terça-feira, 4 de novembro de 2014

OAB reativa Comissão Verdade e Memória.

Ciclo Verdade e Memória: V Ato terá depoimento de Laly Carneiro

A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Norte realizará mais uma edição do Ciclo Verdade e Memória – V Ato - na próxima quarta-feira (05), às 17h, na Seccional Potiguar, com o depoimento de Laly Carneiro, primeira mulher no nordeste a ser presa por problemas políticos.
O evento é gratuito e destinado a advogados, estudantes de direito, integrantes de movimentos sociais e interessados na discussão. O objetivo é mostrar as bandeiras, lutas e circunstâncias pelas quais muitos foram presos, torturados, banidos e assassinados pelo regime militar.
A primeira edição do Ciclo aconteceu em 2012 com a participação do jornalista norte-riograndense  Dermi Azevedo (ex-preso político e um dos fundadores do Movimento Nacional de Direitos Humanos/MNDH), dos advogados Paulo Francinete e Roberto Furtado. A segunda edição contou com os depoimentos de Juliano Siqueira e Zé Rodrigues em 14 de junho de 2013. A terceira edição aconteceu no dia 27 de junho e contou com os relatos de Meri Medeiros e Antônio Capistrano no mesmo ano. E a quarta edição foi em Mossoró com o relato de Luiz Alves em 12/07/2013.
Ciclo Verdade e Memória – V Ato
Data: 05/11/2014
Local: Auditório da OAB/RN
Horário: 17h
Relato: Laly Carneiro
Aberto ao público
Por: Anne MedeirosMore Sharing Services
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Mestre
Walter Medeiros*
A história do Rio Grande do Norte estaria incompleta se não fosse dada a verdadeira importância do Movimento Estudantil, que foi resgatado a duras penas por dedicados militantes que colocaram a luta contra a ditadura militar acima de qualquer outro interesse. Mas entre esses militantes existe uma pessoa cuja participação precisa ser bem situada, explicada e entendida. Trata-se de Juliano Siqueira, que já havia passado pelos porões da repressão e retomava sua vida estudantil como estudante de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, a partir da inauguração do campus.
Juliano foi a maior referência da resistência, tanto pela sua experiência e preparo, como pela liderança nata que levou a estudantada a reunir-se em torno das lutas que eram identificadas como necessárias e indispensáveis. Era um tempo em que a sala de aula da nossa turma – tive o privilégio de ser seu colega de curso – reunia nada menos que oito agentes da Polícia Federal e outros órgãos de segurança. Tempo em que todos desconfiavam de praticamente todos. A relação de confiança para participação nas atividades políticas era algo construído com o máximo de cautela, mas era impossível não correr certos riscos.
Nesse cenário iam sendo retomadas as atividades da política estudantil, das quais lembro bem a primeira, a eleição do representante dos estudantes de Direito no colegiado do curso. Disputa acirrada entre um civil, no caso eu mesmo, e um estudante de Direito capitão da Polícia Militar, Domício Damásio. Ganhamos a eleição com uma grande margem, o que nos deixava com um sentimento indescritível: um misto de vitória e vibração, com receio do que poderia advir naquele novo cenário. Depois nossos colegas democratas e socialistas foram sendo eleitos para os diretórios acadêmicos e finalmente para o Diretório Central de Estudantes - DCE, cuja eleição, a exemplo do que ocorria na política geral, era indireta: cinco presidentes de diretórios elegiam o Presidente do DCE.
Em 1976, na eleição para o DCE o candidato dos democratas e das chamadas esquerdas era o estudante de Direito Jair Elói de Souza. Mas havia uma informação de que poderia ter seu nome vetado pela Assessoria de Segurança e Informação – ASI, por conta da sua atuação política. Havia a impressão de que o meu nome seria menos visado, daí a decisão de registrarmos a minha candidatura a Presidente do DCE. Caso a candidatura de Jair não fosse vetada, eu retiraria a minha. E foi o que aconteceu. Depois de confirmada a candidatura, retirei a minha e aquele colega foi eleito Presidente do DCE, entidade que tinha sede no prédio do IFRN da Avenida Rio Branco.
