quarta-feira, 23 de março de 2016

"Isso é bobagem', diz ex-ministro de Jango sobre acusações de 'golpismo' contra Lava Jato

  • 12 março 2016
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BBC Brasil






Image copyright Ingrid Fagundez
Image caption Ex-ministro vê falta de lideranças no país

Na reta final de seu governo, quando agitações políticas formavam terreno próspero para o golpe militar, o então presidente João Goulart chamou seu ex-ministro do Trabalho Almino Affonso para uma conversa.














Dali a poucos meses, o então deputado foi um dos responsáveis por alertar o presidente sobre os generais que saíam de Minas Gerais. Jango foi derrubado e teve início a ditadura militar no Brasil.
Hoje com 86 anos, o advogado amazonense familiarizado com as ameaças à democracia se diz angustiado com o momento político do país. Apesar de considerar "uma bobagem" a hipótese de que um golpe contra o governo esteja se desenrolando hoje, ele diz temer pelo futuro das instituições.
"Alguns entreveriam algo contra o que está (no poder), contra o Lula, o meu medo é muito mais amplo", afirma.
"Temo que, com a crise política e econômica e a falta de lideranças que assumam como deveriam o desafio, o país mergulhe num impasse institucional."
Para Almino, que conviveu com figuras como Tancredo Neves e foi conselheiro de Lula, não há líderes políticos. Nem nos Estados ("não encontro um"), nem no Congresso, nem no governo ("Dilma é incapaz"). Até a figura de Lula, que diz admirar, tem sua grandeza "diluída" frente às acusações de corrupção.
O ex-deputado fala de um vazio no poder. Mesmo favorável ao impeachment, "instituição prevista na Constituição", se preocupa com a sucessão de Dilma e diz que era mais fácil diagnosticar os problemas às vésperas da ditadura militar.
"O que me angustia é que você está em um país sem horizonte."
Leia abaixo trechos da entrevista.

Image copyright Ultima Hora
Image caption Para Affonso, isolamento é característica comum entre Dilma e Jango
BBC Brasil - Há um discurso recorrente, sobretudo entre apoiadores de Lula, que com as últimas etapas da Lava Jato está em curso um golpe na democracia. Você concorda?
Almino Affonso - Isso é bobagem. A explicação que o Moro deu (sobre a condução coercitiva de Lula) me parece de uma validez total. Ele precisava ter o depoimento. Cabe a ele analisar se as hipóteses têm fundamento ou não. Não vejo nisso (um golpe).
Para considerar um golpe eu seria obrigado a admitir que não há causas para esse quadro que está havendo. Se levanta a proposição do impeachment e não faltam temas que o justifiquem. O resto é a decisão dentro das instituições, no Senado.
(O impeachment) se formaliza por figuras que respeito muito, mas cadê a base política delas? O (Hélio) Bicudo não tem peso político. O PSDB assumiu a proposição? Não. Ficou lá rolando na mão do Cunha. Como se dá o golpe dessa forma? Tem que ter meio, começo, fim.
BBC Brasil - Você é a favor do impeachment?
Almino Affonso - Em princípio, sou favorável. É difícil a pergunta. Tenho a impressão que o problema maior do impeachment é quem fica em seguida. Mas, se disser que sou contra, parece que concordo com isto (o governo). E o impeachment é um instituição prevista na Constituição, não significa nenhuma ruptura da ordem democrática.
BBC Brasil - A crise política ameaça o sistema democrático de alguma forma?
Almino Affonso - O que me angustia é que você está em um país sem horizonte. Suponha que venha a vencer o impeachment, assumiria o PDMB. Neste quadro dramático que estamos vivendo, imaginar o PDMB governando... não consigo ver.
O PSDB hoje é uma fratura de ponta a ponta. As grandes figuras não se falam. Você tem Aécio e Serra, adversários fidagais. O presidente Fernando Henrique, que é a liderança nacional, não gosta de intervir. Como PSDB fará no poder?
BBC Brasil - Há uma ausência de líderes políticos?
Almino Affonso - É visível. Faça um exercício comigo. Precisamos lançar um candidato a presidente da República, que assuma esse país que está precisando de uma figura que respeite, em que se acredite. Corra os nomes dos governadores, me arranje um para ser nosso candidato. Não encontro! Quando volto ao passado, podia haver a divergência que houvesse, não faltavam quadros.
BBC Brasil - Quais são os riscos?
Almino Affonso - Não se sabe para onde vai. Havia um cidadão na velha Grécia, chamado Aristóteles, que dizia "não há lugar vazio, o vazio é ocupado". Sou rigorosamente contrário a qualquer movimento golpista, parta de onde partir. Peço a Deus que não ocorra, mas temo… porque estamos entrando num período que me angustia.
BBC Brasil - Mas você vê um movimento golpista?
Almino Affonso - Não vejo, temo. É a frase do Aristóteles. Está se dando um vazio. A presidente não é presidente, a Câmara não é Câmara. Quase todos os Estados estão em pré-falência...
BBC Brasil - Você refutou a possibilidade de um golpe em curso hoje.
Almino Affonso: Alguns entreveriam algo contra o que está (no poder), contra o Lula, o meu medo é muito mais amplo. Meu medo é pelas instituições... excetuando o setor jurídico, que é uma coisa excepcional a meu modo de ver, o que há em torno do Moro.
É uma coisa nova nesse país. O Supremo tem tido uma posição democrática excepcional.
BBC Brasil - Fora as jurídicas, você teme pelas outras instituições?
Almino Affonso - Sim. Mas de onde vem, como vem, não sei.

