terça-feira, 29 de abril de 2014

DHNET E COMITÊ ESTADUAL DA VERDADE-RN LANÇAM NOVO DVD MULTIMÍDIA COM DEPOIMENTOS DE FLORIANO BEZERRA

Será lançado no próximo dia 01 de Maio, quinta-feira, a partir das 16:00h, no Bardallos Comida e Arte, Rua Gonçalves Ledo, 678, Cidade Alta, o DVD Multimídia que conta a trajetória do militante sindical e ex-Deputado Estadual, FLORIANO BEZERRA.

O evento segue a continuidade da Coleção Memória das Lutas Populares no RN, sendo o título número 02 de uma série de publicações produzidas pela DHnet - Rede Direitos Humanos e Cultura em parceria com o Comitê Estadual da Memória, Verdade e Justiça do RN e Comissão Municipal da Verdade.

O DVD conta com depoimentos, fotos, perfil, links e informações sobre a vida do militante sindical e ex-Deputado Estadual FLORIANO BEZERRA, um combatente que lutou contra a Ditadura Militar e foi um dos líderes das Ligas Camponesas no nosso Estado. Recentemente FLORIANO BEZERRA teve o Mandato de Deputado Estadual reestabelecido através de uma iniciativa do Deputado Estadual Fernando Mineiro.

A festa de lançamento vai iniciar-se às 12:00h, quando teremos o aniversário de 19 anos da Rede DHnet, com direito a um bolo comemorativo e o tradicional apagar de velinhas.

Maiores informações:
Contatar Roberto Monte ?  3201-4359 / 3211-5428 e 9977.8702
Aluízio Matias ? 8721-7705
Bardallos Comida e Arte ? 3211-8589

domingo, 13 de abril de 2014

Cuba está caminhando para a economia de mercado?

Mundo

Contradições fazem de Cuba um país entre dois mundos

Governo Castro vem promovendo série de reformas econômicas, mas impressão é de que ilha dá dois passos à frente e um para trás. Dissonância entre o ideal de uma sociedade sem classes e a realidade torna futuro incerto.
O pavilhão vazio por trás das grades de ferro é sintomático. Poucos meses antes, em dezembro, nele se aglomeravam barracas de pequenos comerciantes. A maioria vendia roupas por conta própria. E riscos também próprios.
Mas em janeiro de 2014 entrou em vigor uma lei com a qual o governo de Raúl Castro quer combater o que considera o uso abusivo dos novos direitos conquistados pelos cubanos. Por exemplo, costureiras autônomas não podem mais vender roupas importadas, um negócio que prosperou nos últimos meses. Consequência: o pavilhão está agora vazio.
Dois passos para frente, um para trás. Assim avança a ilha caribenha em direção à nova era. Em 2008, Raúl, irmão de Fidel Castro, assumiu o governo. Ele é considerado mais pragmático e mais aberto a mudanças, dando início a uma série de reformas econômicas. Entre elas está, por exemplo, a permissão de que cubanos possam, de forma autônoma, exercer cerca de 200 profissões.
Eles podem ganhar dinheiro com seus próprios restaurantes luxuosos ou, de forma mais simples, recarregando isqueiros. Em 2013, o número de trabalhadores autônomos chegou a 450 mil. Mas não podem ser empresários. Segundo a diretriz oficial do governo, embora sejam a expressão de uma transformação, esses trabalhadores não devem ser precursores do capitalismo: têm que se limitar a preencher o que o Estado não pode executar.
Algo está se movendo em Havana. Mas não de forma radical: depois de apenas dois anos, as reformas retrocederam para alguns dos autônomos. Além das costureiras, também os operadores privados de cinemas 3D perderam as suas licenças – e o dinheiro que investiram na tecnologia.
Kuba Havanna Straßenansicht Cena de rua no centro de Havana: comerciantes, sim; empresários, não
Duas moedas
Através da questão do dinheiro, pode-se facilmente entender que Cuba vive entre dois mundos. Há duas moedas: o peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC).
O CUC foi introduzido em 1994 como uma alternativa ao mercado negro do dólar americano. Hoje é atrelado ao dólar e é nada menos que uma espécie de Bezerro de Ouro: com ele, é possível comprar tudo, até produtos importados. Mas não se chega a ele através de empregos estatais.
Os cubanos recebem os salários estatais em pesos cubanos: em média, 470 pesos mensais (45 reais). Com esse dinheiro, é possível comprar um pequeno número de mercadorias baratas, como arroz, frango e açúcar. Para macarrão, carne de gado ou chocolate, é preciso pagar em CUC. Para chegar ao CUC, os turistas são a melhor fonte, já que eles precisam do peso conversível para pequenas despesas diárias.
Kuba Havanna Oldtimer Carros antigos sem peças de reposição
Em consequência, os médicos preferem vender pizza a trabalhar nos hospitais estatais. Os professores preferem cuidar dos hóspedes de pensão a lidar com os alunos. Assim, eles ganham muito mais – e na moeda "certa". O governo Castro está ciente das distorções da economia. Em outubro de 2013, anunciou o fim do sistema dual. Mas esse passo parece ser algo particularmente difícil.
Um carro por 1 milhão de reais
O brilho dos carros antigos nas ruas de Havana não corresponde ao seu funcionamento interno. Muitos deles têm 50, 60 anos de estrada, quebram com frequência e precisam ser consertados novamente. Não há peças de reposição.
Quando a importação de carros estrangeiros foi oficialmente permitida, em dezembro do ano passado, eram grandes as esperanças no país. Mas a freada foi brusca: o governo divulgou o preço estabelecido para cada tipo de automóvel. Um carro europeu de médio porte custa cerca de 1 milhão de reais. Os cubanos se sentiram ridicularizados, o que externaram em sites e fóruns na internet.
Agora, a web também permite olhar para fora do país – ao menos em teoria. Desde meados do ano passado, os cubanos têm acesso à internet em cerca de 120 novos cibercafés. Por um preço de quase 5 CUC por hora, um quarto do salário mensal, os cubanos têm pouco tempo para navegar na internet. Além disso, a conexão é lenta, e páginas como o Twitter ou Facebook são quase impossíveis de serem acessadas.
Oficialmente, no entanto, Cuba abriu as portas para os seus habitantes. Já há um ano, qualquer cubano pode viajar com seu passaporte para o exterior e lá permanecer por, no máximo, dois anos, até mesmo aqueles que o governo considera como dissidentes. Mas, para a maioria, as portas permanecem fechadas. Somente alguns poucos países querem emitir vistos de entrada para um cubano. Desde então, 200 mil cubanos fizeram uma viagem ao exterior.
À procura de parceiros
Kuba Havanna Panorama Nascer do Sol na capital cubana: governo hesita em aplicar reformas
Os médicos podem deixar oficialmente Cuba. Eles trabalham, por exemplo, no Brasil ou na Venezuela, trazem divisas para o país e atuam como uma vitrine do bom sistema de ensino cubano. As escolas e universidades estão entre as melhores da América Latina.
Mas quem quiser promover a tecnologia de ponta e a pesquisa precisa de intercâmbio internacional e cooperações, como na área de biotecnologia. Empresas estatais apresentaram seus avanços na pesquisa farmacológica, por exemplo, em medicamentos contra o câncer. Mas, para elas, é difícil encontrar parceiros no exterior.
As empresas lembram que Cuba ainda está sob o embargo dos EUA. Assim, se companhias europeias quiserem fazer negócios com cubanas, podem acabar tendo desvantagens econômicas em suas atividades nos Estados Unidos.
Mas o principal entrave para o avanço do país está na contradição entre o ideal de uma sociedade sem classes e a realidade. O governo de Cuba se apega ao passado e, ao mesmo tempo, tem de permitir reformas. Já há muito tempo que o país deixou para trás o socialismo puro, mas ninguém parece realmente saber para onde é que tudo isso vai.