Cada fato político de importância nacional era comentado e discutido pelas lideranças estudantis universitárias, que diariamente planejavam suas atividades nos mais diversos locais, sempre driblando aqueles agentes dos órgãos de segurança que podiam até saber parte dos nossos roteiros, porém eram seguramente despistados. Mas chegavam a desenvolver ações mais diretas na tentativa de inibir o movimento.
Em dado momento houve uma manifestação de estudantes em São Paulo, com cerca de cem participantes. Era uma grande multidão para a época onde três pessoas conversando já preocupavam à repressão. O fato foi noticiado por mim através da Rádio Cabugi, onde trabalhava como redator. Poucos minutos depois o diretor da Rádio, José Gobat foi chamado a dar explicações na Polícia Federal, que funcionava perto da sua residência, em Tirol. Ia ser noticiado na Tribuna do Norte, através de matéria de Edilson Braga, mas a PF tomou conhecimento e Agnelo Alves foi chamado para receber a informação de que a matéria estava censurada.
Nos dias seguintes os estudantes de Natal elaboraram e divulgaram uma nota de apoio ao movimento de São Paulo, numa reunião de cerca de sessenta pessoas realizada no Campus. Como resultado, todos foram chamados a depor para dar explicações na ASI ou na Polícia Federal. Naquele tempo a agenda dos colegas era complicada. François Silvestre também fazia parte da nossa turma de Direito e havia sido preso pela PF. Em dado momento invadiram e fizeram uma busca na casa de Juliano Siqueira, situada na rua Jundiaí. Lembro de quando nos reencontramos com ele e ele relatou sobre coisas que levaram, inclusive alguns poemas de sua lavra. Não sei se os resgatou.
Minha namorada à época (hoje minha mulher), Graça foi chamada à ASI e sofreu pressões para afastar-se de mim e dos demais participantes do Movimento Estudantil. Fui caçado em casa e na rua, até que me pegaram na redação da Tribuna do Norte e fui levado a depor na Polícia Federal, onde compareci por três dias. Ali fizeram acareação minha com François, para tentar criar contradições em nossos depoimentos. Quando cheguei à PF e fui levado à presença do superintendente Hugo Pôvoa, o professor Varela Barca estava tratando da liberação de um curso de Russo para um dentista que necessitava de literatura naquele idioma. Varela Barca afirmou que a partir daquele momento estava ali como meu advogado. Mas o policial garantiu não ser necessário que permanecesse. Também meu irmão Wellington Medeiros, chegando de viagem a São Paulo foi até a PF tomar pé da situação. Estava terminando meu depoimento e fui liberado, saindo com ele.
Em 1977, para concluir o curso, candidatei-me a orador da solenidade geral de colação de grau. Apresentei o discurso a ser proferido e fui chamado pelo professor Paulo Soares, que sugeriu retirar o discurso para que não fosse vetado. Disse-lhe que não desistiria e que se tivessem de vetar, que o vetassem. Assim ocorreu. O discurso foi vetado e o orador da solenidade naquele ano foi um sargento do Exército. Paralelamente eu havia sido escolhido orador da turma de Direito. Resultado: o mesmo discurso vetado eu li na Aula da Saudade, que ainda tenho na memória. O professor Américo de Oliveira Costa fez referência ao meu discurso considerando-me um “idealista”.
Os fatos importantes daquela época passavam pela discussão do grupo, que reunia estudantes de todos os centros, bem como agregados das lutas democráticas e, pela clareza com que conseguia interpretar e orientar as ações, a maioria tratava, merecidamente, Juliano como o Mestre. O local era determinado pelas circunstâncias: uma sala de aula, um cinema, um bar, o cineclube. Juliano conseguia transmitir um imenso amor à causa do povo, uma fé na força popular, uma esperança num futuro livre daquelas aflições, uma certeza em meio a um imenso mar de dúvidas.
A lembrança de escrever esse relato tem, portanto, como objetivo, deixar esse registro da homenagem ao amigo lutador, a quem os potiguares e brasileiros devem parte do que conquistaram a partir dos avanços democráticos das décadas seguintes aos anos 70.
*Jornalista


