Aliança
militares e policiais migraram dos porões para a contravenção e levaram a
guerra às ruas do Rio
Bicho cresceu no
Rio com ajuda de torturadores Favoritar
Chico Otavio e Aloy Jupiara (
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06/10/2013 - 08h00
RIO Isolado na tropa, o capitão Aílton Guimarães Jorge pediu
demissão do Exército no dia 9 de março de 1981. O gesto do oficial, ao trancar
a farda no armário, selou uma aliança que mudaria o perfil do crime organizado
no Brasil: a de agentes da ditadura com a contravenção. Capitão Guimarães é a
face mais exposta desse processo, mas não a única. A partir dos anos 1970, um
pequeno pelotão de agentes migrou dos porões da tortura para as fileiras do
jogo do bicho, levando junto a brutalidade, a arapongagem e a disciplina da
guerra suja contra as esquerdas. Bicheiros ajudaram a perseguir inimigos do
regime, e a ditadura retribuiu com proteção e impunidade.
Pesquisas a documentos de dois arquivos públicos e da Biblioteca do Exército
e depoimentos de agentes, policiais, vítimas da repressão e especialistas
permitiram ao GLOBO revelar detalhes e personagens desse processo. Pelo menos
dez agentes, entre militares e civis, atuaram na máfia da jogatina ou
colaboraram com ela, chegando a ocupar cargos na hierarquia do bicho,
principalmente a partir do desmonte gradual do aparelho repressivo no governo
Geisel. Sob a influência da doutrina militar e ao custo de uma guerra nas ruas,
o jogo do bicho antes fracionado e informal tornou-se centralizado e
organizado.
Esvaziados pelo processo de distensão política ou excluídos por envolvimento
em crimes comuns, agentes da repressão encontraram abrigo na máfia do jogo do
bicho quando a guerra suja perdia a força na metade dos anos 1970. O coronel
Freddie Perdigão Pereira, os capitães Ronald José Motta Baptista de Leão e Luiz
Fernandes de Brito, o sargento Ariedisse Barbosa Torres, o cabo Marco Antônio
Povoleri, os delegados Luiz Cláudio de Azeredo Vianna, Mauro Magalhães e
Cláudio Guerra, e o detetive Fernando Gargaglione, além do Capitão Guimarães,
todos com folha de serviços prestados à ditadura, são citados por essas fontes
e documentos como integrantes desse pelotão arregimentado pelo bicho.
Com eles, a experiência de violência e espionagem adquirida nos porões
somou-se às práticas da contravenção. Guimarães, que caíra em desgraça no
Exército ao ser flagrado comandando uma quadrilha de contrabandistas fardados,
encontrou na jogatina fora dos quartéis o caminho para o topo de uma nova
hierarquia, à paisana. Aniz Abraão David, o Anísio da Beija-Flor, estabeleceu
seu clã político na Baixada Fluminense e se blindou da ação da polícia sobre
seus negócios. Castor Gonçalves de Andrade e Silva, o Castor da Mocidade
Independente, íntimo de agentes da repressão, negociou com o regime, sendo
beneficiado quando sua metalúrgica beirava a falência. Ângelo Maria Longas, o
Tio Patinhas, expandiu seus negócios em Niterói com a ajuda de Guimarães.
Assassinatos do período misturaram interesses militares e civis, envolvendo
bicheiros e ex-torturadores, desde o de pequenos contraventores, como Agostinho
Lopes da Silva Júnior, o Guto (em junho de 1979), cujos pontos em Niterói, São
Gonçalo e Itaboraí foram assumidos pelo Capitão Guimarães, a crimes famosos,
como o de Misaque José Marques e Luiz Carlos Jatobá (em janeiro de 1981),
acusados de invadir a casa de Anísio em Piratininga, Niterói, e do policial
Mariel Maryscotte de Mattos (em outubro de 1981), depois de tentar comprar os
pontos do bicheiro Jorge Romeu, o Jorge Elefante, em Niterói.
Repressão contra políticos da baixada
A guarnição da 1ª Companhia de Polícia do Exército (PE), da Vila Militar, em
Deodoro, foi a gênese desse fenômeno. No final dos anos 60, a PE desencadeou
uma repressão contra políticos da Baixada Fluminense, a maioria prefeitos e
vereadores cassados pelo regime sob acusação de corrupção. Foi essa limpeza que
abriu o terreno para que, em Nilópolis, o clã liderado por Anísio assumisse o
controle político local e se apoderasse dos pontos de pequenos bicheiros. Nos
anos 1970, Guimarães, Luiz Fernandes e Povoleri, todos da PE e integrantes de
um grupo processado por extorquir contrabandistas, começaram seu movimento em
direção à contravenção.
Dois dos principais centros de tortura do Rio, o Destacamento de Operações
de Informações (DOI) da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, e a Casa da Morte,
aparelho montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis,
também foram incubadoras de capangas da contravenção. Na Casa, por exemplo,
atuou o então comissário e depois delegado da Polícia Civil Luiz Cláudio,
codinome na repressão Laurindo, mais tarde braço-direito de Anísio. O sargento
Torres, que teria feito parte da equipe de interrogadores do ex-deputado Rubens
Paiva, desaparecido em 1971, é outro que migrou do DOI à contravenção. Ele se
tornou segurança de Anísio e chefe de barracão da escola de samba Beija-Flor.
