sábado, 4 de abril de 2015


Ditadura militar brasileira perseguiu centenas de cientistas



Publicado em 03/04/2015 por Maurício
In – livrepensamento.com\2015
A história de 471 cientistas perseguidos durante a ditadura militar foi pesquisada e, a partir de hoje (31), pode ser consultada no site do Projeto Ciência na Ditadura. Esta é a primeira fase do trabalho feito pelo pesquisador titular da Coordenação de História da Ciência do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) Alfredo TiomnoTolmasquim e pelos professores Gilda Olinto e Ricardo Pimenta, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).
“Quando se completou 50 anos do golpe militar em 2014, nós nos demos conta de que não existia um balanço do impacto da ditadura militar na ciência brasileira. Existem muitos estudos de qualidade do que aconteceu em uma ou outra universidade ou no Instituto de Manguinhos da Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz], mas não havia um panorama completo. Até para dizer quantos foram atingidos e qual impacto [a ditadura] causou na atividade acadêmica do Brasil”, disse Tolmasquim à Agência Brasil.
Ele explicou que os cientistas que foram perseguidos são de diversas áreas, por exemplo, da física, química, matemática, de ciências políticas e da biologia. Para o pesquisador, o mais triste é que entre eles há pessoas que tinham atividade política, alguns professores universitários ligados a partidos políticos, outros ligados ao governo João Goulart.
Além disso, segundo Tolmasquim, existem os que não tinham atividades políticas, mas foram perseguidos por críticas feitas ao regime em comentários a colegas na universidade. Isso, de acordo com pesquisador, era suficiente para que fossem aposentados ou prejudicados na vida acadêmica.
“Em 1965, na Universidade de Brasília, houve um processo forte de demissões. Alguns professores não concordaram e pediram demissão da UnB, muitos deles foram para outras universidades, mas, em 1969, foram demitidos compulsoriamente em uma espécie de revanchismo. Essa era uma característica deste período de repressão. Criar medo e evitar que as pessoas expressassem as suas ideias”, acrescentou.
Tolmasquim acredita que, agora, com a divulgação do site do Ciência na Ditadura, vai começar uma outra etapa da pesquisa com a inclusão de novas informações que podem ampliar tanto o número de atingidos pelo regime quanto acrescentar dados sobre os já identificados, que foram presos, torturados, assassinados, exilados, demitidos, aposentados, submetidos a inquéritos militares ou sofreram boicotes relacionados a trabalhos científicos e intelectuais. “Tem o site, o e-mailciencianaditadura@mast.br e a página no Facebookciencianaditadura. Eu imaginei que o grande atrativo seria o site, mas errei. Na verdade, o número de visitas e de participações por meio do Facebook tem sido muito superior”, disse.
O pesquisador revelou que, durante o desenvolvimento do projeto, foram identificadas pessoas que sofreram violações em sua trajetória acadêmica, como as que prestaram concurso ou concorreram a bolsas de pesquisas e não foram chamadas porque estavam em uma lista de procurados pelos órgãos de repressão. “A nossa ideia com este site é recolher esses depoimentos e estas contribuições para que não fiquem esquecidas”, explicou.
Ele citou o caso da professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Ana Rosa Kucinski Silva e do marido Wilson Silva, em abril de 1974. Os dois, que integravam a Ação Libertadora Nacional (ALN), foram dados como desaparecidos. A USP chegou a afirmar que houve abandono de emprego. Somente no ano passado, com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, ficou comprovado que foram mortos por agentes da repressão. “Foram assassinados e sumiram. São dois casos de pessoas que foram desaparecidas”.
O projeto apontou ainda a participação de pessoas de dentro das universidades que se aproveitaram do momento de repressão para tirar vantagem. “Houve denúncias, e aconteceu na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na época Universidade do Brasil, antiga Faculdade de Filosofia. Tinha um decano que denunciou um grupo de desafetos como uma célula de comunistas dentro da universidade e, depois, se provou que não era verdade. Tentou se aproveitar para ter um ganho acadêmico”, disse.
Na avaliação de Tolmasquim, a troca de informações é fundamental para a ampliação do trabalho e até para a correção das informações. Ele citou o fato de um professor da Faculdade de Medicina da USP, que tinha sido submetido a um inquérito policial militar. “Recebemos uma mensagem de uma pessoa da faculdade dizendo que, na verdade, ele era dedo-duro e acusou várias pessoas da faculdade que foram prejudicadas pelo depoimento dele. Em função disso, retiramos o nome dele. A nossa informação era parcial. Sabíamos que tinha passado pelo IPM [inquérito policial militar], mas não sabíamos o que tinha acontecido a partir daí”.
O site foi lançado hoje, no dia em que se completam 51 anos da instalação da ditadura militar. “Na verdade o golpe militar foi em 1º de abril, mas terminou ficando na história como 31 de março, porque começaram a dizer que não era verdade o golpe militar, porque era 1º de abril [conhecido popularmente como o dia da mentira] e, aí, os militares trouxeram para 31 de março”, disse.
O pesquisador revelou também que, quando os verbetes relativos a cada cientista estiverem mais consolidados, e com mais informações, a ideia é publicar um livro. “Acho que é importante. A nossa ideia é publicar um grande livro de cientistas perseguidos durante o período da ditadura”.