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 9/12/2014 12:26:00 PM

domingo, 24 de agosto de 2014

O depoimento de Míriam Leitão.

sábado, 23 de agosto de 2014

REGISTRO, COM TRISTEZA, NA ESPERANÇA DE QUE NÃO SE REPITA

Ficha de Miriam Leitão (ou Amélia) quando foi presa, em 1972 - Matheus Leitão / Arquivo pessoal
RIO — Dois dias depois de ser presa e levada para o quartel do Exército em Vila Velha, cidade próxima a capital Vitória, no Espírito Santo, a jornalista Míriam Leitão, na época militante do PCdoB, foi retirada da cela e escoltada para o pátio. Seu suplício, iniciado no dia 4 de dezembro de 1972, até ali já incluía tapas, chutes, golpes que abriram a sua cabeça, o constrangimento de ficar nua na frente de 10 soldados e três agentes da repressão e horas intermináveis trancada na sala escura com uma jiboia. A caminho do pátio escuro, os torturadores avisaram que seria último passeio, como se a presa estivesse seguindo para o fuzilamento.
— Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e fuzis, e pensei: “Eu sou muito nova para morrer. Quero viver”.
Míriam Leitão, 42 anos depois de viver a traumatizante experiência da tortura nos porões do regime, cedeu aos apelos do jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha. Em longo depoimento divulgado nesta terça-feira pelo portal “Observatório da Imprensa”, ela deu detalhes sobre o que sofreu no quartel de Vitória, e revelou o nome do chefe da equipe de torturadores: Pablo. O mesmo codinome usado pelo tenente-coronel Paulo Malhães, na época agente do Centro de Informações do Exército (CIE), que contou ao GLOBO, há dois anos, que usava em seus interrogatórios uma cobra apelidada de “Míriam”.
Quando a reportagem com Malhães foi publicada, Míriam Leitão emocionou-se e teve vontade de chorar. Ela jamais esqueceu das horas de terror com a jiboia, período em que procurou não se mexer para não atrair o réptil. Porém, num primeiro momento, resolveu esconder sua experiência até dos filhos. Mudou de ideia, recentemente, depois da divulgação de relatórios produzidos pelas Forças Armadas, a pedido da Comissão Nacional da Verdade, nos quais Exército, Marinha e Aeronáutica negaram a ocorrência de “desvios de função” nas suas unidades durante o regime militar.
— Eu vivi o desvio de função — disse.
Leia a íntegra da matéria do Observatório da Impressa aqui.
A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE MÍRIAM LEITÃO
“Eu morava numa favela de Vitória, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na época, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir à praia do Canto, próxima ao centro da capital. Acordei para ir à praia e acabei presa na Prainha. É o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa construção bonita do século 17. Ali está instalado o quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, do outro lado da baía.
Eu tinha dado quatro plantões seguidos na redação da rádio Espírito Santo e já tinha quase um ano de profissão. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em direção à praia, alguém gritou de repente:
– Ei, Marcelo?
Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa direção com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente à Polícia Federal. Meu ônibus sempre passava em frente à sede da PF e eu tentava guardar os rostos.
– É a Polícia Federal – avisei ao Marcelo
Em instantes estávamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:
– O que está acontecendo?
Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o camburão. Era uma camionete Veraneio, sem identificação. Eu tive uma reação curiosa: antes que me empurrassem sentei no chão da calçada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a atenção das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manhã de domingo, havia pouca gente circulando. Achava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justiça na cabeça, reclamei:
– Moço, cadê a ordem de prisão?
O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:
– Esta serve?
As algemas eram diferentes, eram de plástico, e estavam muito apertadas, doíam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em direção a Vila Velha, onde fica o quartel do Exército. Eu ainda achava que não era nada comigo, que o alvo era o Marcelo. Ele estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a única greve de estudantes do país daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vitória e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Achei que estava presa só porque estava indo à praia com o Marcelo.
A Veraneio entrou no pátio do quartel, o batalhão de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu. Sobre mim jogaram cães pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: “Terrorista, terrorista!”. Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os soldados que me cercavam começaram a cantar aquela música do Ataulfo Alves: “Amélia não tinha a menor vaidade/
Amélia é que era mulher de verdade”. Só então percebi que minha prisão não era um engano. “Amélia” era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim: “Você, a partir de agora, vai se chamar Amélia”. Quis reagir na hora, afinal não tenho nada de Amélia, mas não quis discordar logo na primeira reunião com o dirigente.
O comandante do batalhão era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo Cândido Sequeira, que exerceu o comando do 38º BI entre 10 de março de 1971 a 13 de março de 1973], que fingia que mandava, mas não via nada do que acontecia por lá. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capitão Guilherme, o único nome que se conhecia dele. Ele era o chefe do S-2, o setor de inteligência do batalhão. Todos os interrogatórios e torturas estavam sob a coordenação dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofetão só porque eu o encarei.
– Nunca mais me olhe assim! – avisou.
Fui levada para uma grande sala vazia, sem móveis, com as janelas cobertas por um plástico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de pé e me mandaram não recostar na parede. Chegaram três homens à paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japonês. Mandaram eu tirar a roupa. Uma peça a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu:
– A roupa! Tire toda a roupa.
Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. O homem de cabelo preto falou:
– Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim.
Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas é relativo, não sei quanto tempo durou essa primeira ameaça. Viriam outras.