Os resultados dessa aliança, pouco depois, seriam vistos com a consolidação
de uma nova cúpula do bicho a verticalização do poder, a eliminação gradual de
lideranças de pequeno e médio porte, a anexação de territórios antes
fracionados e a organização de rotinas. São dessa época a adoção do sistema de
atas nas reuniões e o mapeamento dos pontos, até então distribuídos de forma
improvisada. Também foram os agentes da ditadura que ensinaram os bicheiros a
grampear seus adversários.
Sistema de acusações, apurações e punições
Unidos pelos interesses da contravenção e por um projeto de poder, Castor,
Anísio e Guimarães (que passara a controlar a Unidos da Vila Isabel) fundaram
em 1984 a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Castor foi o primeiro
presidente, entre 1984 e 1985; Anísio, o segundo, entre 1986 e 1987; Guimarães
reinou entre 1987 e 1993, e, depois, entre 2001 e 2007.
O sistema discricionário de acusações, apurações e punições da ditadura
militar deu poder excepcional a certos grupos ligados às polícias, ao SNI e ao
sistema DOI-Codi. Deu-lhes, especialmente, tecnologia e know-how para conseguir
ou fabricar informações que custavam vidas e rendiam muito dinheiro. Montou-se
com a ajuda desses operadores da repressão e da tortura a quase inexpugnável
rede mafiosa do jogo do bicho e empresas de arapongas. A Liga das Escolas de
Samba é patrocinada e dirigida por contraventores. Ironicamente, no carnaval,
nenhum político ou governante posa ao lado de seus organizadores, embora a
Liesa seja financiada com dinheiro público diz Maria Celina dAraújo, cientista
política da PUC-RJ.
Procurados pelo GLOBO, os agentes ou parentes não quiseram falar ou não
foram encontrados. Os advogados de Guimarães e Anísio não retornaram as
ligações.
Personagens do bicho:
Castor de Andrade
Filho do bicheiro Eusébio Andrade, herdou do pai territórios de jogo na Zona
Oeste, mantendo o poder com mão de ferro. Foi presidente de honra do Bangu
Futebol Clube e da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel.
Íntimo de militares, manteve negócios com o Exército. Seu poder entrou em declínio
em 1994, na Operação Mãos Limpas, quando o Ministério Público e a PM estouraram
sua fortaleza e apreenderam livros-caixa. Na contabilidade, foram encontrados
nomes de políticos e policiais suspeitos de dar proteção aos contraventores em
troca de propinas. Morreu de infarto em 1997. Seu filho e sucessor, Paulo
Andrade, foi assassinado em outubro de 1998, na guerra por seu espólio.
Capitão Guimarães
Oficial de Intendência, serviu na PE da Vila Militar-RJ e no DOI-Codi-RJ até
1974. Era conhecido nos porões pelo codinome Doutor Roberto. Recebeu a Medalha
do Pacificador com Palma em 1969, depois de matar um integrante da VPR. Pouco
depois, envolveu-se com o contrabando, cooptado por policiais corruptos, e se
demitiu em 1981. Tornou-se banqueiro do bicho em Niterói, apadrinhado por
Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, e chegou à cúpula em quatro anos. Passou a
controlar o jogo em Niterói, Região dos Lagos e no Espírito Santo, deixando um
rastro de violência. Presidiu a Unidos de Vila Isabel e a Liesa. Foi preso na
Operação Marselha, em 1989, no processo presidido pela juíza Denise Frossard,
em 1993, e na Operação Furacão, em 2007.
Anísio Abraão David
Líder do clã que, com a ajuda dos militares, passou a controlar
politicamente Nilópolis, na primeira metade dos anos 1970. A pretexto de
combater a corrupção, agentes do regime perseguiram e cassaram os adversários
da família. Fortalecido, Anísio dominou o jogo do bicho na Baixada Fluminense e
na Região Serrana, chegando, no mesmo momento, à cúpula da contravenção. Patrono
da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, tricampeã em 1976, 77 e 78. Em
1981, foi acusado de envolvimento no assassinato de Misaque José Marques e Luís
Carlos Jatobá. Preso em 1993, por formação de quadrilha, e em 2007, por
corrupção ativa e passiva.
Luiz Fernandes de Brito
Como capitão, foi acusado de integrar uma quadrilha de contrabandistas. Mais
tarde, teria ajudado Mariel Maryscotte a fugir.
Mauro Magalhães
Delegado de Petrópolis em 1971, apoiava a Casa da Morte. Mais tarde,
apareceu na lista da propina de Castor de Andrade.
Marco antônio Povo Leri
Braço-direito de Capitão Guimarães na repressão, foi expulso do Exército e
atuou depois como segurança do bicheiro.
Luiz Cláudio de Azeredo Vianna
Policial civil, apontado como torturador em Petrópolis, ajudou Anísio a
dominar o jogo do bicho na Baixada Fluminense.
Cláudio Guerra
Delegado no Espírito Santo, serviu à repressão. Mais tarde, aliou-se ao
Capitão Guimarães, ajudando-o a expandir os domínios.
Ariedisse Barbosa Torres
Um dos acusados do desaparecimento de Rubens
Paiva, virou segurança de Anísio e