sábado, 13 de agosto de 2016

Mundo

Opinião: Realidades paralelas no aniversário de Fidel

O governo cubano celebra os 90 anos de Fidel Castro como outra conquista da Revolução. Mas nem o exacerbado culto à personalidade consegue esconder a desilusão do povo cubano, opina Amir Valle.
Décadas atrás, Eugenio Selman, o médico pessoal de Fidel Castro, fundou o "Clube dos 140 Anos", e vários líderes históricos cubanos e dos "países amigos" do Terceiro Mundo aceitaram o desafio que se lançava: demonstrar que, com uma alimentação adequada, vida metódica para evitar o estresse e, sobretudo, cuidados e tratamentos médicos especiais, seria possível alcançar e até superar a longevidade dos líderes do povo hebreu. Os quais, segundo a Bíblia, haviam sido eleitos por Deus para guiar o povo de Israel até a Terra Prometida.
Todos os membros desse clube exclusivo, inclusive seu fundador, estão mortos, exceto o líder cubano.
As evidências históricas indicam que Fidel incorporou o mito de que ele seria o Messias de que Cuba precisava para se salvar de um sistema que excluía os pobres. Contudo ele completa 90 anos sem cumprir a promessa que fez em 1953, após a condenação pelo assalto ao Quartel de Moncada, em seu famoso discurso "A história me absolverá". Promessas que foram integradas ao programa da Revolução Cubana, após a vitória desta em 1959.
Mas nem esse programa, nem as fabulosas reformas com as quais o irmão Raúl Castro, décadas mais tarde, pretendeu evitar o ocaso econômico e social da ilha, atingem seu alvo. Elas só existem no reino de uma demagogia populista que, apesar de suas óbvias falhas, continua conseguindo lograr o mundo. Mas não os cubanos.
Ninguém sabe como ou quando essas "reformas" vão dar em algo. Uma coisa, no entanto, é clara: o poder será transferido para os herdeiros, para os neocastristas. E, vergonhosamente, essa transferência transcorre com a cumplicidade de nações democráticas.
Por debaixo dos panos do politicamente correto, elas negociam com Cuba sobre os próprios interesses econômicos e estratégicos, tornando-se, assim cúmplices de um governo cuja inflexibilidade elas bem conhecem. É um governo que condena os cubanos a viver em mundos paralelos.
Por um lado, há as concessões feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com a intenção de que a abertura econômica cubana seja um primeiro passo no sentido de uma transformação da sociedade. E há as continuadas investidas da Rússia para recuperar sua posição estratégica na região, tendo Cuba como base. E há a avalanche de propostas de cooperação econômica partindo da União Europeia, Tudo consequência da reaproximação entre Washington e Havana.
Do outro lado, porém, continua havendo o desespero do povo com a protelação das reformas econômicas verdadeiras, tão urgentemente necessárias. E há o medo social de uma nova crise de abastecimento, como nos anos 1990; há o endurecimento da tributação e das exigências burocráticas que impedem o sucesso das pequenas empresas.
Há a repressão redobrada da oposição crescente, que já levou mais de uma dezena de dissidentes à greve de fome, para dar fim à brutalidade contra manifestantes pacíficos. A desilusão se reflete na triplicação do número de cidadãos que fogem da realidade de sua ilha.
Muitos cubanos continuam sem entender em que país vivem. Porém eles entendem menos ainda a atitude da Europa perante o governo deles. O fato de uma firma francesa obter a concessão para operar o aeroporto da capital, enquanto a Alemanha não pode fundar lá um Instituto Goethe, é uma contradição para eles. Como é possível aceitarem que Cuba condicione a presença cultural e educacional da UE a uma maior e mais efetiva presença econômica europeia?
A insatisfação dos cubanos fica demonstrada em diversos blogs independentes e artigos de uma nova geração de jornalistas independentes, que não veem no aniversário de Fidel nenhum pretexto para custosas festividades.
Mas, naturalmente, também há o grupo de músicos populares que compôs uma balada para o ditador mais idoso do mundo. Como um hino, essa canção é tocada sem parar em todas as rádios, TVs e e alto-falantes. Numa ilha que crê cada vez menos na existência de um Messias.
* Nascido em 1967 em Guantánamo, Amir Valle é escritor, jornalista e crítico literário. Vive desde 2006 no exílio na Alemanha.