Eles saíram e o homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu não conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento. Então, fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta. Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera,
ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo doía.
Não sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque não via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto. Não sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu não ouvia nada, não via nada. Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro. Lembro que quando aqueles três homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situação. Eu pensava que era só sadismo. Não sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que além de tudo tinha o apelido de Míriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso. Míriam e Míriam, juntas na mesma sala. Essa era a graça, imagino.
Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo. Ninguém tratou de minha ferida , não me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capitão Guilherme, eu deixei cair no chão. Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento. Só três dias após minha prisão é que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema anônimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa. Ele procurou muito e só conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas só ao final de três semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.
Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, saí três meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei lá com um mês de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu bebê. Foi o que médico me disse, quando saí de lá, com quatro meses de gestação. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, anêmica, com carência aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu bebê na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o médico.
– A má notícia eu já sei, doutor, vou procurar logo um médico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.
Mas isso foi ao sair. Lá dentro achei que não havia chance alguma para nós. Eu era levada de uma sala para outra, numa área administrativa do quartel, onde passava por outras sessões de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimidação. Na noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sessão de interrogatório pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me ameaçando de estupro, dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer. Entraram no meio da noite na cela do forte para onde eu
fui levada após esses dois dias. Falaram que seria o último passeio e me levaram para um lugar escuro, no pátio do quartel, para simular um fuzilamento. Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e fuzis, e pensei: “Eu sou muito nova para morrer. Quero viver”.
Um dia, um outro militar, que não era nenhum daqueles três, botou um revólver na minha cabeça e falou: “Eu posso te matar”. E forçou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solidão, de abandono. Eu me senti absolutamente só no mundo. Pela falta de notícias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer também e que ninguém saberia da minha morte, pensei. Mas não quis demonstrar medo. Lembro que o homem do revólver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: “Sim, você pode pode me matar”. E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: “Sim, você pode!”
Um dos interrogatórios foi feito na sala do capitão Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele não estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biquíni e a camisa, era a única roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.
Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou. Ignoraram a revelação e minha condição de grávida não aliviou minha condição lá dentro. Minha cabeça doía, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava. Eu não podia me lavar, não tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, à noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alemães latindo na minha cara. Não mordiam, mas pareciam que iam me estraçalhar, se escapassem da coleira. E, para enfurecer ainda mais os cães, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: “Terrorista, terrorista!...”
As primeiras três semanas que passei lá foram terríveis. Só melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi então que eles não pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, é o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: “E aí, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer lá...” Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Exército, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.
Quando o trio voltou para o Rio, a situação ficou menos ruim. Eles já não tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte não havia janelas, a porta era inteiriça
e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.
Até que chegou o dia de assinar a confissão, para dar início ao IPM, o inquérito policial-militar que acontecia lá mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capitão Guilherme, o S-2, e levei um susto. Lá estava o Marcelo, que eu pensava estar morto. Os militares saíram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi até a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones lá atrás. Era tudo grampo.
Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e lá ficou nove meses numa solitária. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ninguém para conversar. Foi colocado lá para enlouquecer. Nove longos e solitários meses... Nós, todos os presos, e os que já estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que eles chamam de sumário de culpa, o único momento em que o réu fala. Eu com uma barriga de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.
Nunca mais vi o capitão Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, após a prisão, e virou jornalista. Fomos para Brasília em 1977. Por ironia do destino, Marcelo só conseguiu vaga de repórter para cobrir os tribunais. E lá no STM, um dia, ele reviu o capitão Guilherme. Depois disso, não soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda está vivo.
O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.
Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.
Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país. (Depoimento a Luiz Cláudio Cunha).
Read more: http://oglobo.globo.com/brasil/miriam-leitao-fala-sobre-tortura-que-sofreu-nua-gravida-de-1-mes-durante-ditadura-13663114#ixzz3B9Fdfrl2

