domingo, 13 de agosto de 2017

A brasileira que sequestrou um avião acompanhada de dois filhos pequenos durante a ditadura


Marília Guimarães com os filhos Eduardo e Marcelo ao seu lado em CubaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionMarília vivia há um ano na clandestinidade com os dois filhos quando participou de sequestro

Marília Guimarães tinha apenas 22 anos em 1º de janeiro de 1970, quando adentrou o Aeroporto Internacional de Carrasco, em Montevidéu, determinada a embarcar no voo 114 da Cruzeiro do Sul com destino ao Rio de Janeiro - uma viagem que, ela já sabia, mudaria radicalmente sua vida, para o bem ou para o mal.
Há um ano na clandestinidade com as duas crianças pequenas, Marília dormia a cada noite em um lugar diferente para despistar os militares. A captura de uma aeronave era a única saída que ela conseguia vislumbrar para voltar a ter uma vida normal. Naquele momento, a ideia não parecia mais perigosa do que vagar sem rumo com os meninos sob a ameaça constante da prisão e da tortura.
"Quando você já está no perigo, tem uma força que nem sabe de onde vem", explica. "É como parir: chegou a hora, vai doer, mas não tem outro jeito."
A bagunça que os meninos faziam no saguão do aeroporto era tanta que acabou concentrando a atenção de policiais e funcionários do aeroporto. O embarque ocorreu sem nenhum problema - na época, não havia detector de metais no terminal de Montevidéu.
"Ironicamente, os policiais estavam tomando conta das crianças", lembra Marília.
Além dela e das duas crianças, embarcaram Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, o primeiro marido da ex-presidente Dilma Rousseff, James Allen da Luz, o comandante da ação, Athos Magno Costa e Silva, Isolde Sommer e Luiz Alberto da Silva.
Enquanto os passageiros ajeitavam as bagagens e se sentavam, Marília distribuiu as armas entre os companheiros. Assim que o avião levantou voo, o sequestro foi anunciado. "Vamos para Cuba", asseverou James, lendo, em seguida, um manifesto político, em que explicava os motivos da ação.
O que os guerrilheiros não sabiam era que aquela aeronave estava com uma turbina defeituosa e só tinha autonomia de combustível para duas horas de voo, o que complicaria muito os planos de pousar na ilha de Fidel Castro ainda naquele dia.

'Só pensava em Che Guevara'


Image captionAção de guerrilheiros foi notícia nos principais jornais nacionais e internacionais

Formada em Letras, Marília era dona de uma escola no bairro de Coelho Neto, no subúrbio do Rio, perto da Favela de Acari. Embora o colégio de fato atendesse 800 alunos, entre eles muitos bolsistas da comunidade carente próxima, ele também servia de fachada para reuniões clandestinas da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e para fazer cópias de panfletos políticos no mimeógrafo.
As coisas começaram a fugir do controle quando o equipamento, na época das férias escolares, foi levado para a casa de um companheiro que acabou sendo preso em fevereiro de 1969. Os militares não levaram muito tempo para ligar o mimeógrafo à escola, exigindo explicações.
Marília chegou a ser presa por 72 horas e interrogada ininterruptamente.
"Eu só pensava em Che Guevara", ela lembra. "Pedia forças a ele para não fraquejar, para não deixar que os militares vissem a verdade nos meus olhos."
Acabou sendo liberada. Sozinha, com dois meninos pequenos para criar e correndo o risco de ser presa novamente a qualquer momento, ela decidiu abandonar tudo e cair na clandestinidade.
"Eu e as crianças dormíamos cada dia em um lugar diferente, dentro de carros, na estrada, na favela, na casa dos outros", relembra. "A única solução era sair do país, mas eu sabia que era quase impossível; não tinha documentos, não tinha passaporte, era procurada em tudo o que é lugar e era um alvo fácil: uma mulher com duas crianças."
"Eles (os guerrilheiros) viviam em desespero político e psicológico diante tanto das questões políticas quanto das humanas, com os companheiros presos, sendo torturados", explica o historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
"E a opção de cair na clandestinidade é muito definitiva, você abandona sua casa, seus parentes, pai, mãe, amigos, e vive na iminência de ser preso, é uma opção muito dramática na vida."