Texto: Cristina Indio do Brasil
Edição: Aécio Amado
Fonte:
Agência Brasil

segunda-feira, 16 de março de 2015

Qual é a saída para Dilma? Analistas e políticos listam três áreas de atuação

  • Há 9 horas
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(Reuters)
Pressionada pela oposição, por aliados hostis e pelas críticas vindas ruas, a presidente passa pelo pior momento desde que chegou ao Planalto
Acuada pela oposição, por aliados hostis e pelas críticas vindas das ruas ─ inclusive de seus próprios eleitores ─ a presidente Dilma Rousseff enfrenta a maior crise desde que chegou ao Planalto, há pouco mais de quatro anos: tem diante de si a árdua tarefa de superar o isolamento e restaurar a confiança da população em meio a um escândalo de corrupção de grande monta, uma economia fragilizada e ânimos cada vez mais polarizados.
No último domingo, pouco mais de 1 milhão de pessoas (de acordo com as Polícias Militares) saíram às ruas de várias cidades brasileiras para externar sua insatisfação com as políticas do governo, pressionando ainda mais a presidente que deverá se empenhar em encontrar uma solução para a crise.
A BBC Brasil ouviu lideranças sociais, cientistas políticos e parlamentares para entender como a petista pode vencer a prova de fogo por que passa seu governo e assegurar a governabilidade de seu segundo mandato, principalmente após os protestos, a grande maioria a favor de seu impeachment, no último domingo (15).
Segundo eles, a solução passaria por um tripé que inclui recuperar a confiança do seu eleitorado, ampliar o diálogo com a base aliada e retomar o crescimento da economia ─ este último pilar, acreditam, não erradicaria, mas atenuaria as fortes críticas que vem recebendo, sobretudo, de opositores.
"Dilma montou uma "cilada" para si mesma durante a eleição, ao prometer que não mexeria em algumas das conquistas socioeconômicas ocorridas nos últimos anos. Agora, mudou o discurso e tem dificuldade de explicar o ajuste fiscal que, invariavelmente, se viu obrigada a executar, especialmente, para os seus eleitores", afirmou à BBC Brasil Carlos Melo, cientista político e professor-adjunto do Insper.
Na última sexta-feira (13), protestos convocados por entidades ligadas a movimentos sociais, como CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e UNE (União Nacional dos Estudantes), tomaram as principais cidades do país para defender "os direitos trabalhistas, a Petrobras, a democracia e a reforma política".
Apesar de ter sido chamado nos bastidores de "Blinda Dilma", pelas manifestações de apoio à presidente e por ter ocorrido dois dias antes dos protestos de domingo, o ato não foi "nem a favor nem contra o governo", afirmaram lideranças à BBC Brasil.
"Queremos registrar nossa insatisfação com o rumo que o governo está tomando. Achamos que é necessário fazer ajustes fiscais, mas sem mexer no direito dos trabalhadores. A presidente pedir paciência não resolve o nosso problema. A saída é o diálogo. Não vamos pagar com nosso emprego essa crise que a presidente diz que existe. Ela tem um compromisso assumido conosco durante as eleições", disse à BBC Brasil Adi dos Santos Lima, presidente da CUT-SP, que defende a retirada das MPs (Medidas Provisórias) 664 e 665 que alteraram as regras de acesso a benefícios sociais, como seguro-desemprego, auxílio-doença, pensão por morte, entre outros.
Para a UNE, o protesto de sexta-feira foi uma forma de "pressionar o governo" para rever algumas das medidas tomadas recentemente.
"Nós fomos às ruas e conquistamos essa vitória. Agora seguimos em frente por mais direitos para garantir os 10% do PIB para a educação e para aprovar uma reforma universitária democrática no nosso país", afirmou a presidente da UNE, Vic Barros, após a manifestação.
Segundo Ricardo Ismael, cientista político da PUC-Rio, Dilma precisa "urgentemente" reconhecer que "errou", mas ainda tem dificuldades sobre qual estratégia de comunicação adotar junto à opinião pública.
"A presidente Dilma não conseguiu explicar por que mudou o discurso de campanha nem por que a população deve se submeter a tantos sacrifícios. A insatisfação popular não é pelo terceiro turno; ela é objetiva: o governo está tomando medidas impopulares e não resta dúvida de que isso gera uma reação negativa da população", disse ele à BBC Brasil.