DW.DE

terça-feira, 1 de abril de 2014

Após 1964, o modelo dependente.

“Eleições” no modelo dependente
Adriano Benayon * - 30.03.2014
O golpe de 1964 – agora com 50 anos - consolidou o modelo dependente, subordinado ao capital estrangeiro, instituído pelo golpe de 1954 e aprofundado no demagógico quinquênio JK. A falsa democratização radicalizou esse modelo, por meio de governos egressos de “eleições” também manipuladas pela oligarquia financeira mundial.
2. Sob pena de esfacelamento do País, o povo brasileiro não deve mais tolerar as imposições emanadas dessa oligarquia, que controla os poderes da República e demais instituições do Estado. Há 25 anos, repete-se a farsa de “eleições” para presidente, nas quais  os eleitores  praticamente nada escolhem.
3. O real sistema de poder manobra sempre para que todos os candidatos com chance de chegar ao 2º turno estejam comprometidos com a realização destes objetivos: ampliar e aprofundar a desnacionalização da economia, desindustrializá-la, servir a dívida -  inflada pela composição de juros absurdos – e  propiciar ganhos desmedidos às grandes empresas transnacionais.
4. Na primeira eleição direta (1989),  ainda houve um candidato, Leonel Brizola,  fora desses parâmetros. Esse foi barrado no 1º turno, através de expedientes, como impedir os transportes em regiões onde  ele teria maioria, e fraudar urnas, a ponto de,  em MG, por exemplo, ter  ele tido zero voto em seções eleitorais  às quais compareceram vários partidários e militantes do PDT.
5. Em 1989: Collor e Lula; 1994: FHC e Lula; 1998: FHC, no 1º turno, por meio de  fraudes de fazer corar de vergonha qualquer tiranete de republiquetas bananeiras; 2002: Lula e Serra; 2006: Lula e Alckmin; 2010: Dilma e Serra.
6. Em 2002, o Dr. Enéas,  apesar de seu escasso tempo no horário gratuito da TV,  obteve quase 2 milhões de votos para deputado federal em São Paulo. Desenhava-se um perigo para o sistema: um fenômeno de comunicação.
7. A atuação de Enéas na Câmara foi dificultada através de todo tipo de obstáculos e armadilhas para consumir-lhe recursos e energias, inclusive, mediante a compra de quatro dos cinco deputados que elegera, para mudarem de partido, através do mensalão.
8. O fim do PRONA foi armado, por meio da Lei de Barreiras, tendo o notório Nelson Jobim mencionado o PRONA, na TV, como um “partido nanico” que dita lei visava eliminar.    Aprovada ela, após dois anos de conchavos dirigidos pelo senador Marco Maciel, o Dr. Enéas teve de  fazer fusão com um partido maior.
9. Uma semana depois, o ministro Marco Aurélio, do STF, declarou inconstitucional a Lei de Barreiras. Todos concordaram, e essa Lei acabou.
10. Não vem ao caso se Enéas parecia autoritário. Importa que, na Câmara, ele se opôs a emendas constitucionais entreguistas e lesivas aos trabalhadores e aposentados, impostas por Lula, mantendo e reforçando as impingidas por FHC ao Congresso.
11. O sistema não tolera políticos não dependentes de seu dinheiro e da grande mídia, mesmo que entreguistas, como o defenestrado Collor. Esse tentou, com o sócio Paulo Octávio, comprar a TV-Manchete.
12. Tal é o poder da oligarquia angloamericana sobre o País, que até hoje se oferece grande espaço a figuras como o nefasto FHC.
13. Os crimes contra o País cometidos na presidência de FHC são ocultados da opinião pública, para que se ignore a extensão e a profundidade dos danos  que persistem e crescem, pois o grosso de suas políticas têm sido mantido e ampliado nos 12 anos de Lula/Dilma.
14. Osvaldo Nobre no artigo “A privatização desmoralizada” (Monitor Mercantil 14/03/2014), lembra que os governantes persistem nas doações: setor elétrico, telecomunicações, ferrovias, rodovias, transportes públicos, aeroportos, até a coleta de lixo, e o leilão do petróleo de Libra.
15. Como recorda Nobre, para privatizar o setor elétrico, o governo de FHC argumentou que  não haveria mais recursos para investir e que, com a privatização, as tarifas seriam futuramente reduzidas. Ora,  os recursos fluíram e fluem, quase todos públicos (do BNDES), e os aumentos das tarifas superam amplamente a inflação.
16. Roberto d’Araújo, do ILUMINA, aponta que, desde 1995,  esse aumento real é de 80% e que os absurdos se acumulam: autorizadas as distribuidoras a contratar suas próprias geradoras, os contratos  com estatais foram trocados por outros a preços de Kw  três vezes maiores; em 2001, houve o maior racionamento da história do planeta; diminuída a receita, dada a queda do consumo, as distribuidoras foram compensadas com aumentos de 30% em 2003 e 2004; custos fixos foram majorados, como se fossem proporcionais ao mercado, e, em função disso,  os consumidores foram lesados em R$ 7 bilhões até 2010; a Eletrobrás vendia energia, de 2003 a 2007, no mercado livre, a preços tão subsidiados, que era  possível comprar 1 MWh até por R$ 4,00 (o preço médio em 2013 foi R$ 263,09);  o  número de apagões de grande porte triplicou; no Rio de Janeiro, explodem bueiros; um abstruso sistema de leilões determina a matriz elétrica, e o número de térmicas caras, a óleo e diesel,  multiplicou-se por 6.
17. Com a queda no nível dos reservatórios das hidrelétricas, o megawatt-hora (MWh) atingiu, em fevereiro de 2014, o incrível preço de  R$ 822,83 por MWh.

