Resgatar a história do movimento estudantil e a resistência a ditadura militar no Rn.
sábado, 10 de setembro de 2016
Na verdade os heróis eram sacripantas
Tomislav R. Femenick – Mestre em economia e historiador
Um ano antes da célebre canção de Dorival Caymmi, em 1944 eu, meu pai e minha mãe pegamos um Ita no Nordeste e fomos morar no Rio Janeiro. Eu tinha cinco anos de idade, porém me lembro de alguns aspectos da viagem, inclusive do desembarque no cais da Praça Mauá, na então capital federal. Nessa mesma praça, um ano depois, em julho de 1945, assisti o desembarque das pracinhas brasileiros que tinham lutado na Europa contra o nazismo e o fascismo, sistemas totalitários com os quais o Estado Novo getulista chegou a flertar. Passados três meses, Getúlio Vargas deixou a Presidência, pondo fim à ditadura mais ambígua e cruel da história nacional.
Seis anos depois, Getúlio voltou a ocupar a presidência da República, dessa vez eleito pelo voto popular. Foi presidente por três anos, seis meses e 24 dias. Seu novo governo foi marcado por escândalos de todo ordem: corrupção, crises econômicas, enfrentamento com militares, atentados de morte contra opositores etc. Escolheu o suicídio como forma de entrar para a história, legando ao país uma grave crise institucional. Essa a herança que recebeu o seu vice, nosso conterrâneo Café Filho, que tentou dar novo rumo ao governo, adotando uma política econômica liberal. Em novembro de 1955, Café deixou a presidência por motivos de saúde. Carlos Luz, o presidente da Câmara dos deputados, assumiu o cargo de primeiro mandatário e tudo fez para impedir que Juscelino Kubitschek tomasse posse como presidente; cargo para o qual tinha sido eleito.
Em 31 de janeiro de 1961, o extravagante Jânio Quadros foi empossado como presidente. Fez uma administração histriônica; misto de opera bufa e teatro burlesco e grotesco. Deu no que deu: durante um dos seus delírios renunciou à presidência. Dizem que queria ser ditador. Nas idas e vindas de acordos, em seu lugar assumiu o vice João Goulart, primeiro como presidente em um regime parlamentarista, depois como chefe de governo presidencialista; até que foi deposto pelo golpe militar de 1964. O histórico tudo mundo sabe: 21 anos de obscuridade, com Atos Institucionais, cassações de mandatos, fechamento do Congresso, censura à impressa e o escambau.
No início da década de 1990, Fernando Collor de Mello foi eleito presidente intitulando-se o “caçador de marajás”, porém seu primeiro ato foi caçar a poupança das pessoas. Seu governo foi repleto de escândalos, tendo como operador a taciturna figura de P. C. Farias. Collor renunciou o mandato, mas mesmo assim sofreu impeachment pelo Senado e perdeu os direitos políticos.
E chegou o ano de 2003. Pela primeira vez o chão da fábrica bateu às portas do paraíso. Luiz Inácio Lula da Silva, um nordestino que foi para o sul maravilha nos duros bancos de um caminhão “pau de arara”, recebe a faixa presidencial do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. A esperança de milhões de brasileiros enfim seria realizada pelas mãos do Lulinha paz e amor. No começo, tudo bem; seguindo a política econômica de FHC e com o mercado internacional favorável, conseguiu estabilidade e fez distribuição de renda. Nesse cenário cooptou políticos de outros partidos e grandes empresários. O problema veio depois quando explodiu o mensalão. Mesmo assim reelegeu-se e depois elegeu Dilma. Mais ai veio o petrolão, os financiamentos não ortodoxo do BNDES, os prejuízos dos fundos de pensões, amante mantida à custa do governo, prisão de ministros de Lula e Dilma, triplex em Guarujá e sítio em Atibaia, pedaladas fiscais e outras violações às disposições legais, à moral e aos bons costumes. Resultado: Dilma também sofreu impeachment.
Triste e melancólico fim de uma utopia que desabou sobre si mesma.
Tribuna do Norte. Natal, 10 set. 2016
sábado, 3 de setembro de 2016
BRASIL
Deutsche Welle - dw.de - 03.09.2016
Em 13 anos no poder, PT minou o próprio legado
Petistas promoveram avanços na área social reconhecidos internacionalmente. Mas viram conquistas econômicas da era Lula se diluírem com Dilma e incentivo ao combate à corrupção ser manchado por escândalos.
Dilma e Lula em 2015: os governos petistas trouxeram a questão social ao centro dos debates políticos
Com o desfecho do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o ciclo de pouco mais de 13 anos do PT à frente do governo chegou ao fim. Nesse período, o país passou por profundas transformações sociais e econômicas. Veja abaixo o legado que o governo comandado pelos petistas deixou para o Brasil.
Área social
As gestões petistas trouxeram a questão social ao centro dos debates políticos. O governo Lula lançou o Bolsa Família, que é apontando pelas Nações Unidas como uma das principais medidas responsáveis por reduzir a pobreza extrema no país. Segundo o Banco Mundial, o número de pessoas vivendo nessa situação caiu 64% entre 2001 e 2013.
Outros indicadores sociais também experimentaram uma evolução positiva. A taxa de analfabetismo caiu de 11,6% para 8,1%. A expectativa de vida passou de 71,1 anos em 2003 para 75,2 anos em 2015. Já a taxa de mortalidade infantil caiu de 26,04 em 2002 para 13,82 em 2015.
No campo educacional, o Brasil também passou por vários avanços. O investimento público em educação saltou de 4,6% do PIB em 2003 para 6,2% em 2013. Houve uma política de incentivo a construção de universidades. Em 13 anos, foram criadas 20 instituições federais.
A criação de programas de incentivo à pesquisa e o aumento no volume de recursos também ajudaram a aumentar o número de mestres e doutores. Em 2003, o país formou cerca de 35 mil deles. Em 2014, foram quase 67 mil. Além de aumentar as vagas no ensino superior público, o governo turbinou programas de financiamento estudantil, como o FIES, que dispararam a partir de 2010, chegando a 17,8 bilhões em 2014.