Image copyright .
Image caption 'Espero do fundo da alma que não se repita o que eu vi em 1964'
BBC Brasil - Era mais fácil em 1964 diagnosticar os problemas do que é hoje?
Almino Affonso - A partir de um certo instante, diria que sim. Pela sucessão de fatos que foram nos cercando.
Por exemplo, um dos problemas de caráter social que ganhou presença no debate político foi a reforma agrária. Para haver, era necessário ter uma reforma da Constituição.
Apresentamos no governo uma emenda para que a forma de indenizar as pessoas que tivessem terras desapropriadas fosse um título da dívida pública. Foi derrotada com o apoio das principais lideranças do país.
Os que eram favoráveis à reforma agrária passam a dizer "na lei ou na marra". Ou seja, cria um clima de antagonismo em que o racional cede lugar ao "eu quero". Está começando a acontecer isso entre nós. A divergência não tem muita delicadeza. Eu vi tudo isso lá trás.
Temo que, com a crise política e econômica e a falta de lideranças, o país mergulhe num impasse institucional. Espero do fundo da alma que não se repita o que eu vi em 1964.
BBC Brasil - Nossa democracia ainda é muito frágil?
Almino Affonso - Muito. Não dá para você conceber um regime democrático sem partidos políticos. A forma de você articular as opiniões do povo é pelos partidos. E através disso a sociedade vai escolhendo seus representantes.
A articulação partidária é vital para o regime democrático. Isso supõe democracia interna no partido, militância, supõe que você possa opinar e ser ouvido. Os partidos não se reúnem. Se eu quiser um partido para discutir as minhas inquietações, não tenho onde ir. Internamente não está havendo democracia.
BBC Brasil - Você vê viabilidade no impeachment de Dilma?
Almino Affonso - Acho que agora cresceu. A história do Delcídio do Amaral, líder do governo no Senado, vem com acusações gravíssimas. "Ah, ele não merece confiança, isso é falso." Mas como merecia confiança durante anos, na liderança do governo no Senado? Se ele não está (falando a verdade) que esmaguem as declarações.
E outro, que me parece mais grave como possibilidade, é o TSE, pela visão de que a eleição da Dilma e do Michel é anulável. Gilmar Mendes deu declarações dizendo que é viável que o TSE casse a chapa. Ele será presidente do TSE, pode influir na decisão.
BBC Brasil - Assim como Jango, diz-se que Dilma está isolada. Você vê relação entre eles?
Almino Affonso - Sem dúvida Jango estava isolado. Na hora que ocorre o fato decisivo do golpe, ele não tem um exército com ele. Me recuso a fazer comparações imediatas, porque são dinâmicas diferentes, com algumas coisas semelhantes.
Em primeiro lugar, acho que Dilma está isolada. Está isolada, ela que me perdoe, porque é incapaz. Ela não é uma chefe de Estado. Tenho admiração pela história dela, lutando contra a ditadura, presa, torturada, é uma pessoa que lutou mais do que eu, que estava no exílio. Mas vejo nela uma tal falta de comando que é impressionante.
BBC Brasil - Como fica a figura do Lula nesse cenário conturbado?
Almino Affonso - Lula fica na história do país como uma figura de uma grandeza maior do que muitos possam pensar. A sua ascensão, vindo do sertão do Nordeste, na mais absoluta pobreza, e ter feito a carreira política que fez… É tão excepcional na história da democracia brasileira.
Pode-se discutir que a técnica não foi adequada, mas ninguém pode negar que houve uma ascensão social. Tudo isso é mérito. Mas o que hoje pesa nele ou no governo do PT a respeito da corrupção desfaz enormemente a grandeza do Lula. Do fundo d’alma, torceria para que ele pudesse demonstrar por A mais B o quanto são falsas as acusações contra ele.

Mas ele não vai de forma frontal contra as acusações que lhe fazem. Tem um discurso emocional, em causa própria, mas não dá resposta ao país. Portanto, aquela grandeza da qual comecei falando está sendo diluída.