Coalizão

(AFP)
Protestos contra Dilma levaram centenas de milhares às ruas em todo o país no domingo (15)
A dificuldade de Dilma em dialogar também é motivo de críticas no universo político.
"Uma das principais falhas da presidente é, sem dúvida, a falta de articulação política. Sem apoio no Congresso, Dilma não consegue tomar medidas que possam garantir sua governabilidade, o que acaba impactando sua popularidade", afirmou à BBC Brasil Paulo Baía, cientista político e professor da UFRJ.
"Ela precisa repactuar sua base aliada, que está completamente fragmentada, e ter como interlocutor o vice-presidente Michel Temer, que é um homem de bom trânsito em todos os setores do Parlamento. Mas ela não o usa como deveria em grande parte devido a seu estilo de governar", acrescentou.
Na opinião de Ismael, da PUC-Rio, a postura unilateral adotada pelo governo, especialmente com o PMDB, explica o impasse político no Congresso, cujo ápice ocorreu quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, devolveu a MP que reduz a desoneração da folha de pagamento. Recentemente, de acordo com informações do jornal O Estado de S. Paulo, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ameaçou pedir demissão caso o Senado derrubasse o veto à prorrogação até 2042 dos subsídios sobre a energia elétrica para grandes empresas do Nordeste.
"Dilma precisa de apoio político, ou seja, que o PT, o PMDB e a maioria do Congresso defendam o governo. Mas parte expressiva dos parlamentares do PT, o partido da presidente, é contra o ajuste fiscal. O governo errou, principalmente em tentar isolar o PMDB. Não conversa com ninguém e quer impor medidas", disse Ismael.
Para o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), líder do PMDB na Câmara, a discussão tem de ser mais "ampla".
"O que o PMDB deseja é uma participação efetiva no núcleo institucional decisório do governo, deseja ser ouvido para a tomada das decisões estratégicas, políticas e da reformulação das políticas públicas. Mas, infelizmente, não foi dessa forma como esse processo foi conduzido nos últimos tempos", criticou ele à BBC Brasil.
"O PT exerceu uma posição hegemônica no núcleo de decisão política do governo, estremecendo as relações entre o Executivo e o Legislativo e desorganizando a base aliada. Agora, essa relação precisa ser recomposta com diálogo e com a consolidação de uma coalizão verdadeira. Se o diálogo for sincero, e essa é a intenção, não vejo dificuldade para que isso ocorra. Do contrário, de fato, não irá avançar", afirmou.
Já para o deputado Rogério Rosso (PSD-DF), líder do PSD na Câmara, outro partido da base governista, o Congresso "não pode estar de forma passiva analisando as medidas do governo".
"Queremos uma agenda positiva e propositiva. A presidente precisa ampliar seu núcleo político. Essa ampliação significa ouvir mais opiniões e pensamentos. Como líder do partido, acredito ser importante o estreitamento entre o governo e a base aliada", disse Rosso à BBC.
Na semana passada, o governo deu uma indicação de que estaria aberto a ampliar o diálogo ao incluir ministros de partidos da base, além de chamar outros membros da gestão, para as reuniões de articulação política.
Nominalmente, Dilma citou os ministros Gilberto Kassab (PSD, Cidades), Aldo Rebelo (PC do B, Ciência e Tecnologia) e Eliseu Padilha (PMDB, Aviação Civil). Na ocasião, a petista aproveitou para negar a possibilidade de retirada de Aloizio Mercadante (Casa Civil) da articulação após rumores de que ela estaria insatisfeita com sua atuação.