O plano

Depois de quase um ano, o VPR determinou que era hora de tirá-la do Brasil a qualquer custo. O plano era, com a ajuda dos tupamaros, um grupo guerrilheiro do Uruguai, sequestrar um avião de passageiros em Montevidéu e seguir para Cuba.

Image captionHistória é recontada no livro 'Clandestinidade, sequestro e exílio'

O sequestro de aviões foi uma arma muito utilizada naquele período de recrudescimento da ditadura, bem como o de diplomatas estrangeiros. O objetivo era forçar a libertação de companheiros presos e torturados, dar fuga aos perseguidos políticos e, claro, chamar a atenção do mundo para o que acontecia no país.
"Sequestros de diplomatas e aviões foram atitudes desesperadas numa fase em que a própria luta armada não seria mais vitoriosa; resistia por inércia revolucionária e para libertar seus companheiros", explica Carlos Fico.
Vale recuperar o contexto histórico da época, em que uma ditadura violenta, como todas as ditaduras, exercia a tortura como política de Estado, nas palavras do historiador Daniel Aarão Reis, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).
"Do outro lado, um pequeno conjunto de guerrilheiros imaginando, equivocadamente, que a sociedade era um barril de pólvora e que a eles competia acionar a faísca para que a 'pradaria' (uma metáfora maoísta para a sociedade) 'se incendiasse'. Nessas condições, era legítimo, sem dúvida, disferir ações armadas contra um poder que se baseava na força bruta", afirma.
Nos dias que antecederam ao sequestro, o grupo se reuniu em Porto Alegre, de onde seguiria de carro até o Uruguai. Enquanto os guerrilheiros repassavam os últimos detalhes do plano, os dois filhos de Marília ficaram aos cuidados de Dilma Rousseff, cujo marido também participava da ação.
"A Dilma é uma mulher muito especial", conta Marília.
"Meus filhos, que nunca tinham se separado de mim, passaram 15 dias com ela. E ela era uma mulher muito nova, que, teoricamente, nem sabia lidar com crianças. Mas ela deu a eles uma estabilidade emocional tão forte, carinho, cuidados, que eles nunca tiveram problemas. As pessoas dizem que ela tem um olhar duro, mas não é verdade. Ela é uma mulher de uma ternura absurda."

Manchete ao redor do mundo

Sem autonomia de voo para ir muito longe, o Caravelle teve que fazer seu primeiro pouso de abastecimento em Buenos Aires, ainda que a contragosto das autoridades argentinas que tentaram, sem sucesso, impedir a decolagem do avião. A parada serviu também para que a imprensa internacional fosse informada do sequestro e da presença de uma guerrilheira com duas crianças a bordo.
"O mundo todo ficou sabendo que eu estava no avião com duas crianças", conta Marília. "Foi o que salvou nossas vidas."
Na madrugada de 2 de janeiro, o Caravelle pousou em Antofagasta, no norte do Chile, para o segundo reabastecimento. O clima no país governado pelo socialista Salvador Allende era favorável às causas guerrilheiras brasileiras, e os tripulantes puderam abastecer com tranquilidade e ainda receber comida e jornais.
A recepção seria muito diferente em Lima, no Peru, próxima parada de reabastecimento do Caravelle. Assim que pousou no Aeroporto Jorge Chávez, o avião foi cercado por militares peruanos. A ordem do presidente do país, o general Velasco Alvarado, era de negociar a todo custo uma rendição, vencendo os sequestradores pelo cansaço.
Àquela altura, no dia 3 de janeiro, a ação dos brasileiros já era manchete nos principais jornais do mundo, e o aeroporto também estava apinhado de jornalistas e políticos. O reabastecimento foi autorizado, mas as autoridades tinham uma proposta para os sequestradores: eles dariam asilo político para Marília e os filhos e, em troca, todos os reféns deveriam ser liberados.
"Não aceitei, lógico", diz Marília. "Eles invadiriam o avião com meus companheiros lá dentro."