terça-feira, 15 de março de 2016

O TRISTE FIM
Tomislav R. Femenick

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As revoluções são transformações radicais, que geralmente acontecem de forma violenta, alterando as estruturas políticas, econômicas e sociais de um país. Excepcionalmente, algumas ocorrem de forma pacífica. Essas, via de regra, no transcorrer de décadas; poucas, muito poucas, no espaço de só alguns anos.
A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República foi, de certa forma, uma revolução; pelo voto, mas foi. O povo votou no ex-operário na busca de um futuro melhor, em que houvesse menos desigualdade econômica e social, com os trabalhadores deixando o limbo dos excluídos e, finalmente, adentrando no campo dos beneficiados na partilha dos bens produzidos pela sociedade. O simples pensar de um representante do PT no Palácio do Planalto era, ao mesmo tempo, o temor das elites e o sonho das massas. O que não se apercebia, por miopia ideológica ou simplesmente por interesses partidários, era que a simples “vontade política” não é suficiente para explodir as velhas estruturas e eclodir, fazer surgir, um novo conjunto de elementos na ordem econômica e social.
Se não vejamos. Internamente temos problemas seculares. Os privilegiados têm uma verdadeira aversão ao povo. Os políticos (há exceções) preferem fazer conchavos a fazer jogo limpo – e disso são exemplos as frequentes adesões e rompimentos de partidos, parlamentares, governadores e prefeitos. Eles trocam de posição como os jogadores de futebol trocam de time: simplesmente por interesses pessoais. Já alguns empresários procuram reduzir ao máximo os salários e direitos dos trabalhadores, esquecendo-se que eles é que são os produtores diretos e que, portanto, têm tanto direito de serem remunerados quanto os donos do capital.
Por outro lado, além das estruturas administrativas, políticas, sociais e econômicas arcaicas, há outros problemas tão graves quando elas. O déficit público, a burocracia governamental, a morosidade do Congresso Nacional, a morosidade do Judiciário, a crise da Previdência, a ameaça constante de volta da inflação e, não menos importante, a globalização e a conjuntura internacional. Essas questões não podem ser resolvidas de forma revolucionária. Se fossem, a União Soviética e as “republica democráticas” do leste europeu não teriam sucumbido sem terem sofrido um só tiro de estilingue, Cuba e Coréia do Norte seriam paraísos terrestres e a China e o Vietnã não teriam dado a guindada capitalista; pois nesses países os Partidos Comunistas, revolucionários por natureza e índole, estavam ou estão no poder.
Ai é que está o impasse. A primeira reação dos novos governantes foi atribuir a causa de todos os problemas a tal da “herança maldita” que teria recebido do governo anterior. Como não era uma revolução pelas armas, ninguém morreu, mas era de se esperar que fossem defenestradas todas as ideias do governo passado. Não foram. Não há diretrizes mais parecidas com as do ministro Pedro Malan (de FHC) do que as do ministro Antonio Palocci (de Lula). O FMI deixou de ser o bicho-papão. As reformas das quais o PT era contra, agora por ele são consideradas necessárias. No duro, no duro, não houve antropofagia. Os adversários foram vencidos, porém suas diretrizes não foram trucidadas.
Entretanto, essa atitude administrativamente zen do PT governo desagradou às facções mais radicais do partido, principalmente a intelectualidade de esquerda que integram os seus quadros. Essas pessoas, oriundas da classe média ou mesmo da burguesia menos nobre, são os críticos mais contundentes do novo PT. Ai não houve jeito, os controladores da agremiação partiram para a autofagia e expulsaram os deputados João Batista Oliveira de Araújo (o Babá), Luciana Genro e João Fontes e a senadora Heloísa Helena, e criaram condição adversa à permanência de outros expoentes da legenda, como o sociólogo Chico de Oliveira, o deputado Fernando Gabeira o jurista Hélio Bicudo, Marina Silva, Marta Suplicy e muitos outros. No início 2005, um grupo de 112 filiados anunciou a saída da organização política, entre eles os economistas Plínio de Arruda Sampaio Jr, Reinaldo Gonçalves, Nildo Ourique e Paulo Gomes e os sindicalistas Jorge Luiz Martins (ex-integrante da Executiva Nacional da CUT), Santino Arruda Silva (presidente da CUT-RN) e Carlos Campos.
Os idealistas são pessoas sonhadoras e são os sonhadores os fazedores de revoluções. E, quando se sonha com esperança que não acontecem, o sonho se transforma em pesadelo. A elite do PT planejou e soube usar táticas e estratégias para chegar ao poder, entretanto alguns dos seus líderes protagonizaram trapalhadas de toda ordem: o “fome zero”, os 10 milhões de empregos prometidos deram lugar a uma política monetarista rígida, símbolo do neoliberalismo antes ferrenhamente atacado pelo partido.
Quando mudaram a política econômica, mudaram para pior. Optaram pelas pedaladas fiscais e desvios de recursos públicos – dos quais o mensalão e o petrolão são exemplos exemplares –, obras faraônicas, pelas meias verdades etc.
Na verdade a revolução petista foi um fogo-fátuo, um falso brilho com glória passageira, algo melancólico. Está terminando com alguns dos seus mais representativos líderes com altos salários oriundos de cargos públicos, outros milionários cuja riqueza não tem origens claras, e outros mais ameaçados de prisão ou presos, estes em companhia de empresários de alto nível e baixa moral.
Quem acreditou e votou no PT não merecia isso.


quarta-feira, 2 de março de 2016

Assuense que morou em Catolé do Rocha, Maria Amália é premiada em Fortaleza/CE.


quarta-feira, 2 de março de 2016

Educadora nascida no RN recebe o Prêmio RioMar Mulher, no Ceará

Foto de acervo da premiação em 2015
A professora Amália Simonetti, uma das idealizadoras no Ceará do programa Alfabetização na Idade Certa, posteriormente encampado pelo governo federal, será homenageada com o Prêmio RioMar Mulher, na categoria educação, em solenidade que ocorre na noite desta quarta-feira (2), no Teatro RioMar, em Fortaleza (CE).

Amália Simonetti é potiguar da cidade de Assu, Doutora em Educação e autora de cinco livros publicados, quem informa é o tio dela, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez, também escritor e pesquisador. O Prêmio RioMar Mulher é promovido em alusão ao Dia Internacional da Mulher

Premiadas
Este será o II Prêmio RioMar Mulher e as premiadas nesta edição são: Nicolle Barbosa (Política e Gestão Pública), Tane Albuquerque (Economia e Negócios), Amália Simonetti (Educação), Olga Espíndola (Trabalho Social), Mariana Lobo (Justiça e Cidadania), Rosiane Limaverde (Arte e Cultura), Samantha Marques (Comunicação), Almerinda Maria (Moda), Lúcia Alcântara (Saúde) e Maria José Lopes (Arquitetura e Design).

©2016 www.AssessoRN.com | Jornalista Bosco Araújo - Twitter @AssessoRN

sábado, 13 de fevereiro de 2016

MUNDO (DW).