Economia
O legado do PT para a economia é mais complexo, já que os governos Lula e Dilma tiveram condutas bastante contrastantes. Quando assumiu, Lula se comprometeu a seguir a linha adotada pelo seu antecessor, FHC, que previa metas de inflação e superávit primário. Com o boom das commodities, houve crescimento econômico. O país passou a acumular boas notas entre agências e ganhou elogios de banqueiros. Entre 2003 e 2015, passou de 13° economia do mundo para o 9° lugar.
Sob Lula, o país passou a acumular mais reservas internacionais. Elas eram de meros 37,65 bilhões de dólares em 2003. No final de 2010, atingiram 299,5 bilhões de dólares. Já o PIB no governo Lula apresentou expansão média de 4% ao ano, entre 2003 e 2010, superior aos anos FHC.
Mas parte das conquistas econômicas sob Lula começou a ser diluída na gestão Dilma a partir de 2011. A nova presidente lançou mão de uma nova matriz econômica, insistindo ainda mais em reduzir juros e congelar preços de energia e combustíveis para segurar a inflação. Também continuou com investimentos maciços em estatais. Boa parte das medidas, somada à queda das commodities e ao descontrole das contas públicas, acabou tendo resultados catastróficos a partir de 2014.
Ao longo dos seus 13 anos, o PT também deixou de lado reformas estruturais que poderiam ter dado mais dinamismo à economia. Sob Dilma, os números começaram a se deteriorar. O superávit que era de 101 bilhões de reais no final de 2010 passou para um resultado negativo de -32,5 bilhões em 2014. A taxa de desemprego, que era 10,5 em 2003, foi reduzida para 5,3 no final do governo Lula, mas voltou a subir sob Dilma, atingindo 11,2 em maio de 2016.
Com os resultados negativos de Dilma, a média de crescimento do PIB sob o PT saiu arranhada. Em vez da expansão média de 4% observada sob a Lula, a média total dos 13 anos caiu para 2,9%, não muito superior à observada nos anos FHC.
Série de escândalos, como o Petrolão, envolvendo as gestões de Lula e Dilma acabaram manchando esse legado
Corrupção
Quando estava na oposição, o PT incentivava um discurso de ética na política. Apesar dos escândalos em que se envolveu, a gestão petista tomou medidas de impacto positivo. Sob Lula, a figura do "engavetador da república" saiu de cena. Por sugestão do Ministério Público, o ex-presidente passou a nomear procuradores-gerais indicados pelo próprio órgão. A Polícia Federal também passou a receber mais investimentos.
Lula também criou órgãos como a Controladoria-Geral da União (extinta sob Temer). Os governos petistas também incentivaram a aprovação de leis para combater a corrupção, como a Lei da Ficha Limpa, a Lei de Acesso à Informação, entre outras. Quando a Lava Jato já havia estourado, a presidente Dilma também evitou fazer mudanças no comando da PF e do MP.
Só que a série de escândalos que envolveram as gestões de Lula e Dilma acabaram manchando esse legado. Apesar do discurso de ética, a gestão petista fez poucos esforços para realizar uma reforma política ampla, preferindo fazer uso de velhos métodos questionáveis para governar, como a divisão de cargos ou o pagamento de subornos.
Os primeiros grandes escândalos – o dos Bingos e o Mensalão – estouraram ainda no primeiro governo Lula. Já sob Dilma, o país experimentou o maior escândalo de corrupção da sua história, o Petrolão, que mais uma vez envolveu políticos do PT e aliados de outras siglas.
Como resultado dos escândalos, três ex-tesoureiros do PT acabaram sendo presos. O Petrolão também ajudou a revelar a forma como a sigla e outros partidos se financiavam e a relação próxima com grandes empreiteiras.
sábado, 13 de agosto de 2016
Mundo
Opinião: Realidades paralelas no aniversário de Fidel
O governo cubano celebra os 90 anos de Fidel Castro como outra conquista
da Revolução. Mas nem o exacerbado culto à personalidade consegue
esconder a desilusão do povo cubano, opina Amir Valle.
Décadas atrás, Eugenio Selman, o médico pessoal de Fidel Castro, fundou o
"Clube dos 140 Anos", e vários líderes históricos cubanos e dos "países
amigos" do Terceiro Mundo aceitaram o desafio que se lançava:
demonstrar que, com uma alimentação adequada, vida metódica para evitar o
estresse e, sobretudo, cuidados e tratamentos médicos especiais, seria
possível alcançar e até superar a longevidade dos líderes do povo
hebreu. Os quais, segundo a Bíblia, haviam sido eleitos por Deus para
guiar o povo de Israel até a Terra Prometida.
Todos os membros desse clube exclusivo, inclusive seu fundador, estão mortos, exceto o líder cubano.
As evidências históricas indicam que Fidel incorporou o mito de que ele seria o Messias de que Cuba precisava para se salvar de um sistema que excluía os pobres. Contudo ele completa 90 anos sem cumprir a promessa que fez em 1953, após a condenação pelo assalto ao Quartel de Moncada, em seu famoso discurso "A história me absolverá". Promessas que foram integradas ao programa da Revolução Cubana, após a vitória desta em 1959.
Mas nem esse programa, nem as fabulosas reformas com as quais o irmão Raúl Castro, décadas mais tarde, pretendeu evitar o ocaso econômico e social da ilha, atingem seu alvo. Elas só existem no reino de uma demagogia populista que, apesar de suas óbvias falhas, continua conseguindo lograr o mundo. Mas não os cubanos.
Ninguém sabe como ou quando essas "reformas" vão dar em algo. Uma coisa, no entanto, é clara: o poder será transferido para os herdeiros, para os neocastristas. E, vergonhosamente, essa transferência transcorre com a cumplicidade de nações democráticas.
Por debaixo dos panos do politicamente correto, elas negociam com Cuba sobre os próprios interesses econômicos e estratégicos, tornando-se, assim cúmplices de um governo cuja inflexibilidade elas bem conhecem. É um governo que condena os cubanos a viver em mundos paralelos.
Por um lado, há as concessões feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com a intenção de que a abertura econômica cubana seja um primeiro passo no sentido de uma transformação da sociedade. E há as continuadas investidas da Rússia para recuperar sua posição estratégica na região, tendo Cuba como base. E há a avalanche de propostas de cooperação econômica partindo da União Europeia, Tudo consequência da reaproximação entre Washington e Havana.