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014



C A S O S   M A I S   R E C E N T E S
Por: GILENO GUANABARA, sócio efetivo do IHGRN

                - Natal de abril de 1964. Um grupo de funcionários dos Correios exercia intensa militância política. Um de nome Néco era ativista, atraía para si os debates acerca das reformas de base e a defesa intransigente do governo de João Goulart. Néco se envaidecia também pelo fato de privar a amizade do Capelão, padre Eladio Lereste Monteiro, cujo apreço decorria de ter celebrado o seu casamento religioso. Com o golpe de 1964, os militantes da esquerda que estavam presos no quartel do Exército foram surpreendidos com a visita do capelão Eladio. Da grade da cela, depois de demorada observação, o padre manifestou: Espere... Não estou vendo o meu compadre Néco...No dia seguinte Néco chegou preso e ficou recolhido na cela dos demais.

            - O líder católico Otto de Brito Guerra era reconhecidamente conservador. Professor da Faculdade de Direito, na cadeira de Direito Civil, quando ocorreu o golpe de abril de 1964. Dentre os presos políticos estava o prefeito de Natal, Djalma Maranhão. Dada a repressão exercida pelas forças militares, poucos advogados aceitavam patrocinar a defesa dos presos. Otto Guerra aceitou fazer a defesa de Djalma Maranhão. Durante a audiência de instrução, uma testemunha arrolada referiu-se, e constou da ata, que Djalma Maranhão fazia festança comunista à noite, em sua casa na praia de Ponta Negra. Dada a palavra ao defensor, Dr. Otto interpelou da testemunha se ela sabia explicar o que era exatamente festança comunista. A testemunha respondeu: Acho que era uma brincadeira do Bumba meu boi.

            - No mês de março de 1964, um grupo de intelectuais engajados encenou no então Teatro Carlos Gomes a peça Novo julgamento de Tiradentes. Escrita por Luís Maranhão a quatro mãos, teve a participação de universitários. Dos atores, constavam Hélio Vasconcelos, (defesa); Jansen Leiros (acusação); Danilo Bessa, Antônio Capistrano, Guaracy Queiroz (jurados), dentre outros. Para consagrar o clima da estreia, sindicalistas, trabalhadores e estudantes foram convidados e lotaram o teatro. Sorteado o corpo de jurados, feita a leitura do libelo-crime acusatório, deu-se o contraditório com a acusação e a defesa destacando seus pontos de vista.

            Sentado na primeira fila, havia um ativista apelidado de Pelé que, nas horas vagas, distribuía na cidade o jornal do Partido Comunista, A Voz Operária. A ele, foi atribuído o papel de, no auditório, tão logo fosse lida a condenação, se insurgir por um novo júri. Um estivador sentado ao seu lado não sabia do combinado. Tão logo foi decretada a morte e esquartejamento de Tiradentes, Pelé levantou-se entusiasmado: Meritíssimo juiz, em nome do povo brasileiro, protesto por um novo júri. O estivador puxou Pelé pelos fundos da calça, fê-lo sentar e fulminou: Senta negrinho, isso não vai dar certo...            

            - Nos idos de 1962, Aluísio Alves tinha como vice-governador o líder do PSD no Estado, Theodorico Bezerra, que integrou a Cruzada da Esperança. Tendo que viajar ao Estados Unidos, a fim de firmar compromissos com Aliança para o Progresso, do governo americano, afim de financiar o projeto de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, o governador não estava disposto a transferir o governo ao vice. Aluísio presenteou Theodorico com uma viagem à África, a título de férias. Adicionou um safari e caça a elefantes. Para tal, deu-lhe de presente, uma espingarda de grosso calibre, com luneta, própria para a caça de animais de grande porte. Orgulhoso, Theodorico partiu em viagem à África. Fotos o retrataram pisando um elefante abatido. Aluísio seguiu aos EUA. Só assim, transferiu o governo ao irmão Garibaldi Alves, deputado e presidente da Assembleia.

            - Um gozador era o professor Carlos Augusto Caldas que ensinou na cadeira de Processo Penal na Faculdade de Direito de Natal, na velha Ribeira. Fora auditor militar no Rio de Janeiro e desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. Na condição de presidente do Tribunal, por vacância do Executivo, foi convocado a exercer o cargo de governador, a fim de dar posse a Aluísio Alves, em 1960. Gracejava perante os alunos, nos intervalos das aulas: Sou o único ex-governador que nunca se locupletou com o dinheiro do Estado. Mas fui governador por apenas seis horas...

                - No ano tenso de 1970, uma cidadã que nada tinha de militância política se hospedou no apartamento de familiares, defronte ao quartel que abrigou os líderes políticos de oposição presos depois do golpe. Bem a sua vista, cedo da manhã, ocorria a solenidade de hasteamento da bandeira. A tropa perfilada, à frente a banda de música executava o Hino Nacional. Trajando um traje sumário, do alto do seu camarote e de posse de uma pequena bandeira, a visitante fazia a sua exibição, com mogangas direcionados à solenidade. Passados alguns dias de repetida e inconsequente performance, bateu à porta do apartamento uma comissão de militares. Em ofício, o comando militar oficializava o agradecimento à ilustre cidadã que anonimamente se manifestava com inusitado ardor patriótico, em respeito ao símbolo maior da nacionalidade, a bandeira nacional, durante o ato de seu hasteamento matutino perante a tropa.

- Petit das Virgens e outros jornalistas foram convidados pelo cerimonial do Governo Federal, presidente à época, o General Garrastazu Médici, a fim de darem cobertura jornalística ao lançamento de um foguete experimental da Base de Barreira do Inferno. O clima político do país era extremamente grave. Próximo à plataforma do lançamento, ao lado do presidente, enfileiravam-se os governadores e, logo atrás, os jornalistas e militares convidados. No silencio que dominou os presentes, enquanto o artefato subia, Petit não conteve a emoção e disse em alta voz: O perigo é quando as tabocas começam a despencar. Os militares se voltaram em sua direção. Palavras ouvidas, ditas estavam.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

JN




Cardeal EUGÊNIO SALES
Jurandyr Navarro
Do Conselho Estadual de Cultura
Aplicando a capacidade cognitiva à disposição de um labor construtivo, fez de Dom Eugênio Sales alvo do aplauso unânime dos seus patrícios.