Oposição

(Reuters)
Saída para Dilma passa por melhor articulação política com o Congresso
Embora considerem "pequena, quase impossível" a possibilidade de Dilma conquistar o eleitorado de oposição, especialistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que a retomada da economia ajudaria a conter os ânimos exaltados dos opositores.
"A possibilidade (de se aproximar do eleitorado de oposição) é muito pequena. Acho que se estabeleceu uma resistência de alguns setores sociais à presidente, ao governo e ao próprio PT. Mas o presidente Lula, é preciso lembrar, teve esse apoio em determinado momento. A própria elite se surpreendeu com ele. É claro que Lula foi favorecido pelo bom momento econômico que o Brasil vivia, especialmente em seu primeiro mandato, mas foi muito hábil politicamente, garantindo uma boa interlocução com setores-chave da economia, como a indústria e os bancos", afirmou Melo, do Insper.
"Mas isso requer, sobretudo, um perfil menos autoritário. Na política, liderança e blindagem são imprescindíveis. E hoje Dilma não tem nenhuma das duas", concluiu.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Toquem os sinos da indignação
(*) Rinaldo Barros
Juro que tentei entrar no espírito da Páscoa, com seus símbolos da chegada de uma nova vida, e disseminar esperanças de renovação para todos. Todavia, a análise do atual cenário que se nos apresenta não permitiu. Senão, vejamos melhor como estamos hoje no Brasil e no mundo.
Ninguém conseguiu “desentupir as veias do sistema financeiro, vítima de trombose", conforme a descrição de Christine Lagarde, a ex-ministra francesa de Economia e atual presidente do FMI.
O noticiário vem sendo o mesmo nos últimos meses: crise financeira, bolsas despencando, bancos e megaempresas indo à bancarrota, desindustrialização, pacotes governamentais tentando injetar estabilidade na economia, no patropi e em diversos outros países. Sempre do ponto de vista do capital. Sempre.
Nada sobre o futuro do trabalhador, nem sobre a redução das margens de lucro (spread) dos bancos, nem sobre a redução das despesas do governo.
Ainda não ouvimos uma palavra, uma análise, um gesto que possa sinalizar uma ação de busca às reais causas da turbulência econômica. Está evidente que a roupa não carece de mais remendos.
Há que se pensar - com sentido de urgência - em uma nova roupa com que se possa vestir a economia. Uma roupagem que abrigue os muitos milhões de miseráveis do Brasil e do mundo.
Um traje que seja desenhado com as linhas da dignidade humana.
O atual sistema político e financeiro do é, sob qualquer ângulo que se analise, insustentável. Um sistema que reproduz um padrão de desigualdade brutal, vitimando milhões de seres humanos, condenando a maioria da população a uma existência física abaixo da linha da pobreza. Escondida pela propaganda.
Para comprovar isso, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) denuncia: a soma da renda das 500 pessoas mais ricas do mundo supera em muito a dos 400 milhões mais pobres.
Em outras palavras, apenas um multimilionário ganha mais do que 1 milhão de pessoas!
Esta constatação serve na medida como epitáfio de um mundo impossível de ser mundo, um mundo constantemente a desafiar o mais comezinho bom senso sobre o que nos reserva o futuro.
A produção mundial segue de vento em popa e carrega consigo o estigma real das desigualdades sociais. Basta que entendamos que atualmente, 80% da produção industrial do mundo são absorvidos por apenas 20% da população que vive nos países mais ricos do hemisfério Norte.
Enquanto a fome é distribuída indiscriminadamente, o bem-estar continua privilégio de uns poucos.
Assuntando cá no meu canto, tentei, então, me convencer que a crise verdadeira é a crise que fará o mundo mergulhar em uma tomada de consciência jamais tentada, é a crise de valores humanos universais. Crise da ética.
Meu anseio por um mundo melhor ressurgiu tão intenso que - ingenuamente – vislumbrei a utopia que ainda é possível construir um mundo sustentável, que nada foi em vão. Um reencantamento, sem dúvida.
Mas, para botar os pés no chão, inventei de fazer um rápido passeio pela juventude contemporânea, passando pelas rádios, TVs e revistas, conferindo as grades de programas destinados às gerações do futuro.
Fiquei impressionado. Um festival de nada com nada. Cabeças vazias pontificando aqui e ali. O único culto a unir diversas faixas de idade, mas dentro do intervalo de 13 a 30 anos, é o culto à beleza-padrão, à saúde física, à beleza dos rostos e dos corpos. A maior vitrine que temos de há quantas anda a nossa juventude pode ser conferida 24 horas por dia (nos canais pagos) e nos horários nobres diários (nos canais abertos) através de programas tipo Big Brother Brasil. Com altos índices de audiência.
Ali (re) conhecemos o pobre linguajar de nossos jovens, a sem cerimônia no uso e abuso de palavras de baixíssimo nível, num clima de muito sexo sem amor, o excesso de gírias, caras e bocas e a falta de conteúdo para defender qualquer que fosse o ponto de vista, acerca de qualquer tema ou assunto.
Sem nem levar em conta o tsunami de corrupção que assola o patropi; o choque de realidade me levou ao temor de que nossa sociedade seja suicida, e que o nosso futuro pode ser a barbárie.
Resumo da ópera: se um dos objetivos de qualquer geração é moldar o processo decisório dos anos à nossa frente, não temos muito a comemorar nem para abastecer nossa carga de esperanças em um mundo melhor, mais humano, saudável e, sobretudo, habitável.
Em plena Páscoa, cansado de tanto “ver triunfar as nulidades”, só vejo desencanto.
Não perguntem por quem os sinos dobram. Toquem os sinos da indignação pela inimaginável miséria presente nos campos, vilarejos e periferias das metrópoles brasileiras.


