sexta-feira, 21 de março de 2014


Vítimas da Casa da Morte foram jogadas dentro de rio, diz coronel

  • Militar revela à Comissão Estadual da Verdade que corpos foram mutilados e jogados na água em Petrópolis
TÓPICOS DA MATÉRIA:

Fonte: o globo on line.
CHICO OTAVIO 
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Casa da morte em Petrópolis
Foto: Custódio Coimbra / O Globo

Casa da morte em Petrópolis Custódio Coimbra / O Globo
RIO — Um rio da Região Serrana, nas proximidades do distrito de Itaipava, foi o destino dos corpos das vítimas da Casa da Morte de Petrópolis. E nada foi feito sem o conhecimento prévio dos generais do regime militar. Em 20 horas de depoimento à Comissão Estadual da Verdade, o coronel reformado Paulo Malhães, de 76 anos, um dos mais atuantes agentes do Centro de Informações do Exército (CIE) nos anos de chumbo, finalmente deu as respostas perseguidas há décadas. Ele também confirmou ter desenterrado e sumido com o corpo do ex-deputado Rubens Paiva, morto sob torturas em janeiro de 1971, e explicou como a repressão fazia para apagar os vestígios de suas vítimas.
Um dos trechos marcantes do depoimento é o método de desaparecimento. Para evitar o risco de identificação, as arcadas dentárias e os dedos das mãos eram retirados. Em seguida, o corpo era embalado em saco impermeável e jogado no rio, com pedras de peso calculado para evitar que descesse ao fundo ou flutuasse. Além disso, o ventre da vítima era cortado para impedir que o corpo inchasse e emergisse. Assim, seguiria o curso do rio até desaparecer. Sobre Rubens Paiva, ao GLOBO, Malhães disse que lançou o corpo no mar. À Comissão da Verdade do Rio (CEV), contou que o destino do ex-deputado foi o mesmo rio da Região Serrana onde foram jogados outros desaparecidos políticos:
— É inaceitável que o Exército finja que nada acontece e não se pronuncie. Ele tem obrigação legal e moral de vir a público, confirmar ou desmentir os relatos dele (Malhães) e de outros agentes. Sugiro até ao comandante do Exército que compareça à audiência pública sobre a Casa da Morte, convocada pela Comissão Nacional da Verdade, e esclareça em definitivo o que o povo quer saber — disse Wadih Damous, presidente da CEV.
No domingo, O GLOBO publicou, sob o compromisso de sigilo de fonte, o relato de Malhães sobre a operação que desenterrou o corpo de Rubens Paiva no Recreio dos Bandeirantes e o lançou ao mar, em 1973. Porém, o próprio coronel decidiu assumir publicamente o seu papel no episódio. Ele disse que o corpo foi enterrado inicialmente no Alto de Boa Vista e, posteriormente, levado para o Recreio, de onde o retirou, por ordens do gabinete do ministro do Exército (na época, Orlando Geisel), porque havia risco de vazamento da sua localização dentro da própria repressão.
Veja as principais revelações do depoimento de Malhães sobre a Casa da Morte:
Inês Etienne, a sobrevivente
“Foi decretada a morte dela, mas com fins políticos. Tinha que ser um membro do gabinete do ministro do Exército a fazer, matá-la, para eles — os próprios caras que tiveram a ideia —, tornarem isto público, o ministro cair e subir outro general de Exército que levaria um time todo grande a ser general.”
Casa da Morte de Petrópolis
“E nós não tínhamos só um (aparelho clandestino) em Petrópolis. Nós tínhamos outros mais desviados. Nós queríamos um lugar que fosse tranquilo, que fosse calmo. E a casa de Petrópolis era o ideal. O CIE (Centro de Informações do Exército) tinha controle daquilo. Sabia o que se passava por ali.”
Outro aparelho em Petrópolis
“O aparelho (Casa da Morte) foi transferido. Foi para um (local) que era mais afastado, em Itaipava, uma casa até bonita, na beira do rio. Deve existir. Não funcionou muito tempo não, aí já estava esse negócio de vai, não vai, fica e não fica, o melhor é apagar isso do mapa. Era alugada por algum de nós, mas com outro nome.”
Desaparecimentos de corpos
“Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”
A técnica
“É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro. Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui (Baixada).”
Rubens Paiva
“Rubens Paiva, calculo, morreu por erro. Os caras exageravam naquilo que faziam, sem necessidade. Ficavam satisfeitos e sorridentes ao tirar sangue e dar porrada. Isso aconteceu com Rubens Paiva. Deram tanta porrada nele que, quando foram ver, já estava morto. Ai ficou o abacaxi, o que fazer? Se faz o que com o morto? Se enterra e se conta este negócio do sequestro. Só que o cara, primeiro, enterrou na estrada que vai para o Alto da Boa Vista. Aí, estavam fazendo a beirada da estrada, cimentando, e o cara viu que eles iam passar por cima do corpo. Foi lá e tirou.”
Destino final de Paiva
“Enterrar, queimar, botar no ácido, que desaparece. Tudo isso passou pela minha cabeça. Mas as dificuldades encontradas para fazer isso, já eram outras. Então, disse: ‘vamos resolver esse problema de modo que não deixe rastro’. Aí surgiu essa ideia. Discutimos a ideia e achamos que era a ideia mais viável.”
Prisões clandestinas
“Quando o cara entra no quartel, sabe que está seguro, que ninguém vai matá-lo. Quando você prende ele em uma casa, pensa: ‘Por que me trouxeram para cá e não me levaram para o quartel?’ E a gente ameaçava com isto: ‘Você já viu que você está preso, mas não está preso no quartel. Você está preso em uma casa. Daqui você pode ir para qualquer lugar. Aqui você não está inscrito em nada.”
Cadeia de comando
“Ele (o ministro) era sempre informado. Estava sabendo. Relatórios eram feitos e entregues ao chefe da seção com os EEI, Elementos Essenciais de Informações. Então, através desses EEI, eles sabiam tudo.”
Interrogatórios
“Aprendi que um homem que apanha na cara não fala mais nada. Você dá uma bofetada e ele se tranca. Você passa a ser o maior ofensor dele e o maior inimigo dele. A rigidez é o volume de voz, apertar ele psicologicamente, sobre o que ele é, quais são as consequências. Isto sim. Tudo isto é psicológico. Principalmente quando houve outros casos, né? Fulano foi preso e sumiu. Ele não é preso em uma unidade militar, ele vai para um lugar completamente estranho, civil, vamos dizer assim, uma casa. Ninguém sabe que ele está lá. Não há registro. Tudo isto é coação psicológica.”
Guerrilha
“Destruímos todas as organizações subversivas porque acabamos com a cabeça delas. Quando você corta a cabeça de uma cobra você acaba com a cobra. Então, este foi o nosso trabalho.”
Sono perdido
“Poxa, não. Só perdi noite de sono estudando (as organizações de esquerda). Até hoje, estudo.”
Aposentadoria
“Me retraí quando o meu mundo começou a virar. Quando fui sentindo que nós, que tínhamos lutado, e não fomos tantos assim, estávamos perdendo poder. Foi mais ou menos na época do governo Sarney.”
Carreira na repressão
“O DOI (Destacamento de Informações de Operações) é o primeiro degrau. Você entra ali, voando. Aí, se brutaliza, passa a ser igual aos outros, mas depois vai raciocinando e se estruturando. Houve uma mudança da porrada para o choque. Você pode dizer: ‘Foi uma mudança ruim’. Foi não. Não deixava trauma, não deixava marca, não deixava nada. Já foi uma evolução. Ai, você vai caminhando, aprende de outros lugares, também. De outros países, como é feita a coisa. Então, você se torna um outro personagem, um outro cara e, por causa disto, você é guindado a um órgão superior por ser um cara diferente e agir diferente. Tem muito mais amplitude, tem um universo muito maior, aí você se torna um expert em informações.”
Criação do Cisa
“Levamos a ideia do CIE para o Burnier (brigadeiro João Paulo Burnier). Ele mostrou para o ministro (da Aeronáutica, Márcio de Souza Melo), que disse: ‘Poxa que troço! Então funciona’. Aí, fundou o Cisa (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica. Tanto é que recebi a medalha de Mérito da Aeronáutica. Eu até me senti muito orgulhoso, foi o dia em que eu fiquei mais vaidoso.”


quarta-feira, 19 de março de 2014

O Barão de Itararé e as suas sátiras.

GRANDE PIADA DO BARÃO FOI QUANDO O VICE PRESIDENTE DA REPUBLICA, MELO VIANA,  MINEIRO E VERDADEIRO CRIADOR DA UFMG, LEVOU UM TIRO EM MONTES CLAROS POR UM JAGUNÇO DA TIBURTINA.
O PRINCIPAL MATUTINO DO RIO, A MANHÃ, ESTAMPOU A MANCHETE: "ALVEJADO O VICE PRESIDENTE DA REPÚBLICA".
O BARÃO SATIRIZOU A NOTÍCIA NO SEU JORNAL VESPERTINO, COMENTANDO: QUE SÓ DAQUELA MANEIRA O VICE PODERIA SER ALVEJADO.
TRATA-SE DE TROCADILHO RACISTA, ALUSIVO À COR MULATA DE MELO VIANA.

