da Salgado Filho, o Natal Shopping e a Arena das Dunas), mora um ex-comunista. Mas um ex-comunista de fato, com serviços prestados ao partidão em diversas unidades da Federação, com inúmeras prisões no currículo e uma histórica ocupação das margens da rodovia Belém-Brasília, a BR-010, com seus quase dois mil quilômetros de extensão, construída no final dos anos 1950. Hoje um homem com 81 anos de idade, de frágil compleição e traços fidalgos, herdados de antepassados portugueses, franceses e holandeses, José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Por mais de cinquenta anos ele alimentou o sonho de transformar a realidade de camponeses esfomeados com um socialismo tropical inspirado na Revolução Popular de Mao Tsé-tung.
Ainda criança, viu com os próprios olhos a semiescravidão que senhores de engenho alagoanos impunham aos trabalhadores de pele escura. Ao abandonar a utopia da juventude, decepcionado com a corrupção de antigos companheiros, adotou a poesia, a fotografia e viagens pelo mundo como novas bandeiras. Em pouco menos de três décadas, percorreu dois terços do planeta em andanças existenciais.
Corria o ano de 1932 e Marechal Deodoro, a primeira capital de Alagoas que, ironicamente, tomou emprestado o nome do primeiro presidente do Brasil vivia um clima pesado, com famílias tradicionais em pé de guerra.
Uma época violenta, em que disputas por terra e pela honra terminavam em mortes com revide garantido. Foi nesse ambiente que Sr. Dantas nasceu. Mal chegou à adolescência e seus pais o enviaram a Maceió, já promovida ao posto de maior município de um dos Estados mais pobres do país. A casa de um tio foi seu destino. Foi matriculado em uma escola industrial e mantido longe de outro irmão de seu pai que comandava as ‘ideias revolucionárias’ no núcleo familiar.  “Eu entrei cedo no Partido Comunista. Ainda estava na escola. Com o avanço dos direitos sociais que Getúlio Vargas copiou do fascismo italiano, vi que a vida dos camponeses poderia ser bem melhor. E como em minha família tinham vários membros do PC, foi um caminho natural que segui”. Os meros 15 anos vividos forneciam a disposição para intercalar agitações de rua com anseios púberes que o levaram à farra. “Garotos do interior sempre foram mais vivos, por isso eu perdi a virgindade muito jovem”.
Em outubro de 1947 o Brasil rompeu relações com a União Soviética e ser comunista virou um tormento. Surpreso com a vigente caçada, Sr.
Dantas estreou em uma prisão. Participava de uma movimentação na Maceió de antanho quando a polícia o prendeu. Foram quinze dias atrás das grades, para desespero de seus pais. “Aquilo foi um desastre na família. Eu era muito querido por todos, mas tinha fama de rebelde.
Quando fui preso foi como se confirmassem tudo o que pensavam a meu respeito”. O fato virou um marco zero na carreira de militante de esquerda. Nos anos subsequentes, perdeu a conta de quantas vezes visitou cadeias pútridas. “Só em 1964 foram oito vezes”. Abraçado pelo PC, ele virou uma espécie de enviado especial em vários Estados, aonde chegava com a obrigação de desenvolver a organização do partido, obcecado por três pilares pessoais: resistência, conhecimento e dedicação. Para tanto, estudos aprofundados em política e filosofia os credenciaram como peça indispensável no topo da estrutura. Peregrinou temporadas por Vitória, Salvador, Recife e Rio de Janeiro e despertou para a poesia, ao começar a publicar escritos nos jornais sob domínio da Esquerda. Até que o mandaram para Belém do Pará, um lugar então inóspito que seria sua casa pelos próximos trinta e dois anos.
