domingo, 6 de outubro de 2013

Aliança militares e policiais migraram dos porões para a contravenção e levaram a guerra às ruas do Rio

Bicho cresceu no Rio com ajuda de torturadores Favoritar

Chico Otavio e Aloy Jupiara (Facebook - Twitter)
06/10/2013 - 08h00
RIO Isolado na tropa, o capitão Aílton Guimarães Jorge pediu demissão do Exército no dia 9 de março de 1981. O gesto do oficial, ao trancar a farda no armário, selou uma aliança que mudaria o perfil do crime organizado no Brasil: a de agentes da ditadura com a contravenção. Capitão Guimarães é a face mais exposta desse processo, mas não a única. A partir dos anos 1970, um pequeno pelotão de agentes migrou dos porões da tortura para as fileiras do jogo do bicho, levando junto a brutalidade, a arapongagem e a disciplina da guerra suja contra as esquerdas. Bicheiros ajudaram a perseguir inimigos do regime, e a ditadura retribuiu com proteção e impunidade.
Pesquisas a documentos de dois arquivos públicos e da Biblioteca do Exército e depoimentos de agentes, policiais, vítimas da repressão e especialistas permitiram ao GLOBO revelar detalhes e personagens desse processo. Pelo menos dez agentes, entre militares e civis, atuaram na máfia da jogatina ou colaboraram com ela, chegando a ocupar cargos na hierarquia do bicho, principalmente a partir do desmonte gradual do aparelho repressivo no governo Geisel. Sob a influência da doutrina militar e ao custo de uma guerra nas ruas, o jogo do bicho antes fracionado e informal tornou-se centralizado e organizado.
Esvaziados pelo processo de distensão política ou excluídos por envolvimento em crimes comuns, agentes da repressão encontraram abrigo na máfia do jogo do bicho quando a guerra suja perdia a força na metade dos anos 1970. O coronel Freddie Perdigão Pereira, os capitães Ronald José Motta Baptista de Leão e Luiz Fernandes de Brito, o sargento Ariedisse Barbosa Torres, o cabo Marco Antônio Povoleri, os delegados Luiz Cláudio de Azeredo Vianna, Mauro Magalhães e Cláudio Guerra, e o detetive Fernando Gargaglione, além do Capitão Guimarães, todos com folha de serviços prestados à ditadura, são citados por essas fontes e documentos como integrantes desse pelotão arregimentado pelo bicho.
Com eles, a experiência de violência e espionagem adquirida nos porões somou-se às práticas da contravenção. Guimarães, que caíra em desgraça no Exército ao ser flagrado comandando uma quadrilha de contrabandistas fardados, encontrou na jogatina fora dos quartéis o caminho para o topo de uma nova hierarquia, à paisana. Aniz Abraão David, o Anísio da Beija-Flor, estabeleceu seu clã político na Baixada Fluminense e se blindou da ação da polícia sobre seus negócios. Castor Gonçalves de Andrade e Silva, o Castor da Mocidade Independente, íntimo de agentes da repressão, negociou com o regime, sendo beneficiado quando sua metalúrgica beirava a falência. Ângelo Maria Longas, o Tio Patinhas, expandiu seus negócios em Niterói com a ajuda de Guimarães.
Assassinatos do período misturaram interesses militares e civis, envolvendo bicheiros e ex-torturadores, desde o de pequenos contraventores, como Agostinho Lopes da Silva Júnior, o Guto (em junho de 1979), cujos pontos em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí foram assumidos pelo Capitão Guimarães, a crimes famosos, como o de Misaque José Marques e Luiz Carlos Jatobá (em janeiro de 1981), acusados de invadir a casa de Anísio em Piratininga, Niterói, e do policial Mariel Maryscotte de Mattos (em outubro de 1981), depois de tentar comprar os pontos do bicheiro Jorge Romeu, o Jorge Elefante, em Niterói.
Repressão contra políticos da baixada
A guarnição da 1ª Companhia de Polícia do Exército (PE), da Vila Militar, em Deodoro, foi a gênese desse fenômeno. No final dos anos 60, a PE desencadeou uma repressão contra políticos da Baixada Fluminense, a maioria prefeitos e vereadores cassados pelo regime sob acusação de corrupção. Foi essa limpeza que abriu o terreno para que, em Nilópolis, o clã liderado por Anísio assumisse o controle político local e se apoderasse dos pontos de pequenos bicheiros. Nos anos 1970, Guimarães, Luiz Fernandes e Povoleri, todos da PE e integrantes de um grupo processado por extorquir contrabandistas, começaram seu movimento em direção à contravenção.
Dois dos principais centros de tortura do Rio, o Destacamento de Operações de Informações (DOI) da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, e a Casa da Morte, aparelho montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis, também foram incubadoras de capangas da contravenção. Na Casa, por exemplo, atuou o então comissário e depois delegado da Polícia Civil Luiz Cláudio, codinome na repressão Laurindo, mais tarde braço-direito de Anísio. O sargento Torres, que teria feito parte da equipe de interrogadores do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971, é outro que migrou do DOI à contravenção. Ele se tornou segurança de Anísio e chefe de barracão da escola de samba Beija-Flor.