Um Prelado originário de uma minúscula cidade - Acari, obscuridade geográfica do mapa-mundi, converteu-se no grande apóstolo da modernidade católica, cuja admi­ração causada pelo trabalho magnífico empreendido, atravessou fronteiras internacio­nais e chegou à abóbada do Vaticano.

Dom Eugênio tornou-se

"um virtuoso na arte do possível",

como diria Jean Lacouture (1991) a respeito do herói de Pamplona o fundador da Ordem Jesuíta, a instituição dos conquistadores e dos intelectuais da Igreja Católica Apostólica Romana.

A extraordinária trajetória do Cardeal Sales começou em nossa Capital, passando pela Cúria de Salvador e ultimando no Arcebispado da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Foram cinquenta anos de luta pertinaz, sem canseiras nem cavilações; nem de­magogia, sem alarde e sem buscar os holofotes da publicidade paranóica. Proeza fan­tástica somente realizável e consumada pelos verdadeiros líderes da Humanidade, la­bor incansável reconhecido por todos.

Não direi aqui as suas muitas realizações. O seu número exorbitaria do texto aqui aplicado. Não aludirei às suas Palestras nacionais e internacionais, às Medalhas rece­bidas, aos Troféus acumulados, os testemunhos dos políticos, intelectuais e Cardeais de todos os idiomas ditos a seu respeito e também de Pontífices. O seu curriculum vitae daria as páginas de uma plaquete. Desenho, apenas, nesta página, alguns traços marcantes da sua vida trepidante, a vol d’oiseau.

Pertence, Dom Eugênio, à categoria restrita daqueles bravos em que a Nação pode confiar o seu patriotismo e a Igreja o seu altar. Nele, dificuldade não era sinônimo de impossibilidade.

Ninguém poderá medir no compasso, pesar na balança, e pôr na estatística as realizações desse Notável condutor de almas. Muitas vezes pensava uma iniciativa pela manhã e na parte da tarde estava ela concretizada. A sua atividade indormida transfor-mou-o num grande administrador, auxiliada, também, pela clarividência de sua mente objetiva.

Disse Peter Druker, famoso autor da Ciência da Administração, que

"não há países subdesenvolvidos; e sim, sub-administrados".

Conclui-se desse corolário ser o bom político, o bom administrador o fator essen­cial do desenvolvimento civitizatório de uma nacionalidade. O Brasil já teve bons e me­díocres governantes todos sabem; como a Igreja Católica, Bispos realizadores e outros apenas contemplativos.

O Trabalho foi sempre a constante e a determinante ideia fixa posta em prática por esse audaz cavaleiro do Grande Rei, vencendo todos os aclives do caminho tortuoso percorrido. Ele semeou a semente do Bem no coração dos fiéis, dos infiéis, dos letrados e ignorantes, pois todos são filhos de Deus.

Como disse Vieira, tribuno inigualável, há muita diferença entre o semeador e o que semeia.

O semeador é o nome, o que semeia é ação! O apostolado de D. Eugênio foi todo de Ação.

Não havia óbices para o herói de Pamplona no ardor da sua luta. O mesmo se deu na vida do Cardeal Sales, toda ela determinada através de um trabalho pertinaz, em edificar uma Igreja melhor "Quero uma Igreja de Homens e não de pedras", disse certa vez, visando o Bem da humanidade, como induz a divisa jesuíta: Ad Majorem Dei glori­am (Para a maior glória de Deus).

Todos devemos ter um ideal, um ideal nobre. D. Eugênio acendeu a chama do ideal desde a mocidade.

"Felizes, disse Bordeaux, os que colocaram bem alto o sonho da sua vida". Afirmou Riboulet (Rumo à Cultura, 1977): "Quando o ideal se apodera de uma inteligência, domina-a completamente".

Expressões estas condizentes com a postura existencial do eminente Bispo potiguar, obedecendo, sempre, na sua vida um ideal nobre.

Eis por que exultava Pierre Rostand, da Plêiade, a chamar, sobre a amplidão da praia sombria, a onda sonora do ideal.

Além de cultuar um ideal elevado, Dom Eugênio aprofundou-se no fazer, dizendo com Carlyle:

"O viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer".

