sexta-feira, 14 de março de 2014

50 anos depois, ex-militante retorna ao DOI-CODI

HISTÓRIA

Uma visita ao DOI-Codi, centro do terror nos Anos de Chumbo

Hoje uma delegacia, prédio em SP abrigava a máquina de repressão da ditadura. Cinco décadas após o golpe, a DW visita o local ao lado de um ex-militante, que relata os horrores vividos nos três meses em que ficou preso.
Adriano Diogo no lugar onde foi torturado, no anos 1970
As paredes são gelo e cinza. Nesse espaço quase sem cor, nos tempos da ditadura, outro tom comum era o vermelho sangue. Apesar de parcialmente abandonado, o antigo edifício do DOI-Codi em São Paulo, um dos principais centros de tortura do regime militar, ainda mete medo. O local foi palco da morte de 52 presos políticos, inclusive do jornalista Vladimir Herzog. Ali também ficou detida, em 1970, a presidente da República, Dilma Rousseff.
Hoje não restam manchas de sangue. Apenas rachaduras e poeira, marcas do tempo. Cinquenta anos depois do golpe, o espaço virou um enorme depósito de móveis, pneus, caixas, tintas, papéis e equipamentos. As salas guardam também lembranças, que reabrem as feridas dos sobreviventes e despertam fantasmas – assustando até mesmo os funcionários da delegacia que ainda hoje ali funciona.
É justamente por essa carga histórica que a antiga sede do DOI-Codi foi recentemente tombada e há uma iniciativa para transformá-la em memorial em homenagem às vítimas. A reportagem da DW esteve no local, acompanhada de um ex-militante político que lá esteve preso, para conferir as condições e conhecer um pouco da história do que pode ser um futuro centro de memória.
Tortura
No início, de 1969 a 1972, o órgão de inteligência e repressão política, subordinado ao Exército, estava localizado num pequeno edifício no terreno do atual 36º Distrito Policial da Polícia Civil de São Paulo. Atualmente, o sobrado da rua Tutoia, 921, na zona sul da cidade, está desativado e, também por isso, sofreu poucas modificações.
Local abriga hoje uma delegacia
As escadas que levam às antigas salas de interrogatório, onde eram realizadas as torturas, permanecem iguais. Em alguns ambientes, o piso, as paredes, as janelas basculantes e os batentes de madeira são originais. O prédio é composto por dois andares, com cerca de seis cômodos em cada um deles. Segundo o relato de presos políticos, paredes foram removidas e outras erguidas, descaracterizando parte do local.
Apesar das mudanças, os ex-militantes conseguem reconhecer onde foram interrogados. Um deles, Ivan Seixas, de 59 anos, foi capturado com o pai, Joaquim Alencar, também perseguido político na época. Os dois foram torturados juntos quando Ivan tinha apenas 16 anos. Os cômodos eram separados por uma fina divisória, e eles podiam escutar os gritos um do outro.
A mãe e as irmãs de Ivan, levadas até o DOI-Codi, também puderam ouvir o golpe final, que tirou a vida de Joaquim em 17 de abril de 1971. "Um dos torturadores gritou para o outro: 'não era para matar agora'. Depois eles desceram com o corpo e um policial perguntou: 'Quem é esse presunto?'. E o outro respondeu: 'Esse era o Roque', nome de guerra do meu pai. E escutei eles rirem", conta Ivan, reproduzindo o som macabro das risadas.
No DOI-Codi, Ivan conta que levou choques e golpes, atado a um pau de arara – instrumento de tortura em que a pessoa fica pendurada de cabeça para baixo, presa a um cano de metal pelas mãos e joelhos. "Quebraram uma das minhas costelas, e por isso tenho um problema nas costas até hoje." Depois passou ainda seis anos preso, em uma "via crucis de presídios e casas de detenção".