Image captionFamília retornou ao Brasil apenas em 1980 após a promulgação da Lei da Anistia

Além do embate diplomático, um grave problema técnico ameaçava a partida do avião para Cuba. Uma pane elétrica impedia o acionamento da turbina direita e do sistema de refrigeração. Baterias trazidas da Colômbia eram muito velhas e não resolveram o problema do acionamento do motor.
Depois de muita negociação e vários momentos de tensão, baterias mais modernas foram trazidas do Chile. Finalmente, após 27 horas em Lima, o avião foi autorizado a seguir viagem para o Panamá.
"Eu passava o tempo todo com as crianças, contando histórias para elas, tentando distraí-las", relembra Marília. "De maneira alguma me arrependo de nada, acho que tudo foi feito no momento certo, no lugar certo. E acho que o Cosmos estava torcendo por nós."

Mais tensão

A nova parada foi igualmente tensa. Um coronel do Exército brasileiro estava no aeroporto panamenho e tentou convencer o tripulante que desembarcou para reabastecer a aeronave a voltar a bordo com uma arma e atirar no primeiro guerrilheiro que visse, criando condições para uma invasão. A proposta não foi aceita.
Mas não foi só. A turbina direita voltou a dar problema e, mais uma vez, precisou de várias baterias para ser acionada. Como se não bastasse, o Caravelle necessitava de um lubrificante para turbinas que, aparentemente, estava em falta no Panamá.
Finalmente, depois de cinco horas, o avião partiu para Havana.

Image caption'Não me arrependo do caminho que escolhi na vida', diz a ex-guerrilheira

A viagem final durou cerca de duas horas e, por muito pouco, o avião não sofreu uma pane. Sem lubrificante, uma das turbinas ameaçava parar a qualquer instante. Ainda assim, conseguiu pousar em segurança no Aeroporto José Martí.
"Cheguei em Havana quase delirando", lembra Marília. "Passei a maior parte do tempo sem comer nem beber praticamente nada, por medo de envenenamento. Tampouco dormia, por causa das crianças."
Um grupo de oficiais cubanos logo entrou no Caravelle perguntando quem era a mulher com os dois filhos. Carlos Lamarca, um dos chefes do VPR, tinha mandando uma carta para Fidel Castro pedindo atenção especial a Marília.
Ela viveria por dez anos em Cuba com os filhos, antes de voltar para o Brasil, em 1980, depois da Lei da Anistia. As histórias estão no primeiro livro de Marília lançado no Brasil, Habitando o tempo. Clandestinidade, sequestro e exílio, que chega às livrarias nesta semana.
"O Candomblé diz que existem 256 caminhos para a vida. Eu escolhi um deles, e não me arrependo."

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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Cientista há vários meses sem receber seus proventos da UERJ que fechou as portas por tempo indeterminado.

l Carvalho comentou isso.
O texto abaixo é do meu querido amigo Victor Avila. Victor foi meu colega no curso de física na USP e companheiro de república e aventuras. Sobrevivemos à ditadura. Ao AI5. Ele é doutor em astrofísica e oceonógrafo. Leiam o seu depoimento e vejam um exemplo do que perdemos com o golpe de 16.
"Hoje é um dia histórico! Comemoramos que extraimos agora mais petróleo do pré-sal do que do pós-sal. E hoje faz 36 anos que dou aulas de Oceanografia na UERJ.
Já estava lá quando meus alunos participavam de levantamentos oceanográficos para a reivindicação das 200 milhas. Também estava lá quando meus alunos participavam de levantamentos oceanográficos para a prospecção do pré-sal.
Hoje também estou há varios meses sem receber. E com 68 anos de idade aprendi que, na calada da noite, hoje, a paridade com a ativa na aposentadoria se transformou, na lógica da oligarquia brasileira, em um terço do salário. Simples assim:
1/1 = 1/3.
Resultado dessa equação: Não temos aposentadoria. Teremos que trabalhar até os 75 anos quando seremos despedidos por velhice. Ou dispor de sabedoria para morrer antes disso.
E hoje também a UERJ fechou as portas por tempo indeterminado por absoluta falta de recursos.
Vamos comemorar? Vamos bater panelas para homenagear a oligarquia brasileira com suas malas plenas de dinheiro de propina?"

quarta-feira, 26 de julho de 2017


http://g1.globo.com/carros/noticia/volkswagen-colaborou-ativamente-com-a-ditadura-brasileira-diz-imprensa-alema.ghtml