Os resultados dessa aliança, pouco depois, seriam vistos com a consolidação de uma nova cúpula do bicho a verticalização do poder, a eliminação gradual de lideranças de pequeno e médio porte, a anexação de territórios antes fracionados e a organização de rotinas. São dessa época a adoção do sistema de atas nas reuniões e o mapeamento dos pontos, até então distribuídos de forma improvisada. Também foram os agentes da ditadura que ensinaram os bicheiros a grampear seus adversários.
Sistema de acusações, apurações e punições
Unidos pelos interesses da contravenção e por um projeto de poder, Castor, Anísio e Guimarães (que passara a controlar a Unidos da Vila Isabel) fundaram em 1984 a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Castor foi o primeiro presidente, entre 1984 e 1985; Anísio, o segundo, entre 1986 e 1987; Guimarães reinou entre 1987 e 1993, e, depois, entre 2001 e 2007.
O sistema discricionário de acusações, apurações e punições da ditadura militar deu poder excepcional a certos grupos ligados às polícias, ao SNI e ao sistema DOI-Codi. Deu-lhes, especialmente, tecnologia e know-how para conseguir ou fabricar informações que custavam vidas e rendiam muito dinheiro. Montou-se com a ajuda desses operadores da repressão e da tortura a quase inexpugnável rede mafiosa do jogo do bicho e empresas de arapongas. A Liga das Escolas de Samba é patrocinada e dirigida por contraventores. Ironicamente, no carnaval, nenhum político ou governante posa ao lado de seus organizadores, embora a Liesa seja financiada com dinheiro público diz Maria Celina dAraújo, cientista política da PUC-RJ.
Procurados pelo GLOBO, os agentes ou parentes não quiseram falar ou não foram encontrados. Os advogados de Guimarães e Anísio não retornaram as ligações.
Personagens do bicho:
Castor de Andrade
Filho do bicheiro Eusébio Andrade, herdou do pai territórios de jogo na Zona Oeste, mantendo o poder com mão de ferro. Foi presidente de honra do Bangu Futebol Clube e da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Íntimo de militares, manteve negócios com o Exército. Seu poder entrou em declínio em 1994, na Operação Mãos Limpas, quando o Ministério Público e a PM estouraram sua fortaleza e apreenderam livros-caixa. Na contabilidade, foram encontrados nomes de políticos e policiais suspeitos de dar proteção aos contraventores em troca de propinas. Morreu de infarto em 1997. Seu filho e sucessor, Paulo Andrade, foi assassinado em outubro de 1998, na guerra por seu espólio.
Capitão Guimarães
Oficial de Intendência, serviu na PE da Vila Militar-RJ e no DOI-Codi-RJ até 1974. Era conhecido nos porões pelo codinome Doutor Roberto. Recebeu a Medalha do Pacificador com Palma em 1969, depois de matar um integrante da VPR. Pouco depois, envolveu-se com o contrabando, cooptado por policiais corruptos, e se demitiu em 1981. Tornou-se banqueiro do bicho em Niterói, apadrinhado por Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, e chegou à cúpula em quatro anos. Passou a controlar o jogo em Niterói, Região dos Lagos e no Espírito Santo, deixando um rastro de violência. Presidiu a Unidos de Vila Isabel e a Liesa. Foi preso na Operação Marselha, em 1989, no processo presidido pela juíza Denise Frossard, em 1993, e na Operação Furacão, em 2007.
Anísio Abraão David
Líder do clã que, com a ajuda dos militares, passou a controlar politicamente Nilópolis, na primeira metade dos anos 1970. A pretexto de combater a corrupção, agentes do regime perseguiram e cassaram os adversários da família. Fortalecido, Anísio dominou o jogo do bicho na Baixada Fluminense e na Região Serrana, chegando, no mesmo momento, à cúpula da contravenção. Patrono da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, tricampeã em 1976, 77 e 78. Em 1981, foi acusado de envolvimento no assassinato de Misaque José Marques e Luís Carlos Jatobá. Preso em 1993, por formação de quadrilha, e em 2007, por corrupção ativa e passiva.
Luiz Fernandes de Brito
Como capitão, foi acusado de integrar uma quadrilha de contrabandistas. Mais tarde, teria ajudado Mariel Maryscotte a fugir.
Mauro Magalhães
Delegado de Petrópolis em 1971, apoiava a Casa da Morte. Mais tarde, apareceu na lista da propina de Castor de Andrade.
Marco antônio Povo Leri
Braço-direito de Capitão Guimarães na repressão, foi expulso do Exército e atuou depois como segurança do bicheiro.
Luiz Cláudio de Azeredo Vianna
Policial civil, apontado como torturador em Petrópolis, ajudou Anísio a dominar o jogo do bicho na Baixada Fluminense.
Cláudio Guerra
Delegado no Espírito Santo, serviu à repressão. Mais tarde, aliou-se ao Capitão Guimarães, ajudando-o a expandir os domínios.
Ariedisse Barbosa Torres
Um dos acusados do desaparecimento de Rubens Paiva, virou segurança de Anísio e 