18. A MP 579 -  que reduziu  um pouco as tarifas -  está causando a falência da Eletrobrás.   Essa MP faz que usinas hidroelétricas vendam energia a preços de térmicas. O Tesouro subsidiou as distribuidoras em mais de R$ 10 bilhões em 2013, sendo previstos mais R$ 18 bilhões em 2014.
19. Nobre assinala que, enquanto crescem os dividendos de acionistas das transnacionais e de outros beneficiários da privatização, os sistemas de energia não recebem investimento sequer para manutenção adequada.
20. Lembra que, em 1962, quando foi criada a Eletrobrás, os donos do setor eram empresas privadas, pontificando a canadense Light e o grupo AMFORP. Os serviços eram péssimos e  faltava energia, apesar dos racionamentos e da demanda reprimida.
21. Tudo isso está voltando. Sob FHC e os petistas, a Eletrobrás foi fatiada, criando-se a EPE e o ONS para substituir diretorias da Eletrobrás, e a geração no Sul do País foi entregue à transnacional belga, Tractbel.
22. Conforme aduz Nobre, Dilma intensifica a privatização da geração de eletricidade, através de SPEs capitalizadas pelo Poder Público, além de criar o Programa de Térmicas Emergenciais, no modelito Dilma–Tomalsquin de leilões que privilegiam as térmicas. 
23.  Os ambientalistas silenciam diante desse horror, mas os das ONGs teleguiadas por Londres e a FUNAI forçam que os projetos de hidrelétricas sejam modificados para gerar muito menos energia, ao suprimirem reservatórios e eclusas.
24. O professor Scalambrini, da UFPE,  Recife, assinala que as empresas de geração, transmissão e distribuição são “aliviadas” dos compromissos, inclusive contratuais, pelos órgãos oficiais e  agências, como a ANEEL,       que as deveriam regulamentar e fiscalizar.
25. Nobre menciona esquemas semelhantes, que prevalecem nas telecomunicações, desde FHC - entregues aos “amigos do Rei” - que fez universalizar os serviços, especialmente  a telefonia móvel, e presenteá-los,  através da privatização.
26. Acrescenta: “no início, euforia, todos com telefone, inclusive as classes D e E; hoje, a maior parte das concessionárias é controlada por transnacionais  – mexicanas, italianas, espanholas -  as empresas mais processadas pelos consumidores, que praticam tarifas escorchantes e oferecem péssimo serviço.” Cita: “Teles investem pouco no Brasil.” [1ª página de O Globo de 9/3/14].  E [página inteira (33) no mesmo jornal]: “Lucra aqui, envia para lá”.
27.  Não foi cumprida obrigação alguma das assumidas nos contratos de privatização das ferrovias, e aeroportos foram doados com dinheiro do BNDES. Com as concessões rodoviárias: pedágios altíssimos, estradas precárias. Só Dilma já privatizou 4.250 km. de rodovias (Monitor Mercantil de 27/12/13, página 3).
28.  A desastrosa infra-estrutura de transportes está associada à da de energia. Ambas são decididas pela oligarquia transnacional, a qual   comanda a indústria do petróleo em âmbito mundial e o grosso da distribuição de derivados no Brasil, ademais de toda a indústria automotiva no País. Maximizar os lucros dessas indústrias constitui o  objetivo primordial das políticas públicas no Brasil.
29. Isso explica: 1) a lastimável matriz de transportes, decorrente dos baixos e mal realizados investimentos em ferrovias e aquavias, bem como o caos dos transportes urbanos; 2) a crescente, custosa e poluente participação dos combustíveis fósseis na matriz energética; 3) a queda da participação do etanol entre os combustíveis dos veículos automotivos;  4) o descaso e o boicote à produção dos óleos vegetais, que substituiriam com vantagem os derivados do petróleo; 5) os leilões de petróleo abertos às transnacionais, em condições lesivas ao interesse nacional; 6)  o fato de,  há muito, a Petrobrás não mais valorizar seus quadros técnicos;  7) a contenção do preço final dos derivados de petróleo às expensas da Petrobrás; 8) o apoio às fontes renováveis de energia dependentes de tecnologia estrangeira, como a eólica, cujos pacotes envolvem até as obras de infra-estrutura junto com equipamentos de geração importados.
30. Assim, fica relegada a energia da biomassa, na  qual há experiências vitoriosas, mas confinadas a proporções modestas devido ao desinteresse dos governos federal e locais. Esse é o caso, entre outros, do sistema UNIGEA, desenvolvido por Carlos Alberto Ferraz, continuador das realizações de Marcelo Guimarães, em MG.
31. Esses melhoram o processo de produção de álcool em microdestilarias, combinada com a produção de alimentos. Se fossem multiplicados em várias regiões, o País teria fantásticos ganhos econômicos, tecnológicos,  sociais, ambientais e na saúde pública.
32. Maiores ganhos de todos esses tipos – em enorme salto qualitativo – resultariam da produção de óleos vegetais para uso direto em motores de combustão.  A escala viável da multiplicidade de unidades produtivas descentralizadas tem dimensão várias vezes suficiente para prover combustível a toda a frota de veículos automotivos do País. 
* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

