sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel Castro morre aos 90 anos

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EFE

Havana, 26 nov (EFE).- O líder cubano Fidel Castro morreu aos 90 anos de idade, informou neste sábado seu irmão, o presidente de Cuba Raúl Castro, em um discurso pela televisão estatal.
"Com profunda dor é que compareço para informar ao nosso povo, aos amigos da nossa América e do mundo que hoje, 25 de novembro do 2016, às 22h29, faleceu o comandante da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz", disse Raúl Castro, visivelmente emocionado.
O presidente cubano disse que o corpo do líder histórico da Revolução será cremado, segundo sua "vontade expressa", e que nas próximas horas divulgará ao povo a "informação detalhada sobre a organização da homenagem póstuma a Fidel".
As últimas imagens de Fidel Castro são do último dia 15, quando recebeu em sua residência o presidente do Vietnã, Tran Dai Quang; e a última vez que ele foi visto em um ato público foi no dia 13 de agosto, por ocasião da comemoração de seu 90º aniversário, em um evento no Teatro Karl Marx, em Havana.
Naquela ocasião, Fidel apresentou um semblante frágil, vestido com um moletom branco e acompanhado pelo seu irmão Raúl e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Desde seu aniversário, recebeu também em sua residência outros líderes, como o presidente do Irã, Hassan Rohani; de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa; e os primeiros-ministros do Japão, Shinzo Abe; da China, Li Keqiang, e Argélia, Abdelmalek Sellal.
Em abril, durante o XVII Congresso do Partido Comunista de Cuba, Fidel Castro também reapareceu e fez um discurso que soou como uma despedida, onde reafirmou a força das ideias dos comunistas. "A hora de todo mundo vai chegar, mas ficarão as ideias dos comunistas cubanos, como prova que neste planeta se trabalha com fervor e dignidade, é possível produzir os bens materiais e culturais que os seres humanos necessitam, e devemos lutar sem descanso para isso", afirmou Fidel Castro na ocasião.
EFE sga/phg Copyright (c) Agencia EFE, S.A. 2015, todos os direitos reservados

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Imagens raras mostram tribo ianomâmi isolada em Roraima

Da EFE

  • Guilherme Gnipper Trevisan/Hutukara
Imagens raras de uma tribo de indígenas ianomâmi praticamente isolada no Brasil, perto da fronteira com a Venezuela, foram divulgadas pela ONG Survival. A organização não-governamental diz que os índios estão em perigo de ser aniquilada perante a presença de cerca de mil mineiros ilegais à procura de ouro, que contaminaram a água com mercúrio.
A ONG, que desde 1969 defende os direitos dos indígenas no mundo todo, afirmou em comunicado que a presença dos mineiros poderia propagar doenças como malária, à qual os Ianomâmis são muito vulneráveis.

Guilherme Gnipper Trevisan/Hutukara
Em imagens aéreas distribuídas pela Survival, é possível ver um grupo de indígenas em um povoado ianomâmi no meio da selva brasileira, que observa a nave desde a qual são fotografados.
A Survival informou que neste povoado pode morar cerca de 100 índios, localizado no Território Indígena Ianomâmi do Brasil, e atualmente menos protegido por funcionários governamentais perante a crise econômica.
No entanto, o xamã e ativista ianomâmi Davi Kopenawa Yanomami declarou que "o lugar onde os indígenas isolados vivem, pescam, caçam e cultivam deve ser protegido. O mundo inteiro deve saber que eles estão aí, em sua selva, e as autoridades devem respeitar seu direito a viver no local".
Davi disse que os mineiros não param de chegar e "não nos deixam em paz".