domingo, 29 de setembro de 2013

Familiares de Zoé Lucas de Brito falaram sobre o seu assassinato.

Roberto Monte publicou na sua linha do tempo.
há 9 horas · 
  • Estivemos no dia 27.09.2013, na cidade de São João do Sabugi, colhendo um depoimento sobre de Zoé Lucas de Brito Filho, assassinado pela ditadura militar de 1964, na cidade de São Paulo SP, no ano de 1972. Lá estivemos com seus irmãos Júlio Zoé de Brito e João Batista de Brito, com a participação dos professores Maria do Céu Silva, Danilo César da Silva e Maria Vanúzia. Na oportunidade, entrevistamos Edgar Assis de Medeiros, que contou detalhes de seu assassinato na cidade de São Paulo, em 1972. Tal depoimento será entregue a Comissão da Verdade de São Paulo e á Comissão Nacional da Verdade.
    Fotos: 13

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Um poema de ex-aluno da Escola Industrial e EIFRN de Natal.

OI AMIGO CORTEZ...
OBRIGADO PELAS FOTOS!
ABAIXO ENVIO O POEMA QUE PROMETI:

C A M I N H A N D O . . .
(1º LUGAR NO CONCURSO DE POESIAS
DO CENTRO LÍTERO RECREATIVO NILO
PEÇANHA EM 30/08/1968) E.I.F.R.N.

Por entre nuvens de fumaça
Por entre beijos de cerejas
          Vão os contritos
          às igrejas
          Vão os foguetes
          Para a lua.

O pássaro da vida que flutua
Entre transplantes da ciência
          Vai firmar
          A consciência
          De quem não vê
          Mas que acredita.

Nossa esperança então palpita
Entre súplicas de bonanças
          Vão alguns
          Em busca de alianças
          E não voltam
          Nunca mais!

Os gritos... os ritmos infernais...
Entre jovens letras de canções
          Vão encher
          De emoções
          Esta era quente
          Em mil desvelos.

Eles deixam crescer os cabelos
Entre barbas, sorrisos e vozes
          Vão cantar
          Sem as atrozes
          Voltas do destino
          incrível.

