segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

"Os Golpes dentro do Golpe".

GOLPES DENTRO DO GOLPE
CARLOS CHAGAS LANÇA LIVRO COM BASTIDORES DA DITADURA MILITAR
JORNALISTA CARLOS CHAGAS LANÇA NOVO LIVRO “OS GOLPES DENTRO DO GOLPE”
Publicado: 13 de fevereiro de 2014 às 14:34 - Atualizado às 16:00
ditadura 01O jornalista Carlos Chagas vai lançar no final deste mês o primeiro volume do livro “Os golpes dentro do golpe – 1964-1969”. A publicação retrata o dia a dia de um dos períodos mais trágicos da história do Brasil. Chagas acompanhou todo o processo de instalação do regime militar e os desdobramentos que se seguiram.
De acordo com o próprio autor, houve muitas contradições até a queda da ditadura. “Acompanhei tudo. O impedimento do presidente Costa e Silva, a prisão do vice, Pedro Aleixo, a usurpação do poder pela Junta Militar e a escolha do general Garrastazu Médici para presidente da República”, lembrou o autor.
Ao consultar Roberto Marinho sobre a conveniência de escrever sobre o período para O Globo, Chagas foi autorizado a elaborar uma série de 22 reportagens de página inteira que o Estado de S. Paulo interessou-se em publicar simultaneamente, entre janeiro e fevereiro de 1970. As reportagens valeram o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano ao autor, assim como o primeiro processo movido pelo governo pela Lei de Segurança Nacional.
ditadura presidentes
Presidentes da ditadura a partir da esq., Castelo Branco, Médici, Figueiredo, Costa e Silva e Geisel
Durante os dois volumes do livro, Chaga relembra o que se desenrolou e foi divulgado e expõe episódios que a memória nacional esqueceu como uma série de eventos transcorridos nos bastidores. Entre os mais curiosos diálogos está o do coronel Meira Mattos, comandante das tropas que invadiram o Congresso em novembro de 1966, e o presidente da Câmara, Adaucto Lúcio Cardoso, além de conversas informais do marechal Castello Branco com jornalistas políticos e o atraso proposital de doze horas no relógio do Plenário da Constituinte de 1967 para evitar a edição de uma Constituição que não tinha o capítulo dos Direitos e Garantias Individuais.
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Fonte: Diário do Poder.

    quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

    As mudanças em Cuba.

    Fonte: UOL

    Condomínio fechado vira prêmio para comunistas fiéis em Cuba

    Damien Cave
    Em Havana (Cuba)
       


    Condomínios fechados viram prêmio para comunistas fiéis em Cuba5 fotos

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    O Projeto Granma, em Havana, é um dos vários empreendimentos habitacionais militares que existem em Cuba. Os condomínios são reservados às famílias ligadas aos militares e ao Ministério do Interior. Com seus balcões, ar-condicionado e tinta fresca, os novos apartamentos são os presentes mais públicos do governo para seus funcionários médios e um claro sinal da nova economia híbrida de Cuba, em que o Estado às vezes deve competir com a empresa privada Todd Heisler/The New York Times
    Nos esplêndidos bairros de Havana, antigas mansões estão sendo reformadas com tijolos importados. Os empresários almoçam sushi e dirigem luxuosos Audis. Agora, desejando se igualar, o governo está construindo algo especial para os seus: um empreendimento habitacional chamado Projeto Granma, com centenas de apartamentos confortáveis em um condomínio fechado que terá cinema e suas próprias escolas.
    "Vinte anos atrás ganhávamos um bom salário", disse Roberto Rodríguez, 51, um antigo funcionário do Ministério do Interior que foi o primeiro a mudar-se para o condomínio. "Mas o mundo mudou."
    Cuba está em transição. As reformas econômicas dos últimos anos abalaram a ordem estabelecida de classe e status social, permitindo que os cubanos com pequenas empresas ou acesso a capital estrangeiro chegassem mais alto que muitos comunistas fiéis. Enquanto esses novos caminhos do prestígio se expandem, desafiando o antigo sistema de recompensas pela obediência, o presidente Raúl Castro redobra esforços para promover os fiéis e manter sua lealdade - hoje e depois que os Castro partirem.
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    Fotos mostram o cotidiano dos moradores de Cuba62 fotos