 (*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

sábado, 7 de março de 2015

Música alta pode levar um bilhão de jovens a surdez; saiba como se proteger

BBC de Londres.
  • 6 março 2015
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Crédito: OMS
A OMS recomenda não usar fones de ouvido durante mais de uma hora por dia, e a um nível baixo. No volume máximo, o máximo permitido são apenas quatro minutos
O barulho está por toda a parte. Mas a epidemia de ruído dos dias atuais acontece, no entanto, em silêncio. Mais especificamente dentro dos fones de ouvido.
Ninguém está a salvo dela, mas o problema, que já se tornou crônico, afeta particularmente os jovens.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que 1,1 bilhão de jovens em todo o mundo correm risco de sofrer perda auditiva devido à exposição ao barulho causada por seus hábitos diários.
Nos países desenvolvidos, a situação é tão grave que, de acordo com estimativas, mais de 43 milhões de pessoas, entre 12 e 35 anos, já sofrem de surdez incapacitante.
Em um relatório publicado por ocasião do Dia Internacional do Cuidado Auditivo, comemorado na última terça-feira, 3 de março, a OMS estimou que 50% dessa faixa etária (12 a 35 anos) está exposta a riscos pelo uso excessivo de tocadores de mp3 e smartphones, e 40% pelos níveis de ruído prejudiciais de discotecas e bares.
Mas como saber quando estamos causando danos, talvez irreversíveis, a nossos ouvidos?
Especialistas avaliam que 85 decibéis (dB) até 8 horas é o nível máximo de exposição sem riscos a que um ser humano pode se submeter. Esse período de tempo diminui na medida em que a intensidade do som aumenta.
Não se trata de uma tarefa fácil, especialmente considerando que o volume de dispositivos de áudio pessoais, como tocadores de mp3, pode variar entre 75 dB e 136 dB no nível máximo.
O relatório da OMS recomenda, contudo, que as pessoas usem esses aparelhos não mais do que uma hora por dia e a um volume baixo.
Já em discotecas e bares, os níveis de ruído podem variar entre 104 dB e 112 dB. De acordo com os parâmetros determinados pelo órgão da ONU, permanecer mais de 15 minutos nesses locais não é seguro. O mesmo se aplica em instalações esportivas, onde o nível de ruído oscila entre 80 dB e 117 dB.
Segundo médicos, a exposição a esses ambientes provoca cansaço nas células sensoriais auditivas. O resultado é a perda temporária da audição ou acúfeno (sensação de zumbido no ouvido).
A capacidade auditiva melhora na medida em que as células se recuperam, mas quando "os sons são muito fortes ou a exposição ocorre regularmente ou de forma prolongada, as células sensoriais e outras estruturas podem ser danificadas permanentemente, causando uma perda irreversível da audição", informa a OMS.
Para se ter uma ideia, uma pessoa que ouve 15 minutos de música a 100 dB está exposta a níveis semelhantes de ruído aos níveis enfrentados por um operário que trabalhe oito horas por dia a 85 dB.