Guilherme Gnipper Trevisan/Hutukara
A Survival apontou que a escassez de funcionários para a defesa dos direitos dos indígenas corresponde, além disso, aos "planos políticos de debilitar drasticamente a proteção e os direitos territoriais dos indígenas". "Sem apoio contínuo, a equipe responsável pela região ianomâmi não será capaz de proteger o território dos invasores", segundo a ONG, e "inclusive poderia ser suprimida".
Isso deixaria os ianomâmis isolados "em perigo de aniquilação".
Os ianomâmis, aproximadamente cerca de 35 mil, dos quais 22 mil vivem em território do Brasil, segundo os dados facilitados pela Survival, são o povo indígena relativamente isolado mais numeroso da América do Sul, e antes da criação da reserva eram aniquilados pela violência dos colonos, e perante a propagação doenças como gripe e sarampo.
Os indígenas são parte fundamental do cuidado do meio ambiente, possuem um enorme conhecimento botânico e utilizam as plantas como alimentos, remédios e materiais de construção para seus lares, se alimentam por meio da caça, coleta e pesca, mas também cultivam alimentos como mandioca e bananas.

Guilherme Gnipper Trevisan/Hutukara
O diretor da Survival International, Stephen Corry, advertiu que as imagens "são outra prova a mais da existência de mais povos indígenas isolados. Não são selvagens, se não sociedades complexas e contemporâneas cujos direitos devem ser respeitados". "Está claro que são perfeitamente capazes de viver com sucesso sem necessidade alguma das noções de progresso e desenvolvimento externas", acrescentou.

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domingo, 20 de novembro de 2016

Cientista político Wanderley Guilherme comenta a operação Lava Jato

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Em crítica aberta ao juiz Sérgio Moro e a operação Lava Jato, Wanderley Guiherme aponta arbitrariedades no processo.
Wanderley: por que o PT não vai pra cima do Moro?
Já perceberam quem o Moro prende e solta?
Por Wanderley Guilherme dos Santos
O PP é o partido com maior número de deputados denunciados na Lava-Jato (12 em minha última visita ao site da Operação), seguido pelo PMDB (10 ou 11), mas o Dallagnol e clones só citam o PT, com os exemplos pífios do Delcídio (roubou se aproveitando da legenda de vários partidos, começando com a do PSDB) e André Vargas, pilantra pé de chinelo que extorquiu da Caixa Econômica um contrato de publicidade para empresa de sua família.
Mas depois de se livrar de mais de 100 anos de cadeia, o reincidente Alberto Youssef vai cumprir o treino da tornozeleira por um tempo e depois voar como um passarinho, condição em que já se encontram Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Nestor Cerveró (se já não está livre é coisa pra breve), todos membros da verdadeira organização criminosa que vampirizou a Petrobrás, juntamente com dezenas de diretores de empreiteiras.
Estes continuam presos, mas o comando intelectual está solto (à exceção, ainda, de Renato Duque).
Quem soltou Youssef a primeira vez, quando houve a primeira delação premiada (com promessa de não reincidência), na investigação do Banestado, foi o mesmo Sergio Moro que o soltou agora, com outra delaçao premiada fundada em nova promessa de não reincidência. De lambuja, e pelo mesmo mecanismo, soltou a quadrilha praticamente toda.
Se a oposição soubesse agir, daria um pulo nos documentos da LavaJato e comprovaria o ridículo número de políticos envolvidos no esquema, mantido pela oligarquia PP-PMDB em articulação com o bando coordenado pelo Youssef, comparado ao número de civis, empreiteiros, banqueiros, empresários em geral, com culpa provada e documentada, assim como estão documentados os processos contra a gangue da Petrobrás, e não é coisa de sítio e pedalinho de piscina, não.
Descobriria, ainda, que os citados Youssef e asseclas, mais os lugares-tenentes tipo Fernando Baiano e semelhantes, são os denunciados, culpados e sentenciados em mais de 60% de todos os processos de corrupção na Petrobrás, sempre juntos.
E juntos foram soltos pelo Juiz Sergio Moro, que acaba de repor em circulação o gangster Alberto Youssef.
Mas a oposição é como a direita brasileira: não valem o trabalho que dão

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Os Caminhos da Ciência
Tomislav R. Femenick – Contador, mestre em economia.