Não o fazer por fazer, da multidão anônima; mas, o fazer programado pela inteli­gência e acionado pela vontade: o savoir faire!

De suas meditações e questionamentos redundaram mudanças importantes no Governo pontifício. A sua palavra autorizada foi ouvida por Chefes da Cristandade.

A formação do ínclito varão católico foi mais intensificada no ambiente temporal, do que propriamente no ambiente religioso, embora jamais descurasse a atenção primacial deste último. Cursou o Seminário depois do período turbulento da puberdade. Passou a infância e parte da adolescência envolvido na sociedade profana, leiga e libe­ral.

Diversa, portanto, a sua visão social daquela vislumbrada pela maioria dos seus colegas de ministério eclesial. Assim foi a vida de Loyola; do Bispo de Hipona e de alguns Papas, dentre eles João XXIII e Paulo II.

Daí, a inclinação de D. Eugênio, desde a Ordenação em buscar responsabilidades junto aos leigos, para juntos atuarem nas comunidades ditas carentes. Tal se depreende do texto bíblico, a atuação de Esdras, o sacerdote e de Neêmias, o leigo; animados ambos, numa ação conjunta pelas terras da Judeia.

Ciente da força da Imprensa, usou o Jornal, o Rádio e depois a Televisão, para ampliar a voz do púlpito.

A prece contemplativa no Altar e a ação do Trabalho formaram o binômio vitorioso da trajetoria do aplaudido Pastor. Jamais foi dobrado pelo cansaço na caminhada por estrada tortuosa, sem admitir recuos ou desfalecimentos.

Lembra esse labor incansável, as palavras incisivas de Henri Bergson:

"O que me impressiona em Jesus, é essa ordem de ir sempre avante. De modo que se poderia dizer que o elemento estável do Cristianismo é a ordem de jamais se deter".

Por todos reconhecida a extraordinária gesta de meio século pela Igreja, pelos trabalhadores, pela sorte dos detentos e reclusos e dos pobres em geral e também guieiro da elite social.

Foi ele um Pastor que teve dignidade no cargo exercido, em consideração e reve­rência aos postulados éticos do Cristianismo.

A propósito disso declarou Guizot:

"A Igreja Católica é a mais vasta escola de respeito, de obediência e de autoridade".

O eminente nordestino foi uma das autoridades mais acatadas da nação brasileira.

Não irei mais me alongar sobre personalidade tão significativa, mesmo porque dela falar seria um nunca acabar...

Numa palavra, foi ele o grande Príncipe da nossa Igreja!

O Cardeal Eugênio de Araújo Sales não é somente uma destacada figura do Rio Grande do Norte e do Brasil; tem ele o seu nome augusto lugar perpétuo na galeria restrita e luminosa dos imortais vultos da Humanidade.

sábado, 12 de julho de 2014

Alemanha

Casa Branca quebra silêncio sobre acusação de espionagem na Alemanha

EUA dizem que diferenças com Alemanha devem ser tratadas em conversas fechadas. Merkel desaprova a atitude americana e afirma que não é fácil convencer os EUA a reformular o trabalho dos serviços de inteligência.
Depois da revelação de que dois funcionários do governo alemão estavam realizando atividades de espionagem para os serviços de inteligência dos EUA, o governo dos EUA resolveu quebrar o silêncio neste sábado (12/07) sobre a espionagem americana no Departamento Federal de Informações da Alemanha (BND). Segundo o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, o tema não deve ser discutido abertamente, mas em conversas fechadas.
"Todas as diferenças que nós temos são resolvidas de melhor forma por meio dos canais tradicionais disponíveis, não pela mídia", afirmou Earnest. Na mesma coletiva de imprensa, ele afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, não realizam contato telefônico há mais de uma semana.
Em outro episódio da espionagem americana, celular de Merkel foi grampeado
De acordo com informações publicadas pela revista alemã Spiegel neste sábado, o provável espião americano no Departamento Federal de Informações (BND) não era supervisionado pela Embaixada dos EUA em Berlim.
Segundo a revista, agentes da CIA da Embaixada em Viena, na Áustria, teriam encontrado algumas vezes o homem de 31 anos em Salzburgo, onde teriam recebido documentos secretos e realizado pagamento pelo trabalho realizado.
Críticas de Merkel
A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, voltou a criticar neste sábado (12/07) a Casa Branca. Mesmo assim, ela frisou que a cooperação dos serviços de inteligência dos dois países deve continuar.
Em entrevista à emissora alemã ZDF, Merkel afirmou que a Alemanha não tem como impor que os EUA deixem de espionar em território alemão. "Numa abordagem geral, eu acredito que não é tão fácil convencer os americanos da reformulação do trabalho das agências de inteligência. Por isso temos que deixar claro onde estão as diferenças de atitude."
Ao ser perguntada se tem expectativas de que os EUA mudem a sua conduta, Merkel afirmou que não pode predizer, mas espera que sejam realizadas mudanças. Merkel também não esconde a sua falta de compreensão diante da atitude americana. "Quando isso acontece, do meu ponto de vista não é uma cooperação entre parceiros."
A chanceler federal afirmou, também, que nenhuma relação de confiança implica a aceitação de espionagem. "Nós queremos uma cooperação entre parceiros. Isso inclui a não espionagem mútua, também nos serviços de inteligência", disse Merkel, afirmando ainda que não seria necessário o rompimento da cooperação alemã com os serviços de inteligência dos EUA.
FC/dpa/rtr