Intervenção na Síria iniciaria guerra mundial, diz Medvedev

Em entrevista a jornal alemão, premiê russo alerta que, antes de enviar tropas terrestres para a região, Ocidente precisa refletir se deseja guerra. E classifica a política migratória europeia como fracasso.
Em entrevista antecipada nesta quinta-feira (12/02) pelo jornal alemão Handelsblatt, o primeiro-ministro da Rússia, Dmitri Medvedev, alerta que uma intervenção militar terrestre na Síria poderia resultar em uma guerra mundial.
"Uma operação terrestre leva todos a participarem de uma guerra", disse o premiê na entrevista, que será publicada neste fim de semana. "Todas as partes deveriam se sentar na mesa de negociações, em vez de desencadear uma nova guerra mundial."
Ao ser questionado sobre a recente proposta da Arábia Saudita para enviar tropas à Síria, Medvedev respondeu que os americanos e os parceiros árabes precisam refletir se eles desejam ou não uma guerra permanente.
O primeiro-ministro criticou também a recusa de potências ocidentais em colaborar com a Rússia no conflito sírio e ressaltou que contatos entre os departamentos de defesa são esporádicos.
A Rússia, juntamente com o Irã, é o maior aliado do regime do presidente Bashar al-Assad. No conflito, os Estados Unidos e a Arábia Saudita apoiam grupos rebeldes moderados e defendem a mudança de governo.
Após a intensificação da guerra civil, com a ofensiva do governo sírio em Aleppo contra rebeldes, apoiada por Moscou, diplomatas concordaram nesta quinta-feira com um cessar-fogo na Síria e em ampliar ao acesso de ajuda humanitária no país. O acordo deve entrar em vigor em uma semana.
Crise migratória
O conflito sírio não foi o único tema da entrevista de Medvedev. O primeiro-ministro fez duras críticas à posição da chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e da União Europeia (UE) na crise migratória.
"A política migratória europeia fracassou totalmente. Tudo é muito tenebroso", opinou Medvedev. Segundo ele, foi uma "tolice" deixar todos entrarem no bloco.
O primeiro-ministro afirmou que muitos refugiados vêm para a Alemanha devido aos grandes benefícios financeiros recebidos do governo e também como terroristas.
Medvedev destacou, além disso, que é impossível identificar terroristas na massa de refugiados e afirmou que a Rússia realiza ataques aéreos na Síria para evitar que "assassinos" comentam atentados em Moscou ou em outras cidades.
O premiê criticou ainda a integração de refugiados na Europa, chamando-a de fracasso, e afirmou que na Rússia cristãos e muçulmanos vivem em paz.
CN/ap/rtr/dpa

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

È ruim a classificação do Brasil na àrea de qualidade democrática.

Crise política derruba Brasil para sua pior posição em ranking de qualidade democrática

  • Há 7 horas
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Foto: ThinkstockImage copyrightThinkstock
Image caption'Não me lembro de ter visto atmosfera tão pessimista no Brasil', diz autor do estudo
A crise política envolvendo o escândalo de corrupção na Petrobras e a tramitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, bem como o pessimismo nacional com o cenário político, fizeram com que o Brasil caísse para sua pior posição em um ranking da Economist Intelligence Unit (EIU) sobre a "qualidade democrática" de 167 países.
A 10ª edição do estudo, publicado pela empresa de análise e consultoria pertencente ao grupo da revista The Economist, traz o Brasil em 51º lugar, sete postos abaixo de sua melhor posição, ocupada entre 2013 e 2015.
O Brasil se encaixou na categoria de "democracia falha" e ficou atrás de diversos vizinhos latino-americanos, de países africanos e mesmo do Timor Leste, nação asiática que se tornou independente da Indonésia há apenas 14 anos.
A nota dada pelo ranking à democracia brasileira caiu de 7,38 em 2014 para 6,96 (de um máximo de 10) no ano passado.
Além das análises de especialistas, houve pesquisas de opinião pública para medir os níveis de satisfação do público com a política. E, de acordo com Rodrigo Aguilera, analista de América Latina da EIU, as respostas dadas pelos entrevistados no Brasil foram marcadas pelo desânimo.
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'Fraqueza'

"Estou envolvido com o estudo há oito anos e não me lembro de ter visto uma atmosfera tão pessimista no Brasil. Os dados são muito ruins", disse Aguilera à BBC Brasil.
Sob o título de A Democracia em Tempos de Ansiedade, o estudo levou em conta um grupo de cinco fatores para determinar a classificação dos países: processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionalidade governamental, participação política e cultura política.
Com base nos pontos em cada quesito, os países foram classificados como "democracias completas", "democracias falhas", "regimes híbridos" e "regimes autoritários".
"Democracias falhas" seriam países que, apesar de terem eleições livres e respeito às liberdades civis básicas, apresentam o que os autores do estudo classificam como "fraquezas significativas" em outros aspectos da democracia - problemas de governança e de cultura política, assim como baixos índices de participação política da população.
"O problema do Brasil não é uma questão de eleições livres e com credibilidade, mas sim um quadro em que as pessoas parecem ter perdido a fé no voto como forma de combater a corrupção. É isso que chamamos de uma democracia falha", diz Aguilera.

Pontuação

O Brasil recebeu sua pior nota justamente no quesito de cultura política (3,75 de um máximo de 10, uma pontuação influenciada por uma metodologia que desconta pontos de nações em que o voto é compulsório). A maior nota do país foi em processo eleitoral (9,75).
Mas ficou atrás, por exemplo, de Ilhas Maurício, Uruguai, Costa Rica, Botsuana, Chile, Taiwan e Argentina. O Uruguai foi a única nação sul-americana a aparecer na categoria de "democracia completa".
Diversos outros países apareceram como "democracias falhas": a classificação foi aplicada a nações que obtiveram menos que média 8 no ranking - no caso, os que ficaram colocados entre a 21ª (Itália) e 79ª (Montenegro) posições da lista.
O Brasil foi citado especificamente pela Economist Intelligence Unit por causa da crise política detonada pelo escândalo de corrupção da Petrobras e a abertura do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.
O estudo alerta que as populações na América Latina historicamente toleraram níveis menores de democracia em troca de progresso econômico. "Mas como essa troca não é mais possível, as atitudes públicas contra os líderes políticos serão cada vez mais hostis", diz o texto.
Aguilera, porém, acredita que os recentes desdobramentos da operação Lava Jato, em especial a prisão de políticos e empresários, poderão restaurar um pouco da confiança da população. "O Brasil está fazendo um trabalho melhor que o México, por exemplo. E não creio que a situação possa ficar pior do que está".
De acordo com a classificação da EIU, mais de um terço da população mundial (2,6 bilhões de pessoas) vive sob algum tipo de ditadura e apenas 8,9% da população mundial vive em "democracias completas".
Os países com a melhor pontuação - e, portanto, as democracias consideradas mais completas - são os países nórdicos Noruega, Islândia e Suécia. Os piores colocados no ranking são Chade, Síria e Coreia do Norte.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Biografia não autorizada resgata Vandré: "Muitos achavam que ele tinha morrido"