“Naquela época, recebíamos cursos do Partido. Só que não tinha nada de guerrilha, eram cursos intelectuais. Sempre foi uma de minhas premissas, a da não violência. Ocupávamos terras no Pará, mas sem armas, sem agredir ninguém”. Em plena selva Amazônica, o jovem revolucionário aproveitou a fartura de atrativos carnais que todo pedaço de chão distante da civilização tem a oferecer. “Eu caí na gandaia na Amazônia”. Logo ele foi promovido a membro dirigente, o que permitiu sentar à mesa de negociações com gestores paraenses. Era um trabalho de difícil assimilação para os nativos, pois vigorava uma falta de consciência política, para quem os brasileiros apartados dos acontecimentos nacionais e internacionais. Mesmo assim, uma epopeia com 30 mil camponeses foi armada às margens da estrada recém-construída para ligar a capital Belém à cidade projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer. “Eu falo isso, mas tem gente que acha que é mentira: reunimos trinta mil trabalhadores e ocupamos faixas de terra por toda a rodovia” – durante quatro anos, Sr. Dantas respondeu um processo devido ao episódio, livrando-se apenas ao entrar com recurso no Superior Tribunal Militar. Trabalhava na Petrobras, tinha separado da primeira mulher, com quem teve dois filhos, no momento em que topou vir a Natal.
“O PC no Pará era romântico e um das seções mais avançadas no Brasil. Achávamos realmente que iríamos mudar tudo”. Pavel, ou Sr. Dantas, chega ao Rio Grande do Norte para ocupar um cargo de almoxarife na Petrobras. Sustentou a militância por um tempo, só que desde o Pará tinha perdido o vigor. “O Partido não merecia mais confiança. Podiam nos chamar de tudo, de agitadores, radicais, tudo, menos de que fazíamos parte de algum esquema de roubo e corrupção”. Veio o desencanto que pegou parcela expressiva dos outrora comunistas. Sem ideologia a seguir, concentrou-se nos poemas e foi curtir a aposentadoria ao lado da segunda esposa, a advogada Aninha – mulher de fibra que se divide entre Natal e Belém, onde cuida da mãe enferma. Os temas de seus versos são variados, o que inclui críticas bem humoradas à política atual.
Com um livro preste a ser lançado, ele é moderado ao analisar o governo do PT. “Não existe governo que não tenha coisas positivas. O PT tinha um bom caminho para percorrer, mas houve absurdos nos acordos que o Lula fez. Esse tipo de coisa [acordos com partidos distintos] sempre foi tendencioso para casos de corrupção. Mas sem o apoio dos outros ele jamais poderia governar”.
Filho de uma geração que esnobou seus poetas, Sr. Dantas trava uma luta contra a DMRI, a Degeneração Macular Relacionada com a Idade, uma doença que pode causar cegueira. Seus olhos azuis estão gradativamente sendo atingidos na área nobre e central da retina. A captação de detalhes visuais tem sido cada vez mais difícil. O tratamento tem lhe custado caro no bolso e na paciência. Enquanto isso, novas viagens estão programadas para 2014. Há cerca de um mês ele voltou da Colômbia e do Panamá, e agora planeja conhecer o Equador, uma das poucas nações latino-americanas ausentes de sua lista. “Dizem que o comunista ficou rico”, fala com o sorriso aberto. Como em um poema, cuja manifestação artística parte da fantasia, da verdade ou da pura sensibilidade estética, a trajetória de José Dantas Costa manteve uma estrutura parecida com a rima e a métrica dos melhores versos. Ora alegre, ora triste, como no câncer mortal que vitimou a mãe dos dois filhos, sua vida daria um livro, talvez escrito por Graham Greene, ou um filme de 007. “Como na linguagem política, tudo tem vitórias e atrasos. Existe muita coisa que ainda quero observar e estou totalmente dedicado ao tratamento e pesquisas sobre a doença”.
 
Blog
Ontem o governo cubano divulgou dados sobre a mortalidade infantil na ilha em 2013. Segundo a mídia oficial, foi mais uma vitória na área da saúde, o que sempre foi destacado por eles, desde que chegaram ao poder, 55 anos atrás. Só esqueceram de combinar com Pedro Juan Gutiérrez, um de meus escritores prediletos. No blog (conradocarlos.jornaldehoje.com.br) eu fiz um breve comentário sobre sua obra e como ele retratou o Período Especial, a meia década (1991-1994) mais brutal já vivida pelos conterrâneos de Fidel Castro.
Circuito Verão
A capital do Seridó será a primeira cidade a receber o Circuito Verão, projeto realizado pelo Sistema Fecomércio RN, através do Sesc. Neste final de semana (04 e 05), na bonita Ilha de Santana, das 8h às 22h, com entrada gratuita, uma série de atividades esportivas e culturais, além de serviços na área d