Mundo

Deutsche Welle - 13.08.2016

Fidel Castro: o grande ausente faz 90 anos

O líder revolucionário cubano festeja o 90º aniversário. Sem ser a figura forte e onipresente de décadas atrás, seu legado ainda reverbera na política da ilha e no coração de parte do povo. Mas os jovens querem mudança.
É preciso procurar bastante na capital Havana para encontrar referências ao aniversário do líder revolucionário Fidel Castro, que completa 90 anos neste sábado (13/08). Em alguns muros foram pintados votos de parabéns, aqui e ali veem-se cartazes, e nas vitrines de certas lojas estatais afixaram-se mensagens de congratulações. Na vida quotidiana dos cubanos, Fidel praticamente não é mais presente.
Pouco mais de dez anos atrás, a coisa era bem diferente. Na noite de 31 de julho de 2006 os cidadãos da república comunista foram confrontados com o inconcebível: em horário nobre e com expressão séria, Carlos Valenciaga, secretário particular de Fidel Castro, anunciava o retiro temporário do "Comandante".
Depois de 47 anos à frente da nação, seu abalado estado de saúde – na época ainda um segredo de Estado – obrigava Fidel a entregar todos os postos importantes ao irmão Raúl, cinco anos mais novo.
Assim Fidel abandonava o palco da grande política, que ele adentrara em 1953, com o assalto ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, acompanhada do famoso discurso "A história me absolverá". E, o mais tardar, com o triunfo da Revolução Cubana em 1959. Em 2008, a despedida provisória tornou-se permanente.
"Quando eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar"
Sob o irmão Raúl, tido como mais pragmático, nos últimos anos o Estado insular mudou. Agora é permitida a compra e venda de automóveis e imóveis, foram abolidas as restrições às viagens e ampliado o acesso à internet para a população. Além disso, Raúl Castro abriu a economia aos investidores estrangeiros, reduziu o setor estatal, permitindo mais iniciativas privadas.
Fidel com Hollande no ano passado Fidel com Hollande no ano passado
Desde então, centenas de milhares de cubanos se tornaram trabalhadores autônomos. No entanto, a maior façanha política de Raúl Castro é, possivelmente, a apenas iniciada aproximação aos Estados Unidos. Uma iniciativa quanto a qual Fidel se mostra cético.
Após a histórica visita do presidente Barack Obama a Cuba, o ex-líder esbravejou em sua coluna de opinião publicada a intervalos irregulares no jornal do Partido Comunista de Cuba (PCC), o Granma: "Não precisamos de presentes do Império" – para, num pós-escrito, recordar dos anos de sanções, atentados e os mortos das agressões americanas.
Um ex-chefe do serviço secreto cubano assegura que contra o próprio Fidel teriam sido realizadas 638 tentativas de atentado pelos serviços secretos dos EUA e por cubanos exilados. Em anos recentes, o "Comandante" foi várias vezes dado como morto. Seu comentário: "Minha morte foi inventada tantas vezes, que no dia em que eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar."
Despedida longamente anunciada
Aparentemente Fidel superou a grave enfermidade intestinal que o obrigou a se retirar, porém à custa da antiga onipresença: ocasionalmente ele recebe visitantes estrangeiros para conversas privadas, como o papa Francisco e o presidente francês, François Hollande.
As imagens divulgadas pela mídia estatal mostram um homem grisalho, visivelmente envelhecido, magro, de voz trêmula e roupa esportiva. Contudo, mesmo sem poder político real, Fidel Castro permanece sendo uma figura de peso para a ala ortodoxa do PCC, aquele para quem a virada promovida por Raúl está indo longe demais.
"Os conservadores, que não querem nenhuma mudança, se aferram a Fidel, disso não há a menor dúvida", declarou o ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray à agência de notícias AP.
No entanto trata-se também da herança de Fidel. "A hora de cada um de nós chega, mas as ideias da Revolução Comunista vão perdurar"; afirmou em abril, na sessão de encerramento do Congresso do PCC, realizado a cada cinco anos. Essa seria "talvez uma das últimas vezes que falo neste salão", disse o veterano. Entre os cerca de mil delegados presentes, não eram poucos os que tinham lágrimas nos olhos.
Em 2009, com estudantes venezuelanos: aparições em públicos estão cada vez menos frequentes Em 2009, com estudantes venezuelanos: aparições em públicos estão cada vez menos frequentes
Eterno jovem barbudo de uniforme revolucionário
Apesar de tudo, o país se preparou para a festa de aniversário de seu antigo líder. A TV passa entrevistas da época do governo Fidel, e são muitos os programas especiais para a ocasião.
Em Birán, no leste da ilha, onde ele nasceu em 1926, esperam-se centenas de visitantes para as festividades deste sábado (13/08), e serão plantadas árvores em sua homenagem. No entanto não está prevista nenhuma cerimônia pública com a presença do aniversariante. Seu contato com o povo deve se restringir à coluna que publicou neste sábado, no portal Cubadebate, pedindo paz no mundo.
Pelas ruas de Havana, a importância do revolucionário é venerada. "Sou fã de Fidel, isso eu digo abertamente", ostenta a professora sexagenária Mirta Hernández. "Como ele, não há outro. Tomara que ele fique conosco ainda por muitos anos."
Em contrapartida, Alejandro afirma: "Não ligo para política nem para Fidel." Ele trabalha "por conta própria" e nasceu depois da Revolução, assim como a maior parte de população. "Até Fidel e o Raúl dele irem embora, nada vai mudar neste país", reforça.
Já o informático Fahd Perreira acha que "Fidel vai ser sempre uma personalidade extraordinária, não só em Cuba, mas principalmente em Cuba. Mas agora é hora de a juventude assumir e de as coisas andarem adiante."
Quer absolvido pela história ou não, certo está: hoje Fidel Castro tem lugar cativo na memória coletiva como aquele jovem barbudo de uniforme verde-oliva, que liderou a revolta armada e depois resistiu aos Estados Unidos durante décadas.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