domingo, 30 de março de 2014


O REGIME DE 1964 E O ESTADO DE DIREITO NO BRASIL
José Brendan Macdonald
Abril de 2014

Nestes dias o país está lembrado da inserção do que chamaremos o Regime de 1964, isso evidentemente em razão do cinqüentenário do mesmo.  Pois na madrugada de 1º de abril de 1964, elementos subversivos das forças armadas depõem João Goulart, o então presidente da República que chegara a seu cargo por ter sido vice-presidente já que algum tempo antes assumira esse cargo em substituição a Janio Quadros que acabara de renunciar em um momento de tensão política no país em razão de disputas entre conservadores e progressistas.  A Constituição de 1946 então em vigor deixava claro que o procedimento certo em tais casos seria a instalação do vice-presidente como presidente.
Não entraremos nos não poucos pormenores da história dos idos de março de 1964 que culminaram no golpe de Estado que hoje é geralmente condenado como uma afronta à democracia, mesmo democracia no sentido burguês da expressão.  Nosso propósito é fazer uma revisão não aprofundada do golpe e da ditadura que ele instalou e o que isso significa para a evolução, ou melhor, a involução da democracia.
A alternância entre democracia e ditadura caracterizaram nossa história política durante não pouco tempo depois da queda da República Velha em 1930.  O próprio presidente constitucional Getúlio Vargas deu o auto-golpe em 1937 até ser obrigado pelas forças armadas, que já não o apoiavam, a renunciar.  Assim houve o Estado Novo (1937-1945), o período ditatorial de Vargas.  De 1945 a 1964 houve um período de democracia formal, durante parte do qual o próprio Vargas foi presidente pelo voto popular.  Em 1964 se instala uma ditadura: o Presidente João Goulart é deposto e a próxima eleição para presidente ocorrerá somente em 1990.  De 1964 a 1985 o país teve cinco presidentes fardados.  Num período de transição para a democracia formal (1985-1990) houve um presidente civil, de plena confiança dos civis e militares conservadores, que não queriam ser perturbados por uma democratização profunda que desse vez clara às necessidades populares e assim pudesse limitar privilégios das elites.
Semelhante alternância infelizmente ocorria nos nossos vizinhos platenses, ou seja, na Argentina e no Uruguai, mais ou menos na mesma época.  Além dos Andes o Chile, orgulhoso de suas tradições democráticas, pela primeira vez caiu nas garras de um general sanguinário, Augusto Pinochet, finalmente em 1973, produto de um golpe cívico-militar de uma violência ímpar. 
Note-se que preferimos falar em golpe de Estado cívico-militar ao invés de apenas golpe militar, que é geralmente o que se diz.  Em 1964 vários membros da nossa elite, não raro políticos profissionais eles mesmos e com fortes interesses traduzidos pelos grandes negócios, batem nas portas dos quartéis e convidam alguns oficiais a lançar a aventura de um golpe de Estado para instalar o que curiosamente chamam de Revolução para combater as mazelas do “comunismo ateu.”  Certamente havia oficiais militares que não aprovavam esse golpe à democracia.  Mas foram condenados ao silencio e em alguns casos a algo pior também.  Quanto à população em geral, isto é, a população civil, o número de pessoas favoráveis à deposição do Presidente Jango, como era conhecido João Goulart, era grande na classe média, tanto que em março de 1964 foi organizada a Marcha por Deus e a Família com milhares de participantes.  Mas lembremo-nos que os pobres eram de longe a maioria da população.  Para eles a ditadura instalada agrediam os seus interesses.  Mas o golpe de Estado se concretizou.  Agora qualquer oposição era tarde. 
Por que se recorreu à medida extrema do golpe de Estado? 
Havia acima de tudo o temor das elites às chamadas reformas de base promulgadas pelo governo João Goulart em março de 1964.  Não pretendemos   detalhá-las.  Alguns comentários, queremos acreditar, serão suficientes.
O presidente insistia numa:
- reforma agrária: a extensão do Direito trabalhista aos trabalhadores rurais e não mais só para os trabalhadores urbanos; terras situadas às margens de rodovias e ferrovias federais que não cumprissem a função social da propriedade seriam nacionalizadas e assim pagas com títulos da dívida pública, o que exigiria uma reforma constitucional já que a Constituição exigia pagamento prévio e em dinheiro;
- reforma urbana: visando a utilização do solo urbano, a ordenação e equipamento das aglomerações urbanas e “fornecimento de habitação condigna a todas as famílias”;
- reforma educacional: visando principalmente erradicar o analfabetismo que ainda tinha um nível elevadíssimo;
- reforma fiscal: visando entre outras coisas o controle e limitação da remessa de lucros para o exterior;
- reforma eleitoral: visando a extensão do direito de voto aos analfabetos e militares de baixa patente; pensava-se na legalização do Partido Comunista Brasileiro também;
- reforma bancaria: visando ampliar o acesso ao crédito pelos produtores.
É claro que a maioria dessas propostas não podia agradar à elite nacional nem aos seus parceiros estrangeiros.  E envolveriam custos e daí impostos.  O presidente estaria fazendo o jogo dos comunistas muito embora ele próprio não fosse comunista.  Hoje as elites falam muito mal de supostos terroristas.  Naquele tempo o nome feio era comunistas se bem que este último termo também pode ser anátema ainda hoje.   