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    28.jan.2013 - Jovens carregam bandeiras de Cuba duranta a tradicional marcha das tochas no 160º aniversário de nascimento do líder da independência cubana, José Martí, em Havana Alejandro Ernesto/EFE
    O Projeto Granma e "cidades militares" semelhantes em todo o país são edifícios de tranquilidade da cor do Caribe, reservados para os mais ardentes defensores da revolução cubana de 1959: famílias ligadas aos militares e ao Ministério do Interior. Com seus balcões, ar-condicionado e tinta fresca, os novos apartamentos são os presentes mais públicos do governo para seus funcionários médios e um claro sinal da nova economia híbrida de Cuba, em que o Estado às vezes deve competir com a empresa privada.
    O conjunto residencial é apenas um exemplo do crescente papel dos militares no plano de Castro para Cuba, e ilustra um conflito central em suas tentativas de abrir a economia sem desmontar a estrutura de poder que ele e seus camaradas construíram em mais de cinco décadas.
    Em curto prazo, analistas e ex-autoridades dizem que ele conta com os militares para aplicar suas reformas e manter a estabilidade enquanto experimenta a liberalização econômica. Mas sua dedicação como antigo soldado que foi ministro da Defesa durante 49 anos ameaça entrincheirar ainda mais uma instituição que muitas vezes diluiu as reformas que contestam sua posição privilegiada.
    "Raúl sabe que a resposta militar não é a resposta, mas também sabe que hoje ele precisa absolutamente da lealdade dos militares", disse Hal Klepak, um estudioso canadense que observa de perto os militares cubanos. "Eles são os únicos que o seguirão se a reforma tiver êxito, ou se ela falhar."
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    Carros em Cuba20 fotos

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    Um velho Oldsmobile transformado em táxi privado passa por rua em Havana em 2001
    Em 19 de dezembro de 2013, o governo cubano autorizou a livre importação de carros ao país, proibida durante meio século Leia mais AFP
    Raúl Castro e seu irmão, Fidel, guerrilheiros históricos, sempre recorreram aos militares em momentos de necessidade. Nos anos 1960 e início dos 70, enquanto a classe profissional de Cuba fugia, oficiais de uniforme dirigiram ministérios do governo e nacionalizaram indústrias. Desde os anos 1990, depois da queda da União Soviética, as forças armadas foram cortadas de cerca de 200 mil para 55 mil, mas também foram mais inseridas na economia cubana.
    Como presidente, Raúl Castro, 82, acelerou o crescimento do que alguns estudiosos descreveram como uma oligarquia militar. O presidente da Comissão de Política Econômica, Marino Murillo, é um ex-oficial. O maior conglomerado estatal cubano, Cimex, que processa aproximadamente US$ 1 bilhão de remessas de dinheiro de cubanos no exterior, entre outras tarefas, é dirigido pelo coronel Héctor Oroza Busutin. O genro de Raúl Castro, general Luis Alberto Rodríguez, é o principal executivo da companhia holding militar conhecida como Gaesa, que controlaria de 20% a 40% da economia cubana.
    E seu papel está se expandindo. Em 2011, uma filial financeira da empresa comprou a participação de 27% da Telecom Italia na companhia de telecomunicações cubana, por US$ 706 milhões. A Gaesa também tem uma rede de centenas de lojas de varejo que vendem de alimentos a eletrodomésticos. É também uma força em expansão no turismo, controlando frotas de ônibus de luxo, uma pequena companhia aérea e uma lista crescente de hotéis. E uma de suas subsidiárias supervisiona a zona de livre comércio construída junto ao maior projeto de infraestrutura cubano das últimas décadas - o novo porto de contêineres em Mariel.
    Os interesses dos militares concedem os privilégios dos negócios a alguns escolhidos, especialmente oficiais graduados.
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    Enterro de mentira é tradição em cidade cubana9 fotos