UFRN discute a inserção na Rede Memorial do Nordeste
(Sirleide Pereira – Ascom-Reitoria/UFRN)

A memória institucional, a organização, preservação e disponibilização pública de acervos documentais e museológicos foram alvo de reunião no final da manhã desta quarta-feira, 13, entre a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Angela Maria Paiva Cruz, e o gerente de Relacionamento da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Álvaro Malagute.

Acompanhados do superintendente de Comunicação, José Zilmar Alves da Costa, e da diretora do Núcleo de Arte Cultura da UFRN, Theodora Alves, ambos acertaram um encontro em agosto próximo, em Natal, para oficializar a inserção da UFRN na Rede Memorial do Nordeste. Coordenador regional da Rede, o professor Marcos Galindo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área de memória, confirmou participação pelo telefone. Antes disso, convidou a reitora a participar de evento em Pernambuco, sobre memória institucional.

Acervos e projetos

Com recursos do BNDES e do Banco do Nordeste, a Rede Memorial do Nordeste compartilha informação de forma harmônica entre indivíduos de diferentes regiões, beneficiando a todos. A adesão à Rede Memorial do Nordeste habilita a UFRN a receber recursos públicos voltados para a organização de sua memória social, por meio de digitalização de acervos de imagem e som, arquivos documentais, acervos museológicos e outros.