Na foto à direita, a frase “entre sem bater” tem uma história: um dia, por motivos políticos, entraram uns policiais no escritório do Barão de Itararé e lhe desceram a porrada “para ele aprender a ser mais respeitoso com as autoridades”. No dia seguinte, usando de inteligente duplo sentido,  ele pôs o aviso na porta. Ele usava também o pseudônimo de Aporelly, mistura de Apparício com Torelly, e Barão de Itararé é uma gozação em que ele criou um título nobiliárquico em cima de uma batalha que não aconteceu, na Guerra do Paraguai.
"O que se leva desta vida é a vida que a gente leva", uma das frases antológicas de Barão de Itararé!
Barão de Itararé
Frases impagáveis do Barão de Itararé
O uísque é uma cachaça metida a besta.
O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.
 
A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.
 
Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.
 
Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
 
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.
 
Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
 
Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar.
 
Mantenha a cabeça fria, se quiser idéias frescas.
 
O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.
 
Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
 
Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
 
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
 
Quem dá aos pobres ou empresta, adeus. 
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
 
O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
 
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
 
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
 
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
 
Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.
 
O fígado faz muito mal à bebida.
 
O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.
 
A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.
 
Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…
 
Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.
 
Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
 
Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!
 
Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…
 
Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.
As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra.
 
O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.
 
Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.
Quem não muda de caminho é trem.
 
A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

terça-feira, 18 de março de 2014

Restos de Rubens Paiva teriam sido jogados no mar.

Restos mortais de Rubens Paiva teriam sido jogados ao mar

Os restos mortais do deputado Rubens Paiva teriam sido jogados ao mar em 1973, depois de dois anos enterrados nas areias do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. A revelação foi feita por um coronel reformado, de 76 anos, ao jornal O Globo no momento em que o Ministério Público Federal (MPF) se prepara para denunciar quatro militares envolvidos com a morte do ex-deputado, ocorrida entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1971.
— Pelo estado do corpo, não posso dizer de quem era, nem cabia a mim identificá-lo. Mas o nome que ouvi foi o de Rubens Paiva — disse ao O Globo o coronel que topou dar entrevista sob o compromisso do anonimato.
>>> Saiba mais sobre o caso Rubens Paiva
Conforme a reportagem, o oficial participou de todas as missões importantes do Centro de Informações do Exército (CIE) na chamada "guerra suja", período mais sangrento do regime militar, entre 1969 e 1974. Ele contou que montou uma equipe de 15 homens, disfarçados de turistas, e passou 15 dias abrindo buracos na praia — as escavações eram feitas dentro de uma barraca — até encontrar o corpo ensacado:
— De lá, ele (o corpo) seguiu de caminhão até o Iate Clube do Rio, foi embarcado numa lancha e lançado no mar. Estudamos o movimento das correntes marinhas e sabíamos o momento certo em que ela ia para o oceano.
Em 1987, denúncias anônimas levaram a polícia fluminense a escavar na Praia do Recreio dos Bandeirantes, na tentativa de encontrar o corpo de Paiva. O procedimento foi repetido em 1999, em uma área em frente ao Corpo de Bombeiros no Alto da Boa Vista, com o mesmo objetivo.
— As pistas estavam corretas. O corpo realmente passou por estes lugares, onde já não estava na época das buscas — garantiu o coronel reformado ao O Globo.
Após dois anos de trabalho, o grupo Justiça de Transição, do MPF, deve denunciar os oficiais reformados José Antônio Nogueira Belham, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército (DOI-I), onde Paiva morreu sob torturas; e Raimundo Ronaldo Campos, que admitiu ter montado uma farsa para forjar a fuga do ex-deputado, além dos irmãos e ex-sargentos Jacy e Jurandyr Ochsendorf, também envolvidos na fraude.
Fonte: zerohora.com.br

domingo, 16 de março de 2014

O golpe de 1964 e José Serra.