Do outro lado, porém, continua havendo o desespero do povo com a protelação das reformas econômicas verdadeiras, tão urgentemente necessárias. E há o medo social de uma nova crise de abastecimento, como nos anos 1990; há o endurecimento da tributação e das exigências burocráticas que impedem o sucesso das pequenas empresas.
Há a repressão redobrada da oposição crescente, que já levou mais de uma dezena de dissidentes à greve de fome, para dar fim à brutalidade contra manifestantes pacíficos. A desilusão se reflete na triplicação do número de cidadãos que fogem da realidade de sua ilha.
Muitos cubanos continuam sem entender em que país vivem. Porém eles entendem menos ainda a atitude da Europa perante o governo deles. O fato de uma firma francesa obter a concessão para operar o aeroporto da capital, enquanto a Alemanha não pode fundar lá um Instituto Goethe, é uma contradição para eles. Como é possível aceitarem que Cuba condicione a presença cultural e educacional da UE a uma maior e mais efetiva presença econômica europeia?
A insatisfação dos cubanos fica demonstrada em diversos blogs independentes e artigos de uma nova geração de jornalistas independentes, que não veem no aniversário de Fidel nenhum pretexto para custosas festividades.
Mas, naturalmente, também há o grupo de músicos populares que compôs uma balada para o ditador mais idoso do mundo. Como um hino, essa canção é tocada sem parar em todas as rádios, TVs e e alto-falantes. Numa ilha que crê cada vez menos na existência de um Messias.
* Nascido em 1967 em Guantánamo, Amir Valle é escritor, jornalista e crítico literário. Vive desde 2006 no exílio na Alemanha.
Todos os membros desse clube exclusivo, inclusive seu fundador, estão mortos, exceto o líder cubano.
As evidências históricas indicam que Fidel incorporou o mito de que ele seria o Messias de que Cuba precisava para se salvar de um sistema que excluía os pobres. Contudo ele completa 90 anos sem cumprir a promessa que fez em 1953, após a condenação pelo assalto ao Quartel de Moncada, em seu famoso discurso "A história me absolverá". Promessas que foram integradas ao programa da Revolução Cubana, após a vitória desta em 1959.
Mas nem esse programa, nem as fabulosas reformas com as quais o irmão Raúl Castro, décadas mais tarde, pretendeu evitar o ocaso econômico e social da ilha, atingem seu alvo. Elas só existem no reino de uma demagogia populista que, apesar de suas óbvias falhas, continua conseguindo lograr o mundo. Mas não os cubanos.
Ninguém sabe como ou quando essas "reformas" vão dar em algo. Uma coisa, no entanto, é clara: o poder será transferido para os herdeiros, para os neocastristas. E, vergonhosamente, essa transferência transcorre com a cumplicidade de nações democráticas.
Por debaixo dos panos do politicamente correto, elas negociam com Cuba sobre os próprios interesses econômicos e estratégicos, tornando-se, assim cúmplices de um governo cuja inflexibilidade elas bem conhecem. É um governo que condena os cubanos a viver em mundos paralelos.
Por um lado, há as concessões feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com a intenção de que a abertura econômica cubana seja um primeiro passo no sentido de uma transformação da sociedade. E há as continuadas investidas da Rússia para recuperar sua posição estratégica na região, tendo Cuba como base. E há a avalanche de propostas de cooperação econômica partindo da União Europeia, Tudo consequência da reaproximação entre Washington e Havana.
Do outro lado, porém, continua havendo o desespero do povo com a protelação das reformas econômicas verdadeiras, tão urgentemente necessárias. E há o medo social de uma nova crise de abastecimento, como nos anos 1990; há o endurecimento da tributação e das exigências burocráticas que impedem o sucesso das pequenas empresas.
Há a repressão redobrada da oposição crescente, que já levou mais de uma dezena de dissidentes à greve de fome, para dar fim à brutalidade contra manifestantes pacíficos. A desilusão se reflete na triplicação do número de cidadãos que fogem da realidade de sua ilha.
Muitos cubanos continuam sem entender em que país vivem. Porém eles entendem menos ainda a atitude da Europa perante o governo deles. O fato de uma firma francesa obter a concessão para operar o aeroporto da capital, enquanto a Alemanha não pode fundar lá um Instituto Goethe, é uma contradição para eles. Como é possível aceitarem que Cuba condicione a presença cultural e educacional da UE a uma maior e mais efetiva presença econômica europeia?
A insatisfação dos cubanos fica demonstrada em diversos blogs independentes e artigos de uma nova geração de jornalistas independentes, que não veem no aniversário de Fidel nenhum pretexto para custosas festividades.
Mas, naturalmente, também há o grupo de músicos populares que compôs uma balada para o ditador mais idoso do mundo. Como um hino, essa canção é tocada sem parar em todas as rádios, TVs e e alto-falantes. Numa ilha que crê cada vez menos na existência de um Messias.
* Nascido em 1967 em Guantánamo, Amir Valle é escritor, jornalista e crítico literário. Vive desde 2006 no exílio na Alemanha.
- Data 13.08.2016
- Autoria Amir Valle
- Palavras-chave Fidel Castro, Revolução Cubana, 13 de agosto de 1926, 90 anos, Raúl Castro
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Mundo
Deutsche Welle - 13.08.2016
Fidel Castro: o grande ausente faz 90 anos
O líder revolucionário cubano festeja o 90º aniversário. Sem ser a
figura forte e onipresente de décadas atrás, seu legado ainda reverbera
na política da ilha e no coração de parte do povo. Mas os jovens querem
mudança.
É preciso procurar bastante na capital Havana para encontrar referências
ao aniversário do líder revolucionário Fidel Castro, que completa 90
anos neste sábado (13/08). Em alguns muros foram pintados votos de
parabéns, aqui e ali veem-se cartazes, e nas vitrines de certas lojas
estatais afixaram-se mensagens de congratulações. Na vida quotidiana dos
cubanos, Fidel praticamente não é mais presente.