Atualmente, duas frentes administrativas atuam na linha de memória social da UFRN: a Comissão de Gestão Documental, vinculada à Pró-reitoria de Administração (PROAD), implementando a modernização do Arquivo Geral, e a Coordenação de Ações Culturais, Museológicas e de Memória, da Pró-reitoria de Extensão (PROEX), fomentando discussões para mapeamento de acervos institucionais.

Conforme literatura, “acervos são bens patrimoniais pertencentes ou sob a guarda de um indivíduo ou uma instituição, pelos quais se pode ter acesso a informações valiosas de várias áreas do saber, de forma a preservar a identidade e a memória de uma comunidade”. Entre os grandes acervos pertencentes e/ou sob guarda da UFRN constam o do Museu Câmara Cascudo (MCC), o do Museu do Seridó, no CERES Caicó, o do Núcleo Tecnológico da Seca (NUTSECA), e a massa documental do Arquivo Geral, da TVU e de outros.
Área de anexos

quarta-feira, 8 de junho de 2016

DOS TEMPOS VERDES, NÃO SE ESQUECE DA ZANGA DOS COMPANHEIROS DO RIO GRANDE DO NORTE COM AS BAFORADAS DO FOLCLORISTA CÂMARA CASCUDO. “DEIXEM-ME FUMAR UM CHARUTO, SENÃO VOU EMBORA”, AMEAÇAVA O ESCRITOR NAS REUNIÕES.