Tombamento
Em nome desses eventos passados e sequelas presentes, Ivan entrou com o pedido de tombamento do edifício em 2009, apoiado por entidades de defesa dos direitos humanos. A iniciativa é o primeiro passo para a criação de um memorial em homenagem às vitimas, reivindicação da sociedade civil ainda pendente de avaliação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
A antiga sala de Carlos Alberto Ustra
"Fazer do DOI-Codi um espaço de memória é também uma forma de condenar os torturados, de dizer que a sociedade não tolera isso", afirma Ivan, hoje coordenador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.
A notícia sobre o tombamento, em recortes de jornal, está numa das paredes da delegacia. "É para informar", explica um dos investigadores. Apesar da cordialidade dos agentes da corporação, entrar no espaço não foi fácil. Na primeira tentativa, imediatamente após o tombamento do prédio, a comitiva, que a DW acompanhou, foi barrada. Foi necessário formalizar um pedido em ofício junto à Secretaria de Segurança para obter uma autorização.
Para Deborah Neves, historiadora responsável pelo estudo técnico do tombamento do DOI-Codi, há uma mudança na mentalidade e na prática de preservação de "locais de memórias difíceis". Ela afirma que o próprio pedido do tombamento, que partiu da sociedade civil, demonstra isso.
A historiadora defende que o espaço tem um valor simbólico. "O DOI-Codi paulista foi pioneiro no país. Naquele lugar surgiu o modelo de repressão que se replicou durante a década de 70, baseada na mentalidade do AI-5."
É justamente por esse conteúdo simbólico que o presidente da Comissão da Verdade paulista e deputado estadual pelo PT, Adriano Diogo, quer retirar o 36º DP que funciona até hoje no terreno. "É como se uma usina de gás alemã funcionasse em um campo de concentração", diz Adriano, de 64 anos.
O terreno foi cedido ao Exército em 1979 por decreto do governador de São Paulo na época, Paulo Maluf. A proposta de Adriano é revogar a decisão e retirar o DP para dar lugar ao memorial.
Delegacia
A delegacia era a porta de entrada dos presos, que aguardavam nas celas para serem encaminhados ao sobrado do DOI-Codi e interrogados. Posteriormente, já nos anos 70, o órgão se mudou para dentro da delegacia, onde foi preparada uma sala de tortura com proteção acústica.
Ivan Seixas conta que levou choques e golpes no local
"Mesmo assim era possível escutar os gritos", conta Ivan. "Eles não se preocupavam em esconder. Com todo aquele barulho dia e noite, era um inferno para os moradores dos prédios ao redor." Segundo Ivan, era comum ver corpos jogados no pátio, que eram depois colocados em carros para o transporte. Tudo à vista dos vizinhos.
"Quando meu pai e eu chegamos ao DOI-Codi, demos muito azar. Era troca de turno, e havia uns 50 soldados no pátio. Fomos espancados ali mesmo. Foi tão forte que até a algema que unia o meu pulso ao do meu pai se rompeu." Ivan diz que, nesta ocasião, os vizinhos reclamaram, mas os soldados responderam com rajadas de metralhadora para o alto, o que rapidamente silenciou os protestos.
Embrião da repressão
Junto ao mesmo pátio, num terreno anexo, hoje ocupado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), está localizado o berço da Operação Bandeirantes (Oban), embrião do DOI-Codi. A área, cuja entrada fica na rua Tomás Carvalhal, também abrigava a sala do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do órgão e primeiro oficial condenado por sequestro e tortura durante o regime militar. O espaço, também desativado, está repleto de pneus e poeira.