Haveria colaboração estrangeira, notoriamente norte-americana, no golpe de Estado de 1964?  Há muito tempo se sabe que os Estados Unidos tinham uma frota de prontidão no Caribe, o que seria uma arma auxiliar importante desde que tido como necessário e houvesse a invenção de um incidente anti-americano no país.  Tal recurso não foi de fato necessário mas a precaução pairava no ar.  Lincoln Gordon, o embaixador dos Estados Unidos no país, estava por dentro de boa parte da trama de um golpe de Estado e deixava o governo de seu país a par. 
Toda a preocupação imperial dos Estados Unidos com a America Latina fazia e faz parte de um quadro geral.  Mais do que a África e a Ásia, a América Latina enquanto colônia em potencial é o que chama a atenção daquele país.  O Reino Unido, França, Bélgica e outros países que se especializem na exploração do chamado Velho Mundo, deixando a America Latina em segundo lugar.  E tal exploração inevitavelmente exige a intromissão dos fortes em muitos assuntos que de direito não lhes competiriam. 
Havia acontecimentos no Brasil que muito preocupavam a elite brasileira e seus aliados imperiais. 
Após a Segunda Guerra Mundial, e notoriamente a partir de 1954, foram fundados grupos que passariam a ser chamados Ligas Camponeses em Pernambuco para em seguida se multiplicar em vários estados do Nordeste.  As Ligas visavam principalmente facilitar o pagamento de despesas funerárias para os camponeses, prestar-lhes assistência médica, jurídica e educacional, formar cooperativas.  Como se vê, nada disso em tese feriria os interesses da classe dominante.  Mas como as Ligas traçavam sua origem ao trabalho do Partido Comunista Brasileiro em 1946, eram inadmissíveis para as classes dominantes sempre marcadas por um notório anti-comunismo.  As Ligas foram eliminadas então pouco depois do golpe de Estado de 1964. 
Também havia políticos profissionais cujas atitudes irritavam e em alguma medida atemorizavam as elites.  Leonel Brizola, cunhado do Presidente João Goulart, era deputado federal e pressionava o Presidente a promover as reformas de base.  No histórico comício de 13 de março de 1964 ocorrido na praça do Central do Brasil no Rio de Janeiro, em discurso inflamado condenou o conservadorismo do Congresso Nacional e exigiu a convocação de uma assembléia constituinte.  Outro político que irritava as poderosas forças conservadoras era Miguel Arraes, governador de Pernambuco.  Conseguiu obrigar as oligarquias rurais de seu estado a pagarem o salário mínimo a seus trabalhadores e promoveu sindicatos rurais, associações comunitárias e ligas camponesas.  Mais do que qualquer pecado mortal, as posturas de políticos como Brizola e Arraes foram tidos como sacrilégio. 
Aos sacrílegos só restam as chamas do inferno.  Assim, cidadãos como Leonel Brizola, Miguel Arraes e inúmeros outros não mencionados aqui só poderiam ganhar a prisão e o exílio. 
Assim o regime instalado no país em abril de 1964 moldou boa parte do posterior destino do país.  Ele não respeitou um estado de direito e criou seus próprios “atos institucionais”.  Mas com o tempo o próprio regime percebeu que sua popularidade estava em jogo.  Em 1979 – 15 longos anos após o golpe de Estado  – foi declarada uma anistia a favor de presos políticos.  E, repetimos, foi somente em 1990 que foi eleito um presidente da República pelo voto popular.  A ditadura, portanto, gozou de um longuíssimo período para traçar o destino do país a seu gosto.
Se o golpe de estado e a subseqüente instalação da ditadura são expedientes freqüentes em boa parte dos países do chamado Terceiro Mundo1, que dizer do que ocorre nos países mais industrializados nas últimas décadas?  Ao que parece, até o presente momento as elites desses países não acharam necessário recorrer àquilo que seria facilmente reconhecido como ditadura.  Há, porém, uma tendência perigosa para os direitos democráticos nos Estados Unidos.  Uma recente legislação que fere a própria Constituição mas que (não surpreendentemente) não é criticada pela grande mídia é aplicada lá às vezes.  Trata-se da Lei Patriota de 2001 que limita sobremaneira ao réu o direito de defesa quando se trata de assuntos de segurança nacional.2  Este pesquisador não sabe se algo semelhante já existe em outros países industrializados.  Isso deve depender provavelmente do grau de êxito de militantes lá – quando os há -  a favor de boa parte dos direitos humanos.  Trata-se de um assunto secundário para o presente artigo nosso.  Fizemos referência a ela para evidenciar o fato de que um apreço ao valor intrínseco do estado de direito é necessário para garantir que a justiça seja feita – no Brasil e fora.  Não é à toa que nossa classe dominante moldou uma legislação a seu gosto mesmo quando a impôs sem respeitar as exigências clássicas da democracia – não importa quão imperfeita esta – que o mundo conhece até hoje. 
Será preciso um novo momento histórico antes que se instale um Direito conseqüente para a pessoa comum, para o grosso dos cidadãos.  É percebendo a natureza insatisfatória do nosso Direito que perceberemos também a necessidade de pensar uma nova civilização mais adequada a práticas jurídicas mais claramente consoantes com as necessidades da maioria.