Biografia não autorizada resgata Vandré: "Muitos achavam que ele tinha morrido"

A história de um dos mais enigmáticos artistas brasileiros está sendo contada em uma das primeiras biografias não autorizadas publicadas após a decisão favorável do Supremo Tribunal Federal, em junho. Durante 10 anos, o jornalista Vitor Nuzzi investigou a vida reclusa do cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré e reuniu tudo em “Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida”, lançado no último mês pela Editora Kuarup.
Recluso desde os anos 1970, Geraldo Vandré tem sua história contada em uma biografia não autorizada
Reprodução
Recluso desde os anos 1970, Geraldo Vandré tem sua história contada em uma biografia não autorizada
Fã declarado, Nuzzi investigava a vida de Vandré há 30 anos, mas a ideia de fazer o livro veio só em 2005 e por um motivo nobre: reviver o artista na memória dos brasileiros.
“Pensava que ele seria esquecido aos poucos. Muitas pessoas não lembravam dele, ele não aparecia, não lançava nada”, contou o jornalista ao iG sobre a vontade de contar a história do autor de clássicos como “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” e “Disparada”, hinos entoados durante a ditadura brasileira, nos anos 1960.
Entretanto, a proposta do paulistano não agradou o músico, que não quis colaborar com o projeto. “Ele disse que não tinha interesse, que se quisesse um livro, ele mesmo escreveria”, lembrou.
Apesar da negativa, ele nunca atrapalhou o trabalho do autor. “Ele nunca tentou impedir, só disse que não tinha interesse”, deixou claro Nuzzi.
A recusa do artista fez o projeto esbarrar na questão das biografias não autorizadas. O autor começou a escrever o livro na época em queRoberto Carlos conseguiu tirar de circulação sua biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo Cesar de Araújo. O livro sobre Vandré só foi publicado por uma editora após a decisão do STF.
Conhecido por
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Conhecido por "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores", Geraldo Vandré não lança nenhum disco desde os anos 1970. Foto: Reprodução
Sem a ajuda do principal personagem, Nuzzi intensificou o trabalho. Se não tinha Vandré contando a própria história, o jornalista recorreu a mais de 100 fontes para que eles remontassem a vida do artista, desde gente consagrada como Jair Rodrigues e Caetano Veloso a membros da família, passando por quem trabalhou no Festival Internacional da Canção de 1968, o evento que fez o músico ser conhecido nacionalmente.
Mitos pós-exílio
Em seu trabalho, o escritor buscou investigar mitos sobre a vida de Geraldo Vandré. O principal deles é sobre a volta do cantor ao Brasil, em 1973, após ter sido exilado, quando lançou apenas um disco e depois desistiu da música.
Capa do disco
Divulgação
Capa do disco "Geraldo Vandré", lançado originalmente em 2964
“O que me despertou a curiosidade sobre ele foi o porquê de ele nunca ter voltado como artista”, disse Nuzzi.
Em suas investigaçãoes, o jornalista descobriu que a família negociou com os militares para que o músico voltasse — e eles ainda forjaram uma entrevista exibida pelo Jornal Nacional. “A entrevista foi feita por policiais e ele foi orientado a dar uma declaração sobre não ter pertencido a nenhum grupo político”, contou o autor.
Mas a declaração não foi totalmente falsa. Apesar da música mais famosa de Geraldo Vandré ter sido uma das mais conhecidas canções de protesto contra a ditadura, Vitor Nuzzi defende que o cantor nunca foi engajado politicamente. “Ele sempre foi muito independente e ele mesmo declarava que a arte não podia ser panfleto, tinha que ser livre”, disse o escritor. “[A música dele] Era uma crônica da realidade, não era um hino contra as forças armadas. Mas naquela época, era 8 ou 80, e ele entrou na lista [de artistas perseguidos pela ditadura]”, explicou.
Amante da liberdade
Um dos objetivos de Nuzzi em “Uma Canção Interrompida” é mostrar um outro lado de Vandré e tirar o estigma de cantor de protesto. “Hoje eu vejo o Vandré como um artista livre e libertário, ele era um cantor das liberdades. Ele ficou marcado como um cantor de protesto, mas ele estaria contra qualquer regime totalitário. Ele é um amante da liberdade”, afirmou o jornalista.
Mas, o objetivo principal é fazer o recluso Vandré voltar a ser assunto. “Ele ficou esquecido na medida em que os discos não tocam, que você não vê a pessoa se apresentando”, disse o autor. “Muita gente achava até que ele tinha morrido, já que ele não aparece. Então a tendência é o esquecimento”, continuou.
Além de elucidar a história de Vandré, o livro de Nuzzi também abre caminho para novas biografias não autorizadas no Brasil. Depois de publicar a obra de maneira independente, só com 100 exemplares, o autor finalmente conseguiu um contrato com uma editora.
“Depois do julgamento do Supremo, as editoras se animaram e perderam o receio. É importante pela história, é mais um pedaço da história. Ajuda a por um pouco de luz na história de um artista tão lembrado e tão pouco conhecido”, afirmou o jornalista.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