Editor que revelou Rubem Fonseca combatia comunismo para os EUA

CLAUDIO LEAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
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Gravadas nas capas de livros, as iniciais GRD escondem o baiano Gumercindo Rocha Dorea, tão lendário quanto discreto. Primeiro editor dos escritores Rubem Fonseca, Nélida Piñon e Fausto Cunha, além de criador de um selo pioneiro de ficção científica, Gumercindo se dedica a uma nova tarefa, aos 91 anos: “Quero recuperar livros jogados de escanteio ou pela ignorância, ou pela boçalidade cultural, ou pelo desinteresse”.
Perto de comemorar os 60 anos da Edições GRD, fundada em 1956, ele não desiste de correr atrás de livros, a julgar pela frequência com que interrompe as conversas para buscar uma obra rara ou esquecida, sempre arisco entre as pilhas de jornais e documentos espalhados em seu apartamento no bairro da Aclimação, em São Paulo.
A missão de nonagenário começou com “Fausto – Ensaio sobre o Problema do Ser” (1922), de Renato Almeida. O próximo será “Pascal e a Inquietação Moderna” (1924), do pensador católico Jackson de Figueiredo.
Bruno Santos/Folhapress
São Paulo, SP, BRASIL- 21-10-2015: O editor Gumercindo Rocha Dórea (91), da G.R.D., posa para foto em seu apartamento, no bairro Aclimação, Zona Sul de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** ILUSTRADA *** EXCLUSIVO FOLHA***
Criador da lendária Edições GRD, Gumercindo Dorea, em seu apartamento na Aclimação
A ausência de patrocínio o obrigou a adaptar-se a uma carpintaria caseira. Sua filha mais velha, Tera, digita os originais que são rodados em tiragens pequenuchas de 30 exemplares. O dinheiro das vendas é investido na publicação de outra obra. “A gente nasce com esse verme, com esse visgo, com esse vírus. Minha mãe (Emérita) era cronista e poeta. Eu cresci com sete irmãos. Somente eu herdei isso dela”, ele conta.
Este semestre, organizou a coletânea “Existe um pensamento político brasileiro? Existe, sim, Raymundo Faoro: o Integralismo!”, em que dez jovens intelectuais analisam o Manifesto Integralista de Outubro de 1932.
Queixa-se da marginalização da GRD e culpa o preconceito ideológico de jornalistas e acadêmicos contra seu passado integralista jamais renegado, pois continua a defender as ideias de Plínio Salgado, amigo e ex-editado. “Nunca alimentei ódio contra ninguém. Mas ódios se voltaram contra mim”, lastima. “Quando comecei a lançar os grandes romances, não era nada com a revolução de 1964 ou com o integralismo, mas com o meu espírito de respeito à liberdade e à dignidade alheia. Eu lia, gostava, botava meu selo”.
Nascido em Ilhéus (BA), em 4 de agosto de 1924, Gumercindo concluiu o ensino médio em Salvador. Meninote de oito anos, participava das atividades da Ação Integralista Brasileira (AIB), cujo legado protegeria mais tarde, tornando-se editor do líder Plínio Salgado. Residente no Rio de Janeiro desde 1944, ele fundou a GRD em 1956, com a edição de “Filosofia da linguagem”, de Herbert Parentes Fortes. Formado em Direito, migrou para São Paulo no final dos anos 60. O baiano estima ter lançado cerca de 300 livros em seis décadas.
REVELAÇÃO DE RUBEM
A estreia de Rubem Fonseca, 90, talvez seja o maior orgulho profissional. No início da década de 60, o romancista baiano Adonias Filho apresentou Gumercindo ao general Golbery do Couto e Silva, na sede do Ipês (Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais). Criada em 1962, congregando militares e empresários, a entidade promoveu uma campanha de desestabilização do governo João Goulart (1961-64).
Fonseca dirigia a área de estudos e divulgação de projetos. No artigo “Anotações de uma pequena história”, publicado na Folha (27/03/1994), o escritor argumentou que integrava a “corrente democrática” do Ipês, contrária à “ruptura da ordem constitucional”.
“No primeiro contato percebi que Rubem, que assessorava o general, não era de muita conversa. Aconteceu porém que a secretária de Rubem (Fernanda Gurjan) me informou ter ele alguns contos na gaveta. Em confiança, me emprestou os originais”, recorda Gumercindo.
Convencido pela força das primeiras páginas, decidiu enviar o inédito para a gráfica da Revista dos Tribunais, em São Paulo. Não demorou a receber as provas de “Os prisioneiros”. Fonseca esbravejou, deu palavrões, pediu uma semana para pensar, e finalmente impôs uma condição: a capa deveria ser feita pelo filho, Zeca, de 5 anos. “Qual é o problema? Já vou economizar, porque não pagarei a seu filho. Quem sabe não temos um Mozart brasileiro nas artes gráficas?”, brincou o editor, que também lançaria “A coleira do cão” em 1965.