Pouco mais de dez anos atrás, a coisa era bem diferente. Na noite de 31 de julho de 2006 os cidadãos da república comunista foram confrontados com o inconcebível: em horário nobre e com expressão séria, Carlos Valenciaga, secretário particular de Fidel Castro, anunciava o retiro temporário do "Comandante".
Depois de 47 anos à frente da nação, seu abalado estado de saúde – na época ainda um segredo de Estado – obrigava Fidel a entregar todos os postos importantes ao irmão Raúl, cinco anos mais novo.
Assim Fidel abandonava o palco da grande política, que ele adentrara em 1953, com o assalto ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, acompanhada do famoso discurso "A história me absolverá". E, o mais tardar, com o triunfo da Revolução Cubana em 1959. Em 2008, a despedida provisória tornou-se permanente.
"Quando eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar"
Sob o irmão Raúl, tido como mais pragmático, nos últimos anos o Estado insular mudou. Agora é permitida a compra e venda de automóveis e imóveis, foram abolidas as restrições às viagens e ampliado o acesso à internet para a população. Além disso, Raúl Castro abriu a economia aos investidores estrangeiros, reduziu o setor estatal, permitindo mais iniciativas privadas.
Desde então, centenas de milhares de cubanos se tornaram trabalhadores autônomos. No entanto, a maior façanha política de Raúl Castro é, possivelmente, a apenas iniciada aproximação aos Estados Unidos. Uma iniciativa quanto a qual Fidel se mostra cético.
Após a histórica visita do presidente Barack Obama a Cuba, o ex-líder esbravejou em sua coluna de opinião publicada a intervalos irregulares no jornal do Partido Comunista de Cuba (PCC), o Granma: "Não precisamos de presentes do Império" – para, num pós-escrito, recordar dos anos de sanções, atentados e os mortos das agressões americanas.
Um ex-chefe do serviço secreto cubano assegura que contra o próprio Fidel teriam sido realizadas 638 tentativas de atentado pelos serviços secretos dos EUA e por cubanos exilados. Em anos recentes, o "Comandante" foi várias vezes dado como morto. Seu comentário: "Minha morte foi inventada tantas vezes, que no dia em que eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar."
Despedida longamente anunciada
Aparentemente Fidel superou a grave enfermidade intestinal que o obrigou a se retirar, porém à custa da antiga onipresença: ocasionalmente ele recebe visitantes estrangeiros para conversas privadas, como o papa Francisco e o presidente francês, François Hollande.
As imagens divulgadas pela mídia estatal mostram um homem grisalho, visivelmente envelhecido, magro, de voz trêmula e roupa esportiva. Contudo, mesmo sem poder político real, Fidel Castro permanece sendo uma figura de peso para a ala ortodoxa do PCC, aquele para quem a virada promovida por Raúl está indo longe demais.
"Os conservadores, que não querem nenhuma mudança, se aferram a Fidel, disso não há a menor dúvida", declarou o ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray à agência de notícias AP.
No entanto trata-se também da herança de Fidel. "A hora de cada um de nós chega, mas as ideias da Revolução Comunista vão perdurar"; afirmou em abril, na sessão de encerramento do Congresso do PCC, realizado a cada cinco anos. Essa seria "talvez uma das últimas vezes que falo neste salão", disse o veterano. Entre os cerca de mil delegados presentes, não eram poucos os que tinham lágrimas nos olhos.
Eterno jovem barbudo de uniforme revolucionário
Apesar de tudo, o país se preparou para a festa de aniversário de seu antigo líder. A TV passa entrevistas da época do governo Fidel, e são muitos os programas especiais para a ocasião.
Em Birán, no leste da ilha, onde ele nasceu em 1926, esperam-se centenas de visitantes para as festividades deste sábado (13/08), e serão plantadas árvores em sua homenagem. No entanto não está prevista nenhuma cerimônia pública com a presença do aniversariante. Seu contato com o povo deve se restringir à coluna que publicou neste sábado, no portal Cubadebate, pedindo paz no mundo.
Pelas ruas de Havana, a importância do revolucionário é venerada. "Sou fã de Fidel, isso eu digo abertamente", ostenta a professora sexagenária Mirta Hernández. "Como ele, não há outro. Tomara que ele fique conosco ainda por muitos anos."
Em contrapartida, Alejandro afirma: "Não ligo para política nem para Fidel." Ele trabalha "por conta própria" e nasceu depois da Revolução, assim como a maior parte de população. "Até Fidel e o Raúl dele irem embora, nada vai mudar neste país", reforça.
Já o informático Fahd Perreira acha que "Fidel vai ser sempre uma personalidade extraordinária, não só em Cuba, mas principalmente em Cuba. Mas agora é hora de a juventude assumir e de as coisas andarem adiante."
Quer absolvido pela história ou não, certo está: hoje Fidel Castro tem lugar cativo na memória coletiva como aquele jovem barbudo de uniforme verde-oliva, que liderou a revolta armada e depois resistiu aos Estados Unidos durante décadas.
Pouco mais de dez anos atrás, a coisa era bem diferente. Na noite de 31 de julho de 2006 os cidadãos da república comunista foram confrontados com o inconcebível: em horário nobre e com expressão séria, Carlos Valenciaga, secretário particular de Fidel Castro, anunciava o retiro temporário do "Comandante".
Depois de 47 anos à frente da nação, seu abalado estado de saúde – na época ainda um segredo de Estado – obrigava Fidel a entregar todos os postos importantes ao irmão Raúl, cinco anos mais novo.
Assim Fidel abandonava o palco da grande política, que ele adentrara em 1953, com o assalto ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, acompanhada do famoso discurso "A história me absolverá". E, o mais tardar, com o triunfo da Revolução Cubana em 1959. Em 2008, a despedida provisória tornou-se permanente.
"Quando eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar"
Sob o irmão Raúl, tido como mais pragmático, nos últimos anos o Estado insular mudou. Agora é permitida a compra e venda de automóveis e imóveis, foram abolidas as restrições às viagens e ampliado o acesso à internet para a população. Além disso, Raúl Castro abriu a economia aos investidores estrangeiros, reduziu o setor estatal, permitindo mais iniciativas privadas.