O golpe de 64 visto de perto pelo líder estudantil José Serra

RESUMO Em 1º de abril de 1964, quando os militares tomaram o poder no país, José Serra, 22, era o presidente da UNE. O texto publicado nas próximas páginas é um trecho editado de "Cinquenta Anos Esta Noite", a sair pela Record em junho, no qual o político narra, em tom pessoal, a escalada dos eventos que levariam ao golpe.
*
- Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo, contra seu governo e contra o senhor mesmo.
- Olha, jovem, tu não precisas te preocupar, porque, antes de vir aqui, já tomei providências para retirar. Não deixem essa notícia circular, pois vou anunciar depois de amanhã. Acho bom vocês continuarem falando contra daqui até lá. Direi que atendi a seu pedido. Mas o estado de sítio não era para agredir vocês, não era contra o povo, não. Ao contrário. Eu sei das dificuldades que tenho Agora vou lhes dizer uma coisa: eu não vou terminar este mandato, não. Não chegarei até o fim.
O presidente era João Goulart, e o jovem, eu mesmo, numa tarde de domingo, 6 de outubro de 1963, no apartamento de um familiar de Jango, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Estavam lá uns seis ou sete dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP).
Eu era presidente da UNE, e o então deputado Leonel Brizola, ao abrir a reunião sigilosa, sugeriu que eu expusesse os motivos de nossa rejeição ao estado de sítio que Jango solicitara ao Congresso.
Divulgação
"O Sorriso" (1964), óleo e gesso sobre aglomerado de Antonio Dias
"O Sorriso" (1964), óleo e gesso sobre aglomerado de Antonio Dias
Na FMP, havia sempre uma tensão entre duas alas: a mais brizolista e radical e a que girava em torno do Partido Comunista Brasileiro e do então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, tida como mais moderada. O PCB era a força hegemônica da Frente do Recife, que elegera Arraes prefeito e depois governador. Dentro da FMP, de certo modo, a UNE era tida como não alinhada.
João Goulart estava sentado numa cadeira confortável, com uma perna esticada num banquinho, e falava sem focalizar bem os interlocutores nos olhos. Parecia cansado, mas foi cordial até mesmo quando um dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) Demístocles Batista, o Batistinha, poderoso dirigente dos ferroviários, para constrangimento de todos, entregou-lhe uma cópia da carta-testamento de Getúlio, insinuando que não a estava respeitando.
A partir do episódio do estado de sítio e da reunião com Jango, senti que o governo não iria se aguentar. Fiquei assombrado ao ouvir do presidente da República, conformado, uma convincente previsão pessimista sobre o destino do seu mandato. Não parecia fazer chantagem emocional. Em nenhum momento mais, nos seis meses que transcorreriam até o golpe, essa ideia me abandonou.
Depois da conversa, fomos para o lanche, no outro lado da sala, de pé, num ambiente mais descontraído, com sanduíches frios, refrigerantes e um enjoativo vinho branco alemão, que era moda na época. Bebida destilada, nem pensar, não aparecia nesse tipo de reunião política. Enquanto bebia o vinho, Jango me puxou para o lado e disse, em tom confidencial, algo que me deixou um tanto sem graça: "Sabe, Serra, os militares vivem me dizendo que a tua UNE e tu mesmo mereciam umas boas palmadas, mas eu defendo vocês. Sabias? Eu te defendo. Sei o que me custa. Vocês devem se cuidar".
EXCEÇÃO
O lance do estado de sítio fora ousado. O governo enviara o projeto ao Congresso dentro do que previa a Constituição. Na Câmara, a relatoria ficou nas mãos do PSD -partido de "centro" que, em tese, apoiava Jango e era o maior do Parlamento-, com o experiente deputado Vieira de Mello, que anunciou um projeto substitutivo que esterilizaria a medida. Mas Jango tinha o propósito de implantá-la de fato, abrindo o caminho para um regime de exceção, nominalmente transitório.
O governo federal interviria na Guanabara e em São Paulo, afastando, respectivamente, Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, então governadores desses Estados. Se não acolhesse o projeto na forma original, o Congresso seria posto em recesso, e seriam convocadas eleições para dali a seis meses, de vereador a presidente. Jango assegurava que não se candidataria.
Nesse ínterim, seria preparada uma reforma constitucional -na qual estariam previstas as "reformas de base", termo criado pelo deputado e ex-ministro San Tiago Dantas, e que viera para ficar-, a ser submetida a plebiscito.
A proposta do estado de sítio, que se completaria com relatos paralelos, fora transmitida alguns dias antes aos dirigentes da FMP, Brizola presente, numa reunião tarde da noite, à qual compareceram dois vice-presidentes da UNE, Marcelo Cerqueira e Duarte Pereira. Eu estava na Bahia, num comício que comemorava o décimo aniversário da Petrobras.
Ao lado do então deputado Almino Affonso, ex-ministro do Trabalho de Jango e o parlamentar mais brilhante e respeitado do PTB, eles deram opinião claramente discordante, argumentando que aquele processo desembocaria na quebra da legalidade democrática, num golpe. Nessa noite, Affonso e os dois estudantes pautaram a FMP, inclusive Brizola, que fora o portador da proposta, sem emitir um juízo de valor claro sobre ela, mas mostrando certa simpatia.
Jango não tinha personalidade autoritária e estava longe de ser um inveterado golpista, à moda de Carlos Lacerda. Sabíamos que tivera chance de promover golpes no passado não distante, talvez em condições mais propícias para si, quando o general Amaury Kruel era chefe da Casa Militar e depois ministro da Guerra, e o general Osvino Alves, comandante do poderoso Primeiro Exército, do Rio de Janeiro. Mas não o fizera.
Não creio mesmo que Jango tivesse atuado de forma entusiasmada no roteiro do regime de exceção, via estado de sítio. Mas embarcara nele. Pelo nosso lado, achávamos -e eu estava convencido disto- que, se o presidente forçasse a marcha do projeto, perderia rapidamente o controle e abriria o caminho para uma ditadura militar de verdade. Suprimir as garantias e liberdades constitucionais e substituir governadores de três Estados importantes por generais resultaria no quê? Pior: tudo isso acabaria sendo feito com o nosso apoio, caso embarcássemos no início da aventura.
POSIÇÃO
Nos dias seguintes àquela reunião na madrugada, depois de uma breve hesitação, os diferentes integrantes da FMP foram tomando posição contrária à proposta do estado de sítio.
Mas ela não deixou de prosperar só por causa disso, nem por causa do Congresso -ou seja, pela oposição da esquerda e do centro-, mas também porque Jango não encontrara o suporte militar necessário. Tentara pôr seu golpe "preventivo" em marcha, do seu jeito hesitante, e não o conseguira.
Divulgação
"Batalha com uma Amiga" (1964), óleo e gesso sobre aglomerado, de Antonio Dias
"Batalha com uma Amiga" (1964), óleo e gesso sobre aglomerado, de Antonio Dias
O principal indicador a esse respeito foi o fato de ele, naqueles dias, ter acionado (ou ter dado sinal verde para tanto) seu esquema militar para prender o governador da Guanabara, numa operação de paraquedistas, que fracassara.
Lacerda, provocador como só ele, havia dado uma entrevista ao jornal "Los Angeles Times" dizendo que "os nossos amigos americanos não deveriam dar nenhuma ajuda ao governo criptocomunista de João Goulart", acrescentando que o presidente não terminaria o mandato. Mas era gravíssimo que o dispositivo militar de Jango tivesse tentado a prisão e sintomático que, de tão bisonho, não tivesse conseguido. A percepção de que, à sua maneira, Jango preparava-se para sair, confirmou-se diante da lógica dos fatos nos meses seguintes. Ele não deixaria a vida, como Getúlio, mas o cargo, para entrar na história como um líder popular injustiçado. Ficaria em sua fazenda, em São Borja, e, quem sabe, seria um dia chamado de volta.
TESTES
Antes de mudar para o Rio e assumir o cargo na UNE, em julho de 1963, não houve tempo para grandes treinamentos. Tive de aprender fazendo. Já no primeiro mês, houve dois testes difíceis e um evento traumático em Brasília, que marcou o começo do fim do governo de João Goulart.
O primeiro teste foi uma CPI na Câmara dos Deputados sobre a UNE, a subversão e o pretenso ouro de Moscou, que, segundo os detratores da entidade, financiaria o movimento estudantil. Atravessei um dia inteiro de depoimentos e interrogatórios, da manhã até a noite, enfrentando parlamentares experientes, cujo único propósito parecia ser o de garantir manchetes escandalosas à grande imprensa.
Outro teste foi o comício em homenagem a Getúlio Vargas, pelo nono aniversário de sua morte, na Cinelândia, no centro do Rio, quando fiz o discurso mais desassombrado de minha vida.
A fim de que eu não falasse no início, quando a audiência é sempre mais dispersiva, atrasamos a chegada ao palanque caminhando entre a multidão, em vez de entrar por trás. Mas erramos o cálculo, o atraso foi excessivo e, de paletó e gravata, como era costume na época, acabei fazendo o último discurso antes do pronunciamento de Jango.
Num comício daquele tamanho, não dava para ler nenhum texto; por isso, escrevi e memorizei cada frase. Minha experiência no Grupo Teatral Politécnico ajudava. Fui educado, mas contundente.
Falei ao lado de Jango e dos seus ministros militares, que estavam no palanque. Lembro-me bem do general Jair Dantas, de uniforme, óculos de aros grossos, baixa estatura, expressão cordial. Comecei dizendo que estaríamos ao lado do presidente da República enquanto ele estivesse do lado do povo. Critiquei a possível nomeação do general Amaury Kruel para o
Segundo Exército, de São Paulo, dizendo que tinha vocação golpista - aliás, quando ministro da Guerra, conspirara nesse sentido. E agora ia para o Segundo Exército?
Acusei o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, um dos nossos alvos preferenciais -creio que, nessa matéria, só perdia para Lacerda-, de interferir em assuntos internos da política brasileira e manifestei oposição veemente à ideia, que já circulava no governo Jango, de intervenção federal em São Paulo e na Guanabara. Disse que Adhemar e Lacerda eram golpistas, mas que o remédio para combatê-los não era quebrar a legalidade. Como a tese da defesa das regras do jogo democrático não combinava com a imagem que a imprensa tinha da UNE, esse pedaço do discurso não apareceu nos jornais.
Acabei criticando até o organizador do comício, Gilberto Crockat de Sá, assessor de Jango, presente ao palanque, acusando-o de pretender dividir o movimento sindical. Um grande foco de ataque foi o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), entidade privada de extrema direita, que organizava campanhas anticomunistas e financiara candidatos a deputado na campanha eleitoral do ano anterior, quando gastou, a preços de hoje, mais de US$ 40 milhões só em dinheiro da CIA -no câmbio livre, uma fortuna para a época.
Esse discurso esfriou nossa relação com Jango, que começara bem logo após minha posse, quando ele nos convidara para um jantar informal e acolhera de forma entusiasta nossas demandas sobre a educação: apoio às campanhas de alfabetização, que fazíamos a sério, por um fim à vitaliciedade da cátedra universitária e dobrar a oferta de vagas no ensino superior federal. Levei os números: havia menos de 100 mil universitários no Brasil, e a taxa de escolarização bruta era de apenas 1%.
REBELIÃO
No começo de setembro de 1963, houve uma rebelião de sargentos e suboficiais da Marinha e da Aeronáutica em Brasília. Por algumas horas, isolaram a capital, ocuparam a praça dos Três Poderes, apossaram-se do Ministério da Marinha, detiveram oficiais e os presidentes da Câmara e do STF.
A insurreição não deu certo, mas seu impacto político e psicológico adverso para o governo de Jango foi imenso: deu a impressão de que, sob sua chefia, o Estado corria o risco de naufragar.
ALVO