Foi Ustra quem recebeu Adriano Diogo, em 1973, na delegacia, do outro lado do pátio. Segundo o relato do ex-militante, ele foi torturado pessoalmente pelo major durante os 90 dias em que passou confinado a uma solitária no local. "Imagina como você fica fragilizado por estar sem roupa, sem banho, comendo no escuro igual a um cachorro por três meses. Eu fiquei verde por falta de sol. Enlouqueci, conversava comigo mesmo", lembra.
A antiga solitária, com apenas uma fresta na porta de ferro para passar alimentos, é hoje outro espaço de depósito. A área é usada pela administração da seccional, assim como as antigas celas, transformadas em escritórios.
Após muitas reformas, a decoração mais moderna, que inclui teto de vidro, pisos brancos e jardim de inverno, é quase exitosa em apagar a lembrança do cárcere de outros anos. Não para Adriano, que se sente constantemente mal ao longo da visita. "Eu quero esquecer isso aqui", desabafa, num sinal de que quer apressar o percurso pelo terreno.
A solitária é hoje um depósito
Naquele edifício, Adriano conta que teve de assistir à própria mulher ser torturada. "Eles tinham um sadismo e uma preferência em humilhar sexualmente as mulheres. Faziam questão de torturá-las nuas, apalpavam na frente do companheiro." O ex-militante ficou preso ainda mais um ano, após sua passagem pelo DOI-Codi. Quando saiu, se dizia "paralisado pelo horror": "Não dá para passar uma borracha nisso."
Em outro ponto mais preservado da delegacia, ele mostra que a memória continua viva. Gesticula, recriando os móveis e instrumentos de tortura de antes. "Aqui tinha um cano de metal, onde os presos ficavam pendurados por algemas, esperando a vez no interrogatório."
Das memórias de Adriano saem palmatórias, paus de arara e barris de afogamento, para desconforto dos delegados e investigadores que acompanhavam a comitiva, formada pelo deputado, sua assessora e a reportagem da DW. Pelo menos um policial para cada visitante. Todos eles novos demais para terem vivido a época da ditadura. "Se os policiais ficam constrangidos, imagina a gente", assinala Adriano.
Fantasmas
Embora a história dos edifícios seja assustadora para muitos, os policiais afirmam que não se sentem mal em trabalhar ali. "É tranquilo, já nos acostumamos", diz uma. Já outros consideram o terreno mal-assombrado.
Ivan assegura que a situação chegou a tal ponto que ele foi chamado, muitos anos atrás, para exorcizar os fantasmas. "Disseram que eu tinha que ajudar. Eu ria e concordava. Disse que, se os espíritos falassem comigo, perguntaria onde estão os ossos. Eles me repreendiam, como se eu não estivesse levando a sério, mas eu estava", conta, sorrindo.
Ao que parece, hoje os fantasmas estão dispersando. "Antes os ares daqui eram muito pesados. Agora já está tranquilo", conta um policial mais velho. O motivo da melhora? "A passagem do tempo. E também diminuiu depois que indenizaram a família do Fiel", afirma, referindo-se ao operário Manoel Fiel Filho, assassinado no DOI-Codi.
Ainda assim, um dos investigadores assegura que, durante o plantão da noite, os funcionários não sobem para o segundo andar. O ambiente de histórica repressão também incomoda Adriano. Apesar da paciência e esforço em acompanhar a reportagem ao local, depois de cerca de uma hora, ele não aguenta mais. "Quero ir embora daqui". E sai.
Fonte: DW.DE