Os primeiros estudos sobre o que mais tarde viria a ser ciência (do latim scientia, æ = æ = conhecimento, saber, erudição; do grego επιστήμη) foram desenvolvidos pelos filósofos, notadamente por aqueles que se dedicavam à filosofia da natureza ou filosofia natural, ramificação da filosofia que trata da matéria e da vida; uma cosmovisão racional da natureza, enfocando suas propriedades e os fenômenos relacionados com a existência, usando o pensamento como instrumento interpretativo, em contraposição aos dogmas e às opiniões não comprovados. É, pois, uma abordagem do mundo físico, e seus três reinos: animal, vegetal e mineral.
A história aponta os gregos e os chineses como os precursores desses estudos. Os gregos – principalmente Leucipo de Mileto (460-380 a.C.) e Demócrito de Abdera (cerca de 460-370 a.C.) – desenvolveram a teoria de que todas as matérias, em seus diferentes estados físicos (sólido, líquido e gasoso), são compostas por átomos (do grego ἄτομος, indivisível), materiais cujas propriedades elementares seriam: forma, tamanho, impenetrabilidade e movimento. Essas partículas se moveriam continuamente no vácuo e suas alterações de estado seriam resultado de mudanças de combinações dos átomos que a compõem. A opinião predominante entre os pensadores gregos era que as matérias eram compostas apenas de terra, água, fogo e ar, em seus estados de quente e frio, seco e úmido. Por sua vez, os chineses da antiguidade nunca desenvolveram uma teoria atômica. Adotavam a ideia dos cinco elementos básicos, dos cinco princípios ativos: terra, água, fogo, metal e madeira. Terra, água e fogo, em comum com os gregos. Essa teoria foi sistematizada pelo filósofo, historiador, político, naturalista, geógrafo e astrólogo Zou Yan, ou Tsou Yen (305-240 a.C.), tido como o fundador de todo o pensamento científico chinês (DURANT, 1995). Das especulações teoréticas, os estudos gregos e chineses migraram para o campo do empírico, para o uso prático dos conhecimentos obtidos pelas discussões das indagações filosóficas.
Na Grécia, enquanto as pesquisas abrangeram a matemática e a lógica, as descobertas foram do relógio de água, às máquinas com força motriz hidráulica ou de ar comprimido. No campo das ciências naturais, as pesquisas se expandiram pela astronomia, geografia, zoologia, botânica e medicina e vários outros setores. O caminho em direção à ciência foi aberto principalmente nas cidades jônicas – em Mileto, Samos e Éfeso –, onde “inventaram a pesquisa pura, e sua jovem ambição assumiu como tarefa a explicação unitarista do real” (PETIT, 1989). Cinco pensadores gregos deram a base para a separação em o “raciocínio simplesmente lógico” e o “raciocínio lógico ordenado”. Primeiro foi Tales de Mileto (624-548 a.C.), que exclui os deuses na sua visão da origem da natureza. Pitágoras (580-507 a.C.) concebeu que a relação matemática como base da natureza das coisas. Parmênides (515-540 a.C.), foi o criador da lógica formal, alicerçada no “princípio de identidade, ou da não-contradição, segundo o qual o ser é e o não-ser não é. Demócrito (460-370 a.C.) com sua teoria sobre a constituição da matéria. Por último, Aristóteles (384-322 a.C.) pelo rigor de seus estudos sistematizados sobre a física, a mecânica e a matemática. “Com esses [...] filósofos gregos surgiram, em forma embrionária, os conceitos essenciais do pensamento científico” (PERRY, 1985).
A China antiga, cujos estudos teóricos e conceituais foram menos relevantes e voltados mais a conceituações morais (confucionismo, taoismo etc.), voltou sua atenção para a exploração do mundo natural. Como exemplo, as pesquisas no campo da física e da química resultaram na invenção da pólvora, do balão de ar quente e da bússola magnética; os estudos sobre mecânica levam à construção da besta e do sismógrafo; na medicina, testaram o tratamento da malária. Estudaram e fizeram aplicação prática com elementos de engenharia hidráulica, botânica e astronomia (FEMENICK, 2003).
Na antiguidade, outros povos também enveredaram nos estudos das ciências.  Na Mesopotâmia e no Egito houve importantes estudos no campo da engenharia de construção, medicina, matemática e astronomia.