Contatado por meio de sua filha, Bia Corrêa do Lago, Rubem Fonseca aceitou falar sobre a experiência com a GRD. “Conheci o Gumercindo Dorea muito superficialmente e pouco posso falar sobre a sua personalidade. Sei que ele era honesto com aqueles que editava, como eu, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão e outros. Foi importante para mim, e certamente para os demais escritores que citei, o fato de a GRD ter lançado os nossos livros. Eu logo fui procurado por editoras de maior prestígio. Lembro-me que ele gostava de editar livros de ficção científica”, declarou à Folha, por e-mail.
“É o maior presente dos meus 91 anos”, emociona-se Gumercindo, assinalando que este é o primeiro depoimento de Fonseca, avesso a entrevistas, sobre seu trabalho. Lamenta não possuir nenhum exemplar autografado pelo mais célebre ex-editado.
Rogerio Cassimiro/Folhapress
ORG XMIT: 403801_0.tif 04.05.05 - foto: Rogerio Cassimiro/Folhapress - ILUSTRADA - Gumercindo Rocha Dorea, primeiro editor de Rubem Fonseca, nos livros, A Coleira do Cao e Os Prisioneiros, cuja capa e do filho de Rubem que na epoca tinha 5 anos. Gumercindo foi fotografado em seu apartamento no bairro da Aclimacao, zona sul de SP
Os livros “A Coleira do Cão” e “Os Prisioneiros”, de Rubem Fonseca, editados por Gumercindo Rocha Dorea
APOIO AMERICANO
O catálogo político da editora foi pesquisado pela doutora em História e professora da Universidade Federal da Bahia, Laura de Oliveira, que lançou este ano o livro “Guerra Fria e política editorial – A trajetória da Edições GRD e a campanha anticomunista dos Estados Unidos no Brasil (1956-1968)”.
“Embora, quando da inauguração da GRD, a editora tenha se dedicado mais a textos de linguística e filologia, bem como à literatura de ficção científica, os temas eminentemente políticos não tardaram a aparecer”, observa Laura. “Além da Enciclopédia do Integralismo, publicada em parceria com a LCB (Livraria Clássica Brasileira), a GRD publicou dezenas de livros de cunho político entre as décadas de 50 e 60, que tinham como tônica principal o anticomunismo”.
“Esses livros ajudaram a constituir uma ambiência intelectual favorável ao golpe civil militar e à legitimação do regime instaurado a partir de 1964”, avalia. Nas pesquisas, contabilizou 48 livros “traduzidos, editorados, impressos e distribuídos no Brasil com recursos do governo norte-americano, através da United States Information Agency, a USIA, que operava dentro da Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro”. O Ipês atuava, principalmente, na distribuição de obras como “Anatomia do comunismo”, de Walter Kolarz (e outros), e “Cuba, nação independente ou satélite?”, de Michel Aubry, ambos de 1963.
A professora ressalva que “mais de 60 editoras brasileiras publicaram livros com subsídios da USIA nos seus pelo menos 20 anos de atuação no país”. A GRD virou uma parceira tímida dos americanos entre 1962 e 1968 – “as principais foram a Fundo de Cultura, a Record e a Lidador” -, mas “seu perfil editorial a colocou no centro do debate politico desencadeado no Brasil entre as décadas de 50 e 60. Cada editor tinha autonomia para escolher os livros que queria publicar, no interior de uma lista aprioristicamente elaborada pela agência norte-americana”.
Gumercindo ainda não recebeu o livro e prefere não comentá-lo. Questionado, faz revelações sobre o período: “Com o que sobrava do dinheiro que eu recebia da aquisição pela embaixada (americana) dos volumes contratados, renovei a literatura brasileira publicando Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Gerardo Mello Mourão, José Alcides Pinto, Marcos Santarrita, Samuel Rawet, Astrid Cabral, Fausto Cunha, Maria Alice Barroso e alguns que no momento me esqueço. Houve outros editores que enriqueceram (com o convênio). Não citarei nomes. A GRD não ficou rica”. O Instituto Nacional do Livro o apoiava na mesma época.
O editor limita a influência do fundador do Ipês: “Do Golbery, acho que um ou dois livros, que ele me sugeriu, eu gostei e publiquei”. Em 1964, estava ligado ao general e a Adonias Filho, eleito no ano seguinte para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.
“Eles nem sabiam, mas eu pertencia a um grupo de quatro pessoas de confiança da Marinha. Não conhecia os outros três. Cada um recebeu uma pistola. Nunca tinha usado nenhuma! Saí pela avenida Rio Branco e graças a Deus não aconteceu nada. Depois um oficial foi pegar de volta a pistola”, relata. “Não tenho arrependimento de nenhum passo que dei em minha vida, salvo não saber ganhar dinheiro”, diz Gumercindo, viúvo e pai de quatro filhos. Sobrevive com uma aposentadoria.