segunda-feira, 10 de março de 2014

Eduardo Coutinho em Dois Atos e um P.S.


Crônica de Marcius Cortez

       Ato I -  Conheci Eduardo Coutinho numa festa junina no bairro de Casa Forte em Recife no ano de 1962. Ele desembarcara na cidade dias depois de João Pedro Teixeira, fundador e organizador da Liga Camponesa de Sapé, ter sido assassinado a tiros de fuzil disparados por dois soldados da Polícia Militar e mais um civil a mando do fazendeiro Agnaldo Veloso Borges.  Com isso, a própria realidade passou a fornecer assunto para o documentário “Cabra Marcado para Morrer”. Coutinho se ocupou em registrar as reivindicações da população de Sapé, que se mobilizara exigindo justiça, mais de cinco mil trabalhadores rurais nas ruas da pequena cidade, distante 55 quilômetros de João Pessoa, Paraíba. Agnaldo, suplente de Deputado Estadual, renunciou ao mandato para se aproveitar do mal fadado foro privilegiado. Numa palavra, o latifundiário branco e poderoso não passou nenhum dia preso. No caso dos soldados, armou-se um júri com cartas marcadas: os acusados foram absolvidos por falta de provas. Já o civil, esse tomou doril e nunca mais ninguém viu. Paralelo a isso, o diretor seguia filmando a vida da viúva Elizabeth Teixeira e dos 11 filhos órfãos de pai. Foi quando eclodiu o Golpe de 64, a mudança social tão necessária ao país fora amarrada e amordaçada num poste. Paraíba e Pernambuco sofreram dura repressão nas primeiras semanas da “Gloriosa Revolução”. O incidente, registrado pela televisão francesa, do líder comunista Gregório Bezerra sendo arrastado pelas ruas do Recife é apenas um indicativo da barbárie que ensanguentou aquela época. Óbvio que a  cabeça do cineasta metido com as Ligas Camponesas fora posta a prêmio. Os usineiros queriam comer o fígado daquele comunista filho de uma égua. É aí onde entro eu. No dia 2 de abril de 1964 sentindo-me golpeado na alma, estou a perambular pelo centro da cidade quando na Praça Joaquim Nabuco, pertinho do famoso restaurante “Leite”, vejo entre os mendigos que se abrigam ali, um rosto familiar. Chego perto dele e pergunto “você não é o Eduardo Coutinho?” Arregalando os vinte olhos da cara, o falso mendigo confirmou, “sou eu mesmo”. Então Eduardo me conta que já havia sido preso, mas conseguira fugir e que só lhe restava fazer aquele teatro porque estava sendo caçado. "Olhe tá aqui meu endereço e a chave lá de casa". Rapidinho, o nosso amigo sumiu daquele lugar, não é preciso dizer que o homem estava desesperado. Escondi-o por três dias. Certa manhã, ele me comunicou que ia embora. Depois fiquei sabendo que arrumara um esquema que contava com a proteção de Ademar de Barros, o governador golpista de São Paulo, amigo de um familiar do diretor paulistano de nascimento.  
       Ato II - No segundo semestre do ano passado, encontro Eduardo na Cinemateca de São Paulo. Ele ia apresentar seu último filme para o auditório lotado. (É aquele que contem uma visão da televisão e da sociedade brasileira atual, trágico e engraçadíssimo, bem ao estilo do cineasta brasileiro, recentemente homenageado durante a cerimônia da entrega do Oscar). Após os debates, fui procurá-lo. No meio da conversa, um amigo dele me pergunta quem eu era. O criador de “Santo Forte” falou para eu contar aquela história do Recife. Foi o que bastou. Logo, logo estávamos a discutir se os usineiros preferiam Eduardo cozido no vapor, assado na brasa ou grelhado no espeto. Mal podia imaginar que aquela jocosa tarde era uma despedida. No dia 2 de fevereiro, tomo conhecimento de sua morte pelas redes sociais. Passo por alguns blogs que noticiam a tragédia. Sou atingido pelo teor dos comentários dos internautas. Claro aquilo não formava a maioria, porém o nível da truculência de certos comentários era revoltante. Um deles parabenizava o filho por ter matado aquele pai. Fecho correndo o computador. Nem sei o que dizer. A verdade é que tem gente que está no mundo para quebrar as nossas mãos. Nem sei se é consolo, mas me protejo pensando no escritor, jornalista e compositor Antônio Maria. Maria dizia que era pra gente nem dar bolas. Eles são uns idiotas, eles pensam que a gente escreve com a mão.
P.S. – Imagina quebrar as mãos de Eduardo Coutinho, um homem digno de todo o nosso afeto.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

"Os Golpes dentro do Golpe".