'O que arrebentou a economia foi o real forte', diz ex-ministro

  • Há 57 minutos
Image captionBresser-Pereira é amigo pessoal e ex-ministro de FHC, mas apoiou Dilma Rousseff nas últimas eleições
Em tempos de polarização da política e do debate econômico, o professor da Fundação Getúlio Vargas Luiz Carlos Bresser-Pereira se recusa a se enquadrar em categorias preconcebidas.
Amigo pessoal e ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (FHC), ele apoiou Dilma Rousseff nas últimas eleições.
É um orgulhoso desenvolvimentista (linha que defende ação ativa do Estado na promoção do desenvolvimento econômico), mas também um defensor do ajuste fiscal que está cortando o orçamento da saúde e educação.
Seu apoio ao governo também não o dissuade de classificar a gestão Dilma como "desastrosa" em muitos aspectos.
Nem de acusar Luiz Inácio Lula da Silva de promover um "populismo cambial" ao manter o dólar a R$ 2 para garantir a eleição de sua sucessora e apaziguar a classe média, que hoje, segundo ele, teria desenvolvido um ódio "profundo" e "irracional" ao PT.
"O dólar a R$ 2 foi o pior legado de Lula, a bomba que ele deixou para Dilma", afirma. "Fala-se no superávit primário, mas até 2012 não tivemos problema nessa área (...) O que arrebentou a economia foi o câmbio, que provocou uma desindustrialização."
Aos 81 anos, Bresser já esteve no PMDB e foi um dos fundadores do PSDB. Foi ministro da Fazenda do governo José Sarney (quando um plano com seu nome falhou no controle da inflação), ministro da Reforma do Estado no primeiro mandato de FHC e de Ciência e Tecnologia no segundo.
Ele falou com a BBC Brasil em seu escritório, em São Paulo, dias antes de receber o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano da União Brasileira de Escritores.
BBC Brasil - Muitos de seus colegas desenvolvimentistas estão criticando o ajuste fiscal. Como vê essas críticas?
Luiz Carlos Bresser-Pereira - São críticas dos desenvolvimentistas populistas ou keynesianos vulgares. Acredito que o Estado deve ter uma intervenção moderada na economia e uma política macroeconômica ativa.
O mercado é uma maravilha para coordenar setores competitivos, mas os baseados em monopólios ou quase monopólios, como o de infraestrutura, precisam de uma intervenção forte e planejada. Mas não há nenhuma razão para eu defender a irresponsabilidade fiscal, que o governo possa gastar dinheiro sempre que quiser. John Maynard Keynes (economista britânico) deve estar rolando na cova de irritação diante dessa irresponsabilidade que a gente vê em nome dele.
Fábrica (Reuters)Image copyrightReuters
Image captionPara Bresser, valorização do real contribuiu para 'desindustrialização'
BBC Brasil - O governo está cortando onde deveria?
Bresser - Nenhum ajuste corta no lugar certo. Estamos reduzindo o investimento (público), que já estava baixo. O governo está cortando onde pode, no fundo é isso. Defendo o retorno da CPMF: é um imposto pequeno, necessário.
Mas o ajuste é o que tem de ser feito. Por outro lado, não sou a favor desse aperto monetário. Sei que a inflação está alta, mas com essa recessão não precisamos de juros mais altos para segurar os preços – o que, além de ser um empecilho para a retomada dos investimentos, têm um custo financeiro enorme.
O Banco Central está ‘descontando’, como dizem as crianças. Em 2011 fizeram uma redução grande na taxa de juros que não deu certo. A inflação subiu, a Dilma teve que voltar atrás e eles ficaram com a imagem prejudicada junto ao sistema financeiro. Agora, disseram à sociedade brasileira: ‘vocês vão ver’. E estamos vendo.
BBC Brasil - No seu livro A Construção Política do Brasil (Editora 34), o sr. fala das coalizões de classes que se formaram no país. A Lava Jato colocou em evidencia um problema estrutural da relação do Estado com o grande empresariado ou o que revelou foi uma exceção?
Bresser - Não vejo nada de estrutural nisso. É natural que existam estatais e um Estado que faz compras e, nesse quadro, infelizmente, sabemos que a corrupção é grande. Nesse caso, ainda temos um fato adicional: o partido de esquerda no poder fez uma coisa que normalmente os partidos não fazem. Só posso entender isso como uma loucura stalinista que atingiu uma minoria do PT, mas o fato é que algumas pessoas com posição de líderes, especialmente o José Dirceu, inventaram essa história de que era legítimo no capitalismo você financiar um partido com dinheiro de corrupção.
Quando você financia uma campanha específica é diferente. É menor. A coisa ficou muito grande e foi um desastre. E está desmoralizando um partido que tem pessoas admiráveis e que dedicaram sua vida para fazer um Brasil melhor.
Mas uma coisa boa dessa crise é que ela não foi denunciada por políticos, nem pela imprensa, e sim pelo próprio Estado. O Ministério Público já tem liberdade há muito tempo. E a partir de 2004, houve uma série de mudanças que deram à polícia mais autonomia e melhores salários. Hoje, temos órgãos do Estado capazes de defender o Estado. O que mostra que nossa política vai mal, mas o Estado não vai tão mal assim.
BBC Brasil - Mas se há uma ideologia de que um Estado forte deve defender o interesse dos grandes empresários, não se cria muitas oportunidades para associações espúrias?
Bresser - Essa é a tese liberal: o Estado tem de ser pequeno para evitar a corrupção. Mas sabemos que a corrupção dentro das empresas também é grande.
Não sou a favor de um Estado imenso. A grande maioria dos investimentos tem de ser feita pelo setor privado. Agora, o Estado tem um papel social fundamental - e para isso precisa de recursos. Estão querendo até acabar com o SUS (Sistema Único de Saúde), imagine.