1. CIÊNCIA NÃO É FILOSOFIA

O desenvolvimento da filosofia da natureza resultou na criação de padrões metodológicos próprios e, consequentemente, em sua separação da filosofia. Hoje, a filosofia (do grego φιλοσοφία; φίλος = amigo + σοφία = sabedoria) é explicada como uma forma de pensar que busca a sabedoria pela compreensão dos fenômenos que envolvem o ser e a natureza; a realidade em si. Procura a razão através da crítica para chegar às respostas das indagações levantadas pela própria filosofia. Assim entendida, é uma expressão racional do conhecimento humano, cujo papel é decisivo na formulação de premissas e conceitos que norteiam a formação do pensamento e da lógica construída pelo homem, inclusive no terreno das ciências.
Já a ciência é uma área do saber, onde os estudos são direcionados para determinados objetos ou fenômenos. Estes são agrupados segundo determinadas normas que regem seu comportamento, obedecendo a uma metodologia própria. A primeira grande premissa científica é a de que os “fenômenos científicos”, quando acontecidos nas mesmas condições, se repetem com os mesmo resultados. Em outras palavras: a percepção cientifica da realidade é diferente da percepção que a filosofia faz da mesma realidade.
Cervo e Bervian (1983) confirmam essa posição, ao dizem que:

O conhecimento filosófico distingue-se do científico pelo objeto de investigação e pelo método. O objeto das ciências são os dados próximos, imediatos, perceptíveis pelos sentidos ou por instrumentos, pois, sendo de ordem material e física, são por isso suscetíveis de experimentação (método científico = experimental). O objeto da filosofia é constituído de realidades mediatas, não perceptíveis pelos sentidos e que, por serem de ordens suprassensíveis, ultrapassam a experiência (método racional). A ordem natural do procedimento é, sem dúvida, partir dos dados materiais e sensíveis (ciência) para se elevar aos dados de ordem metempírica, não sensíveis, razão última da existência dos entes em geral (filosofia). Parte-se do concreto material para o concreto supramaterial, do particular ao universal. Na acepção clássica, a filosofia era considerada a ciência das coisas por suas causas supremas. Modernamente, prefere-se falar em filosofar. O filosofar é um interrogar, é um contínuo a si e à realidade. A filosofia não é algo feito, acabado. A filosofia é uma busca constante do sentido, de justificação, de possibilidades, de interpretação a respeito de tudo aquilo que envolve o homem e sobre o próprio homem em sua existência concreta.

A ciência moderna está, pois, estruturada em observações continuadas e na obtenção de resultados idênticos. Foi Francis Bacon (1973) o iniciador dessa nova ciência, quando propôs a sua formalização e metodização, com base na observação dos fenômenos.