GOLPES DENTRO DO GOLPE
CARLOS CHAGAS LANÇA LIVRO COM BASTIDORES DA DITADURA MILITAR
JORNALISTA CARLOS CHAGAS LANÇA NOVO LIVRO “OS GOLPES DENTRO DO GOLPE”
Publicado: 13 de fevereiro de 2014 às 14:34 - Atualizado às 16:00
ditadura 01O jornalista Carlos Chagas vai lançar no final deste mês o primeiro volume do livro “Os golpes dentro do golpe – 1964-1969”. A publicação retrata o dia a dia de um dos períodos mais trágicos da história do Brasil. Chagas acompanhou todo o processo de instalação do regime militar e os desdobramentos que se seguiram.
De acordo com o próprio autor, houve muitas contradições até a queda da ditadura. “Acompanhei tudo. O impedimento do presidente Costa e Silva, a prisão do vice, Pedro Aleixo, a usurpação do poder pela Junta Militar e a escolha do general Garrastazu Médici para presidente da República”, lembrou o autor.
Ao consultar Roberto Marinho sobre a conveniência de escrever sobre o período para O Globo, Chagas foi autorizado a elaborar uma série de 22 reportagens de página inteira que o Estado de S. Paulo interessou-se em publicar simultaneamente, entre janeiro e fevereiro de 1970. As reportagens valeram o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano ao autor, assim como o primeiro processo movido pelo governo pela Lei de Segurança Nacional.
ditadura presidentes
Presidentes da ditadura a partir da esq., Castelo Branco, Médici, Figueiredo, Costa e Silva e Geisel
Durante os dois volumes do livro, Chaga relembra o que se desenrolou e foi divulgado e expõe episódios que a memória nacional esqueceu como uma série de eventos transcorridos nos bastidores. Entre os mais curiosos diálogos está o do coronel Meira Mattos, comandante das tropas que invadiram o Congresso em novembro de 1966, e o presidente da Câmara, Adaucto Lúcio Cardoso, além de conversas informais do marechal Castello Branco com jornalistas políticos e o atraso proposital de doze horas no relógio do Plenário da Constituinte de 1967 para evitar a edição de uma Constituição que não tinha o capítulo dos Direitos e Garantias Individuais.
gracias.cdr
Mais artigos sobre:

Fonte: Diário do Poder.

    quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

    As mudanças em Cuba.

    Fonte: UOL

    Condomínio fechado vira prêmio para comunistas fiéis em Cuba

    Damien Cave
    Em Havana (Cuba)
       


    Condomínios fechados viram prêmio para comunistas fiéis em Cuba5 fotos

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    O Projeto Granma, em Havana, é um dos vários empreendimentos habitacionais militares que existem em Cuba. Os condomínios são reservados às famílias ligadas aos militares e ao Ministério do Interior. Com seus balcões, ar-condicionado e tinta fresca, os novos apartamentos são os presentes mais públicos do governo para seus funcionários médios e um claro sinal da nova economia híbrida de Cuba, em que o Estado às vezes deve competir com a empresa privada Todd Heisler/The New York Times
    Nos esplêndidos bairros de Havana, antigas mansões estão sendo reformadas com tijolos importados. Os empresários almoçam sushi e dirigem luxuosos Audis. Agora, desejando se igualar, o governo está construindo algo especial para os seus: um empreendimento habitacional chamado Projeto Granma, com centenas de apartamentos confortáveis em um condomínio fechado que terá cinema e suas próprias escolas.
    "Vinte anos atrás ganhávamos um bom salário", disse Roberto Rodríguez, 51, um antigo funcionário do Ministério do Interior que foi o primeiro a mudar-se para o condomínio. "Mas o mundo mudou."
    Cuba está em transição. As reformas econômicas dos últimos anos abalaram a ordem estabelecida de classe e status social, permitindo que os cubanos com pequenas empresas ou acesso a capital estrangeiro chegassem mais alto que muitos comunistas fiéis. Enquanto esses novos caminhos do prestígio se expandem, desafiando o antigo sistema de recompensas pela obediência, o presidente Raúl Castro redobra esforços para promover os fiéis e manter sua lealdade - hoje e depois que os Castro partirem.
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    Fotos mostram o cotidiano dos moradores de Cuba62 fotos

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    28.jan.2013 - Jovens carregam bandeiras de Cuba duranta a tradicional marcha das tochas no 160º aniversário de nascimento do líder da independência cubana, José Martí, em Havana Alejandro Ernesto/EFE
    O Projeto Granma e "cidades militares" semelhantes em todo o país são edifícios de tranquilidade da cor do Caribe, reservados para os mais ardentes defensores da revolução cubana de 1959: famílias ligadas aos militares e ao Ministério do Interior. Com seus balcões, ar-condicionado e tinta fresca, os novos apartamentos são os presentes mais públicos do governo para seus funcionários médios e um claro sinal da nova economia híbrida de Cuba, em que o Estado às vezes deve competir com a empresa privada.
    O conjunto residencial é apenas um exemplo do crescente papel dos militares no plano de Castro para Cuba, e ilustra um conflito central em suas tentativas de abrir a economia sem desmontar a estrutura de poder que ele e seus camaradas construíram em mais de cinco décadas.
    Em curto prazo, analistas e ex-autoridades dizem que ele conta com os militares para aplicar suas reformas e manter a estabilidade enquanto experimenta a liberalização econômica. Mas sua dedicação como antigo soldado que foi ministro da Defesa durante 49 anos ameaça entrincheirar ainda mais uma instituição que muitas vezes diluiu as reformas que contestam sua posição privilegiada.
    "Raúl sabe que a resposta militar não é a resposta, mas também sabe que hoje ele precisa absolutamente da lealdade dos militares", disse Hal Klepak, um estudioso canadense que observa de perto os militares cubanos. "Eles são os únicos que o seguirão se a reforma tiver êxito, ou se ela falhar."
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    Carros em Cuba20 fotos