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O sistema de saúde pública é uma grande conquista da democracia e do capitalismo. O consumo coletivo (de serviços de saúde) não é só mais justo, é mais barato e eficiente. Na Europa, o total gasto com saúde é de 11% do PIB, por exemplo. Nos EUA, onde o serviço é baseado no setor privado, é 17%.
BBC Brasil - O sr. apoiou a Dilma na campanha. Ela prometeu uma política econômica e ao ser eleita aderiu a outra, fazendo cortes até em áreas como educação e saúde. Houve estelionato eleitoral?
Bresser - De nenhuma maneira. A Dilma cometeu erros graves como a irresponsabilidade fiscal, que atribuo ao desespero. Não conseguia fazer o país crescer e, de repente, acreditou na bobagem de fazer uma política industrial agressiva.
Mas, em outubro de 2014, quem estava prevendo que o Brasil entraria em uma gravíssima recessão econômica, com queda de 3% do PIB? Ninguém. Não sabíamos. A economia é uma cienciazinha muito modesta, só é perfeita na cabeça dos economistas ortodoxos. Só se começou a falar em crise em dezembro.
As pessoas dizem que ela (Dilma) passou a fazer o que “a direita quer”, mas a mudança de política mostra algo admirável: ela reconheceu o erro. O que ela é, de fato, é incrivelmente incompetente do ponto de vista político. Em dezembro ela já devia estar sabendo que a situação das contas estava ruim e precisava reajustar o que havia desajustado.
BBC Brasil - Por que a crise chegou a esse ponto?
Bresser - Essa crise está ligada a uma grande insatisfação da classe média tradicional, que nos anos 80 liderou a transição democrática. Tivemos 35 anos de baixo crescimento e (mais recentemente) uma clara preferência pelos pobres. O PT não traiu os pobres, foi coerente nesse ponto, embora também tenha deixado os ricos ganharem muito dinheiro. Então os ricos e os pobres ganharam e a classe media ficou de fora.
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Image captionPara Bresser, Dilma deveria ter admitido os erros da gestão anterior ao ser eleita
Quando o PT começou a se perder, primeiro com o mensalão e depois com o problema da expansão fiscal, começaram as manifestações. Essa classe (média) desenvolveu um ódio profundo ao PT e o governo. Uma coisa irracional, perigosa e antidemocrática.
A democracia é uma forma de governo de pessoas que lutam entre si, mas é uma luta de adversários. De repente nos vimos em uma luta de inimigos. Ainda é um setor minoritário, mas há um setor da sociedade brasileira que radicalizou para a direita e passou a adotar posições pior que udenistas, fascistas.
BBC Brasil - O sr. já tinha defendido essa tese do ódio das elites ao PT. Mas a Dilma tem uma aprovação em torno de 10%. Não é exagero falar que a rejeição vem só da elite e classe média? 90% da população é elite?
Bresser - A Dilma de fato perdeu popularidade em todos os setores. Quando ela percebeu que tinha errado tinha de falar para a imprensa: “Olha, fiz uma reavaliação, algumas coisas não deram certo e vou ter de mudar a política. Peço desculpas por não ter previsto isso antes.”
Em vez disso, depois que ela foi eleita, desapareceu, e só apareceu de novo ao lado do (ministro da Fazenda Joaquim) Levy, já com a política definida e sem explicações. Só reconheceu que errou há um mês. Como disse, ela é muito inábil politicamente. Isso dificulta a sua vida. E a nossa.
BBC Brasil - Como o sr vê o debate sobre o impeachment?
Bresser - Acho que é resultado desse ódio (da classe média ao PT) e do oportunismo de alguns deputados, que se sentem ameaçados por essas investigações (de corrupção). Resolveram contra-atacar.
E o contra-ataque se faz à presidente, porque ela não barrou a Polícia Federal e o Ministério Público (nas investigações). Mas o debate amorteceu. O grande problema do país hoje é se a Dilma consegue levar o ajuste fiscal adiante.
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Image captionLevy e o ministro do Planejamento, Joaquim Barbosa, falam sobre medidas do ajuste fiscal
BBC Brasil - Quais seriam as consequências econômicas de um impeachment?
Bresser - Seria um caos danado. Até eu iria para a rua. Nunca vou para a rua, sou um intelectual, mas se houvesse um impeachment com as razões que eles tem aí, pedaladas, TCU, eu iria. Agora, se descobrirem algum crime que a Dilma praticou é outra coisa. Como no caso do Collor.
Acho que as elites brasileiras, e as empresariais principalmente, perceberam que isso (impeachment) não adiantaria nada. Poderia até piorar a crise. Então de um ponto de vista conservador, eles são contra.
BBC Brasil: É uma crise de um modelo de desenvolvimento?
Bresser - A crise é por falta de modelo. Não temos modelo desde os anos 80. Estamos semiestagnados e sem saber o que fazer.
BBC Brasil - Houve um momento em que muitos intelectuais acreditaram que o Brasil estaria criando um novo modelo. A Economist chamou de Capitalismo de Estado, alguns acadêmicos, de um desenvolvimentismo repaginado.
Bresser - De fato houve quem visse um novo modelo e quem tenha se entusiasmado. A própria Economist colocou o Cristo Redentor decolando na sua capa. Foi um grande equívoco. O que houve no Brasil entre 2005 e 2010 foi um boom de commodities, que fez as exportações triplicarem. Isso enganou os economistas da esquerda e da direita.
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BBC Brasil - É possível ter um governo um governo de esquerda e um Estado forte com equilíbrio fiscal?
Bresser - Um ajuste fiscal é necessário para por as finanças do Estado em boa forma, uma condição para um Estado forte, capaz. Para que (esse Estado) não quebre, nem dependa de credores. O mesmo vale para o Estado-nação, que inclui o setor privado: você fica devendo para outros países quando tem deficits em conta corrente (que inclui importações e exportações e transferências unilaterais). Em 2014, esse deficit foi de 4,6% do PIB. Uma loucura.