Onde quer que haja a visível
Idéia de um futuro altivo
          Vê-se a juventude
          Em positivo
          Caminho
          Para a vitória!

20/07/1968 - DILSON - NATAL/RN.  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Prestes na Assembléia Legislativa do RN.

 Luiz Carlos Prestes esteve em Natal em 1986 e proferiu palestra no plenário da Assembléia Legislativa sobre o Partido Comunista e os rumos da política nacional. Depos da palestra, Prestes conversou com o sr. José Guedes do Rego, ex-vice-prefeito de Pau dos Ferros que, quando jovem, em 1926, presenciou a passagem da Coluna Miguel Costa e Prestes pela cidade de São Miguel. José Guedes deixou um depoimento escrito sobre os eventos ocorridos em São Miguel que foram aproveitados pelo escritor Raimundo Nonato da Silva, no livro "Os revoltosos em São Miguel", sem citar a fonte, segundo informações de fontes da família.
Na foto, o professor Waldson Pinheiro, do PDT, um dos participantes da reunião de Prestes com simpatizantes, militantes e deputados estaduais do RN.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013


Juízes chilenos pedem perdão por omissão durante ditadura

Fonte: O Globo - 11.09.2013.
  • Em comunicado inédito, magistrados assumem falha em proteção dos direitos humanos no regime de Pinochet
SANTIAGO — Em ação inédita, juízes do Chile admitiram nesta quarta-feira que o Poder Judiciário não protegeu os direitos humanos durante a ditadura do general Augusto Pinochet. Eles também pediram perdão aos familiares das vítimas de crimes de lesa-humanidade. A medida acontece no momento em que se lembram os 40 anos do golpe de Estado no país, e se soma a uma onda iniciada por um senador governista de pedidos de desculpa por ações — ou omissões — cometidas antes e durante o regime militar (1973-1990).
Num comunicado, um grupo de juízes reconheceu que “o Poder Judiciário incorreu em ações e omissões impróprias de sua função, ao ter se negado, salvo isoladas, mas valiosas exceções que o honram, a oferecer proteção aos que demandaram várias vezes sua intervenção”.
A ditadura de Pinochet fez mais de 40 mil vítimas — destas, 3.200 morreram —, além de mil desaparecidos forçados.
“A inadmissão ou a rejeição por parte de nossos tribunais de milhares de recursos de amparo, muitos dos quais foram fundadamente interpostos em nome de compatriotas cujo destino nunca mais se soube, a negativa sistemática de investigar as ações criminais perpetradas por agentes do Estado e a recusa a se constituir pessoalmente em centros de detenção e tortura, sem dúvida alguma, contribuíram ao doloroso balanço em matéria de direitos humanos que ficou para trás após esse período cinza”, acrescenta o texto.
O Poder Judiciário chileno recusou cerca de 9 mil recursos de amparo que pediam proteção a pessoas detidas pela polícia política da ditadura. A maioria permanece desaparecida até hoje.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ricardo Lagos: ‘A ditadura roubou o melhor de nossas vidas’

Fonte: O Globo.
  • Em livro de memórias, ex-presidente chileno relata a luta contra o governo Pinochet
Juan Cruz (Facebook · Twitter)
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Ricardo Lagos: “Creio que a atividade pública é um diálogo em que é muito importante estar ou se pôr à altura do outro”
Foto: Vanderlei Almeida / AFP / 2004