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    Um velho Oldsmobile transformado em táxi privado passa por rua em Havana em 2001
    Em 19 de dezembro de 2013, o governo cubano autorizou a livre importação de carros ao país, proibida durante meio século Leia mais AFP
    Raúl Castro e seu irmão, Fidel, guerrilheiros históricos, sempre recorreram aos militares em momentos de necessidade. Nos anos 1960 e início dos 70, enquanto a classe profissional de Cuba fugia, oficiais de uniforme dirigiram ministérios do governo e nacionalizaram indústrias. Desde os anos 1990, depois da queda da União Soviética, as forças armadas foram cortadas de cerca de 200 mil para 55 mil, mas também foram mais inseridas na economia cubana.
    Como presidente, Raúl Castro, 82, acelerou o crescimento do que alguns estudiosos descreveram como uma oligarquia militar. O presidente da Comissão de Política Econômica, Marino Murillo, é um ex-oficial. O maior conglomerado estatal cubano, Cimex, que processa aproximadamente US$ 1 bilhão de remessas de dinheiro de cubanos no exterior, entre outras tarefas, é dirigido pelo coronel Héctor Oroza Busutin. O genro de Raúl Castro, general Luis Alberto Rodríguez, é o principal executivo da companhia holding militar conhecida como Gaesa, que controlaria de 20% a 40% da economia cubana.
    E seu papel está se expandindo. Em 2011, uma filial financeira da empresa comprou a participação de 27% da Telecom Italia na companhia de telecomunicações cubana, por US$ 706 milhões. A Gaesa também tem uma rede de centenas de lojas de varejo que vendem de alimentos a eletrodomésticos. É também uma força em expansão no turismo, controlando frotas de ônibus de luxo, uma pequena companhia aérea e uma lista crescente de hotéis. E uma de suas subsidiárias supervisiona a zona de livre comércio construída junto ao maior projeto de infraestrutura cubano das últimas décadas - o novo porto de contêineres em Mariel.
    Os interesses dos militares concedem os privilégios dos negócios a alguns escolhidos, especialmente oficiais graduados.
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    Enterro de mentira é tradição em cidade cubana9 fotos