Após o "affaire" do estado de sítio, fez-se uma reunião da FMP em Brasília, na qual o principal alvo foi o fim da "política de conciliação" de Jango, divisa comum a todas as forças que a integravam. Aprovou-se uma agressiva declaração formal de independência em relação ao governo. Na minha cabeça, o presidente iria cair e nós também cairíamos, mas que não caíssemos como janguistas! Eu não apostava na ideia de uma saída negociada para a crise brasileira - não por princípios; porque não acreditava que fosse viável.
De outro ângulo, havia certa lógica no gesto da ruptura, que agradava ao CGT, à Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), a Brizola e a Arraes: pressionar Jango para que recompusesse seu ministério com figuras representativas da Frente. Mas, então, o efeito prático da reunião foi evidenciar que Jango estava mais isolado do que nunca.
A reunião da FMP pela "ruptura" realizou-se numa sala fechada no Congresso. Num intervalo, perguntei ao deputado Neiva Moreira, sempre irreverente, o que significavam aquelas tachinhas espetadas num mapa do Brasil pregado à parede. "Não são nada, não. Eu é que pus e vou alimentando, só para assustar o pessoal da UDN que passa por aqui. Eles vão contar pro Bilac que viram os focos da futura guerra revolucionária..."
O deputado Bilac Pinto, prócer udenista mineiro, era precisamente o autor da tese de que havia uma guerra revolucionária em preparação no Brasil -tese que me parecia ridícula, mas que percorria jornais, quartéis e reuniões de civis assustados. Ele fazia reiterados discursos delirantes sobre o tema, preparados, segundo acusávamos, pelo Ibad e pela CIA e divulgados com grande cobertura.
No entanto a ninguém ocorreu reprovar a brincadeira de Neiva Moreira. Isso, de fato, mostrava uma atitude em maior ou menor medida compartilhada por todos: assustar e intimidar os adversários. Esse era um comportamento padrão das esquerdas e de suas entidades da época, sem que a intimidação, como na brincadeira das tachinhas, implicasse qualquer tipo de ameaça real. A UNE e eu próprio não éramos pródigos nessa matéria. Mas havia uma estratégia implícita: "Quanto mais assustarmos o centro e a direita, mais eles cederão nas reformas" -na linha nada original de "entregar os anéis para não perder os dedos".
CONSPIRAÇÃO
Uma coisa era certa: a partir da tentativa do estado de sítio, as forças cujo principal braço político era a UDN lacerdista caminharam mais firmes e depressa na conspiração para derrubar Jango. Não iriam perder a oportunidade. Havia 18 anos tinham contas a acertar com o chamado "varguismo" e suas derivações, associações ou fantasias ao longo do tempo (república sindicalista, socialismo, comunismo etc.). Haviam perdido pelo menos cinco oportunidades de fazê-lo.
Depois que a ditadura do Estado Novo caiu, no pós-Guerra, Eduardo Gomes, candidato daquelas forças a presidente, foi derrotado pelo marechal Eurico Dutra, apoiado por Getúlio. Na eleição seguinte, de 1950, ganhou o ex-ditador. Depois que ele foi levado ao suicídio, seu vice, Café Filho, cooptado pela direita, acabou sendo derrubado, em pouco mais de um ano, pelo seu próprio ministro da Guerra, general Henrique Lott -Café Filho se preparava para impedir a posse de Juscelino, do PSD, eleito com o apoio do PTB de Vargas, com Jango como vice.
Com Jânio Quadros, as tais forças ganharam a eleição de 1960, mas perderam com a estapafúrdia renúncia do presidente aos sete meses de governo, sem falar da frustração que já sofriam com a "política externa independente" de Jânio. Tentaram impedir a posse de Jango, mas Brizola, com seu movimento a partir do Rio Grande do Sul, Estado que governava, evitou esse propósito.
Também depois do episódio do estado de sítio, o arco das alianças para derrubar Jango foi sendo ampliado, até incluir, no começo de 1964, figuras "de centro", como o então governador de Minas, Magalhães Pinto, que era da UDN e tinha ambições presidenciais -por isso mesmo, adversário de Lacerda e mais próximo a Jango.
Nas últimas semanas de março, a aliança antijanguista já abarcava a maioria do PSD e incorporava intelectuais e jornalistas que, nos dias seguintes ao 1º de abril, viriam a ser opositores das arbitrariedades e da repressão, como foi o caso da equipe do "Correio da Manhã".
Diga-se que, em resposta à mobilização da esquerda, já tinha sido organizada uma "rede democrática" desde o último trimestre de 1963, juntando tudo o que se dispunha em matéria de jornais, rádio e TVs, para contrapor-se aos (poucos) jornais e emissoras ligadas ao governo e a Brizola.
DEMISSÃO
Um fato para mim ilustrativo, embora até hoje subestimado, da falta de empenho de Jango em melhorar a sorte de seu próprio governo foi a demissão, em dezembro de 1963, do ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, ex-governador de São Paulo, político discreto, que inspirava confiança no empresariado e na imprensa.
A rápida deterioração da economia no período que se seguiu ao naufrágio do Plano Trienal -lançado no início de 1963, sob a condução de San Tiago Dantas e Celso Furtado, ministros da Fazenda e do Planejamento, não comprometera sua figura, pois era claro que a herança recebida por ele era a pior possível.
Houve pretextos para afastar o ministro -principalmente a postulação de Brizola a ocupar seu cargo, que não tinha o apoio unânime da FMP e era rejeitada intra ou extramuros pelo CGT, pela UNE e por deputados da FPN.
Eu me perguntava se a postulação do ex-governador do Rio Grande do Sul era para valer. Se dependesse de suas falas e entrevistas, parecia que sim. A primeira vez na vida que contemplei séries e curvas exponenciais de expansão de moeda foi assistindo aos discursos de Brizola naquele período, gerando, aliás, apreensão em todos, pois ilustrava o descontrole da economia. Nenhum homem público com grande audiência apresentava uma visão tão pessimista da economia como ele.
A razão determinante para a remoção do ex-governador de São Paulo, porém, não foi a pressão do cunhado de Jango, e sim o relativo prestígio de que o ministro desfrutava, que o punha na condição de presidenciável. Entre muitas especulações, começava-se a falar até da dobradinha Carvalho Pinto-Arraes para 1965, o que eu mesmo considerava uma das boas hipóteses naquelas circunstâncias.
A demissão do ministro da Fazenda abalou de vez a confiança do empresariado no governo em relação à estabilidade da economia. A escolha do novo ministro, Nei Galvão -que, apesar de ocupar a presidência do Banco do Brasil, era considerado inexpressivo-, consolidou essa percepção.
CONFRONTO
Jango não cedeu às pressões para formar um gabinete ministerial nacionalista e popular, digamos assim, mas, no primeiro trimestre de 1964, foi mergulhando na estratégia de confronto apontada, precisamente, pelo roteiro da FMP.
Em janeiro, Jango regulamentou a Lei de Remessa de Lucros do capital estrangeiro, aprovada no Congresso em 1962, mas, desde então, pendente desse decreto. A demora era explicável, pois a regulamentação da lei poderia agravar os problemas do balanço de pagamentos, caso afugentasse o ingresso de capitais. Essa, no entanto, não era nossa preocupação.
O decreto foi assinado em Petrópolis, sob nossos aplausos. Fomos recebidos depois pelo presidente, que atendeu à reivindicação de indicar um estudante, no caso o vice-presidente para Assuntos
Educacionais da UNE, Duarte Pereira, para integrar o Conselho Federal de Educação. Reafirmou, também, a decisão de duplicar as vagas no ensino superior.
Em seguida, o governo programou grandes manifestações de massa, organizadas em conjunto com o CGT para março e abril, a começar pelo comício da Central do Brasil, no Rio, na noite de 13 de março, sexta-feira. Ficara claro que Jango e o pessoal do CGT não eram supersticiosos. Mas o ato fazia parte de uma sequência de manifestações pelo país, como o mote das reformas e da pressão sobre o Congresso para que as acolhesse.
Àquela altura, Jango já se abraçara aos setores da FMP mais ligados ao PCB. Para a direita, essa programação representava uma declaração final de guerra. Para o centro, um empurrão a que abandonasse o governo. Para a esquerda como um todo, uma vitória contra a conciliação.
COMÍCIO
Nunca soube avaliar o número de pessoas presentes a um grande comício ou passeata. E, naqueles tempos, nem imprensa nem PM se dedicavam a esse cálculo. Mas nunca vira tanta gente junta. Jango fez o melhor discurso de sua vida. Ele estava numa espécie de púlpito, tendo ao seu lado direito, no meu ângulo de visão, sua mulher, Maria Tereza, jovem e deslumbrante. Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil, atrás, buzinava coisas a seu ouvido, quase aos gritos. Do lado esquerdo, Osvaldo Pacheco, comunista histórico e o mais carismático dirigente do CGT. No fim, ao cumprimentá-lo, ouvi: "E aí, rapaz, desta vez tu gostaste, não?".
João Goulart anunciou a encampação das refinarias privadas de petróleo existentes, falou em acabar com a vitaliciedade da cátedra universitária, de congelamento de aluguéis, da ampliação do direito de voto, e apresentou o decreto que permitia desapropriar, para fins de reforma agrária, terras às margens das rodovias federais.
Leonel Brizola e Miguel Arraes não tinham sido formalmente convidados para o comício, mas apareceram. Como o Exército controlava o ingresso na área do palco, houve um leve empurra-empurra na barreira existente, mas ambos falaram, Brizola de forma longa, especialmente radical, propondo fechar o Congresso ou passar por cima dele, via plebiscito, sob imensos aplausos. Diga-se que essa ideia do plebiscito não era consensual na FMP e, nos meus discursos estudantis, jamais a defendi.
Achava que ia dar uma grande confusão, que acabaria criando o clima para golpes e contragolpes. Nem avaliava, e aí ficaria mais alarmado, o efeito que as incertezas decorrentes teriam sobre a inflação, que já era desabrida, e a crise econômica. O índice, em 1963, chegara perto de 90%, e o crescimento per capita da economia fora de 2% negativos.
Jango preocupava-se com que eu repetisse, no meu discurso, o tom e o conteúdo do que eu fizera na Cinelândia, no aniversário da morte de Getúlio. De fato, o dirigente do CGT, Hércules Correia, que monitorava o revezamento na tribuna, até que tentou cumprir a tarefa: "Vou te anunciar, você dá boa noite, diz uma frase de saudação, recebe as palmas e encerra, Serra. Encerra!".
Os aplausos foram demorados e intensos. Movi meus ombros para os lados, insinuando a Hércules Correia o que aconteceria se alguém tentasse me interromper. Além da falta de convicção, ele não tinha de fato como intervir na frente daquela multidão. E fiz meu discurso, já memorizado, em toda sua extensão.
Mas minha ênfase foi diferente daquela da Cinelândia e da que a própria imprensa registrou: centrei-me na denúncia das articulações golpistas da direita, no apoio ao governo legalmente constituído contra o golpe e no chamado à mobilização democrática. Estava convencido de que o golpe viria logo, naquelas semanas, sobretudo depois daquela noite. Naturalmente, pedi também a encampação das refinarias privadas, logo anunciada por Jango, junto com o decreto da Supra.
FANTASIA
O comício aqueceu, de um lado, as expectativas de ascensão do movimento de massas; de outro, acelerou a trama do golpe e assustou ainda mais os grandes jornais -que já tinham formado aquela "rede da democracia" no final do ano anterior- e as classes médias urbanas, todos temerosos de um regime comunista, de uma república sindicalista, ou seja lá o que fosse. Do ponto de vista real, uma fantasia. Do ponto de vista da mobilização para o golpe, um fator poderoso.
O aquecimento foi até a fervura quando, dias depois, o governo enviou ao Congresso a mensagem presidencial do ano, que reiterava e ampliava, em pontos sensíveis, medidas e iniciativas apresentadas no discurso original. Primeiro, encampava a tese de Brizola sobre o plebiscito em torno de emendas constitucionais. Segundo, permitia a desapropriação rural com títulos públicos reajustáveis na forma da lei (mais ou menos como é hoje), eliminando a exigência de pagamento prévio em dinheiro.