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    Em foto de 5 de fevereiro, o cubano Divaldo Aguiar, que interpreta o "morto" Pachencho, bebe rum jogado em sua boca por moradores do vilarejo Santiago de Las Vegas, durante o Enterro de Pachencho, encenação de funeral que se tornou tradição na pequena cidade próxima a Havana Franklin Reyes/AP
    "Eles vivem melhor que quase todo mundo em Cuba", disse Brian Latell, um ex-oficial da CIA que trabalhou em Cuba.
    Mas nas fileiras médias e baixas, segundo especialistas, a estima e a riqueza relativa se desgastaram. Os oficiais de carreira em Cuba hoje geralmente têm amigos ou parentes que vivem no exterior ou que visitam Miami e muitas vezes lhes trazem telefones ou roupas que não existem nas lojas emboloradas do Estado.
    Enquanto isso, os militares devem relatar todas as remessas que recebem e não podem ter qualquer "contato não autorizado" com estrangeiros ou cubanos que vivem no exterior - limitando o acesso ao dinheiro que outros cubanos usam não apenas para compras, mas também para melhorar suas casas e abrir pequenas empresas.
    "Isso está causando um êxodo de pessoas talentosas do Estado para o setor privado", disse Jorge Dámaso, 75, um coronel aposentado e autor de um blog que muitas vezes critica o governo. "A maioria dos militares viu sua qualidade de vida cair, comparada com a de um garçom ou alguém que tem uma pequena empresa. Eles podem ver que estão em desvantagem."
    As novas moradias, uma necessidade básica com oferta extremamente baixa em toda a ilha, parecem para muitos cubanos mais uma tentativa de favoritismo. Segundo números do governo, o orçamento para construção dos militares mais que dobrou desde 2010. Quando combinadas com o Ministério do Interior (muitas vezes descrito como uma filial dos militares), as forças armadas hoje são a segunda entidade de construção do país.
    O Projeto Granma - que leva o nome do barco que Fidel Castro pegou no México para iniciar a revolução cubana - é um dos vários empreendimentos habitacionais militares que existem no país. Seu equivalente em Santiago de Cuba, onde começou a revolução de Castro, foi criticado por cubanos que vivem em dificuldades em casas destroçadas pelo furacão Sandy. Mas, como uma tentativa de igualar-se ao setor privado ou à vida em outros países, talvez não seja por acaso que as cores e a arquitetura do Projeto Granma, no mesmo bairro que Raúl Castro chama de lar, dão a sensação de um condomínio na Flórida.
    No cabo de guerra que definiu as políticas econômicas de Cuba nos últimos dois anos, o governo muitas vezes hesitou sobre quando deixar o mercado funcionar e quando proteger a estrutura comunista. As autoridades cubanas, por exemplo, embarcaram recentemente em uma repressão aos vendedores particulares de roupas e outros artigos, uma campanha amplamente considerada uma tentativa de beneficiar a rede de lojas estatais.
    Dámaso, que esteve 32 anos nos militares, disse que os líderes do país, enquanto desejam uma melhora econômica, querem principalmente preservar a Cuba que conhecem.
    "Se você tem uma empresa dirigida por militares, quando houver uma transição você não vai se livrar de toda essa gente", diz ele. "Essa é uma maneira de preservar um espaço para os poderes estabelecidos em uma futura sociedade cubana."
    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 
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    Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba11 fotos

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    Fidel Castro (à esquerda), ex-líder cubano, participou da abertura Assembleia Nacional ao lado de seu irmão, o presidente Raúl Castro (centro), e do primeiro vice-presidente da ilha, José Ramón Machado Ventura (à direita), neste domingo (24), em Havana. Como a reeleição de Raúl é dada como certa, a imprensa internacional especula quem vai ocupar o cargo de Ventura, um dirigente histórico em Cuba Leia mais Marcelino Vazquez/AIN Foto/Reuters

    sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

    Militar da reserva admite farsa no Caso Rubens Paiva.

    Em depoimento, militar da reserva admite farsa no Caso Rubens Paiva

    Reportagem publicada no site do jornal O Globo nesta quinta-feira revela o depoimento de um militar da reserva sobre o caso do ex-deputadoRubens Beirodt Paiva, desaparecido no dia 20 de janeiro de 1971, depois de ser levado para a carceragem do Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército (DOI-I), no Rio de Janeiro.

    Acesse o site especial com todas as matérias sobre o caso

    Segundo o general reformado Raimundo Ronaldo Campos revelou no decorrer das investigações da Comissão da Verdade, realizadas no fim do ano passado, o Exército montou uma farsa ao sustentar, na época, que Paiva foi resgatado por seus companheiros “terroristas” ao ser transportado por agentes do DOI no Alto da Boa Vista, para fazer um reconhecimento.