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    Em foto de 5 de fevereiro, o cubano Divaldo Aguiar, que interpreta o "morto" Pachencho, bebe rum jogado em sua boca por moradores do vilarejo Santiago de Las Vegas, durante o Enterro de Pachencho, encenação de funeral que se tornou tradição na pequena cidade próxima a Havana Franklin Reyes/AP
    "Eles vivem melhor que quase todo mundo em Cuba", disse Brian Latell, um ex-oficial da CIA que trabalhou em Cuba.
    Mas nas fileiras médias e baixas, segundo especialistas, a estima e a riqueza relativa se desgastaram. Os oficiais de carreira em Cuba hoje geralmente têm amigos ou parentes que vivem no exterior ou que visitam Miami e muitas vezes lhes trazem telefones ou roupas que não existem nas lojas emboloradas do Estado.
    Enquanto isso, os militares devem relatar todas as remessas que recebem e não podem ter qualquer "contato não autorizado" com estrangeiros ou cubanos que vivem no exterior - limitando o acesso ao dinheiro que outros cubanos usam não apenas para compras, mas também para melhorar suas casas e abrir pequenas empresas.
    "Isso está causando um êxodo de pessoas talentosas do Estado para o setor privado", disse Jorge Dámaso, 75, um coronel aposentado e autor de um blog que muitas vezes critica o governo. "A maioria dos militares viu sua qualidade de vida cair, comparada com a de um garçom ou alguém que tem uma pequena empresa. Eles podem ver que estão em desvantagem."
    As novas moradias, uma necessidade básica com oferta extremamente baixa em toda a ilha, parecem para muitos cubanos mais uma tentativa de favoritismo. Segundo números do governo, o orçamento para construção dos militares mais que dobrou desde 2010. Quando combinadas com o Ministério do Interior (muitas vezes descrito como uma filial dos militares), as forças armadas hoje são a segunda entidade de construção do país.
    O Projeto Granma - que leva o nome do barco que Fidel Castro pegou no México para iniciar a revolução cubana - é um dos vários empreendimentos habitacionais militares que existem no país. Seu equivalente em Santiago de Cuba, onde começou a revolução de Castro, foi criticado por cubanos que vivem em dificuldades em casas destroçadas pelo furacão Sandy. Mas, como uma tentativa de igualar-se ao setor privado ou à vida em outros países, talvez não seja por acaso que as cores e a arquitetura do Projeto Granma, no mesmo bairro que Raúl Castro chama de lar, dão a sensação de um condomínio na Flórida.
    No cabo de guerra que definiu as políticas econômicas de Cuba nos últimos dois anos, o governo muitas vezes hesitou sobre quando deixar o mercado funcionar e quando proteger a estrutura comunista. As autoridades cubanas, por exemplo, embarcaram recentemente em uma repressão aos vendedores particulares de roupas e outros artigos, uma campanha amplamente considerada uma tentativa de beneficiar a rede de lojas estatais.
    Dámaso, que esteve 32 anos nos militares, disse que os líderes do país, enquanto desejam uma melhora econômica, querem principalmente preservar a Cuba que conhecem.
    "Se você tem uma empresa dirigida por militares, quando houver uma transição você não vai se livrar de toda essa gente", diz ele. "Essa é uma maneira de preservar um espaço para os poderes estabelecidos em uma futura sociedade cubana."
    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 
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    Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba11 fotos

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    Fidel Castro (à esquerda), ex-líder cubano, participou da abertura Assembleia Nacional ao lado de seu irmão, o presidente Raúl Castro (centro), e do primeiro vice-presidente da ilha, José Ramón Machado Ventura (à direita), neste domingo (24), em Havana. Como a reeleição de Raúl é dada como certa, a imprensa internacional especula quem vai ocupar o cargo de Ventura, um dirigente histórico em Cuba Leia mais Marcelino Vazquez/AIN Foto/Reuters

    sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

    Militar da reserva admite farsa no Caso Rubens Paiva.

    Em depoimento, militar da reserva admite farsa no Caso Rubens Paiva

    Reportagem publicada no site do jornal O Globo nesta quinta-feira revela o depoimento de um militar da reserva sobre o caso do ex-deputadoRubens Beirodt Paiva, desaparecido no dia 20 de janeiro de 1971, depois de ser levado para a carceragem do Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército (DOI-I), no Rio de Janeiro.

    Acesse o site especial com todas as matérias sobre o caso

    Segundo o general reformado Raimundo Ronaldo Campos revelou no decorrer das investigações da Comissão da Verdade, realizadas no fim do ano passado, o Exército montou uma farsa ao sustentar, na época, que Paiva foi resgatado por seus companheiros “terroristas” ao ser transportado por agentes do DOI no Alto da Boa Vista, para fazer um reconhecimento.

    Ronaldo, que era capitão, foi apontado na ocasião como o condutor do veículo, na companhia dos sargentos e irmãos Jacy e Jurandir Ochsendorf (os três serviram na unidade).
    Até então, duas provas indicavam que Paiva dera entrada no DOI, depois de ser preso em casa, no Leblon, por uma guarnição da Aeronáutica: o depoimento de Amilcar Lobo, ex-tenente que teria tentado socorrer o ex-deputado, e um ofício encontrado na casa de um ex-comandante do DOI-I, coronel Molinas Dias.

    A acusação que pesava sobre o ex-deputado era manter correspondência com exilados brasileiros no Chile.