Desde então, centenas de milhares de cubanos se tornaram trabalhadores autônomos. No entanto, a maior façanha política de Raúl Castro é, possivelmente, a apenas iniciada aproximação aos Estados Unidos. Uma iniciativa quanto a qual Fidel se mostra cético.
Após a histórica visita do presidente Barack Obama a Cuba, o ex-líder esbravejou em sua coluna de opinião publicada a intervalos irregulares no jornal do Partido Comunista de Cuba (PCC), o Granma: "Não precisamos de presentes do Império" – para, num pós-escrito, recordar dos anos de sanções, atentados e os mortos das agressões americanas.
Um ex-chefe do serviço secreto cubano assegura que contra o próprio Fidel teriam sido realizadas 638 tentativas de atentado pelos serviços secretos dos EUA e por cubanos exilados. Em anos recentes, o "Comandante" foi várias vezes dado como morto. Seu comentário: "Minha morte foi inventada tantas vezes, que no dia em que eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar."
Despedida longamente anunciada
Aparentemente Fidel superou a grave enfermidade intestinal que o obrigou a se retirar, porém à custa da antiga onipresença: ocasionalmente ele recebe visitantes estrangeiros para conversas privadas, como o papa Francisco e o presidente francês, François Hollande.
As imagens divulgadas pela mídia estatal mostram um homem grisalho, visivelmente envelhecido, magro, de voz trêmula e roupa esportiva. Contudo, mesmo sem poder político real, Fidel Castro permanece sendo uma figura de peso para a ala ortodoxa do PCC, aquele para quem a virada promovida por Raúl está indo longe demais.
"Os conservadores, que não querem nenhuma mudança, se aferram a Fidel, disso não há a menor dúvida", declarou o ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray à agência de notícias AP.
No entanto trata-se também da herança de Fidel. "A hora de cada um de nós chega, mas as ideias da Revolução Comunista vão perdurar"; afirmou em abril, na sessão de encerramento do Congresso do PCC, realizado a cada cinco anos. Essa seria "talvez uma das últimas vezes que falo neste salão", disse o veterano. Entre os cerca de mil delegados presentes, não eram poucos os que tinham lágrimas nos olhos.
Eterno jovem barbudo de uniforme revolucionário
Apesar de tudo, o país se preparou para a festa de aniversário de seu antigo líder. A TV passa entrevistas da época do governo Fidel, e são muitos os programas especiais para a ocasião.
Em Birán, no leste da ilha, onde ele nasceu em 1926, esperam-se centenas de visitantes para as festividades deste sábado (13/08), e serão plantadas árvores em sua homenagem. No entanto não está prevista nenhuma cerimônia pública com a presença do aniversariante. Seu contato com o povo deve se restringir à coluna que publicou neste sábado, no portal Cubadebate, pedindo paz no mundo.
Pelas ruas de Havana, a importância do revolucionário é venerada. "Sou fã de Fidel, isso eu digo abertamente", ostenta a professora sexagenária Mirta Hernández. "Como ele, não há outro. Tomara que ele fique conosco ainda por muitos anos."
Em contrapartida, Alejandro afirma: "Não ligo para política nem para Fidel." Ele trabalha "por conta própria" e nasceu depois da Revolução, assim como a maior parte de população. "Até Fidel e o Raúl dele irem embora, nada vai mudar neste país", reforça.
Já o informático Fahd Perreira acha que "Fidel vai ser sempre uma personalidade extraordinária, não só em Cuba, mas principalmente em Cuba. Mas agora é hora de a juventude assumir e de as coisas andarem adiante."
Quer absolvido pela história ou não, certo está: hoje Fidel Castro tem lugar cativo na memória coletiva como aquele jovem barbudo de uniforme verde-oliva, que liderou a revolta armada e depois resistiu aos Estados Unidos durante décadas.
domingo, 7 de agosto de 2016
quinta-feira, 14 de julho de 2016
UFRN discute a inserção na Rede Memorial do Nordeste
(Sirleide Pereira – Ascom-Reitoria/UFRN)
A memória institucional, a organização, preservação e disponibilização pública de acervos documentais e museológicos foram alvo de reunião no final da manhã desta quarta-feira, 13, entre a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Angela Maria Paiva Cruz, e o gerente de Relacionamento da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Álvaro Malagute.
Acompanhados do superintendente de Comunicação, José Zilmar Alves da Costa, e da diretora do Núcleo de Arte Cultura da UFRN, Theodora Alves, ambos acertaram um encontro em agosto próximo, em Natal, para oficializar a inserção da UFRN na Rede Memorial do Nordeste. Coordenador regional da Rede, o professor Marcos Galindo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área de memória, confirmou participação pelo telefone. Antes disso, convidou a reitora a participar de evento em Pernambuco, sobre memória institucional.
Acervos e projetos
Com recursos do BNDES e do Banco do Nordeste, a Rede Memorial do Nordeste compartilha informação de forma harmônica entre indivíduos de diferentes regiões, beneficiando a todos. A adesão à Rede Memorial do Nordeste habilita a UFRN a receber recursos públicos voltados para a organização de sua memória social, por meio de digitalização de acervos de imagem e som, arquivos documentais, acervos museológicos e outros.
Atualmente, duas frentes administrativas atuam na linha de memória social da UFRN: a Comissão de Gestão Documental, vinculada à Pró-reitoria de Administração (PROAD), implementando a modernização do Arquivo Geral, e a Coordenação de Ações Culturais, Museológicas e de Memória, da Pró-reitoria de Extensão (PROEX), fomentando discussões para mapeamento de acervos institucionais.
Conforme literatura, “acervos são bens patrimoniais pertencentes ou sob a guarda de um indivíduo ou uma instituição, pelos quais se pode ter acesso a informações valiosas de várias áreas do saber, de forma a preservar a identidade e a memória de uma comunidade”. Entre os grandes acervos pertencentes e/ou sob guarda da UFRN constam o do Museu Câmara Cascudo (MCC), o do Museu do Seridó, no CERES Caicó, o do Núcleo Tecnológico da Seca (NUTSECA), e a massa documental do Arquivo Geral, da TVU e de outros.