NOTAS

  1. Embora a usemos, reconhecemos o estado obsoleto desta expressão, usamo-la por falta de outro em uso hoje.  Ela era válida sim quando havia o bloco capitalista e o bloco não capitalista (este último composto principalmente pela União Soviética e China mas não só por elas).
  2. Ver, por exemplo, Sheldon Wolin, Democracy incorporated: Managed democracy and the specter of inverted totalitarianism, Princeton, EUA, Princeton University Press, 2008.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Brasil

"Luta armada foi legítima, mas um erro político", diz ex-militante

Um dos idealizadores do sequestro do embaixador americano em 1969, Cid Benjamin fala sem arrependimento da militância, mas reconhece erros. Sobre torturadores, garante não guardar ódio, mas quer vê-los julgados.
Quatro de setembro de 1969, auge dos Anos de Chumbo. Numa ação sem precedentes na história brasileira, o movimento MR-8, uma dissidência do Partido Comunista, sequestra o então embaixador americano no país, Charles Burke Elbrick. Para soltá-lo, duas exigências: a libertação de 15 presos políticos e a publicação de um manifesto na imprensa.
O regime não demorou a ceder: menos de 48 horas, os presos foram libertados e o texto, publicado. Por trás da ação estava um grupo de jovens originários do movimento estudantil, entre eles Cid Benjamin, então com apenas 21 anos. Ele foi o idealizador – ao lado do mais tarde ministro Franklin Martins – e um dos principais executores da ação.
Meses mais tarde, Cid foi preso. Por sua militância, pagou com isolamento, tortura e exílio – foram quase dez anos entre Argélia, Cuba, Chile e Suécia. Hoje, aos 65 anos, jornalista e diretor de comunicação da Comissão da Verdade do Rio, ele fala sem arrependimento e sem revanchismo sobre o passado – como sugere o título de seu livro, Gracias a la vida – Memórias de um militante.
Cid diz não guardar ódio de seus torturadores, mas quer vê-los julgados. A luta armada, afirma, foi um erro político, porém uma alternativa legítima para lutar contra um regime ditatorial. E sobre o embaixador, admite: "Nós o teríamos matado se as exigências não fossem atendidas."
Retrato logo após prisão, em 1970
DW: Hoje há vozes questionando o comprometimento daquela esquerda armada com a democracia. O argumento é de que as intenções dela não eram muito mais democráticas que as do regime. Você concorda?
Cid Benjamin: Não. Os mesmos que deram o golpe em 1964 levaram Getúlio Vargas ao suicídio em 1954; tentaram impedir a posse do Juscelino Kubitschek em 1956 e do Jango em 1961; e depois deram o golpe em 1964. Com o AI-5, eles tornaram um regime que já era ditatorial em algo muito mais duro. E foi justamente esse endurecimento da ditadura que fez com que uma parcela dos opositores, que não estavam na luta armada inicialmente, acabasse optando por esse caminho.
Foi o melhor caminho?
Foi um caminho politicamente errado, mas não do ponto de vista da legitimidade. Foi legítimo pegar em armas para combater um regime de opressão. Isso é reconhecido pela Carta de Direitos Humanos da ONU e pela Doutrina Social da Igreja. Foi uma avaliação política incorreta naquele momento no Brasil. Não se teria condições de conseguir um amplo apoio popular e, com isso, derrubar a ditadura. Mas foi a forma possível depois do acirramento do regime militar. Depois, os militares tentaram se igualar e dizer que éramos todos antidemocráticos, o que não corresponde à verdade.
Até que ponto a luta armada levou a um maior endurecimento do regime?
Muito antes de se pensar em luta armada, os golpistas, como eu disse, já vinham tentando dar um golpe. E depois, já dentro da ditadura, a linha dura foi tomando corpo, começando com a saída do [primeiro presidente da ditadura, Humberto de Alencar] Castelo Branco, que era mais moderado. A luta armada só ganhou peso e alguma relevância social depois do AI-5, quando outros canais de participação política e exercício da oposição foram fechados.
A luta armada acabou então sendo algo inevitável?
As manifestações bateram no teto. Os canais institucionais e de luta legal foram muito restringidos. Havia o exemplo recente da Revolução Cubana e do Vietnã, onde a luta armada do povo conseguiu expulsar o invasor americano. Isso tudo influenciou. Agora, se não houvesse o endurecimento do regime, a luta armada não teria acontecido da forma como aconteceu.
Na época, você, então com pouco mais de 20 anos, tinha noção de que vencer era quase impossível?
Achávamos que seria uma luta árdua, longa, mas com alguma chance de vitória. E, de certa maneira, Cuba e Vietnã serviam como alento. Mostravam que, através da guerrilha, o fraco poderia enfrentar e vencer o mais forte. Se, na época, tivéssemos a percepção de que seria uma derrota, não teríamos tomado aquele caminho.
Cid (primeiro de pé à direita) e os outros 39 libertados em troca do embaixador alemão, em 1970
Quando surgiu a ideia de sequestrar o embaixador?
A ideia foi minha e do [jornalista e ex-ministro] Franklin Martins. Uma vez, estávamos conversando juntos no Rio quando o carro com a bandeirinha dos EUA no capô passou pela gente, e reparamos que o embaixador fazia todo dia o mesmo trajeto, sem segurança. Já havia, na época, uma preocupação nossa em libertar presos.
A captura foi relativamente fácil...
A captura foi fácil, a devolução é que foi difícil. A casa foi localizada e vigiada. Quando nós saímos com o embaixador, eles vieram atrás. Houve cenas típicas de filmes policiais, com perseguições, carros avançando sinal, subindo pela calçada. Foi complicado. Mas, no final, ninguém foi preso.
Vocês pediram a leitura de um manifesto na TV e a libertação de 15 presos. Se o regime não tivesse atendido, o que vocês teriam feito?
Nós o teríamos matado se as exigências não fossem atendidas. Isso, dito hoje, parece estranho, mas nós tínhamos uma avaliação tranquila e clara de que os militares aceitariam nossas exigências, dado o grau de subserviência da ditadura militar aos Estados Unidos.
Ele não entregou vocês depois...
Quando foi questionado se poderia nos identificar, ele disse que não poderia, porque nós só falávamos com ele com capuz. O que não era verdade. Tínhamos uma relação cordial com ele no cativeiro. Conosco, ele criticava a tortura e a censura. Depois ele deu declarações muito elogiosas a nosso respeito. Disse que éramos jovens, idealistas, queríamos o melhor para o país. Naturalmente ele discordava dos métodos, mas nos respeitava e considerava corajosos.
Pela militância, você pagou com tortura, exílio, isolamento e prisão. Arrepende-se?
Fui preso meses após o sequestro. Fiquei dois meses na prisão e, em junho de1970, fui trocado pelo embaixador alemão. Não me arrependo. Valeu a pena. Eu faria tudo de novo, mas de forma diferente. Não sou incapaz de perceber erros em nossa trajetória. Mas o rumo geral da trajetória de militância política, de resistência à ditadura, isso eu mantenho e não me arrependo em nada.
Ficha de Cid na polícia do Rio: "um dos mais perigosos da dissidência"
Hoje você ainda se declara comunista?
A partir da experiência com os países do Leste Europeu, eu, que sempre me declarei comunista, não me declaro mais. Na cabeça das pessoas, comunismo ficou sendo isso, e isso não tem nada a ver com o que eu quero. Eu quero um regime socialista, com democracia, com liberdade e pluripartidarismo.
Na época da militância vocês já discutiam isso?
Nós tínhamos uma visão crítica. Nossa organização, o MR-8, uma dissidência do Partido Comunista, criticava a invasão da Tchecoslováquia e o esmagamento da Primavera de Praga pelos soviéticos. Nós tínhamos uma percepção crítica quanto aos regimes do Leste Europeu. Não tão crítica como hoje, naturalmente, já que esses regimes se mostraram piores do que pareciam.
Você gosta da forma como lidamos com os crimes da ditadura?
Nós estamos atrasadíssimos. A Comissão da Verdade foi criada só no ano passado. E a ditadura acabou em 1985. Outros países latino-americanos estão muito mais avançados não só na apuração, como na punição dos responsáveis por crimes de lesa-humanidade.
A que se deve isso?
À forma como a ditadura acabou no Brasil. Os militares controlaram o processo de saída de cena. Quando o [Ernesto] Geisel começa a chamada distensão, a ditadura só vai acabar dez anos depois. Eles tentaram manter esse processo sob controle, seja para evitar mudanças sociais mais profundas, seja para evitar o conhecimento dos crimes. As comissões da verdade teriam que ter sido criadas antes.
No seu livro, você usa um tom sem revanchismo, às vezes conciliador, sobre o passado.
Eu não me considero conciliador. Não tenho revanchismo nem ódio pessoal de quem me torturou. Acho que as coisas têm que vir à tona, eles têm que sentar no banco dos réus, mas não porque eu tenho rancor e ressentimento, mas porque o futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores. E é fundamental que o país saiba o que aconteceu nos porões e que os responsáveis sejam julgados, mesmo que depois sejam anistiados. É um ciclo que tem que ser cumprido.