Ricardo Lagos: “Creio que a atividade pública é um diálogo em que é muito importante estar ou se pôr à altura do outro” Vanderlei Almeida / AFP / 2004
MADRI - Ricardo Lagos é um político. Às vezes parece que os políticos são sempre quadrados e imbatíveis, persuasivos, sempre auxiliados por infalíveis guarda-costas.
O chileno nascido em 1938 escreveu um livro de memórias chamado “Assim o vivemos”. Nele, Lagos não fala de poder e glória, mas de resistência, de vida, de dor, fracasso e da ação de governar e se opor a uma ditadura.
Na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, Lagos falou sobre a publicação em que conta sua vida, com ênfase na época da ditadura de Augusto Pinochet, cujo golpe completa 40 anos no dia 11 de setembro.
- O livro tinha como título “Assim o vivi”. Quando terminei, ele me pareceu muito injusto porque o plural refletia melhor todo esse povo que se atreveu a se pôr de pé. “Assim o vivemos” parece dar conta melhor do que aconteceu em um momento da História do país, um momento muito épico, muito especial, que não vai voltar a se reproduzir - explicou o autor.
Ainda circula na internet um vídeo de 1988, quando Lagos, de terno e gravata, aparece enérgico e desafiador em um programa de televisão no qual tem alguns minutos para pedir que votassem “não” no referendo que significou o princípio do fim de Pinochet. O ditador havia pedido o “sim”, e Lagos era um socialista empenhado na luta para derrubar o homem que, segundo o próprio político, roubou 17 anos da vida dos chilenos.
A certa altura, consciente de que era visto por todo o Chile e também por Pinochet, Lagos se dirigiu à câmera, com o dedo em riste, e desafiou o ditador. O gesto acabou ficando famoso e marcou um momento da história da queda de Pinochet. Na época, o ato foi uma temeridade que foi carcomendo a cadeira de Pinochet. Passados 12 anos do desafio, Lagos se tornava o primeiro socialista a chegar à Presidência do Chile.
Em Londres, há mais de um ano, em uma conversa com o escritor mexicano Carlos Fuentes, passou mais de dois dias explicando ao interlocutor os meandros da política internacional que viveu, como se estivesse preparando o amigo para uma prova final. Com paciência infinita, como se o tempo não lhe importasse.
- Me entretém explicar; tento expressar as coisas mais difíceis com clareza para que pareçam simples.
É um pedagogo. Chegou ao poder explicando, e explicando - e erguendo o dedo - defendeu-se da ditadura.
- Creio que a atividade pública é um diálogo em que é muito importante estar ou se pôr à altura do outro - explicou.
É afável, caminha com essa lentidão que pode ser vista nos políticos e poetas veteranos. A deslealdade e as imperfeições o deixam impaciente. Ele não gosta que as coisas saiam mal, confessa. Mas ele mesmo não é perfeito, claro.
Agora que já não é presidente e não pode aspirar a sê-lo, diz que não ficou deslumbrado com a importância de ter ocupado um cargo tão importante:
- É muito importante manter os pés no chão. É natural, eu entendo: há uma certa pompa em ser chefe de Estado, mas é necessário entender que, na democracia, isso é algo transitório.
A mãe de Lagos morreu aos 108 anos, em 2011. Já o pai faleceu quando Lagos tinha 8 anos, e coube à mãe fazer o papel dos dois. Ela costumava dizer ao filho: “Você tem casa, comida e roupa limpa. Sua única obrigação é estudar”. Ela acreditava que ninguém tinha motivos para chegar a ser rico, e queria que o filho “fosse um homem culto que soubesse servir aos semelhantes”.
Lagos também foi um presidente declaradamente agnóstico em um país paroquial:
- No passado, já houve outros presidentes agnósticos, mas eles dissimulavam. Eu fui o primeiro presidente divorciado, casado pela segunda vez. E minha mulher também estava no segundo casamento.
Onze de setembro de 1973. Sete dias antes, os funcionários e as pessoas que quiseram celebraram o terceiro aniversário da chegada de Allende ao poder. Lagos e o presidente se cruzaram na esplanada do Palácio de La Moneda.
- Eles nos saudou com a mão. Essa forma como nos saudou, esse gesto, já parecia de despedida.
Uma semana depois, o drama: os militares bombardearam La Moneda, e Allende se suicidou. Quatro décadas depois, essa história marca o coração do Chile.
- Roubaram-nos 17 anos, o melhor de nossas vidas. Mas não puderam tirar o privilégio da ética. Houve amigos desaparecidos, assassinados, outros que partiram para o exílio e uns que foram presos, mas foi a vida que tivemos que viver. Agora, olhas para trás e, como Violeta Parra (cantora e compositora chilena), podes dizer: obrigado à vida, que me deu tanto.