Volkswagen colaborou ativamente com a ditadura brasileira, diz imprensa alemã


A filial brasileira da Volkswagen supostamente colaborou ativamente com a ditadura no Brasil na perseguição de opositores políticos, segundo informaram neste domingo o jornal "Süddeutsche Zeitung" e as emissoras "NDR" e "SWR".
A imprensa alemã detalha que há quase dois anos foi aberta em São Paulo uma investigação sobre a Volkswagen do Brasil para determinar a responsabilidade da empresa na violação dos direitos humanos durante a ditadura de 1964 a 1985.
Em 2016, a empresa nomeou para uma investigação sobre seu passado o historiador Christopher Kopper, que confirmou a existência de "uma colaboração regular" entre o departamento de segurança da filial e a polícia política do regime.
"O departamento de segurança atuou como um braço da polícia política dentro da fábrica da VW", apontou Kooper, pesquisador da Universidade de Bielefeld.
"Permitiu as detenções" e pode ser que ao compartilhar informação com a polícia "contribuísse para elas", acrescentou o historiador.
Fábrica em São Bernardo do Campo (SP) é a 1ª da Volkswagen fora da Alemanha (Foto: Divulgação)Fábrica em São Bernardo do Campo (SP) é a 1ª da Volkswagen fora da Alemanha (Foto: Divulgação)

Fábrica em São Bernardo do Campo (SP) é a 1ª da Volkswagen fora da Alemanha (Foto: Divulgação)
Segundo os meios citados, a filial brasileira espionou seus trabalhadores e suas ideias políticas, e os dados acabaram em "listas negras" em mãos da polícia política. Os afetados lembram como foram torturados durante meses, após terem se unido a grupos opositores.




Conforme estabeleceu Comissão Nacional da Verdade, que examinou as violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura brasileira, muitas empresas privadas, nacionais e estrangeiras, deram apoio tanto financeiro como operacional ao regime militar.
No caso da Volkswagen, a comissão constatou que alguns galpões que a empresa tinha em uma fábrica de São Bernardo do Campo (SP) foram cedidos aos militares, que os usaram como centros de detenção e tortura.
Além disso, a comissão sustentou que encontrou provas que a empresa alemã doou ao regime militar cerca de 200 veículos, que depois foram usados pelos serviços de repressão.








sábado, 17 de junho de 2017


"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara

domingo, 30 de outubro de 2016

Coisas da República: Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro – por Armando Lopes Rafael

Daqui a duas semanas o calendário das efemérides históricas de nossa pátria relembrará a data do “15 de Novembro”, para comemorar o golpe militar que implantou a República no Brasil. Assim, oportuno relembrar o início do regime republicano ente nós, que passou para a história como “A República da Espada”. Este foi o período no qual o Brasil foi governado – entre os anos de 1889 a 1894 – pelos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Trata-se de uma época caracterizada como uma ditadura militar. Durante esse período foram comuns os levantes populares e a repressão a focos de resistência simpáticos ao Imperador Dom Pedro II e à restauração da monarquia.

Neste artigo, por questão de brevidade, falaremos apenas sobre o Marechal Floriano Vieira Peixoto, nascido em Maceió em 30 de abril de 1839 e falecido em Divisa, hoje chamada de Floriano, localizada no Estado do Rio de Janeiro, em 29 de junho de 1895. Depois do golpe militar que derrubou a monarquia, Floriano foi eleito, numa eleição indireta pelo Congresso, como vice-presidente da chapa única capitaneada pelo Marechal Deodoro da Fonseca.
Com a renúncia de Deodoro, Floriano Peixoto presidiu o Brasil de 23 de novembro de 1891 a 15 de novembro de 1894. Segundo a constituição republicana imposta pelos militares, o vice só poderia ser presidente se o próprio tivesse governado por mais de dois anos. Ora, Deodoro só governou 6 meses e renunciou por pressão dos seus colegas do Exército. Pressionado também para renunciar, Floriano não titubeou. Talvez naquela ocasião ele tenha dito (com outras palavras, é claro)  o que diria – em 1968 – outro famoso militar, Jarbas Passarinho, durante reunião ministerial que decretou o AI 5, começando nova ditadura entre nós. A frase de Passarinho foi esta: "Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.”.  