Terceiro, estabelecia a possibilidade da delegação de poderes para o Executivo, eliminando o parágrafo segundo do artigo 36 da Constituição, que a proibia e foi tratado de forma depreciativa no texto da mensagem. Quarto, introduzia um dispositivo constitucional garantindo que "são elegíveis os alistáveis".
O plebiscito e a delegação de poderes selava, para os adversários e liberais-democratas, a ideia da democracia autoritária -ou, nas palavras do Ibad, "o caminho do totalitarismo"-, associada ao enfraquecimento do Congresso e à permanente agitação popular. Isso era inaceitável para o PSD e para a UDN. E a elegibilidade dos alistáveis abria caminho -de forma paranoica ou não- para a possibilidade de reeleição do próprio Jango em 1965 ou da candidatura presidencial de Brizola, impedida pela Constituição vigente em virtude de ser cunhado do presidente. Até os que eram crianças na época se lembrarão das pichações de partidários do ex-governador gaúcho dizendo "Cunhado não é parente, Brizola para presidente".
Nem Jango nem Brizola acreditavam muito em tal possibilidade. Queriam assustar os adversários e foram bem sucedidos nisso. As questões de elegibilidade mexiam com todos os políticos que só pensavam na Presidência: Juscelino, Lacerda, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto. De mais não se precisava, como pretexto, para unir politicamente as forças de vários matizes que se opunham a Jango.
O temor era tal que, em São Paulo, seis dias depois, incentivada pelo comício na Central do Brasil, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, promovida para dar respaldo ao golpe, reuniria mais gente que o comício. Na sua maioria, pessoas de baixa classe média para cima, que não haviam sido levadas por sindicatos e em cujas fileiras quase não se encontravam estudantes. A grande maioria de boa fé democrática e religiosa, tementes do belzebu comunista que iria implantar a ditadura do proletariado, o materialismo e a perseguição aos seguidores de Cristo.
As entidades mais visíveis eram as de senhoras e a TFP, que tiveram apoio em dinheiro da CIA ou coisa parecida, mas não foi por isso que atraíram tanta gente. As palavras de ordem, para a multidão, estavam bem feitas e soavam democráticas. "Reformas, sim, mas dentro da Constituição. Senão, não!"
No Rio, poucos dias depois, fomos a uma reunião informal com o CGT: os marinheiros da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, reunidos no auditório de um sindicato, declararam-se em assembleia permanente. Para mim, surpresa total. Suas reivindicações corporativas iam do direito ao voto à possibilidade de se casarem e de vestirem roupas civis, sem falar nos pedidos por melhores salários e alimentação. Independentemente de qualquer coisa, tratava-se de uma verdadeira sublevação, que somaria oficiais centristas e legalistas das três Armas na ofensiva do golpe. Decidi não comparecer.
Os fuzileiros navais foram enviados para reprimir os manifestantes, mas, chegando lá, desistiram. Por isso, o seu comandante, Cândido Aragão, janguista, foi afastado pelo ministro da Marinha, Sílvio Mota. A falta de cobertura da Presidência, porém, levou Mota a demitir-se. No seu lugar, Goulart nomeou um almirante cujo nome fora reivindicado pelos revoltosos, Paulo Mário Rodrigues, tido como de esquerda, que imediatamente concedeu anistia e renomeou Aragão.
E tudo acabou em desfile comemorativo pelas ruas do Rio de Janeiro, em plena Sexta-Feira Santa. Na passeata, cruzaram com o almirante Aragão, erguendo-o nos braços. Em matéria de esforço para somar contra si a maioria dos oficiais das três Armas -devido aos abalos na hierarquia e na disciplina militar- e de provocar a reação negativa às reformas de base, Jango não poderia ter feito nada mais eficaz e definitivo.
Paralelamente, o presidente se recusava a nomear um novo ministro da Guerra, apesar de o titular, general Jair Dantas, estar internado para uma cirurgia. Aliás, era grampeado pela CIA dentro do seu quarto de hospital. Assim, o ministério militar mais importante foi mantido acéfalo, no meio de todas essas crises e das conspirações coordenadas pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Castelo Branco. Após a marcha da família, ele emitira um documento reservado em favor do golpe, fato então conhecido pelo governo e até por nós, mas não fora punido.
Indo mais longe, na antevéspera da consumação do golpe -cuja data real é 1º de abril, não 31 de março-, Jango discursou para sargentos e suboficiais do Exército na sede do Automóvel Clube do Rio de Janeiro. Presente à mesa, também, o líder dos marinheiros, cabo Anselmo. Junto com diretores da UNE, ouvi o discurso dentro de um táxi, parado na avenida Delfim Moreira, no Leblon. Nossa conclusão óbvia foi, de duas, uma: ou Jango estava se despedindo do governo ou iria de fato "tomar o poder". Tudo em questão de horas. Claro que a intuição e a razão apontavam para a primeira hipótese.
Nesse dia, aliás, as hostes policiais e parapoliciais lacerdistas já estavam nas ruas, prendendo dirigentes do CGT em sua própria sede -outra demonstração do alheamento, do despreparo e até da ingenuidade das esquerdas em matéria de segurança. Não aderia à violência nem tinha um plano para se proteger dela.
VIOLÊNCIA
Apesar das teses do udenista mineiro Bilac Pinto sobre a guerra revolucionária, demonstrações de violência mesmo só existiam do lado da direita.
No Congresso da UNE em que fui eleito, em Santo André, grupos paramilitares metralharam o estádio que abrigava os trabalhos e soltaram bombas de gás lacrimogêneo no plenário. No ano anterior, em Quitandinha, também houvera metralhadoras e bombas. Numa reunião no anfiteatro do Mackenzie, em São Paulo, atiraram ácido no ministro da Educação, Paulo de Tarso.
O prédio da UNE sofria periódicas rajadas de metralhadora nos primeiros meses de 1964.
O fato é que não havia exercícios de violência de nosso lado nem preparativos nesse sentido. E, se essa ideia existisse, não haveria como materializá-la.
Para as classes médias que deram suporte ao golpe nas marchas de São Paulo e do Rio e nas ruas de Belo Horizonte, havia uma motivação adicional para o apoio: o medo da cubanização do Brasil e da guerra revolucionária que a implantaria. Esse é um mito que ficou. Insisto: nada mais fantasioso do que supor que o Brasil pudesse virar uma Cuba ou que a esquerda, em 1963-64, estivesse se armando. Os famosos "grupos dos 11", que o pessoal do Brizola começara a cadastrar, com vistas a criar um movimento nacionalista-revolucionário, já eram insignificantes como instrumento político. Imaginem, então, para possíveis enfrentamentos armados.
Na UNE da época, uma entidade forte e independente, nem se cogitava do tema. Eu nunca ouvi nada a esse respeito. Se me falassem em coquetel molotov dentro da sede, acharia que se tratava de alguma bebida favorita do ex-chanceler de Stálin. As Ligas Camponesas de Francisco Julião, que haviam tentado, com apoio logístico e financeiro cubano, montar guerrilhas dois anos antes, tinham fracassado. Depois disso, só faziam ameaças, vendendo um peixe que em absoluto não tinham. E o seu braço político, pequeno e desorganizado, o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), era isolado de todos os setores mais importantes da esquerda.
Havia, sim, o famoso dispositivo militar de Jango, capaz, em tese, de deter um golpe ou de promovê-lo. Mas tudo só em tese, como se viu nesses casos e se constataria no golpe de 1º de abril, quando aquele dispositivo sumiu. A retórica servira para assustar a classe média e conferir verossimilhança à farsa golpista.
RUMORES
- General, estou indo para o Amazonas, mas há muitos rumores de movimentações golpistas. É claro que o senhor os ouviu. Tenho dúvida se viajo ou não.
- Pode ir, meu jovem, não tem problema. Quase todos esses rumores são falsos. Os que não são se referem a iniciativas que estão sob controle.
Foi precisamente com o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar da Presidência e coordenador do "dispositivo", que começou minha história na fase final do golpe.
Na quinta-feira da Semana Santa, eu ia para Manaus, onde a UNE promovia um seminário sobre os problemas da Amazônia. De lá, iria a Belém, onde se realizaria outro encontro, com estudantes de toda a América Latina. Cruzei com o general no Galeão.
Mais do que sua resposta formal, o que atenuou minha inquietação foi ver o comandante do "dispositivo" em trajes esportivos, embarcando numa boa para o descanso da Semana Santa.
Como era possível isso? O presidente pescando no Sul, o ministro da Guerra no hospital e o chefe da Casa Militar indo repousar?
Minha viagem duraria muito pouco, entretanto. Cheguei a Manaus à noitinha, jantei com os congressistas, de manhã visitei o mercado, onde comprei um par de tartaruguinhas e filhotes de jacarés -eram tempos pré-ecológicos-; mas, antes de abrir o seminário, tive de retornar por causa da intensificação dos rumores de golpe, que não perturbavam o general Assis.
No Rio, na segunda-feira à noite, dia 30 de março, depois de ouvir o discurso de Jango no Automóvel Clube, decidimos ir até a sede dos Correios a fim de obter informações. O diretor-geral, coronel Dagoberto Rodrigues, era homem de confiança de Jango e de Brizola.
Nessa noite, descobrimos que existia, nos Correios, um sistema de escuta telefônica, e o coronel já sabia de movimentos de tropas em Minas Gerais. Viria para o Rio uma tropa comandada por um general de poucas estrelas, Mourão Filho.
De volta à sede da UNE, aprovamos uma nota denunciando o golpe e chamando à resistência. Decidimos deslocar partes da diretoria para os Estados onde haveria maior resistência, reduzindo também o risco de que todos fôssemos presos juntos.
À tarde e à noite do dia 31 de março, fui duas vezes ao Palácio das Laranjeiras, uma vez com Marcelo Cerqueira, outra com Betinho [Herbert José de Sousa]. Queríamos que o governo resistisse. Lá dentro, o general Assis Brasil disse, para nossa incredulidade, que estava tudo bem. Cruzamos com Juscelino, com quem tínhamos relações amistosas: ele nos disse que a situação era muito grave, sem dar nenhum sinal do que conversara com Jango. O general Peri Bevilacqua, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, entrou e saiu com ar de quem encaminhara medidas salvadoras. Como depois se viu, era um documento pedindo a rendição de Jango, ou seja, ele permaneceria, mas sob tutela militar, e reprimindo o CGT, a UNE e os comunistas.
Jango pode ter errado muito nos anos anteriores, mas, nessa noite, acertou ao recusar aderir ao golpe militar com ele à frente. Nem duraria no cargo. Numa escrivaninha pequena, oitocentista, redigi uma nota conclamando a greve geral dos estudantes, a qual mal chegou à imprensa, mas foi divulgada nas emissoras de rádio que ainda funcionavam do nosso lado.
Por volta das dez da noite, fui à sede da UNE, onde havia uma assembleia permanente, para dar informações sobre a situação. A reunião era no teatro do Centro Popular de Cultura, que seria inaugurado naquele mês. Não fora ainda pintado, e o cheiro da madeira pura e fresca era agradável, destoando da feiura das minhas preocupações sobre o dia seguinte. Quando cheguei, o general da reserva e historiador -um homem respeitável, ligado ao PCB- Nelson Werneck Sodré fazia um relato otimista da situação militar, sendo aplaudido pela plateia ansiosa.
A questão central era: o que fará o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército? O mesmo Kruel que eu havia chamado de golpista no comício da Cinelândia e que Jango nomeara, no mês seguinte, para comandar o Exército em São Paulo. Disso dependia a sorte do golpe. Trairia Jango? Não, achava Sodré. Sim, achava eu.