DW.DE

segunda-feira, 24 de março de 2014

Ato em memória das vítimas da ditadura.

Rumo a Maceió19/03/2014 | 23:58
36º CNJ terá ato em memória das vítimas da ditadura e contra agressões a jornalistas
 
A Comissão Organizadora do 36º Congresso Nacional dos Jornalistas - que será em Maceió (AL), de 2 a 6 de abril - concentra-se nos preparativos finais da programação e na recepção das delegações de todo o país. Antecedendo a abertura do evento haverá o I Encontro Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial. Em ato político no Monumento ao Menestrel, jornalistas homenagearão vitimas da ditadura e marcarão as atividades do Dia do Jornalista em protesto contra as agressões à categoria no Brasil.

Além de receber o 36º Congresso Nacional dos Jornalistas, Maceió também sediará o I Encontro Nacional dos Jornalistas pela Igualdade Racial (I Enjira), que acontecerá no dia 2, das 8 às 17h, no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Jaraguá, com o tema “Os jornalistas e a construção da igualdade racial na Mídia”. O evento vai reunir cerca de 100 participantes entre os integrantes das Comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras) de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Alagoas, Paraíba e Bahia, além do Núcleo de Jornalistas Afrobrasileiros do Rio Grande do Sul e profissionais que discutem a temática nos demais sindicatos da categoria e em outros Estados do Brasil.

Jornalismo e democracia
Com o tema central " O Jornalismo, o Jornalista e a Democracia", o 36º CNJ contará com uma programaçãodiversificada. O sociólogo francês, Dominique Wolton, será o conferencista da abertura do Congresso, na noite do dia 2 de abril, no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Maceió. Reconhecido como um dos grandes especialistas europeus em política e comunicação, ele abordará o tema “Jornalismo para humanizar a comunicação”.

Símbolos da resistência dos jornalistas brasileiros à ditadura, como Audálio Dantas e Raimundo Pereira, são presenças garantidas no evento, como também o ministro dos Esportes, Aldo Arantes. Durante o evento, o jornalista, professor e pesquisador José Marques de Melo será homenageado com a Comenda de Honra da FENAJ por sua trajetória de contribuição com o desenvolvimento do jornalismo e com a organização da categoria.

O presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Jim Boumelha, a vice-presidente da Federação dos Jornalistas da América Latina e do Caribe (FEPALC) Zuliana Lainez, juntamente com a 1ª vice-presidente da FENAJ, Maria José Braga, traçarão um perfil das lutas empreendidas pela categoria em nível internacional e no Brasil para garantir a segurança dos jornalistas no exercício de suas funções.

Entre os palestrantes confirmados mais recentemente estão Francisco José, repórter especial da Rede Globo, com seis copas do mundo no currículo, para falar sobre o tema “Jornalismo Esportivo – A logística de um repórter na Copa do Mundo” e o diretor de redação do jornal O Globo, Ascânio Seleme, que participará do painel "Jornalismo Novo ou Novas Plataformas?".

Segundo a 2º vice-presidente da FENAJ e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, Valdice Gomes, para fechar o "time de peso" que participará das palestras e debates, faltam ainda as confirmações do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro e presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, Dom Orani Tempesta, e do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, para o painel "Regular para democratizar a comunicação". "São presenças muito aguardadas que engrandecerão ainda mais o nosso Congresso e que esperamos que confirmem nas próximas horas", adianta Valdice.

Ela acrescenta que, no dia 4 de abril, às 19h, no Monumento ao Menestrel Teotônio Vilela, haverá um ato político cultural para marcar os 50 anos do golpe de 1964 e as atividades do Dia do Jornalista (7 de abril) em contraponto à crescente violência contra jornalistas no Brasil. "Será um ato aberto a toda a sociedade, com participação de membros da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão da Verdade dos Jornalistas, onde faremos um tributo às vitimas da ditadura", conta.

Inscrições
As inscrições de delegados ao 36º Congresso Nacional dos Jornalistas encerraram-se no dia 17 de março. Mas prosseguemabertas para os interessados em participar como observadores (jornalistas e estudantes).

Últimas notícias:
20/03/2014 - GT encerra trabalhos com recomendações para combate à violência contra profissionais da comunicação
19/03/2014 - 36º CNJ terá ato em memória das vítimas da ditadura e contra agressões a jornalistas
19/03/2014 - Encontro do FNPJ destaca diretrizes curriculares de jornalismo
Fonte: FENAJ.

domingo, 23 de março de 2014

Na prática à práxis marxista é outra
Tomislav R. FemenickMestre em economia, contador e historiador

Práxis é uma forma de pensamento que procura explicar a conduta humana em relação à política, à economia e à moral. Se buscarmos suas raízes as encontramos nas ideias de Platão, que procurou direcionar a ação política pela teoria. Já Aristóteles entendia que a conduta humana, em relação à vida e suas relações socioeconômicas, se caracteriza por uma objetividade concreta e não por reflexões teóricas. O próximo grande salto foi dado por Hegel, que definiu a práxis como um processo de interação da objetividade e da subjetividade tendo por base o pensamento e a ação do homem, como agente das transformações sociais.
Já a práxis marxista, é um conceito que procura explicar as ações humanas que objetivam transformar a sociedade. Marx postula a existência de uma teleológica nas ações do homem, relacionando ações com causas objetivas, fato que explicaria as grandes lutas revolucionárias. A práxis marxista (aqui simplificada) é a base da argumentação que dá suporte a outro pensamento central do marxismo: o conceito de modos de produção, uma concepção abstrato-formal, um processo de ascensão do concreto para o abstrato, de descida progressiva do abstrato para o concreto e, finalmente, de comprovação empírica.
Em “A ideologia alemã”, Marx e Engels afirmam que a forma como a sociedade está organizada para a produção de bens identifica uma “fase de desenvolvimento das suas forcas produtivas materiais” que, por sua vez, determina as relações de produção entre os homens. Sobre essa estrutura econômica é que se ergueria uma supraestrutura social, alicerçada em um ordenamento político que se fundamentaria em formulações jurídicas, ambos (ordenamento político e formulações jurídicas) resultantes da consciência da sociedade, esta também consequência das relações de produção. Assim, o “processo da vida social, política e espiritual em geral” seria resultante do modo de produção vigente. Todavia esse estado de coisa teria caráter precário, pois a própria evolução das relações de produção criariam choques de interesses entre as classes sociais, abrindo, “assim, uma época de revolução social”.
Esse posicionamento deu ensejo ao desenvolvimento da teoria do “etapismo”. Engels foi o primeiro (Origen de la familia, de la propriedad privada y del Estado) a apontar para o gradualismo, sendo seguido por Lênin (Acerca del Estado, in Marx, Engels e el marxismo). Enquanto o primeiro tomou como campo teórico a Europa ocidental, o segundo deu uma amplitude geral ao conceito dos degraus evolutivos. Porém o “etapismo” só foi sacramentado como dogma do marxismo quando Stalin (Materialismo dialético e materialismo histórico) reconheceu como históricos somente “cinco tipos fundamentais de relações de produção: a comuna primitiva, a escravatura, o regime feudal, o regime capitalista e o regime socialista”.
Ora, todas essas contorções teóricas tiveram por objetivo sentenciar o fim do capitalismo, que seria vitima de si mesmo: o crescimento do capital exige o crescimento do proletariado que, vivendo na miséria, se engajaria na luta pela derrubada do regime, fazendo surgir o socialismo que viria no bojo da ditadura do proletariado. A realidade contradisse toda essa argumentação. Embora não o ideal, nos regimes verdadeiramente capitalistas houve um crescimento continuado do padrão de vida dos trabalhadores, enquanto que o socialismo “científico” veio e foi embora. Somente restaram Cuba e a Coréia do Norte, simples ditaduras hereditárias. China e Vietnã só têm de comunista o nome do partido no poder.

Tribuna do Norte. Natal, 23 mar 2014.

O Mossoroense. Mossoró, 15 mar 2014.