Por consequência, o Marechal Floriano Peixoto foi o segundo presidente do Brasil, e o segundo a chegar ao poder sem o voto popular.  Ao longo da República isso passaria a ser corriqueiro. Mas voltemos a Floriano Peixoto. Ele passou à história como o mais sanguinário dos presidentes da República. O “Marechal de Ferro”, como era chamado Floriano Peixoto,  enfrentou protestos da oposição que não o aceitava como presidente. A oposição queria a convocação de novas eleições. Floriano, no entanto, reprimiu todos os protestos contra ele e contra a nascente República.  Logo no início, adotou medidas para enfraquecer e combater os monarquistas. Muito sangue correu para abafar esses protestos.

Outra rebelião que ele derrotou foi a chamada “Revolta da Armada” um movimento ocorrido em 1893 e liderado por algumas unidades da Marinha Brasileira contra o governo republicano. Naquele episódio muitos cadetes foram mortos a fio de espada. Depois, Floriano derrotou também outra rebelião surgida no sul do País: a Revolução Federalista um conflito de caráter político, iniciado no Rio Grande do Sul entre os anos de 1893 e 1895, que desencadeou numa revolta armada. Esta revolta atingiu também o Paraná e Santa Catarina. Muito sangue também foi derramado nesta rebelião.

Depois que deixou a presidência Floriano se refugiou no interior do Estado do Rio de Janeiro e não quis mais saber de política. Após sua morte Floriano recebeu muitas homenagens, Brasil afora. No Piauí, a cidade de Floriano foi chamada assim para homenageá-lo. Já a capital do Estado de Santa Catarina, a cidade de Desterro, teve seu nome mudado para Florianópolis.
A história, sempre implacável em seus julgamentos, destaca hoje principalmente a ferocidade de que era dotado este caudilho alagoano... 

             

7 comentários:

  1. Lula, Dilma, Temer e os que o cercam hoje, são a resultante da republica proclamada pelos marechais sejam eles Deodoro da Fonseca ou Floriano Peixoto. Pouca diferença faz. Resulta no mesmo. Escárnio, nojo, podridão.
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  2. O Marechal Floriano, após seu mandato, se recolheu e ao contrário de outro que conhecemos não ficou tentando governar indiretamente.
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  3. Floriano Peixoto recusou a residência oficial e viveu em uma casa modesta de subúrbio. Para voltar para casa tomava o bonde é pagava a passagem do próprio bolso. O Marechal de Ferro foi o consolidador da República.
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  4. –– 1 ¬¬––
    Para se analisar um fato histórico temos de voltar à mentalidade da população que vivia ao tempo em que este fato histórico aconteceu. Rio de Janeiro: 15 de novembro de 1889. O Brasil vivia até esta data um tempo de progresso. Tudo funcionava. Havia respeito e ordem. No Império não se registrava denúncias de corrupção. O Imperador e a família imperial eram amados e respeitados pelo povo brasileiro. Os golpistas republicanos tiveram de expulsar Dom Pedro II e sua família nas caladas da noite, para evitar a revolta do povo.
    A cidade do Rio de Janeiro – a capital do Império do Brasil – passa a ser “a capital dos ESTADOS UNIDOS DO BRASIL” (sempre a eterna imitação servil aos norte-americanos, que seria a marca registrada dessa caótica república). No mesmo dia 15 de novembro de 1889, é editado o Decreto nº1 do “GOVERNO PROVISÓRIO”, decreto que previa a realização de um plebiscito para o povo escolher se o Brasil continuaria como república ou voltaria a ser monarquia. Os golpistas não cumpriram a palavra, como sói acontecer. O plebiscito só seria realizado 105 anos depois, em 1993, mas os herdeiros da Família Imperial foram proibidos de aparecer na televisão para mostrar as vantagens da monarquia e defender esta forma de governo. Como sempre os republicanos não cumpriram a palavra e o plebiscito de 1993 foi manipulado e não concedeu o tempo necessário para a “massa ignara” (“meu Deus onde vai parar essa massa”?) ficar informada sobre essa mudança da forma de governo. Graças à massa ignara Venceu o pior: a República e, pasmem, república com presidencialismo...
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  5. –– 2 ––
    Dentre as primeiras decisões adotada pelo GOVERNO PROVISÓRIO, dos Marechais Deodoro e Floriano Peixoto destacam-se a separação entre a Igreja e o Estado; a secularização dos cemitérios, e a instituição do registro civil de nascimentos, casamentos e óbitos, o que, até então, era validado pela Igreja Católica. Em Barbalha o líder católico Zuca Sampaio escreveu um protesto no Livro da Família Sampaio, onde previa que a República seria um fracasso. Acertou na mosca!” Os militares que fizeram determinaram, também, acertado também, que, no primeiro aniversário da República, se instalaria a Assembleia Constituinte, segundo convocação a ser feita oportunamente.
    Em um ano e dois meses, o projeto final da Constituição dos Estados Unidos do Brasil estava pronto, discutido, emendado e votado. A Constituição, em sua redação final, foi promulgada pelo Congresso em 24 de fevereiro de 1891, entrando imediatamente em vigor. No dia seguinte, seria eleito o presidente da República, nesta primeira vez, excepcionalmente, por via indireta, com o voto dos parlamentares. Deodoro da Fonseca/Floriano Peixoto por eleitos com 163 votos. Isto mesmo menos de duas centenas de votos. Previa-se somente que a partir do segundo Presidente é os presidentes seriam eleitos pelo voto diretos dos “cidadãos”.
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  6. –– 3 ––
    Floriano Peixoto serviu à Monarquia até 15 de novembro de 1889. No último gabinete do Império (comandado pelo Visconde de Ouro Prsto) este visconde nomeou Floriano Peixoto como ajudante geral do Exército. Nessa condição, em 15 de novembro de 1889, coube a ele comandar as tropas que, dentro do Campo de Santana, deviam preservar o Quartel General do Exército contra a investida dos soldados do marechal Deodoro, protegendo a autoridade do Visconde de Ouro Preto, Chefe de Governo, que estava ali asilado. Floriano Peixtoi mudou de lado e recusou-se, porém, a ordenar o contra-ataque, permitindo que Deodoro invadisse o quartel, com a subsequente prisão do ministro Visconde de Ouro Preto, chefe do Conselho de Ministros do Império.
    Essa traição jamais for perdoada pelos seus inimigos que lhe apontam, também, outras fraquezas de caráter, como relaciona Iberê de Matos: "a traição a Ouro Preto [mencionada acima]; a aversão que lhe tinham Deodoro e Benjamin Constant, que não podiam ser gratuitas; a atitude dúbia ou traiçoeira no episódio da eleição [à Presidência]; o apego ambicioso a um poder que não lhe pertencia; a impiedosa repressão, com requintes de maldade, culminando com as tentativas de assassinato, pelo desterro para regiões inabitáveis, de homens como José do Patrocínio, e os massacres no Paraná e Santa Catarina; seu desprezo pela dignidade de homens como Gaspar da Silveira Martins, Custódio de Mello, Saldanha da Gama, Wandenkolk, José do Patrocínio, Olavo Bilac e tantos outros que foram vítimas de processos infamantes e perversos..." Outro autor, José Maria Bello, faz sua análise da personalidade de Floriano. Leia no tópico 4 abaixo:
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  7. ––– 4 ––
    "Não se distinguia Floriano por nenhum dom exterior de fascínio ou de domínio. Descuidado de si mesmo, máscara medíocre, de traços inexpressivos e adoentados. Falta-lhe, por exemplo, o porte marcial, o élan, o olhar lampejante de Deodoro. Não lhe vibra a voz arrastada de caboclo do Norte; não se lhe impacientam jamais os gestos e as atitudes. Pela perfeita impassibilidade, como por outras virtudes e defeitos, lembra Benito Juarez [presidente mexicano do Sec. XIX], vindo da mesma origem ameríndia. Não tem brilho a sua inteligência que é, especialmente, a intuição divinatória dos homens. Escassa a sua cultura, quase reduzida aos vulgares conhecimentos técnicos da profissão. Não revela curiosidades intelectuais, dúvidas, aflições de vida interior. Desdenha o dinheiro. Deixam-no completamente indiferente as comodidades materiais da vida. Despreza a humanidade e, por isso mesmo, nivela facilmente todos os valores que o cercam. Confundindo-se de bom grado nas multidões humildes das ruas, conserva-se, entretanto, impenetrável a qualquer intimidade. A família, de pequeno estilo burguês, esgota-lhe, porventura, a capacidade afetiva. Como os de sua raça cabocla, é um irredutível desconfiado. Não se expande nunca. Simples e acessível embora, é incapaz de intempestivas familiaridades, de grossas e alegres pilhérias, tão fáceis, sempre, em Deodoro. No fundo, um triste. A sua ironia, tão frisante no vasto anedotário que corre por sua conta, tem sempre alguma coisa do gélido e do cruel dos temperamentos ressentidos e amargos."
    É este homem, cujo perfil o aproxima mais a uma máquina do que a um ser humano, que chega, agora, ao governo e se propõe a consolidar a República com sua mão de ferro.
    Responder