    Ronaldo, que era capitão, foi apontado na ocasião como o condutor do veículo, na companhia dos sargentos e irmãos Jacy e Jurandir Ochsendorf (os três serviram na unidade).
    Até então, duas provas indicavam que Paiva dera entrada no DOI, depois de ser preso em casa, no Leblon, por uma guarnição da Aeronáutica: o depoimento de Amilcar Lobo, ex-tenente que teria tentado socorrer o ex-deputado, e um ofício encontrado na casa de um ex-comandante do DOI-I, coronel Molinas Dias.

    A acusação que pesava sobre o ex-deputado era manter correspondência com exilados brasileiros no Chile.

    sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

    Carta Capital - Política
    Qual Brasil? Qual Estado?
    Defender a ortodoxia individualista, em nossos dias, é desdenhar da realidade e menosprezar a história. Por Roberto Amaral

    por Roberto Amaral — publicado 07/01/2014


    Morto em 1790, certamente o fundador da economia-política não teve tempo para conhecer em toda a medida as consequências da associação liberalismo-individualismo-laissez-faire/laissez passer

    Escrevendo para seu tempo, ou, refletindo seu tempo, e nele realizando o projeto pessoal de combate ao mercantilismo que dominava as ideias e as políticas da Inglaterra e dos EUA, principalmente, Adam Smith (1723-1790) tornar-se-ia o mais importante teórico do liberalismo econômico, seguindo as pegadas do pensamento político de John Locke e Montesquieu.
    Nestas linhas é impossível reduzir seu pensamento, senão ressaltar dois de seus pilares: (i) o individualismo exacerbado associado a um (ii) Estado silente e omisso. Para fazer-se entender, o professor escocês dizia não ser da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que saía seu jantar, mas sim do empenho de um e de outro  em promover seu auto-interesse (selft-interest), que era conquistar a freguesia, vender mais e obter mais lucro e isso (o individualismo), era muito bom para a economia e o bem-estar de todos, pois  a competição entre os diversos fornecedores, eliminando os incompetentes,  levaria não só à queda do preço das mercadorias como ao aumento dos salários, o que podemos traduzir como fortalecimento  do mercado consumidor.
    Decorre daí a grande tese: a saúde das nações é o resultado direto das ações dos indivíduos em defesa de seus próprios (e egoísticos) interesses, promovendo o desenvolvimento e a inovação, com vistas a ganhar terreno na competição livre do mercado cujas forças, portanto,  deveriam agir livremente: todo empresário deve fazer o que bem quiser com seu capital, sem ter de obedecer a qualquer regulamentação governamental.
    O capitalismo e a liberdade individual (verso e reverso de uma só moeda), por si sós, promoveriam  de forma ‘luminosa’ o progresso da humanidade. O Estado é que atrapalha a liberdade dos indivíduos. Portanto...
    Mas sua obra seminal, A riqueza das nações (The Wealth of Nations) foi escrita em 1776, no alvorecer da Revolução industrial inglesa (1760/1840). Morto em 1790, certamente o fundador da economia-política não teve tempo para conhecer em toda a medida as consequências da associação liberalismo-individualismo-laissez-faire/laissez passer, destruindo o meio-ambiente, a qualidade de vida de todos, mas principalmente dos operários (homens, mulheres e crianças), mal pagos e desassistidos, sem qualquer nível de proteção, explorados ao limite da resistência humana, cumprindo jornadas de 12 horas de trabalho, sem direito a férias ou repouso semanal, enfim, destruindo a vida de milhões de ingleses, franceses e alemães, tragédia cujo horror inspirou a crítica social de Charles Dickens e Émile Zola, este notadamente com Germinal (1885).  E a denúncia político-social, ainda não superada, constante do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels (1848). Deu nisso a desregulamentação.
    Defender essa ortodoxia individualista, em nossos  dias, é desdenhar da realidade e menosprezar a história. Como falar na ação livre do mercado e em livre concorrência, como fazem os economistas mediáticos brasileiros, quando a realidade de nossa economia é a transição do oligopólio para o monopólio?
    Admitamos, para facilitar, que possamos esquecer as causas da primeira guerra mundial e suas consequências; mas, como riscar da história o crash da bolsa de Nova Iorque de 1929? Como ignorar a importância do keynesianismo (e a recuperação do papel do Estado) na reconstrução europeia, a partir do final da Segunda Guerra Mundial?
    Como, por outro lado, ignorar o papel da desregulamentação do mercado na construção da crise do capitalismo internacional como desdobramento da crise financeira dos EUA de 2008, que persiste em nossos dias, deprimindo o crescimento da economia em nível mundial? Crise que cobra a destruição do welfare state, a revisão dos direitos trabalhistas e previdenciários, a redução do emprego, a inibição da economia?
