MADRI - Ricardo Lagos é um político. Às vezes parece que os políticos são
sempre quadrados e imbatíveis, persuasivos, sempre auxiliados por infalíveis
guarda-costas.
O chileno nascido em 1938 escreveu um livro de memórias chamado “Assim o
vivemos”. Nele, Lagos não fala de poder e glória, mas de resistência, de vida,
de dor, fracasso e da ação de governar e se opor a uma ditadura.
Na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, Lagos falou sobre
a publicação em que conta sua vida, com ênfase na época da ditadura de Augusto
Pinochet, cujo golpe completa 40 anos no dia 11 de setembro.
- O livro tinha como título “Assim o vivi”. Quando terminei, ele me pareceu
muito injusto porque o plural refletia melhor todo esse povo que se atreveu a se
pôr de pé. “Assim o vivemos” parece dar conta melhor do que aconteceu em um
momento da História do país, um momento muito épico, muito especial, que não vai
voltar a se reproduzir - explicou o autor.
Ainda circula na internet um vídeo de 1988, quando Lagos, de terno e gravata,
aparece enérgico e desafiador em um programa de televisão no qual tem alguns
minutos para pedir que votassem “não” no referendo que significou o princípio do
fim de Pinochet. O ditador havia pedido o “sim”, e Lagos era um socialista
empenhado na luta para derrubar o homem que, segundo o próprio político, roubou
17 anos da vida dos chilenos.
A certa altura, consciente de que era visto por todo o Chile e também por
Pinochet, Lagos se dirigiu à câmera, com o dedo em riste, e desafiou o ditador.
O gesto acabou ficando famoso e marcou um momento da história da queda de
Pinochet. Na época, o ato foi uma temeridade que foi carcomendo a cadeira de
Pinochet. Passados 12 anos do desafio, Lagos se tornava o primeiro socialista a
chegar à Presidência do Chile.
Em Londres, há mais de um ano, em uma conversa com o escritor mexicano Carlos
Fuentes, passou mais de dois dias explicando ao interlocutor os meandros da
política internacional que viveu, como se estivesse preparando o amigo para uma
prova final. Com paciência infinita, como se o tempo não lhe importasse.
- Me entretém explicar; tento expressar as coisas mais difíceis com clareza
para que pareçam simples.
É um pedagogo. Chegou ao poder explicando, e explicando - e erguendo o dedo -
defendeu-se da ditadura.
- Creio que a atividade pública é um diálogo em que é muito importante estar
ou se pôr à altura do outro - explicou.
É afável, caminha com essa lentidão que pode ser vista nos políticos e poetas
veteranos. A deslealdade e as imperfeições o deixam impaciente. Ele não gosta
que as coisas saiam mal, confessa. Mas ele mesmo não é perfeito, claro.
Agora que já não é presidente e não pode aspirar a sê-lo, diz que não ficou
deslumbrado com a importância de ter ocupado um cargo tão importante:
- É muito importante manter os pés no chão. É natural, eu entendo: há uma
certa pompa em ser chefe de Estado, mas é necessário entender que, na
democracia, isso é algo transitório.
A mãe de Lagos morreu aos 108 anos, em 2011. Já o pai faleceu quando Lagos
tinha 8 anos, e coube à mãe fazer o papel dos dois. Ela costumava dizer ao
filho: “Você tem casa, comida e roupa limpa. Sua única obrigação é estudar”. Ela
acreditava que ninguém tinha motivos para chegar a ser rico, e queria que o
filho “fosse um homem culto que soubesse servir aos semelhantes”.
Lagos também foi um presidente declaradamente agnóstico em um país
paroquial:
- No passado, já houve outros presidentes agnósticos, mas eles dissimulavam.
Eu fui o primeiro presidente divorciado, casado pela segunda vez. E minha mulher
também estava no segundo casamento.
Onze de setembro de 1973. Sete dias antes, os funcionários e as pessoas que
quiseram celebraram o terceiro aniversário da chegada de Allende ao poder. Lagos
e o presidente se cruzaram na esplanada do Palácio de La Moneda.
- Eles nos saudou com a mão. Essa forma como nos saudou, esse gesto, já
parecia de despedida.
Uma semana depois, o drama: os militares bombardearam La Moneda, e Allende se
suicidou. Quatro décadas depois, essa história marca o coração do Chile.
- Roubaram-nos 17 anos, o melhor de nossas vidas. Mas não puderam tirar o
privilégio da ética. Houve amigos desaparecidos, assassinados, outros que
partiram para o exílio e uns que foram presos, mas foi a vida que tivemos que
viver. Agora, olhas para trás e, como Violeta Parra (cantora e compositora
chilena), podes dizer: obrigado à vida, que me deu tanto.