(Sirleide Pereira – Ascom-Reitoria/UFRN)
A memória institucional, a organização, preservação e disponibilização pública de acervos documentais e museológicos foram alvo de reunião no final da manhã desta quarta-feira, 13, entre a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Angela Maria Paiva Cruz, e o gerente de Relacionamento da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Álvaro Malagute.
Acompanhados do superintendente de Comunicação, José Zilmar Alves da Costa, e da diretora do Núcleo de Arte Cultura da UFRN, Theodora Alves, ambos acertaram um encontro em agosto próximo, em Natal, para oficializar a inserção da UFRN na Rede Memorial do Nordeste. Coordenador regional da Rede, o professor Marcos Galindo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área de memória, confirmou participação pelo telefone. Antes disso, convidou a reitora a participar de evento em Pernambuco, sobre memória institucional.
Acervos e projetos
Com recursos do BNDES e do Banco do Nordeste, a Rede Memorial do Nordeste compartilha informação de forma harmônica entre indivíduos de diferentes regiões, beneficiando a todos. A adesão à Rede Memorial do Nordeste habilita a UFRN a receber recursos públicos voltados para a organização de sua memória social, por meio de digitalização de acervos de imagem e som, arquivos documentais, acervos museológicos e outros.
Atualmente, duas frentes administrativas atuam na linha de memória social da UFRN: a Comissão de Gestão Documental, vinculada à Pró-reitoria de Administração (PROAD), implementando a modernização do Arquivo Geral, e a Coordenação de Ações Culturais, Museológicas e de Memória, da Pró-reitoria de Extensão (PROEX), fomentando discussões para mapeamento de acervos institucionais.
Conforme literatura, “acervos são bens patrimoniais pertencentes ou sob a guarda de um indivíduo ou uma instituição, pelos quais se pode ter acesso a informações valiosas de várias áreas do saber, de forma a preservar a identidade e a memória de uma comunidade”. Entre os grandes acervos pertencentes e/ou sob guarda da UFRN constam o do Museu Câmara Cascudo (MCC), o do Museu do Seridó, no CERES Caicó, o do Núcleo Tecnológico da Seca (NUTSECA), e a massa documental do Arquivo Geral, da TVU e de outros.
Área de anexos
quarta-feira, 8 de junho de 2016
DOS TEMPOS VERDES, NÃO SE ESQUECE DA ZANGA DOS COMPANHEIROS DO RIO GRANDE DO NORTE COM AS BAFORADAS DO FOLCLORISTA CÂMARA CASCUDO. “DEIXEM-ME FUMAR UM CHARUTO, SENÃO VOU EMBORA”, AMEAÇAVA O ESCRITOR NAS REUNIÕES.
Editor que revelou Rubem Fonseca combatia comunismo para os EUA
CLAUDIO LEAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
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Gravadas nas capas de livros, as iniciais GRD escondem o baiano Gumercindo Rocha Dorea, tão lendário quanto discreto. Primeiro editor dos escritores Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Fausto Cunha, além de criador de um selo pioneiro de ficção científica, Gumercindo se dedica a uma nova tarefa, aos 91 anos: “Quero recuperar livros jogados de escanteio ou pela ignorância, ou pela boçalidade cultural, ou pelo desinteresse”.
Perto de comemorar os 60 anos da Edições GRD, fundada em 1956, ele não desiste de correr atrás de livros, a julgar pela frequência com que interrompe as conversas para buscar uma obra rara ou esquecida, sempre arisco entre as pilhas de jornais e documentos espalhados em seu apartamento no bairro da Aclimação, em São Paulo.
A missão de nonagenário começou com “Fausto – Ensaio sobre o Problema do Ser” (1922), de Renato Almeida. O próximo será “Pascal e a Inquietação Moderna” (1924), do pensador católico Jackson de Figueiredo.
| Bruno Santos/Folhapress | ||
| Criador da lendária Edições GRD, Gumercindo Dorea, em seu apartamento na Aclimação |
A ausência de patrocínio o obrigou a adaptar-se a uma carpintaria caseira. Sua filha mais velha, Tera, digita os originais que são rodados em tiragens pequenuchas de 30 exemplares. O dinheiro das vendas é investido na publicação de outra obra. “A gente nasce com esse verme, com esse visgo, com esse vírus. Minha mãe (Emérita) era cronista e poeta. Eu cresci com sete irmãos. Somente eu herdei isso dela”, ele conta.
Este semestre, organizou a coletânea “Existe um pensamento político brasileiro? Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!”, em que dez jovens intelectuais analisam o Manifesto Integralista de Outubro de 1932.
Queixa-se da marginalização da GRD e culpa o preconceito ideológico de jornalistas e acadêmicos contra seu passado integralista jamais renegado, pois continua a defender as ideias de Plínio Salgado, amigo e ex-editado. “Nunca alimentei ódio contra ninguém. Mas ódios se voltaram contra mim”, lastima. “Quando comecei a lançar os grandes romances, não era nada com a revolução de 1964 ou com o integralismo, mas com o meu espírito de respeito à liberdade e à dignidade alheia. Eu lia, gostava, botava meu selo”.
Nascido em Ilhéus (BA), em 4 de agosto de 1924, Gumercindo concluiu o ensino médio em Salvador. Meninote de oito anos, participava das atividades da Ação Integralista Brasileira (AIB), cujo legado protegeria mais tarde, tornando-se editor do líder Plínio Salgado. Residente no Rio de Janeiro desde 1944, ele fundou a GRD em 1956, com a edição de “Filosofia da linguagem”, de Herbert Parentes Fortes. Formado em Direito, migrou para São Paulo no final dos anos 60. O baiano estima ter lançado cerca de 300 livros em seis décadas.
REVELAÇÃO DE RUBEM
A estreia de Rubem Fonseca, 90, talvez seja o maior orgulho profissional. No início da década de 60, o romancista baiano Adonias Filho apresentou Gumercindo ao general Golbery do Couto e Silva, na sede do Ipês (Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais). Criada em 1962, congregando militares e empresários, a entidade promoveu uma campanha de desestabilização do governo João Goulart (1961-64).
Fonseca dirigia a área de estudos e divulgação de projetos. No artigo “Anotações de uma pequena história”, publicado na Folha (27/03/1994), o escritor argumentou que integrava a “corrente democrática” do Ipês, contrária à “ruptura da ordem constitucional”.