    Há poucos dias ouvi eminente economista mediático repetindo a velha frase do reaganomics: ‘o problema é o Estado’. É a visão de Hayek, que faz do neo-liberalismo a versão radicalizada de Adam Smith (ou o retorno a Quesnay), repetida acriticamente no Brasil pelos cérebros que orientaram Collor e FHC, repetida à saciedade pelos grandes meios de comunicação, jornalões e revistonas à frente.
    Digamos, de início, que não há o Estado, mas Estados, cujas características variam no tempo e no espaço, numa relação dialética.
    O Estado mercantilista sobre o qual se debruçou Adam Smith, voltemos a ele, era Estado distinto daquele que defenderia em suas obras e que seria construído pela Revolução Industrial. Óbvio, não? Distintas seriam igualmente as ordens econômicas e políticas dos Estados alemães da revolução industrial, da democracia weimariana, do hitlerismo e do após-guerra.
    De outra parte, não existe um papel padrão para Estados distintos, pois, hoje,  o que se pode esperar de qualquer Estado escandinavo é bem distinto do que se deve esperar e requerer do Estado brasileiro, ou do Estado chinês, ou do Estado angolano, ou sudanês, ou iraquiano, ou iraniano. A realidade histórica separa as missões dos Estados segundo o desenvolvimento da sociedade que procura organizar, seja sociedade em processo de industrialização, ou pós-industrial, ou subdesenvolvida ou emergente, e assim por diante. Não é um mesmo Estado a instituição política que governa a Europa e ao mesmo tempo aquelas sociedades quase ainda tribais da África e do Oriente. Óbvio, parece-me.
    Nos regimes capitalistas, cuja dominância é a  característica dos tempos atuais, a omissão do Estado significa  a ditadura do capital sobre o trabalho, donde o esmagamento dos direitos dos assalariados em geral, a destruição  dos direitos e garantias sociais, enfim, a barbárie, posto que, mesmo afastadas considerações de ordem ético-humanista, é incompatível a existência de qualquer sorte de capitalismo com a destruição do proletariado.
    Não pode haver explorador sem explorado, e a função política do Estado, visando à sobrevivência do capitalismo, é a de assegurar a exploração, mantendo-a,  todavia,  sob controle, de modo a permitir meios e limites de sobrevivência dos trabalhadores, sem o que não é possível extrair a mais-valia.
    No caso brasileiro, porém, país ainda em busca de desenvolvimento e ainda  ferido por perverso atraso social, o Estado tem exercido, desde a empresa colonial, a função indeclinável e insubstituível de indutor do desenvolvimento, exercendo aquele papel de pioneirismo que teoricamente seria reservado ao capital privado, que, aqui, foge do risco e protege-se no rentismo, locupletando-se às custas do Estado via juros escorchantes.
    Daí a grita permanente por juros elevados, a pretexto de segurar o consumo e controlar a inflação. Nossos grandes empresários são clientes privilegiados das carteiras dos bancos públicos, que raramente honram, como podem esclarecer nossos ruralistas.
    Além de cumprir com seu dever regulamentador e fiscal dos agentes econômicos, evitando ou minimizando os conflitos e protegendo os interesses coletivos, em tese, o Estado assume os investimentos e as responsabilidades sociais às quais se nega o capital privado, e ainda ampara o empresariado, inclusive o financeiro, contra suas fraudes ou sua incompetência gerencial.
    Assume o Estado aqueles investimentos que não atraem a economia privada, seja pelos altos volumes requeridos, seja pela lenta recuperação do capital, seja pela margem de lucro proporcionada; protege ainda o empresariado nacional em seus conflitos com o capital multinacional, tanto no plano interno quanto no das transações comerciais internacionais. Mesmo Adam Smith criticava a proteção estatal às empresas monopolísticas, financiadas com recursos públicos.
    Outra besteira mediática é  a falsa discussão sobre tamanho do Estado. Ora, a importância e necessidade do Estado – variante de sociedade para sociedade - não se mede com fita métrica, mas perquirindo a quem beneficia, a quem ele serve, a que projeto, seja econômico, seja político, seja social se destina.
    Pequeno ou grande, quais os fins do Estado? Proteger as grandes massas, promover o bem comum segundo os interesses das maiorias, defender os interesses das classes subalternas, defender o público e assim assegurar saúde pública, ensino público, segurança pública, transporte público? Induzir o desenvolvimento promotor do crescimento econômico do país, da boa qualidade de vida de sua população, da segurança nacional, da socialização das riquezas?
    Ou a função do Estado, grande ou pequeno, é simplesmente garantir o lucro dos grandes grupos, a lucratividade predatória do capital, a concentração da riqueza e renda e pôr-se a serviço da sociedade de classes?
    Perguntas que neste ano devem ser respondidas pelos candidatos à Presidência da República.
    Lobby caríssimo – Até pouco dias passados o combate à política externa independente brasileira era ofício assalariado de diplomatas aposentados, uns magoados, outros amuados, todos  com presença ativa na chamada grande imprensa.