Exposição segura ao som

(OMS)
Segundo a OMS, 85 decibéis (dB) até 8 horas é o nível máximo de exposição sem riscos a que um ser humano pode se submeter
Confira o volume máximo de exposição ao som que a OMS considera seguro:
  • 85 dB: nível de ruído no interior de um carro. Tempo máximo seguro: oito horas.
  • 90 dB: cortador de grama. Tempo máximo seguro: Duas horas e 30 minutos.
  • 95 dB: ruído médio de uma motocicleta. Tempo máximo seguro: 47 minutos.
  • 100 dB: buzina de um carro ou metrô. Tempo máximo seguro: 15 minutos.
  • 105 dB: tocador de mp3 no volume máximo. Tempo máximo seguro: Quatro minutos.
No relatório, a OMS também fez algumas recomendações para quem pretende proteger a audição. São elas:
  • Mantenha o volume baixo.
Regule o volume de seu tocador de mp3 para que nunca exceda 60% do volume total. Use tampões de ouvido toda vez que for a um evento onde o ambiente seja extremamente barulhento, como discotecas ou bares.
  • Limite o tempo gasto em atividades barulhentas.
A duração da exposição ao ruído é um dos principais fatores por trás da perda de audição. É aconselhável fazer breves descansos auditivos e limitar a uma hora diária o uso de fones de ouvido.
  • Preste atenção aos níveis seguros de exposição ao ruído.
Use a tecnologia dos smartphones para ajudá-lo a medir os níveis de exposição ao ruído.
  • Preste atenção aos primeiros sinais de perda de audição.
A OMS recomenda procurar imediatamente um médico se houver dificuldades para ouvir sons agudos, como campainha, telefone ou despertador, ou entender a conversa por telefone e até mesmo em ambientes barulhentos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Anos de chumbo

"Nostalgia da Luz" mistura história e astronomia para falar sobre os desaparecidos políticos no Chile

Filme em cartaz na Capital a partir desta quinta é dirigido por Patricio Guzmán, documentarista autor de obras referenciais sobre a ditadura militar de Augusto Pinochet