“No primeiro contato percebi que Rubem, que assessorava o general, não era de muita conversa. Aconteceu porém que a secretária de Rubem (Fernanda Gurjan) me informou ter ele alguns contos na gaveta. Em confiança, me emprestou os originais”, recorda Gumercindo.
Convencido pela força das primeiras páginas, decidiu enviar o inédito para a gráfica da Revista dos Tribunais, em São Paulo. Não demorou a receber as provas de “Os prisioneiros”. Fonseca esbravejou, deu palavrões, pediu uma semana para pensar, e finalmente impôs uma condição: a capa deveria ser feita pelo filho, Zeca, de 5 anos. “Qual é o problema? Já vou economizar, porque não pagarei a seu filho. Quem sabe não temos um Mozart brasileiro nas artes gráficas?”, brincou o editor, que também lançaria “A coleira do cão” em 1965.
Contatado por meio de sua filha, Bia Corrêa do Lago, Rubem Fonseca aceitou falar sobre a experiência com a GRD. “Conheci o Gumercindo Dorea muito superficialmente e pouco posso falar sobre a sua personalidade. Sei que ele era honesto com aqueles que editava, como eu, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão e outros. Foi importante para mim, e certamente para os demais escritores que citei, o fato de a GRD ter lançado os nossos livros. Eu logo fui procurado por editoras de maior prestígio. Lembro-me que ele gostava de editar livros de ficção científica”, declarou à Folha, por e-mail.
“É o maior presente dos meus 91 anos”, emociona-se Gumercindo, assinalando que este é o primeiro depoimento de Fonseca, avesso a entrevistas, sobre seu trabalho. Lamenta não possuir nenhum exemplar autografado pelo mais célebre ex-editado.
| Rogerio Cassimiro/Folhapress | ||
| Os livros “A Coleira do Cão” e “Os Prisioneiros”, de Rubem Fonseca, editados por Gumercindo Rocha Dorea |
APOIO AMERICANO
O catálogo político da editora foi pesquisado pela doutora em História e professora da Universidade Federal da Bahia, Laura de Oliveira, que lançou este ano o livro “Guerra Fria e política editorial – A trajetória da Edições GRD e a campanha anticomunista dos Estados Unidos no Brasil (1956-1968)”.
“Embora, quando da inauguração da GRD, a editora tenha se dedicado mais a textos de linguística e filologia, bem como à literatura de ficção científica, os temas eminentemente políticos não tardaram a aparecer”, observa Laura. “Além da Enciclopédia do Integralismo, publicada em parceria com a LCB (Livraria Clássica Brasileira), a GRD publicou dezenas de livros de cunho político entre as décadas de 50 e 60, que tinham como tônica principal o anticomunismo”.
“Esses livros ajudaram a constituir uma ambiência intelectual favorável ao golpe civil militar e à legitimação do regime instaurado a partir de 1964”, avalia. Nas pesquisas, contabilizou 48 livros “traduzidos, editorados, impressos e distribuídos no Brasil com recursos do governo norte-americano, através da United States Information Agency, a USIA, que operava dentro da Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro”. O Ipês atuava, principalmente, na distribuição de obras como “Anatomia do comunismo”, de Walter Kolarz (e outros), e “Cuba, nação independente ou satélite?”, de Michel Aubry, ambos de 1963.
A professora ressalva que “mais de 60 editoras brasileiras publicaram livros com subsídios da USIA nos seus pelo menos 20 anos de atuação no país”. A GRD virou uma parceira tímida dos americanos entre 1962 e 1968 – “as principais foram a Fundo de Cultura, a Record e a Lidador” -, mas “seu perfil editorial a colocou no centro do debate politico desencadeado no Brasil entre as décadas de 50 e 60. Cada editor tinha autonomia para escolher os livros que queria publicar, no interior de uma lista aprioristicamente elaborada pela agência norte-americana”.
Gumercindo ainda não recebeu o livro e prefere não comentá-lo. Questionado, faz revelações sobre o período: “Com o que sobrava do dinheiro que eu recebia da aquisição pela embaixada (americana) dos volumes contratados, renovei a literatura brasileira publicando Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão, José Alcides Pinto, Marcos Santarrita, Samuel Rawet, Astrid Cabral, Fausto Cunha, Maria Alice Barroso e alguns que no momento me esqueço. Houve outros editores que enriqueceram (com o convênio). Não citarei nomes. A GRD não ficou rica”. O Instituto Nacional do Livro o apoiava na mesma época.
O editor limita a influência do fundador do Ipês: “Do Golbery, acho que um ou dois livros, que ele me sugeriu, eu gostei e publiquei”. Em 1964, estava ligado ao general e a Adonias Filho, eleito no ano seguinte para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.
“Eles nem sabiam, mas eu pertencia a um grupo de quatro pessoas de confiança da Marinha. Não conhecia os outros três. Cada um recebeu uma pistola. Nunca tinha usado nenhuma! Saí pela avenida Rio Branco e graças a Deus não aconteceu nada. Depois um oficial foi pegar de volta a pistola”, relata. “Não tenho arrependimento de nenhum passo que dei em minha vida, salvo não saber ganhar dinheiro”, diz Gumercindo, viúvo e pai de quatro filhos. Sobrevive com uma aposentadoria.
Apesar da militância integralista, garante que se dava “muito bem” com os comunistas e cita a amizade do romancista Jorge Amado, seu ex-adversário. “Houve uma época em que se ele me encontrasse na esquina, eu com uma pistola, ele com outra, o tiro pipocava. Começamos a ficar amigos depois da editora”.
Em vez de aproximá-los, o golpe de 1964 provocou uma ruptura com o antigo aliado e criador do SNI (Serviço Nacional de Informações). “Adonias era candidato ao governo da Bahia em 1966, mas Golbery tirou o corpo e indicaram outro (Luiz Viana Filho). Adonias foi relegado”, explica.
GARIMPOS
Pelo ineditismo, a “Antologia Brasileira de Ficção Científica” (1961) tornou-se um marco do gênero literário no país, reunindo André Carneiro, Antonio Olinto, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jerônymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. Despontava ali a “Geração GRD”.