terça-feira, 2 de maio de 2017

CULTURA

02.05.2017 - Deutsch Welle

"Olga acreditou até o fim que seria libertada"

Em entrevista à DW Brasil, escritora Sarah Helm, autora de "Ravensbrück", revela que Olga Benário assumiu papel de liderança entre as detentas no campo de concentração. Governo britânico foi responsável por sua prisão.
Campo de concentração, Ravensbruck
Ravensbruck foi o maior campo de concentração exclusivo para mulheres
A militante alemã Olga Benário Prestes, mulher do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, teve seu destino selado pela inteligência britânica por duas vezes, revela o livro Ravensbrück (Editora Record), que acaba de chegar às livrarias do Brasil. Escrito pela jornalista britânica Sarah Helm, o livro resgata a história do campo de concentração exclusivo para mulheres, onde Olga esteve presa.
Documentos obtidos por Sarah Helm revelam que a prisão de Olga [e Prestes] no Brasil, após a Intentona Comunista, só foi possível graças a informações repassadas pelo governo britânico em 1936. Logo veio o pedido de deportação para a Alemanha, já sob o governo de Adolf Hitler – uma grande ameaça para uma jovem comunista e judia.
Olga Benario
Olga Benário foi uma das primeiras mulheres a chegar a Ravensbrück
Os documentos mostram também que, no mesmo ano, a inteligência britânica avisou que os comunistas ingleses pretendiam interceptar o navio que levava Olga – grávida de sete meses – do Brasil para a Alemanha e libertá-la na Inglaterra. Por conta da informação, a escala britânica da viagem foi cancelada, e a militante seguiu direto para Hamburgo, onde foi entregue nas mãos da Gestapo.
Após sete anos presa, acalentando a ideia de que poderia ser libertada a qualquer momento, Olga foi enviada ao campo de extermínio de Bernburg, onde foi morta na câmera de gás, em 23 de abril de 1942, aos 34 anos de idade, junto com outras 199 prisioneiras.
Em entrevista à DW Brasil, Sarah Helm fala sobre o papel de liderança que Olga teve entre as mulheres no campo de concentração.
DW Brasil: Olga Benário teria chegado a Ravensbrück logo depois de ter sido separada de sua filha recém-nascida, Anita, certo?
Sarah Helm: Sim. Ela ficou um tempo em uma prisão de mulheres da Gestapo em Berlim, onde sua filha Anita nasceu e foi amamentada. Em março de 1938, depois de ser separada da filha, ela foi enviada a Litchenburg, um campo temporário, e, em 1939, para Ravensbrück. Ela estava entre as primeiras mulheres a chegar neste campo.
DW: Pesquisando para o livro, o que você descobriu de novo sobre Olga?
SH: Tive acesso à toda a coleção de cartas e descobri que, olhando para todas elas, temos uma ideia bem melhor da vida e da morte dela nos campos de concentração. Sabemos sobre os protestos que organizava, seu trabalho como chefe do bloco judeu. Era uma mulher forte, que se sobressaía, as outras prisioneiras ficavam muito impressionadas com ela.
DW: Qual era o trabalho de Olga em Ravensbrück?
SH: Ela era responsável por um dos blocos de prisioneiras, o das judias, o que significa que tinha que obedecer aos nazistas e manter a ordem no bloco. Para ela, foi uma tarefa difícil. Mas, por outro lado, ela também podia ajudar as prisioneiras. Ela conseguia fazer contato com outras prisioneiras comunistas e foi criando uma rede de resistência.