    No novo ano, o ex-presidente FHC se incorpora, de mala e cuia, no lobby (mantenho a grafia inglesa em homenagem ao príncipe dos sociólogos brasileiros) do ‘complexo de vira-latas’, ou seja, considera idiota qualquer política externa brasileira que não seja um prolongamento dos interesses do Departamento de Estado dos EUA. Cada um serve ao Deus de sua estima. Em seu artigo desta semana, porém, o professor doutor tropeça. Está bem, faz parte do ofício, propor, por exemplo, e com grande originalidade, que o Brasil "estreite relações com os EUA", afastando-se do "bolivarianismo".
    Mas não fica bem pensar que os talebans fazem parte do "mundo árabe", quando eles, como muito bem observa José Antonio Lima em seu twitter, integram os povos pashtuns, maior etnia predominante no Afeganistão (e muito presente no Paquistão) menos árabe que o professor e imortal uspiano.



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    quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

    MUNDO

    Snowden é indicado ao Nobel da Paz

    Deputados noruegueses que sugeriram nome do delator do esquema de vigilância dos EUA dizem que ele contribuiu para ampliar o conhecimento sobre espionagem mundial. Segundo eles, mundo está mais seguro.
    Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, foi indicado nesta quarta-feira (29/01) ao Prêmio Nobel da Paz por dois deputados noruegueses. Eles argumentaram que a divulgação de documentos secretos transformou o mundo num lugar mais seguro.
    Em carta endereçada ao comitê do prêmio, os legisladores socialistas Bard Vegar Solhjell (ex-ministro da Educação e do Meio Ambiente) e Snorre Valen destacaram que Snowden merece ser elogiado pelas revelações de natureza tecnológica e de vigilância moderna que começou a fazer em junho do ano passado.
    Os políticos disseram que não precisam necessariamente apoiar ou condenar as revelações do ex-colaborador da agência americana. Porém, segundo eles, a atitude de Snowden contribuiu para o debate público sobre o estado de direito e para a ampliação do conhecimento sobre o alcance da espionagem dos cidadãos pelos seus países.
    "Estamos convencidos de que o debate público e o intercâmbio [de informações] que se seguiu contribuíram para um mundo mais pacífico e estável. Suas ações levaram à reintrodução da confiança e da transparência como princípio básico da política mundial de segurança", diz o comunicado conjunto.
    Snowden vive atualmente na Rússia, com visto temporário, após ter revelado segredos do governo dos EUA sobre os programas de vigilância do país. Washington acusou Snowden criminalmente depois que o ex-agente fugiu no ano passado – primeiro para Hong Kong, depois para Moscou. Ele pediu asilo a vários países, inclusive ao Brasil.
    As sugestões para o Prêmio Nobel da Paz podem ser entregues até o dia 1° de fevereiro. Parlamentares, ministros, juízes de tribunais internacionais, estudiosos de determinadas áreas, antigos premiados e ex-membros do Comitê Nobel têm direito a indicação. Eles não precisam revelá-las, mas às vezes, como no caso de Snowden, o fazem. Em 2013, houve 259 candidaturas. O prêmio foi entregue à Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) por seus esforços para eliminar o arsenal tóxico da Síria.
    RK/afp/rtr/lusa

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