zerohora.com.br
26/02/2015 | 06h31
"Nostalgia da Luz" mistura história e astronomia para falar sobre os desaparecidos políticos no Chile IMS/Divulgação
Foto: IMS / Divulgação
Definições estritas não dão conta de Nostalgia da Luz (2010): o filme que entra em cartaz nesta quinta-feira hoje no Espaço Itaú 3 convida o espectador a flanar de um tema a outro, surpreendendo ao propor analogias que acabam conduzindo a narrativa rumo a territórios inauditos. Longe de causar desconforto, porém, essa derivação é justamente o maior atrativo do longa dirigido por Patricio Guzmán — um dos mais importantes documentaristas em atividade no mundo, realizador do monumental A Batalha do Chile.
Chileno radicado na França, o cineasta ganhou no recente Festival de Berlim o troféu de melhor roteiro e o Prêmio do Júri Ecumênico com o documentário El Botón de Nácar. (A boa fase do cinema chileno, aliás, também foi premiada na Berlinale com o Grande Prêmio do Júri, o segundo em importância do festival, para El Club, de Pablo Larraín.)
Melhor documentário do European Film Awards de 2010, Nostalgia da Luzcomeça como se fosse um documentário científico de canal de TV a cabo, mostrando telescópios, observatórios astronômicos e estrelas. Já de partida, no entanto, a narração de Guzmán propõe caminhos paralelos ao acrescentar lembranças pessoais e comentários sobre o golpe que mergulhou o Chile nas trevas a partir de 1973.
Aos poucos, as conexões vão se esclarecendo: graças a características como a baixíssima umidade do ar, o deserto do Atacama é um dos melhores lugares do planeta para o acompanhamento dos astros no céu; o isolamento da região também serviu para os militares criarem um campo de prisioneiros durante a ditadura, aproveitando as instalações de uma mina de salitre abandonada.
O filme mostra que, ao lado de sofisticadas instalações que perscrutam galáxias em busca dos mistérios sobre a origem do universo, mulheres esquadrinham pacientemente a imensidão desértica atrás de pistas e fragmentos de ossos que possam indicar o paradeiro de maridos e parentes desaparecidos políticos, que podem estar enterrados em valas comuns.
Costurando depoimentos de astrônomos, arqueólogos e ex-prisioneiros do regime militar, Nostalgia da Luz liga os pontos: tanto o estudo dos corpos celestes quanto a busca pelos corpos dos entes queridos são maneiras de interrogar a memória e o passado — um anátema para muitos chilenos, que preferem deixar a história recente do país enterrada.
Com rara sensibilidade poética, Guzmán transcende o mero panfleto e adensa sua obra com questionamentos existenciais e metafísicos, sem nunca esquecer o contexto político-social.
Como os mais recentes documentários da cineasta belga Agnès Varda, Nostalgia da Luz é um filme-ensaio — um tipo híbrido de cinema que mistura investigação, autobiografia, poesia, documentário, divagação e até drama.
Falando à imprensa chilena sobre El Botón de Nácar, em que entrelaça o extermínio de indígenas no sul, os desaparecimentos políticos e a enorme extensão costeira de seu país, Guzmán forneceu uma chave de leitura também para Nostalgia da Luz: "Me interessa muito a geografia chilena e creio que se podem fazer metáforas por meio desses elementos. O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile, o desejo de aparentar ser um grande país, o que também é, mas onde as diferenças sociais são enormes". 
Cinco filmes sobre a ditadura militar no Chile
No (2012)O diretor Pablo Larraín, encena o início do fim da ditadura de Augusto Pinochet, quando foi realizado um plebiscito para decidir pela continuidade ou não do regime militar
Rua Santa Fé (2007)
Carmen Castillo conta a história de seu marido, um líder sindical assassinado pelos militares, e destaca episódios da resistência popular sufocados pela repressão
Machuca (2004)
Andrés Wood destaca um menino pobre que vai estudar em escola de elite durante o governo Allende e testemunha as mudanças decorrentes do golpe que levou Pinochet ao poder
Desaparecido: Um Grande Mistério (1982)Mestre do cinema político, Costa-Gavras mostra a saga de um pai americano (Jack Lemmon) que busca pelo filho desaparecido  no 11 de Setembro chileno e descobre a participação da CIA no golpe
A Batalha do Chile (1975 – 1979)Aclamado projeto em três partes no qual Patricio Guzmán passa em revista o processo político e social que o Chile viveu nos momentos anteriores e posteriores ao golpe de 1973

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Está só no começo: vai piorar