Mas, ao falar, disfarcei meu ceticismo a respeito da posição de Kruel, transmitindo, no entanto, uma parcela de minha apreensão com o andar das coisas. E voltei para as rádios. Como se soube depois, já naquela noite Kruel propusera a Jango fechar o CGT e a UNE, mudar ministros e reprimir a esquerda, ouvindo a recusa como resposta.
Já de madrugada, fui com o deputado Max da Costa Santos para a casa de amigos dele, no Jardim Botânico, onde passaríamos o resto da noite. Era impensável dormir na UNE, diante do risco de atentados e prisão, ou mesmo no hotel Novo Mundo, onde vez por outra pernoitava. Por volta das cinco, Max me acordou com a notícia da adesão de Kruel ao golpe. Fomos aos Correios a fim de encontrar dirigentes da FMP e obter informações sobre o quadro militar em todo o país. O prédio estava protegido por tanques. Juntei-me com Marcelo Cerqueira, com quem dividiria todos os passos nas semanas seguintes.
BUNKER
O ambiente, naquela espécie de bunker da FMP, era de debandada. Toda vez que, nas décadas seguintes, participei de alguma derrota política, sempre me veio à cabeça, como mecanismo de consolo, aquele ambiente da sede dos Correios. Em matéria de derrocada e dispersão, nada foi nem viria a ser pior do que aquilo.
No fim, achamos que os tanques que protegiam o prédio começavam a virar seus canhões para ele. E viravam! Por isso, saímos, Marcelo e eu, por uma porta lateral, e fomos a pé até a base aérea do Santos Dumont à procura de seu comandante, o brigadeiro Francisco Teixeira, legalista e boa figura:
- Brigadeiro, por que o senhor não manda seus aviões atacarem, espantarem esse pessoal que vem de Minas?
- Olhe, bastaria um só avião para dar conta disso. Eles vêm com soldadinhos, uma tropa muito fraca. Mas a ordem do presidente foi que mantivesse os aviões no chão.
- É possível que um avião nos leve a Porto Alegre?
- Não. Sem ordem superior, não posso autorizar.
Ficamos desencorajados pela impossibilidade de ir ao Rio Grande do Sul a fim de resistir, pois lá estava Brizola, e o comandante do Terceiro Exército, recém-nomeado, assegurava que defenderia a legalidade num esquema que, com muito otimismo, talvez pudesse replicar o de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros e do veto dos ministros militares à posse de Jango, então vice-presidente.
Fomos em seguida para o Ministério da Marinha e chegamos até o ministro, o almirante Paulo Mário, sem que ninguém, ninguém mesmo, perguntasse nossos nomes ou o que fazíamos ali. Isso da portaria até a sala do almirante, que pareceu estar ainda mais por fora e desarmado do que nós.
Afinal, onde estava o dispositivo militar de Jango? Dispositivo não é feito para ser acionado? Apagara-se sem ruído, como uma bolha de sabão.
KOMBI
Não sei exatamente como, tomamos uma Kombi e rumamos para a Baixada Fluminense para encontrar dirigentes do CGT e trocar ideias sobre o que fazer. Onde? Na casa do deputado Tenório Cavalcanti, em Caxias, que, por motivos alheios à política, era uma verdadeira fortaleza, com grandes portões de aço à prova de balas.
Tenório era o detentor da popular Lurdinha, uma metralhadora leve portátil, e tinha nas costas cicatrizes de tiros recebidos em emboscadas não políticas, digamos assim. Dono do jornal "A Luta Democrática", o terceiro do Rio em número de exemplares, era muito bom de voto e se candidatara a governador da Guanabara, dividindo o eleitorado mais popular com o deputado Sérgio Magalhães, o que facilitaria a eleição de Lacerda. Na época, não havia segundo turno.
Sentados em torno de uma pequena mesa, na sala pouco iluminada, trocamos figurinhas pessimistas sobre a situação, todos duvidando da possibilidade de, aliado a Leonel Brizola, João Goulart resistir no Rio Grande do Sul, para onde iria, ou já tinha ido, ao deixar Brasília. O Batistinha, dirigente do CGT e membro do PCB, avaliava: "Existe a possibilidade de o golpe se 'pessedizar'. Juscelino aderiu nos últimos dias, os caciques do PSD participaram.
A moeda de troca será a garantia das eleições presidenciais no ano que vem, e o processo pode acabar virando briga de branco, UDN contra PSD, Lacerda contra Juscelino. A gente precisa permanecer agrupado, se proteger, não fazer loucuras e acumular forças enquanto isso acontece."
Não achava que seria assim, mas era mais confortável acreditar, torcer para que viesse a ser assim. Um pouco mais tarde, na cama improvisada num sofá da mesma sala, ouvi um discurso ao vivo de Brizola, no Rio Grande do Sul. Não me sai da cabeça até hoje uma conclamação para a luta que ele fazia aos "sargentos de Bagé".
INCÊNDIO
Foi ali, pelo rádio, que soube, mortificado, da invasão e do incêndio da sede da UNE pelos grupos paramilitares lacerdistas. Entrevia as chamas bem vermelhas que apareciam na janela da minha sala. Lá tinham permanecido assessores meus, que eu levara de São Paulo, ao lado de algumas dezenas de outros estudantes, membros do CPC, como Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, e Carlos Vereza. Apesar de desarmados, ficaram até o fim e escaparam pelo pátio de trás.
Já estávamos sendo procurados pela ágil repressão lacerdista. E se fôssemos presos naquela casa? Para onde ir, o que fazer? Que confusão ia dar no Brasil? Tínhamos contribuído para isso? Quanto? Seria possível viver clandestino, reagrupar forças? E se não fosse, fazer o quê? Não poderia terminar a faculdade? E meus pais? Bem que eu poderia não ser filho único.
Para mim, ainda é doloroso lembrar aqueles momentos e falar sobre o golpe, sobre o que veio logo antes e depois. Até hoje, tenho um mal-entendido com esse pedaço de minha vida e da nossa história.
Ao acordar, imaginei por instantes ter sonhado, que não estava onde estava e que o 1º de abril fora apenas um pesadelo. Depois, compreendi melhor por que essa dúvida é uma quase trivialidade na literatura. Não é por falta de imaginação dos escritores. É porque ela acontece mesmo diante de cada tragédia. E eu estava vivendo a minha primeira, aos 22 anos recém-completados.
De manhã, disse a Marcelo, ou ele a mim: "Vamos embora logo. Olha, não quero ser injusto, mas receio que alguém possa nos entregar. E, se é para sermos presos, que seja noutro lugar".
A entrada na cidade do Rio, numa Kombi cinza velha, foi o grande pesadelo diurno, infelizmente inesquecível. Olhos ardendo pela falta de sono, sol, calor, ruas barulhentas, gente
comemorando o golpe com buzinaços, multidões caminhando para celebrar, naquela que teria sido a réplica carioca da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, marcada para o dia 2 de abril, e que se transformou na festa da derrubada de Jango. Mais tarde, pela televisão, assistimos à comemoração, animada por locutores especialmente eufóricos e cretinos, com discursos de gente que eu não conhecia, e vimos o povo festejando o golpe "democrático".
Fomos para um apartamento vazio do pai de uma amiga, na Barata Ribeiro, onde eu às vezes ficava. Na porta, aguardava-me Marcílio Krieger, catarinense que trabalhava comigo: "Vi gente rondando aqui. Acho perigoso vocês ficarem".
Ir para São Paulo? Além do risco da viagem, havia o fato de que o general Kruel, comandante do Segundo Exército, tinha motivos pessoais para guardar rancor.
Separei-me do Marcelo, aguardando, não sei onde, que ele viesse com algum esquema de hospedagem segura. Veio então com Vianinha e Jacob Kligerman, aplicado estudante de medicina, "Partidão" até a alma e polinamorador nas horas vagas. Com esse objetivo, mantinha uma "garçonnière" na Lapa, perto da sede carioca do Departamento de Ordem Política e Social. Paciência! Ficamos lá por alguns dias. Em conversas animadoras, Marcelo falou do Cecil Borer, chefe do Dops no Rio -até aquele momento, eu não sabia de quem se tratava.
Aprendi que Borer era um paladino da repressão e da tortura desde a década de 30. Soube também o que era pau de arara, aparelho de tortura de que nunca ouvira falar. "Zé, se formos presos, o Borer nos põe lá."
Eu vestia uma feia camisa amarelada, colarinho engomado, que Max da Costa Santos me emprestara na manhã do dia 1º. Além de já estar encardida, me caía desajeitada. Troquei-a por outra pior ainda, de um amigo a cuja casa fomos e que era uns 20 centímetros mais baixo do que eu. Finalmente, tive a pequena satisfação, no meio daquela rota de fuga, de ganhar duas camisas de Jacob, que era mais alto e encorpado. Uma coisa tornou-se perceptível em nossa peregrinação, embora nada comentássemos, nem entre nós: não obstante a gentileza, o desconforto dos familiares dos diferentes amigos que procurávamos.
RETRATO
Grandes jornais do Rio publicaram fotos da UNE incendiada e de suas dependências. Não sei qual deles dava destaque para um retrato de Josef Stálin, afirmando que adornava a parede de minha sala. Ficava me perguntando se os historiadores do futuro iriam acreditar naquilo e em tantas outras estultices. O único refresco, na imprensa, foi um artigo de Carlos Heitor Cony, no "Correio da Manhã", mostrando, do jeito e com o talento dele, a farsa do golpe democrático, a partir de cenas que observara no Posto 6.
Apesar de relativamente calmos, com autocontrole, estávamos totalmente desarticulados, sem informações, sendo perseguidos e sem lugar seguro para ficar. Por isso, alguém sugeriu que buscássemos proteção numa embaixada, o que me pareceu, num primeiro momento, inconcebível; num segundo, a opção possível.
Um deputado do PTB da Guanabara, Paulo Alberto Monteiro de Barros (mais conhecido depois por seu pseudônimo: Arthur da Távola), entrou em contato com Juscelino, que pediu ao embaixador da Bolívia que nos abrigasse. Paulo foi primeiro e mandou um amigo, Toninho Cavalo -sim, o futuro técnico do Botafogo e do Atlético Mineiro-, encontrar Marcelo e a mim num posto de gasolina.
Ao ver chegar um homem sem nenhum jeito de amigo do Paulo, nos afastamos rapidamente de carro e ele foi atrás, confirmando nossa impressão de que era da polícia. Não sei mais como chegamos a um entendimento, mas o fato é que acabamos entrando na embaixada. Mais à noite, Toninho, a secretária do Paulo Alberto e a sogra, Dona Emilinha, mulher do professor Anísio Teixeira, apareceram lá com camas de lona desmontáveis, lençóis limpos, comida e um aparelhinho de TV.
Lá fiquei perto de três meses. Os salvos-condutos iam saindo, o pessoal viajando, mas eu ia ficando. O ministro da Guerra, general Costa e Silva, disse expressamente ao embaixador boliviano, Álvaro Castillo, que se esforçava para resolver minha situação: "Salvo-conduto para esse rapaz, não, embaixador. Ele é perigoso".
CARTA
Há dois ou três anos, recebi a cópia de uma longa carta manuscrita que enviei, ainda na embaixada, relatando minha vida e minha situação ao advogado que então me assistia, Evaristo Morais Filho. Ela não mostra abatimento, mas surpresa e indignação pelo que acontecera. Recebi também a cópia de um filme mostrando minha participação no comício de 13 de março, feito por Leon Hirszman e por Eduardo Coutinho, que eram do CPC da UNE.
O texto, a caligrafia, o filme fizeram-me evocar com emoção um conto de Jorge Luis Borges: na maturidade, o escritor encontra, sentado num banco, às margens de um rio, um jovem que, para seu espanto, descobre ser ele mesmo. O jovem ignora quem é seu interlocutor, mas percebe o afeto daquele homem mais velho que, no fundo da alma, gostaria de contar-lhe tudo sobre a vida, para que a vivesse melhor. É o que senti ao rever a mim mesmo, no papel e na imagem, tanto tempo depois.
Nota: Este texto é uma versão abreviada, para publicação na "Ilustríssima", do primeiro capítulo de "Cinquenta Anos Esta Noite", a ser lançado em junho.
JOSÉ SERRA, 71, é economista. Foi ministro do Planejamento e da Saúde, prefeito de São Paulo e governador do Estado de São Paulo.
ANTONIO DIAS, 70, é artista plástico. Apresenta suas telas e esculturas mais recentes na exposição "Potência da Pintura", em cartaz na Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre) até 18/5.