2. CIÊNCIA NÃO É TECNOLOGIA

Nem sempre é perfeitamente entendida a diferenciação ente ciência e tecnologia (do grego τεχνολογια; τεχνη = ofício + λογια = estudo). Como já foi dito, ciência é o estudo formal e metodologicamente organizado de alguns fenômenos, visando identificar suas causas e efeitos. Por sua vez, a tecnologia é a maneira de como se aplicar os conhecimentos obtidos pela ciência em favor do ser humano, atendendo os requisitos de possibilidade de uso, utilidade, rentabilidade e segurança.
Por isso é que até os anos quarenta e cinquenta do século passado, alguns pensadores (principalmente norte-americanos) consideravam a tecnologia como sendo “ciência aplicada”. Porém a tecnologia é tão somente uma forma de processos, métodos e instrumentos de atividade profissional. É a forma como se elabora qualquer ofício, qualquer tarefa (SINGER, 1971; MARCUSE, 1999). Além do mais, nem sempre resulta de estudos da ciência. A tecnologia pode derivar de hábitos e tradições comunitários, do meio ambiente, de imposição legal etc.
Outra falácia ligada à tecnologia é que ela representa modernidade, avanço tecnológico e até mesmo científico. Há tecnologia atrasada, consoante com o seu tempo e avançada. Há a tecnologia de pesca com vara de bambu, cordão, anzol e isca natural; com vara de fibra de plástica, molinete, linha der náilon, anzol multiface e iscas artificiais; de pesca de rede de arremesso ou de arrastão; com navios equipados com sonar etc. Todas são tecnologias; umas arcaicas e outras avançadas.
Pode-se resumir dizendo que, não obstante o desenvolvimento tecnológico faça uso de observação de alguns fatos, ele não presume uma teorização consciente de qualquer fenômeno envolvido. Assim, tecnologia não é ciência, pois lhe faltam três pressupostos base: a consciência do evento, sua compreensão e explicação.

3. O QUE É CIÊNCIA

Resumidamente, pode-se dizer que a ciência é o resultado da procura do entendimento da natureza e do comportamento do ser humano, busca essa sustentada no ceticismo e tendo como base metodologias concretas, objetivas e apropriadas para cada caso e em cada circunstância. Sua finalidade é utilizar os conhecimentos obtidos para explicar e controlar a natureza, em proveito do homem. Diferentemente da filosofia, que usa a argumentação, a ciência faz uso de experimentos para comparar suas abstrações com a realidade. Seus instrumentais predominantes são a demonstração e a comprovação, sustentáculos do valor de seus enunciados, predicativos e teorias. Segundo Pareto (1984): “É sempre o fenômeno concreto que decide se uma teoria deve ser aceita ou rejeitada. Não há, não pode haver, outro critério sobre a verdade de uma teoria que não seja sua concordância mais ou menos perfeita com os fenômenos concretos”.
Por isso é que as demonstrações científicas têm que ser completas, de forma que ofereçam uma compreensão total do assunto tratado. Esse estado das demonstrações somente pode ser obtido por experimentos levados a efeito em laboratório (para as ciências naturais) ou por comprovações de campo (para as ciências humanas), em que os fenômenos são analisados e explicados com a abordagem de suas origens (causas) e resultados (efeitos). Só assim as demonstrações científicas assumirem o caráter de aplicação geral.

3.1 Digressão histórica

Atualmente a ciência – talvez a expressão as ciências seja a melhor para ser empregada neste contexto – busca responder “como” as coisas funcionam, porém até o século XV ela procurava explicar o “porquê” das coisas, isso em razão de que estava atrelada a elementos estranhos à sua natureza, tais como mitos, superstições e, destacadamente, dogmas religiosos. Somente quando se voltou ao estudo de fatos observáveis e passíveis de serem descritos e mensurados, quando as bases das teorias e conceitos se tornaram claras, lógicas e sem interpretações ambíguas, é que a ciência trilhou o caminho do conhecimento adquirido pela reflexão ou pela experiência. Essa evolução aconteceu lentamente, em período dos mais obscuros da história, a Idade Média. Foi no Renascimento que os estudos sobre a natureza ganharam força, baseados na observação, na lógica e na compreensão das leis que regem o seu funcionamento. Paralelamente, no mesmo período começaram a surgir os questionamentos dos dogmas religiosos e das “verdades estabelecidas”.
Assim, apesar dos entreves religiosos e da própria cosmovisão do homem medieval, não se pode pensar que não tenha havido desenvolvimento no modo de se fazer ciência durante toda a Idade Média. Colin Ronan (2001) afirma que:

O tardio movimento científico medieval concentrou-se na ciência física (…). Foi um trabalho que deveria ter continuidade nos séculos seguintes, na época que veio a se chamar de Renascença e no período que é muitas vezes denominado de Revolução Científica. E é nas ciências físicas que vemos mais claramente a emergência da ciência moderna, baseada, em grande parte, nas atitudes inquiridoras dos sábios do fim da Idade Média.