“Povo é a dimensão humana do Estado, o conjunto dos cidadãos de uma Nação”. (Hans Kelsen, jurista e filósofo austríaco
(*) Rinaldo Barros
Entre 1930 e 1945, o Brasil enfrentou movimentos, como a Revolução Constitucionalista, em 1932; a Intentona Comunista, em 1935; a Intentona Integralista, em 1938; que levaram grande número de pessoas às ruas. Mas protestos ou tentativas de levantes não aconteceram apenas durante o governo de Vargas. Antes de seu primeiro mandato, homens pegaram em armas em São Paulo tentando derrubar as oligarquias que há anos vinham governando o país.
Mais tarde, nos anos 1960, com a recessão econômica, inflação, desemprego e o arrocho salarial, o povo manifestou seu descontentamento por meio de greves e passeatas; culminando com o movimento militar de 1964, regime autoritário que perdurou até 1985.
Atualmente, é impossível ignorar a dimensão social e política que os desmandos do PT governo e o descontrole da economia têm adquirido em todo o país. A indignação coletiva com a precariedade do transporte público remete à Revolta do Vintém de 1879, quando manifestantes no Rio de Janeiro desafiaram a monarquia do Brasil por causa das tarifas dos bondes.
O fato é que, de um modo geral, o transporte público no Brasil é caro, inseguro e mal gerido, afetando especialmente passageiros pobres que não têm escolha a não ser contar com esse sistema.
Há uma espécie de ira popular difusa represada que pode explodir por qualquer motivo, até mesmo num simples jogo de futebol. São milhões de pessoas sofridas e estressadas, no limite de sua capacidade, prontas para explodir em violência inconsequente.
Em plena vivência da normalidade democrática, a insatisfação popular alimentada pela perda da segurança, em diversas áreas urbanas, chegou a tal ponto que os manifestantes protestam contra aumento nas passagens ou por qualquer acidente ou atraso; e depredam ônibus, trens, lojas, bancos e logradouros públicos; em confronto com forças policiais, atirando bombas de efeito moral e balas de borracha.
Aliás, tropas cada vez menos preparadas para conviver com os movimentos sociais em luta; porquanto são treinadas fundamentalmente para combater a criminalidade. Os especialistas na questão afirmam que, nas periferias das cidades, onde a presença do Poder Público é fraca, o crime consegue instalar-se mais facilmente.
São os chamados espaços segregados, áreas urbanas em que a infraestrutura urbana de equipamentos e serviços (não existe saneamento básico, saúde, sistema viário, iluminação pública, transporte, lazer, educação, segurança pública, nem acesso à justiça) é precária ou insuficiente.
Por sua vez, a Segurança deve ser (mas ainda não é) considerada um direito de cidadania, fundamental para o desenvolvimento econômico e social. Nem o Estado nem o cidadão possui essa consciência.
Todavia, e para piorar o cenário atual do patropi, a situação é - perigosamente - ainda mais grave: a insatisfação não se restringe às áreas urbanas, pois também há conflitos no campo e nas áreas indígenas.
Os brasileiros vivemos a ressaca de uma eleição vencida à base de muita mentira, promessas frustradas e uma prática de governo diametralmente oposta à discurseira da campanha eleitoral. O corte de benefícios sociais, o aumento de impostos e das tarifas de água e luz, o racionamento, os apagões, a alta dos juros e da inflação, e a elevação do desemprego apenas começaram.
Diante da avalanche de corrupção, cresce a sensação mista de desalento, vergonha e revolta.
O caro leitor há de convir que a combinação desses movimentos de insatisfação popular - nas cidades e no campo - com a tendência atual da economia brasileira (eivada de incertezas), aponta para um aumento das tensões, com resultado imprevisível. Recomendo “encostar o ouvido no chão, para sentir o porvir”.
É preciso atentar para o seguinte: o controle de multidões ainda não faz parte do currículo das nossas Academias de Polícia. Tal como ocorre atualmente, a Polícia, o Estado, tende a enxergar os manifestantes insatisfeitos (o povo) como se fossem inimigos. Pode acontecer tudo, inclusive nada.
Registre-se que dezenas de manifestações - tendo como tema o “impeachment” da presidente (que não controla sua “base aliada” nem seus 39 ministros, até porque não tem programa de governo) - estão sendo organizadas em diversas cidades brasileiras para o dia 15 de março, via redes sociais.
Resumo: há mais coisas no ar além dos aviões de carreira, e urge capacitar e aparelhar melhor o Estado brasileiro para conviver com o Regime Democrático de Direito; pois a insatisfação popular é crescente, e está só no começo: vai piorar.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com