Esse problema começou há algum tempo. Eu participei do governo Fernando Henrique, que é meu amigo, mas descobri que discordava fortemente da parte econômica dele. Foi no governo Itamar (Franco) - sem duvida, com a liderança de Fernando Henrique - que o Brasil estabilizou seus preços. Mas os oito anos do governo FHC foram muito ruins, o crescimento foi baixo. Ele começou dizendo que o Brasil cresceria com poupança externa, ou seja, com deficit em conta corrente financiado com empréstimos (lá fora) ou (atração de investimentos de) multinacionais. Naquela época não havia arcabouço teórico para criticar isso. Fiquei assistindo. Depois passei a fazer a crítica a esse esquema.
BBC Brasil - Como?
Bresser - A questão é que quando o dinheiro entra no Brasil, o câmbio aprecia (o real fica mais forte em relação ao dólar). Mas os investimentos caem, porque sem um câmbio competitivo os empresários não têm acesso a demanda efetiva (os consumidores preferem importados). Portanto, a taxa de investimento depende do câmbio. Mas dizer isso é uma revolução.
Nos países em desenvolvimento há uma tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio que leva o país de crise em crise. Na crise, a taxa cai, depois começa a subir de novo. Até que um dia a dívida começa a aumentar, os credores se preocupam, há um efeito manada e o país quebra. É o ciclo.
BBC Brasil - Ou seja, o sr. está dizendo que se um jantar em São Paulo está mais caro que um em Nova York algo vai mal, uma crise se avizinha?
Bresser - É isso.
Lula (AFP)Image copyrightAFP
Image captionNa avaliação do economista, Lula teria feito mais "populismo cambial" que FHC
BBC Brasil - Que patamar do dólar é ideal para o crescimento?
Bresser - Hoje deve estar perto de R$ 3,8. Já foi R$ 3,6, mas teve a inflação. Mas agora está no lugar certo porque houve uma crise. Não uma crise total, mas uma semicrise. Em 2002, a taxa a preços de hoje foi a R$ 7. Agora foi a R$ 4 - e já está caindo.
BBC Brasil - O sr. é bastante crítico do governo FHC nessa questão. E o governo Lula?
Bresser - Foi um desastre do ponto de vista cambial. Lula recebeu o governo com uma taxa de cambio que seria hoje equivalente a R$ 7 por dólar. E entregou para a Dilma a uma taxa de R$ 2, R$ 2,10. Com isso segurou a inflação, aumentou os salários dos trabalhadores e elegeu sua sucessora. Agora, para Dilma receber essa taxa de R$ 2 foi receber uma missão impossível. Como a Dilma não é o Tom Cruise - é uma mulher corajosa, meio turrona, nem sempre muito brilhante -, fez o que pode. Não conseguiu o desenvolvimento econômico nos primeiros dois anos de seu primeiro mandato e depois foi irresponsável fiscalmente. E aí foi um desastre.
O dólar a R$ 2 foi o pior legado de Lula, a bomba que ele deixou para Dilma. Fala-se no superavit primário (economia que o governo deve fazer para pagar juros da dívida), mas até 2012 não tivemos problema (nessa área). A própria Dilma só se perdeu nos dois últimos anos, quando inventou as desonerações e outras coisas do tipo. A história que contam do déficit estrutural, isso e aquilo, não existia há três anos. O que arrebentou a economia foi o câmbio, que provocou uma desindustrialização.
O Brasil por muito tempo teve um projeto nacional que se resumia nessa palavra: industrialização. Chegamos a ter 28% de participação da indústria no PIB. Hoje é 10%. Foi uma queda brutal e prematura. De duas, uma: ou nossos empresários são todos incompetentes, ou a taxa de câmbio inviabilizou seu negócio.
Brasil - A quem interessa uma taxa sobrevalorizada?
Bresser - Aos rentistas, aos interesses estrangeiros.
Isso é o populismo cambial. Temos o populismo o fiscal, que é o Estado gastar mais que arrecada, e esse cambial. Quem percebeu esse processo primeiro foi o economista argentino Adolfo Canitrot, nos anos 70.
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Image captionPresidente venezuelano, Hugo Chávez, teria adotado "populismo violento"
Quando você aprecia o câmbio, todos os rendimentos, salários, lucros e dividendos, aluguéis, tudo vale mais em dólar. Como muitas mercadorias em uma economia aberta têm seu preço impactado pelos preços internacionais, você fica mais "rico". Os eleitores ficam felicíssimos. E é mais fácil para um político a se reeleger. O Fernando Henrique fez isso – e o Lula fez mais.
Mas logo há uma desvalorização (do real), o salário cai de qualquer maneira. Tudo fica mais caro. A classe media perdeu muito com a queda do real. Continua viajando para Miami, mas menos. A quantidade de brasileiros que comprou casas lá... uma tristeza.
A perda da ideia de nação mais essa preferência pelo consumo imediato são dois males da sociedade brasileira que precisam ser repensados. O Brasil só voltará a crescer se fizer essa crítica da taxa de cambio apreciada.
BBC Brasil - Em 2008 o senhor previu o fim da onda neoliberal, mas países que apostaram no desenvolvimentismo enfrentam problemas. Brasil, Venezuela, Argentina… Fala-se em refluxo da esquerda na região.
Bresser - Tivemos uma crise do capitalismo americano em 2008 que expandiu para o europeu. Foi uma crise do liberalismo econômico, porque foi a aplicação de suas teorias que deu nesse desastre com o qual o mundo sofre até hoje. O neoliberalismo continua em baixa, mas isso não significa que caminhamos para um desenvolvimentismo progressista.
Agora, sobre a América Latina, a Venezuela teve um presidente corajoso, com vontade de salvar o país e beneficiado pela alta do petróleo, mas que adotou um populismo violento que está liquidando com a economia local. Antes disso, os liberais sempre governaram a Venezuela e foi um fracasso atrás do outro. Apenas as elites ganhavam. O (ex-presidente Hugo) Chávez pelo menos melhorou o padrão de vida da população. Mas o mal do populismo é muito forte. Ele tinge tanto a esquerda quanto a direita - mas mais a esquerda e os desenvolvimentistas que os liberais.