Essa “revolução científica” aconteceu entre os séculos XVI e XVIII, impulsionada por vários fatores, entre eles o novo modo de pensar nascido no Renascimento, a imprensa, a reforma protestante, as descobertas de novas terras pelos navegadores ibéricos e até pela própria alquimia, a pseudociência medieval. A forma de se fazer ciência que vigora no tempo presente teve outro impulso no século XVII, durante o movimento conhecido como o Iluminismo e mesmo por alguns pensadores pré-iluministas, entre eles Copérnico (1473-1543), por sua teoria heliocêntrica do sistema solar; Francis Bacon (1561-1626), pelo seu método para estudar os fenômenos naturais; Galileu Galilei (1564-1642), por seus estudos sobre movimentos, pêndulo e inércia; e René Descartes (1596-1650), por seus trabalhos sobre filosofia, ciências, álgebra e geometria (KUHN, 1978; ANDERY et al, 1988).  
O avanço das ciências em geral, registrado nos séculos XIX e XX, consolidou o racionalismo cientifico, dando-o a consistência com que se apresenta nos dias de hoje.

3.2 Os Livros e as Ciências

Um fator foi primordial nessa progressão, os livros. Até o século XV todo o saber da humanidade era armazenado em cópias manuscritas, reproduzidas uma a uma e restritas a um público muito limitado. Na Idade Média foram os mosteiros católicos que trouxeram a si a responsabilidade de copistas e de guardiães do conhecimento, num mundo em que predominavam reis e cortesãos guerreiros rudes e analfabetos. Poucos – inclusive alguns mercadores – fugiam à regra. Isso tudo começou a mudar com o advento da imprensa, dos tipos móveis e da prensa gráfica, a invenção do alemão Johannes Gutenberg, em 1439. Primeiro foi a Bíblia, depois livros sobre todos os assuntos, editados e espalhados pela Europa e de lá seguiram os caminhos “nunca dantes navegados” pelos homens e pelo saber.
Os livros transformaram o mundo. Sedimentaram padrões linguísticos (o dialeto londrino tornou-se a língua da Inglaterra e o dialeto da Toscana tornou-se a língua oficial da Itália), foram responsáveis pela solidificação do conceito nacional dos povos e, principalmente, foram uma das causas da reforma protestante e da contrarreforma católica. No campo específico da economia, havia os Almanaques que divulgavam informações sobre agricultura, “aritmética comercial”, preços de mercadorias, leis mercantis e de navegação, rotas marítimas, tabelas uniformes de cálculos, padrões de medidas, construção de navios etc. Um dos livros que teve maior repercussão foi o Summa de arithmetica, geometria proportioni et propornalità (Súmula de aritmética, geometria, proporção e proporcionalidade), do frei Luca Pacioli, o criador da contabilidade moderna. Livros didáticos sobre medicina, arquitetura, astronomia, navegação, geologia, química, metalurgia, tecelagem já eram comuns no século XVI (BURKE e ORNSTEIN, 1998). Paralelamente o número de escolas e de universidades cresceu exponencialmente.
O resultado dessa ampla divulgação de conhecimento foi a alteração do modo de pensar dos homens, pois a leitura força a concentração do pensamento, induz ao raciocínio e o raciocínio leva à análise, à critica e à busca de provas. Foi dessa inter-relação de circunstâncias que nasceram as ideias de Copérnico, Kepler, Galileu Galilei e de vários outros pensadores. Foi o livro o fato gerador do Iluminismo. A leitura e a escrita são, pois, atos racionais, capazes de revolucionar as ciências, economia, a política, a sociedade e até mesmo a fé.

4. CLASSIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS


A classificação ou divisão das ciências se dá tão somente para atender uma questão sistêmica. Todavia, nas suas formulações as ciências geralmente usam, em grau maior ou menor, instrumentos e premissas das outras ciências. A classificação tem por objetivo apenas estabelecer terrenos de atuação.
A primeira – e principal – segmentação das ciências as divide em:

  1. Ciências formais, que estabelecem o instrumental necessário para o procedimento das outras ciências. Entre elas estão a matemática, a lógica e a teorética, além das formulações teóricas sobre estatística, linguística, informações, computação etc.
  2. Ciências empíricas ou factuais, que estudam os fenômenos da realidade e se subdivide em ciências naturais e ciências sociais. As primeiras, as ciências naturais, estudam o universo e as matérias, reunindo a astronomia, a geografia a física, a química, a biologia etc. Já as ciências sociais se dedicam ao estudo do comportamento do homem, quer como individuo ou como componente da sociedade. Esse segmento inclui a antropologia, a história, a linguística, ciências políticas, geografia humana, comunicação, psicologia, sociologia, economia etc.

Outro tipo de classificação leva em conta a motivação dos estudos de cada uma das ciências e as divide em:


  1. Ciências Puras (Fundamentais; Básica), que têm por objetivo tão somente a fundamentação do saber, o “saber pelo conhecimento”. Buscam compreender os elementos da natureza e suas leis. Elas se desenvolvem nos laboratórios e nos campos da pesquisa.

  2. Ciências Aplicadas, que estudam as maneiras possíveis para aplicar o conhecimento obtido pelas ciências puras, em beneficiar o homem. Seu campo de ação é a prática utilitária, o desenvolvimento tecnológico.

Esse último tipo de enquadramento das ciências vem sendo bastante contestado, visto que a linha que separa os dois segmentos é bastante tênue e esgarçada. Essa é uma afirmação de Freire-Maia (1992):
Antigamente, chamava-se de ciência pura a que não tivesse preocupações e nem possibilidades previsíveis de aplicação (por exemplo, sistemática de abelhas, comportamento sexual de drosófilas, astronomia lunar, etc.). Por outro lado, ciência aplicada era a que diretamente se voltava para a solução de problemas práticos e, como tal, apresentava uma perspectiva próxima de aplicação (por exemplo, a química das sulfas ou dos antibióticos, a física dos meios de propulsão, a tecnologia da extração de minérios radiativos, etc.). Hoje, a ciência é vista por outro ângulo. Como várias pesquisas da antiga “ciência pura” acabaram tendo aplicação e outras tantas da chamada “ciência aplicada” terminaram não produzindo os frutos esperados, prefere-se, em geral, dizer ciência básica e aplicações da ciência [...]. Não há, pois, dois tipos de ciência um “puro” e outro “aplicado”. O que há é ciência e aplicações da ciência. O que há pesquisa básica (que pode gerar aplicações) e a pesquisa tecnológica (que diretamente visa a essas aplicações).

Por sua vez, Pierre Thuillier (1975) argumenta que:

Se puede, no obstante, distinguir dos maneras de utilizar la investigación fundamental: “después”, tratando de encontrar una aplicación a un descubrimiento ya hecho, u “organizando sistemáticamente” las investigaciones con la intención de resolver un problema preciso (o tanteando posibilidades entrevistas vagamente). Esta segunda categoría ha tomado un cierto auge. Las relaciones que existen entre algunas investigaciones “fundamentales” y las objetivos militares están descritas, a veces, con una gran precisión en los documentos oficiales. En 1961, un texto indicaba metódicamente, en varias columnas, los problemas que justificaban las investigaciones emprendidas y las resultados que se esperaban. De esta forma, la “investigación fundamental sobre los rayos infrarrojos” debe permitir conocer mejor las “emisiones infrarrojas de los reactores de los aviones”, lo que debe desembocar en un “detectar de infrarrojos destinado a un misil”.

Por mais que se dividam em grupos e classes, as ciências sempre são multidisciplinares e interdependentes entre si. O desenvolvimento de qualquer uma delas implica no uso de ferramentais desenvolvidos por outras. Essa é uma das essências do modo de se fazer ciência.