sexta-feira, 14 de março de 2014

50 anos depois, ex-militante retorna ao DOI-CODI

HISTÓRIA

Uma visita ao DOI-Codi, centro do terror nos Anos de Chumbo

Hoje uma delegacia, prédio em SP abrigava a máquina de repressão da ditadura. Cinco décadas após o golpe, a DW visita o local ao lado de um ex-militante, que relata os horrores vividos nos três meses em que ficou preso.
Adriano Diogo no lugar onde foi torturado, no anos 1970
As paredes são gelo e cinza. Nesse espaço quase sem cor, nos tempos da ditadura, outro tom comum era o vermelho sangue. Apesar de parcialmente abandonado, o antigo edifício do DOI-Codi em São Paulo, um dos principais centros de tortura do regime militar, ainda mete medo. O local foi palco da morte de 52 presos políticos, inclusive do jornalista Vladimir Herzog. Ali também ficou detida, em 1970, a presidente da República, Dilma Rousseff.
Hoje não restam manchas de sangue. Apenas rachaduras e poeira, marcas do tempo. Cinquenta anos depois do golpe, o espaço virou um enorme depósito de móveis, pneus, caixas, tintas, papéis e equipamentos. As salas guardam também lembranças, que reabrem as feridas dos sobreviventes e despertam fantasmas – assustando até mesmo os funcionários da delegacia que ainda hoje ali funciona.
É justamente por essa carga histórica que a antiga sede do DOI-Codi foi recentemente tombada e há uma iniciativa para transformá-la em memorial em homenagem às vítimas. A reportagem da DW esteve no local, acompanhada de um ex-militante político que lá esteve preso, para conferir as condições e conhecer um pouco da história do que pode ser um futuro centro de memória.
Tortura
No início, de 1969 a 1972, o órgão de inteligência e repressão política, subordinado ao Exército, estava localizado num pequeno edifício no terreno do atual 36º Distrito Policial da Polícia Civil de São Paulo. Atualmente, o sobrado da rua Tutoia, 921, na zona sul da cidade, está desativado e, também por isso, sofreu poucas modificações.
Local abriga hoje uma delegacia
As escadas que levam às antigas salas de interrogatório, onde eram realizadas as torturas, permanecem iguais. Em alguns ambientes, o piso, as paredes, as janelas basculantes e os batentes de madeira são originais. O prédio é composto por dois andares, com cerca de seis cômodos em cada um deles. Segundo o relato de presos políticos, paredes foram removidas e outras erguidas, descaracterizando parte do local.
Apesar das mudanças, os ex-militantes conseguem reconhecer onde foram interrogados. Um deles, Ivan Seixas, de 59 anos, foi capturado com o pai, Joaquim Alencar, também perseguido político na época. Os dois foram torturados juntos quando Ivan tinha apenas 16 anos. Os cômodos eram separados por uma fina divisória, e eles podiam escutar os gritos um do outro.
A mãe e as irmãs de Ivan, levadas até o DOI-Codi, também puderam ouvir o golpe final, que tirou a vida de Joaquim em 17 de abril de 1971. "Um dos torturadores gritou para o outro: 'não era para matar agora'. Depois eles desceram com o corpo e um policial perguntou: 'Quem é esse presunto?'. E o outro respondeu: 'Esse era o Roque', nome de guerra do meu pai. E escutei eles rirem", conta Ivan, reproduzindo o som macabro das risadas.
No DOI-Codi, Ivan conta que levou choques e golpes, atado a um pau de arara – instrumento de tortura em que a pessoa fica pendurada de cabeça para baixo, presa a um cano de metal pelas mãos e joelhos. "Quebraram uma das minhas costelas, e por isso tenho um problema nas costas até hoje." Depois passou ainda seis anos preso, em uma "via crucis de presídios e casas de detenção".
Tombamento
Em nome desses eventos passados e sequelas presentes, Ivan entrou com o pedido de tombamento do edifício em 2009, apoiado por entidades de defesa dos direitos humanos. A iniciativa é o primeiro passo para a criação de um memorial em homenagem às vitimas, reivindicação da sociedade civil ainda pendente de avaliação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
A antiga sala de Carlos Alberto Ustra
"Fazer do DOI-Codi um espaço de memória é também uma forma de condenar os torturados, de dizer que a sociedade não tolera isso", afirma Ivan, hoje coordenador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.
A notícia sobre o tombamento, em recortes de jornal, está numa das paredes da delegacia. "É para informar", explica um dos investigadores. Apesar da cordialidade dos agentes da corporação, entrar no espaço não foi fácil. Na primeira tentativa, imediatamente após o tombamento do prédio, a comitiva, que a DW acompanhou, foi barrada. Foi necessário formalizar um pedido em ofício junto à Secretaria de Segurança para obter uma autorização.
Para Deborah Neves, historiadora responsável pelo estudo técnico do tombamento do DOI-Codi, há uma mudança na mentalidade e na prática de preservação de "locais de memórias difíceis". Ela afirma que o próprio pedido do tombamento, que partiu da sociedade civil, demonstra isso.
A historiadora defende que o espaço tem um valor simbólico. "O DOI-Codi paulista foi pioneiro no país. Naquele lugar surgiu o modelo de repressão que se replicou durante a década de 70, baseada na mentalidade do AI-5."
É justamente por esse conteúdo simbólico que o presidente da Comissão da Verdade paulista e deputado estadual pelo PT, Adriano Diogo, quer retirar o 36º DP que funciona até hoje no terreno. "É como se uma usina de gás alemã funcionasse em um campo de concentração", diz Adriano, de 64 anos.
O terreno foi cedido ao Exército em 1979 por decreto do governador de São Paulo na época, Paulo Maluf. A proposta de Adriano é revogar a decisão e retirar o DP para dar lugar ao memorial.
Delegacia
A delegacia era a porta de entrada dos presos, que aguardavam nas celas para serem encaminhados ao sobrado do DOI-Codi e interrogados. Posteriormente, já nos anos 70, o órgão se mudou para dentro da delegacia, onde foi preparada uma sala de tortura com proteção acústica.
Ivan Seixas conta que levou choques e golpes no local
"Mesmo assim era possível escutar os gritos", conta Ivan. "Eles não se preocupavam em esconder. Com todo aquele barulho dia e noite, era um inferno para os moradores dos prédios ao redor." Segundo Ivan, era comum ver corpos jogados no pátio, que eram depois colocados em carros para o transporte. Tudo à vista dos vizinhos.
"Quando meu pai e eu chegamos ao DOI-Codi, demos muito azar. Era troca de turno, e havia uns 50 soldados no pátio. Fomos espancados ali mesmo. Foi tão forte que até a algema que unia o meu pulso ao do meu pai se rompeu." Ivan diz que, nesta ocasião, os vizinhos reclamaram, mas os soldados responderam com rajadas de metralhadora para o alto, o que rapidamente silenciou os protestos.
Embrião da repressão
Junto ao mesmo pátio, num terreno anexo, hoje ocupado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), está localizado o berço da Operação Bandeirantes (Oban), embrião do DOI-Codi. A área, cuja entrada fica na rua Tomás Carvalhal, também abrigava a sala do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do órgão e primeiro oficial condenado por sequestro e tortura durante o regime militar. O espaço, também desativado, está repleto de pneus e poeira.
Foi Ustra quem recebeu Adriano Diogo, em 1973, na delegacia, do outro lado do pátio. Segundo o relato do ex-militante, ele foi torturado pessoalmente pelo major durante os 90 dias em que passou confinado a uma solitária no local. "Imagina como você fica fragilizado por estar sem roupa, sem banho, comendo no escuro igual a um cachorro por três meses. Eu fiquei verde por falta de sol. Enlouqueci, conversava comigo mesmo", lembra.
A antiga solitária, com apenas uma fresta na porta de ferro para passar alimentos, é hoje outro espaço de depósito. A área é usada pela administração da seccional, assim como as antigas celas, transformadas em escritórios.
Após muitas reformas, a decoração mais moderna, que inclui teto de vidro, pisos brancos e jardim de inverno, é quase exitosa em apagar a lembrança do cárcere de outros anos. Não para Adriano, que se sente constantemente mal ao longo da visita. "Eu quero esquecer isso aqui", desabafa, num sinal de que quer apressar o percurso pelo terreno.
A solitária é hoje um depósito
Naquele edifício, Adriano conta que teve de assistir à própria mulher ser torturada. "Eles tinham um sadismo e uma preferência em humilhar sexualmente as mulheres. Faziam questão de torturá-las nuas, apalpavam na frente do companheiro." O ex-militante ficou preso ainda mais um ano, após sua passagem pelo DOI-Codi. Quando saiu, se dizia "paralisado pelo horror": "Não dá para passar uma borracha nisso."
Em outro ponto mais preservado da delegacia, ele mostra que a memória continua viva. Gesticula, recriando os móveis e instrumentos de tortura de antes. "Aqui tinha um cano de metal, onde os presos ficavam pendurados por algemas, esperando a vez no interrogatório."
Das memórias de Adriano saem palmatórias, paus de arara e barris de afogamento, para desconforto dos delegados e investigadores que acompanhavam a comitiva, formada pelo deputado, sua assessora e a reportagem da DW. Pelo menos um policial para cada visitante. Todos eles novos demais para terem vivido a época da ditadura. "Se os policiais ficam constrangidos, imagina a gente", assinala Adriano.
Fantasmas
Embora a história dos edifícios seja assustadora para muitos, os policiais afirmam que não se sentem mal em trabalhar ali. "É tranquilo, já nos acostumamos", diz uma. Já outros consideram o terreno mal-assombrado.
Ivan assegura que a situação chegou a tal ponto que ele foi chamado, muitos anos atrás, para exorcizar os fantasmas. "Disseram que eu tinha que ajudar. Eu ria e concordava. Disse que, se os espíritos falassem comigo, perguntaria onde estão os ossos. Eles me repreendiam, como se eu não estivesse levando a sério, mas eu estava", conta, sorrindo.
Ao que parece, hoje os fantasmas estão dispersando. "Antes os ares daqui eram muito pesados. Agora já está tranquilo", conta um policial mais velho. O motivo da melhora? "A passagem do tempo. E também diminuiu depois que indenizaram a família do Fiel", afirma, referindo-se ao operário Manoel Fiel Filho, assassinado no DOI-Codi.
Ainda assim, um dos investigadores assegura que, durante o plantão da noite, os funcionários não sobem para o segundo andar. O ambiente de histórica repressão também incomoda Adriano. Apesar da paciência e esforço em acompanhar a reportagem ao local, depois de cerca de uma hora, ele não aguenta mais. "Quero ir embora daqui". E sai.
Fonte: DW.DE