“Antes da atividade de Dorea, o gênero no Brasil era esporádico e inconstante, embora presente desde meados do século 19. Com a coleção Ficção Científica GRD, iniciada em 1958, a publicação constante e com obras de qualidade deu visibilidade ao gênero e sua escolha de temas (com a recorrência da guerra atômica) ajudou a caracterizar a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1957 a 1972)”, reconhece o escritor Roberto de Sousa Causo. “Ele é o mais importante editor para a história da FC no Brasil”. O americano Ray Bradbury seria incorporado ao catálogo.
A descoberta de pepitas literárias era o aspecto prazeroso de seu ofício, logo abalado pelas chateações nas livrarias. Gumercindo suava: “Eu mesmo fazia a apresentação de meu editado e normalmente deixava o livro em consignação. Afinal, quem era GRD frente aos grandes editores? O drama era receber o pagamento”.
Uma de suas revelações veio do garimpo de Guimarães Rosa. “Ô Gumercindo! Tenho um bom livro pra você editar!”, anunciou Rosa, na Biblioteca Nacional do Rio, antes de recomendar “Serras Azuis” (1961), de Geraldo França de Lima.
Há os arrependimentos, encabeçados pela rejeição ao primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro, “Setembro não tem sentido”, concluído em 1963 e somente lançado em 1968 pela José Álvaro. “Para ser sincero, ainda não gosto desse livro”, admite. Um possível consolo é esquecido. A GRD publicou “Josefina”, um dos primeiros contos de Ubaldo, na coletânea “Histórias da Bahia”, naquele mesmo 1963.
PLÍNIO E INTEGRALISMO
Último lançamento da GRD, o livro “Existe um pensamento político brasileiro?” traz um “Recado” de Gumercindo Rocha Dorea ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apontado como caluniador do integralismo. O editor refuta as teses historiográficas sobre a aproximação de Plínio Salgado com as ideias nazi-fascistas na Europa.
“Foi, com incontida revolta interior, que tive o desprazer de adquirir os dois últimos volumes de sua autoria (“O improvável presidente do Brasil” e “Pensadores que inventaram o Brasil”), um com Brian Winter, onde estão repetidas velhas e surradas calúnias contra o Integralismo e seus seguidores. Mais lamentável ainda por ter sido forjado o livro para ‘deleite’ de Bill Clinton e de alguns possíveis leitores da grande república americana”, atacou o editor.
No ensaio “Fotógrafo amador”, a respeito de Paulo Prado (autor do clássico Retrato do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira), FHC criticou o “desvio fascistizante do verde-amarelismo, que chegou a ser ridículo e falso, como em Plínio Salgado”.
Nascida de um encontro não mais que ameno, a amizade com o líder integralista originaria uma parte relevante de suas aventuras editoriais. “Plínio Salgado havia retornado do exílio (1939-1945) e não era fácil chegar até ele. De longe é que podíamos vislumbrar a sua figura, desde o momento em que foi realizado um encontro de jovens, e eu estava presente. Éramos um grupo razoável, de 40 ou 50 assistentes. E o papo foi longo, eles nos falou sobre o exílio, principalmente, acentuando o quanto esperava, em seu retorno, da juventude brasileira”, relembra Gumercindo.
Anos mais tarde, entrou com um pequeno grupo no elevador do prédio de Salgado, no Rio. O líder integralista perguntou “quem era Gumercindo”, afirmando que o poeta Augusto Frederico Schmidt queria conhecê-lo, pois gostara de um artigo no semanário “Idade Nova”. Surpreso com a presença de Gumercindo naquele metro quadrado, determinou à mulher, Carmela Patti Salgado, que marcasse um jantar.
“A surpresa tinha razão de ser: eu não era frequentador assíduo de sua residência e tinha ido ali buscar a colaboração dele para o semanário ‘Idade Nova’, onde o meu artigo sobre Schmidt fora publicado… Não consigo me esquecer a pronúncia caipira que ele jamais perdeu, com o ‘r’ bem acentuado”, descreve. “Este foi o primeiro contato direto que tivemos e que se aprofundou longamente através dos anos – até a sua morte (em 1975). Já tinha lido todas as suas obras, publicadas até aquele momento, tanto as literárias, quanto as políticas e as religiosas”.
Gumercindo coordenou os “Discursos parlamentares” do mentor integralista. Pela GRD, editou “A quarta humanidade” e “Vida de Jesus”, além de incluí-lo na “Enciclopédia do Integralismo”, associado à Livraria Clássica Brasileira. Um quadro de Plínio Salgado permanece na sala de seu apartamento.
Ex-integralistas, Abdias do Nascimento (“O negro revoltado”), Miguel Reale (“Variações”) e Gerardo Mello Mourão (“O valete de espadas”) foram editados pela GRD. Dos tempos verdes, não se esquece da zanga dos companheiros do Rio Grande do Norte com as baforadas do folclorista Câmara Cascudo. “Deixem-me fumar um charuto, senão vou embora”, ameaçava o escritor nas reuniões.
Leitor de clássicos e contemporâneos, Gumercindo não identifica inovações recentes na literatura brasileira. “Comparando com os que lancei, por exemplo. Qual contista ombreia o Rubem dos dois primeiros livros? Qual poeta hoje se equipara a Gerardo Mello Mourão? Qual romancista se equipara a Nélida? Há um Samuel Rawet? José Alcides Pinto? Não tem”.
Na mesa de sua sala, os pratos são encaixados nos pequenos clarões dos recortes de jornais. Gumercindo ainda cozinha, lava a própria louça e se vira no café. Em um dos seis encontros entre 2014 e 2015, encomendou uma feijoada no restaurante vizinho, sem rejeitar o acompanhamento de uma cerveja. “Não repare. É a casa de um homem desorganizado”, advertiu.
Dias antes havia relido “As minas de prata”, de José de Alencar. “Fiquei uma semana voltado pra isso, e pensei: o que está acontecendo? A juventude de hoje nem sabe que existe uma obra como esta. As editoras não têm interesse. E, no entanto, é excepcional”. É com fascínio que insiste: “Se eu tivesse dinheiro, ia mostrar a essa gente o que é editar livros num país que tem fome”.
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