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Alemanha expulsa chefe da CIA.

Alemanha

Fonte:dw.de

Em escândalo de espionagem, EUA silenciam, Alemanha exige respeito

Agente americano expulso deve deixar a Alemanha em breve. Ministro alemão do Exterior Steinmeier reafirma que expulsão foi passo certo e exige confiança e respeito dos EUA. Washington não comenta o assunto.
A expulsão do chefe do serviço de inteligência dos Estados Unidos em Berlim causou mal-estar na relação teuto-americana. Enquanto Washington ignora o fato e permanece em silêncio, ministros alemães exigem esclarecimento sobre casos de espionagem contra o país, pedindo confiança e respeito.
O ministro alemão do Exterior, Frank Walter Steinmeier, avaliou nesta sexta-feira (11/07) a decisão de ordenar a saída da Alemanha do chefe da espionagem americana como um "passo necessário" e uma "reação apropriada", diante a quebra de confiança. A decisão se seguiu à revelação que dois funcionários do governo alemão possivelmente estavam realizando atividades de espionagem para os serviços de inteligência dos EUA.
"Nós precisamos e esperamos uma parceria baseada na confiança", comentou Steinemeier. A Alemanha deseja nutrir com os EUA um "intercâmbio de opiniões aberto", que não hesite diante questões difíceis, como tem sido até agora. Perante às muitas crises no mundo – no Irã, Ucrânia, Oriente Médio, Afeganistão – a "ligação transatlântica" é mais do que necessária, disse.
Reforço da parceria
Segundo o ministro social-democrata, é ilusão acreditar que a mitigação dos conflitos e a busca de soluções diplomáticas possam ser bem sucedidas sem uma estreita cooperação com os Estados Unidos. Ele alerta, porém, que essa cooperação precisa ser conduzida com confiança e respeito mútuo.
Steinmeier (esq.) vai conversar com Kerry sobre os eventos de espionagem, em encontro em Viena
"Nós queremos revitalizar nossa parceria e amizade sobre uma base sincera", anunciou Steinmeier, acrescentando ser essa a mensagem que ele vai levar a seu homólogo americano, John Kerry, em Viena. No fim de semana, ministros do Exterior de vários países se encontram na capital austríaca para discutir o programa nuclear iraniano.
Enquanto isso, o governo alemão confirma que o agente americano deve deixar o país em breve. "Foi uma clara ordem de retirada", comentou o porta-voz do ministério do Exterior. Apesar do agravamento do escândalo de espionagem, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente dos EUA, Barack Obama, continuam tento um "bom contato", afirmou, por sua vez, o porta-voz da Chancelaria Federal, Steffen Seibert.
Silêncio americano
Entretanto, Merkel e Obama não conversaram na quinta-feira e no momento nenhum telefonema entre os dois está programado, prossegue Seibert, que, mesmo com os últimos acontecimentos, diz não temer efeitos negativos sobre a amizade teuto-americana.
Esta estaria "profundamente ancorada" em ambos os lados do Oceano Atlântico e viva através de milhões de pessoas. O porta-voz também negou que o escândalo de espionagem possa abalar a cooperação entre os serviços secretos da Alemanha e dos Estados Unidos, como divulgado pelo jornal alemão Bild.
No entanto, o ministro alemão da Justiça, Heiko Maas, espera que os EUA revelem todas as atividades de espionagem contra a Alemanha e as encerrem imediatamente. Os americanos precisam contribuir ativamente para os esclarecimentos das acusações, exigiu Maas ao jornal Passauer Neue Presse.
Até o momento, Washington permanece em silêncio perante o novo escândalo, sem se posicionar oficialmente sobre as acusações ou a expulsão do agente. "Qualquer tipo de comentário sobre alegadas ações do serviço secreto colocaria em risco o patrimônio, os funcionários e a segurança nacional dos EUA", declarou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. Ele salientou que a relação entre os dois países permanece muito importante para os Estados Unidos.

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