segunda-feira, 10 de março de 2014

Eduardo Coutinho em Dois Atos e um P.S.


Crônica de Marcius Cortez

       Ato I -  Conheci Eduardo Coutinho numa festa junina no bairro de Casa Forte em Recife no ano de 1962. Ele desembarcara na cidade dias depois de João Pedro Teixeira, fundador e organizador da Liga Camponesa de Sapé, ter sido assassinado a tiros de fuzil disparados por dois soldados da Polícia Militar e mais um civil a mando do fazendeiro Agnaldo Veloso Borges.  Com isso, a própria realidade passou a fornecer assunto para o documentário “Cabra Marcado para Morrer”. Coutinho se ocupou em registrar as reivindicações da população de Sapé, que se mobilizara exigindo justiça, mais de cinco mil trabalhadores rurais nas ruas da pequena cidade, distante 55 quilômetros de João Pessoa, Paraíba. Agnaldo, suplente de Deputado Estadual, renunciou ao mandato para se aproveitar do mal fadado foro privilegiado. Numa palavra, o latifundiário branco e poderoso não passou nenhum dia preso. No caso dos soldados, armou-se um júri com cartas marcadas: os acusados foram absolvidos por falta de provas. Já o civil, esse tomou doril e nunca mais ninguém viu. Paralelo a isso, o diretor seguia filmando a vida da viúva Elizabeth Teixeira e dos 11 filhos órfãos de pai. Foi quando eclodiu o Golpe de 64, a mudança social tão necessária ao país fora amarrada e amordaçada num poste. Paraíba e Pernambuco sofreram dura repressão nas primeiras semanas da “Gloriosa Revolução”. O incidente, registrado pela televisão francesa, do líder comunista Gregório Bezerra sendo arrastado pelas ruas do Recife é apenas um indicativo da barbárie que ensanguentou aquela época. Óbvio que a  cabeça do cineasta metido com as Ligas Camponesas fora posta a prêmio. Os usineiros queriam comer o fígado daquele comunista filho de uma égua. É aí onde entro eu. No dia 2 de abril de 1964 sentindo-me golpeado na alma, estou a perambular pelo centro da cidade quando na Praça Joaquim Nabuco, pertinho do famoso restaurante “Leite”, vejo entre os mendigos que se abrigam ali, um rosto familiar. Chego perto dele e pergunto “você não é o Eduardo Coutinho?” Arregalando os vinte olhos da cara, o falso mendigo confirmou, “sou eu mesmo”. Então Eduardo me conta que já havia sido preso, mas conseguira fugir e que só lhe restava fazer aquele teatro porque estava sendo caçado. "Olhe tá aqui meu endereço e a chave lá de casa". Rapidinho, o nosso amigo sumiu daquele lugar, não é preciso dizer que o homem estava desesperado. Escondi-o por três dias. Certa manhã, ele me comunicou que ia embora. Depois fiquei sabendo que arrumara um esquema que contava com a proteção de Ademar de Barros, o governador golpista de São Paulo, amigo de um familiar do diretor paulistano de nascimento.  
       Ato II - No segundo semestre do ano passado, encontro Eduardo na Cinemateca de São Paulo. Ele ia apresentar seu último filme para o auditório lotado. (É aquele que contem uma visão da televisão e da sociedade brasileira atual, trágico e engraçadíssimo, bem ao estilo do cineasta brasileiro, recentemente homenageado durante a cerimônia da entrega do Oscar). Após os debates, fui procurá-lo. No meio da conversa, um amigo dele me pergunta quem eu era. O criador de “Santo Forte” falou para eu contar aquela história do Recife. Foi o que bastou. Logo, logo estávamos a discutir se os usineiros preferiam Eduardo cozido no vapor, assado na brasa ou grelhado no espeto. Mal podia imaginar que aquela jocosa tarde era uma despedida. No dia 2 de fevereiro, tomo conhecimento de sua morte pelas redes sociais. Passo por alguns blogs que noticiam a tragédia. Sou atingido pelo teor dos comentários dos internautas. Claro aquilo não formava a maioria, porém o nível da truculência de certos comentários era revoltante. Um deles parabenizava o filho por ter matado aquele pai. Fecho correndo o computador. Nem sei o que dizer. A verdade é que tem gente que está no mundo para quebrar as nossas mãos. Nem sei se é consolo, mas me protejo pensando no escritor, jornalista e compositor Antônio Maria. Maria dizia que era pra gente nem dar bolas. Eles são uns idiotas, eles pensam que a gente escreve com a mão.
P.S. – Imagina quebrar as mãos de Eduardo Coutinho, um homem digno de todo o nosso afeto.