Campo de concentração em Ravensbrück
O maior campo de concentração para mulheres da Alemanha foi construído em 1939
DW: Em que consistia exatamente essa rede?
SH: Ela fazia muitas coisas pelas presas. Lia poemas, fazia exercícios físicos, organizou, com as comunistas, um grupo de leitura de Tolstoi [como o livro era banido pelo regime, os nazistas o usavam como papel higiênico, o que logo chamou a atenção das presas, que o resgataram]. Esse grupo de leitura foi descoberto certa vez, o que rendeu punições severas, com várias presas indo para a solitária e passando fome por semanas.
DW: O que mais te chamou a atenção na história de Olga?
SH: Ela realmente acreditou, quase até o fim, que conseguiria sair, ser libertada. Havia uma lei que garantia a liberdade se a pessoa fosse casada com alguém natural de um país estrangeiro, o que era o caso dela. E havia uma campanha mundial liderada pela mãe de Luís Carlos Prestes pedindo por sua libertação. Mas a guerra eclodiu antes que elas conseguissem o visto.
DW: Você menciona que a inteligência britânica selou o destino de Olga por duas vezes. Como foi?
SH: A inteligência britânica estava monitorando um comunista alemão, Arthur Ewert, que fazia parte do grupo de Prestes. Foi por meio desse monitoramento que eles descobriram o paradeiro de Prestes e Olga [que estavam na clandestinidade após a Intentona Comunista no Brasil] e o informaram para o governo brasileiro. Mais tarde, depois que Olga já tinha sido presa e estava sendo levada para a Alemanha, foi novamente a inteligência britânica quem interceptou um comunicado entre o Partido Comunista Soviético e o Partido Comunista Britânico, pedindo que Olga fosse resgatada durante a escala do navio em Southampton. Com a informação, o navio acabou seguindo direto para a Alemanha [até então se acreditava que a grande ameaça ao mundo era o comunismo, não o nazismo]. Então, sim, podemos dizer que, de certa forma, o governo britânico foi responsável pelo destino de Olga.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

COMISSÃO DA VERDADE
 
24/04/2017
 
11:54

Ditadura torturou, perseguiu, matou ou espionou 316 na UFRN

Relatório final da Comissão da Verdade da UFRN revela, pela primeira vez, íntegra dos nomes
Por Dinarte Assunção

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Tortura, desaparecimento, perseguição, mortes. As masmorras da ditadura, registra a história, costumaram ser mais impiedosas dentro dos círculos de efervescência cultural e política, que tinha no movimento estudantil uma de suas mais fortes expressões.
No Estado, o breu dos anos de chumbo tombou fortemente  sobre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que já experimentara nos anos anteriores ensaios de repressão à atividade política em face da polarização Dinarte Mariz x Aluízio Alves. Nada, no entanto, foi tão forte e cruel quanto o que estava por vir a partir daquele 1º de abril de 1964, data a partir da qual se instalou o regime totalitário.
Detalhes e nomes ficaram ocultos na linha do tempo e o breu sobre a verdade permaneceu. Professores e alunos que foram perseguidos, espionados, torturados e humilhados tiveram suas histórias enevoadas pela escuridão e o esquecimento. Os nomes e os enredos nunca vieram à tona em sua integralidade, o que permitiu que a escuridão ainda tivesse vida. Até agora.
Entre 1964 e 1985, 316 pessoas foram alvos de algum tipo de intervenção militar na UFRN. Foram cinco professores e 33 estudantes presos; 25 professores e dois estudantes expulsos por questões ideológicas; 13 membros torturados ou vítimas de tratamento degradante; um estudante expulso pelo Decreto-Lei nº 477; 10 membros sofreram repressão política sem serem presos; dois estudantes foram assassinados; um professor é tido como desaparecido político e 259 pessoas foram fichadas pelos órgãos de repressão e informações da Ditadura Militar.
As informações são resultado do trabalho da Comissão da Verdade da UFRN, cujo relatório final, que embasa essa reportagem, reúne documentos dos órgãos de repressão militares, especialmente a Assessoria de Segurança e Informação (ASI) da UFRN, o braço da repressão nas universidades criado a partir de determinação dos militares.
Abaixo, reproduzimos as listas, compiladas pelo tipo de circunstância de que foi vítima cada uma das 316 pessoas:
 Fonte: Portal no Ar - Natal/RN