Apesar da militância integralista, garante que se dava “muito bem” com os comunistas e cita a amizade do romancista Jorge Amado, seu ex-adversário. “Houve uma época em que se ele me encontrasse na esquina, eu com uma pistola, ele com outra, o tiro pipocava. Começamos a ficar amigos depois da editora”.
Em vez de aproximá-los, o golpe de 1964 provocou uma ruptura com o antigo aliado e criador do SNI (Serviço Nacional de Informações). “Adonias era candidato ao governo da Bahia em 1966, mas Golbery tirou o corpo e indicaram outro (Luiz Viana Filho). Adonias foi relegado”, explica.
GARIMPOS
Pelo ineditismo, a “Antologia Brasileira de Ficção Científica” (1961) tornou-se um marco do gênero literário no país, reunindo André Carneiro, Antonio Olinto, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jerônymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. Despontava ali a “Geração GRD”.
“Antes da atividade de Dorea, o gênero no Brasil era esporádico e inconstante, embora presente desde meados do século 19. Com a coleção Ficção Científica GRD, iniciada em 1958, a publicação constante e com obras de qualidade deu visibilidade ao gênero e sua escolha de temas (com a recorrência da guerra atômica) ajudou a caracterizar a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1957 a 1972)”, reconhece o escritor Roberto de Sousa Causo. “Ele é o mais importante editor para a história da FC no Brasil”. O americano Ray Bradbury seria incorporado ao catálogo.
A descoberta de pepitas literárias era o aspecto prazeroso de seu ofício, logo abalado pelas chateações nas livrarias. Gumercindo suava: “Eu mesmo fazia a apresentação de meu editado e normalmente deixava o livro em consignação. Afinal, quem era GRD frente aos grandes editores? O drama era receber o pagamento”.
Uma de suas revelações veio do garimpo de Guimarães Rosa. “Ô Gumercindo! Tenho um bom livro pra você editar!”, anunciou Rosa, na Biblioteca Nacional do Rio, antes de recomendar “Serras Azuis” (1961), de Geraldo França de Lima.
Há os arrependimentos, encabeçados pela rejeição ao primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro, “Setembro não tem sentido”, concluído em 1963 e somente lançado em 1968 pela José Álvaro. “Para ser sincero, ainda não gosto desse livro”, admite. Um possível consolo é esquecido. A GRD publicou “Josefina”, um dos primeiros contos de Ubaldo, na coletânea “Histórias da Bahia”, naquele mesmo 1963.
PLÍNIO E INTEGRALISMO
Último lançamento da GRD, o livro “Existe um pensamento político brasileiro?” traz um “Recado” de Gumercindo Rocha Dorea ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apontado como caluniador do integralismo. O editor refuta as teses historiográficas sobre a aproximação de Plínio Salgado com as ideias nazi-fascistas na Europa.
“Foi, com incontida revolta interior, que tive o desprazer de adquirir os dois últimos volumes de sua autoria (“O improvável presidente do Brasil” e “Pensadores que inventaram o Brasil”), um com Brian Winter, onde estão repetidas velhas e surradas calúnias contra o Integralismo e seus seguidores. Mais lamentável ainda por ter sido forjado o livro para ‘deleite’ de Bill Clinton e de alguns possíveis leitores da grande república americana”, atacou o editor.
No ensaio “Fotógrafo amador”, a respeito de Paulo Prado (autor do clássico Retrato do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira), FHC criticou o “desvio fascistizante do verde-amarelismo, que chegou a ser ridículo e falso, como em Plínio Salgado”.
Nascida de um encontro não mais que ameno, a amizade com o líder integralista originaria uma parte relevante de suas aventuras editoriais. “Plínio Salgado havia retornado do exílio (1939-1945) e não era fácil chegar até ele. De longe é que podíamos vislumbrar a sua figura, desde o momento em que foi realizado um encontro de jovens, e eu estava presente. Éramos um grupo razoável, de 40 ou 50 assistentes. E o papo foi longo, eles nos falou sobre o exílio, principalmente, acentuando o quanto esperava, em seu retorno, da juventude brasileira”, relembra Gumercindo.
Anos mais tarde, entrou com um pequeno grupo no elevador do prédio de Salgado, no Rio. O líder integralista perguntou “quem era Gumercindo”, afirmando que o poeta Augusto Frederico Schmidt queria conhecê-lo, pois gostara de um artigo no semanário “Idade Nova”. Surpreso com a presença de Gumercindo naquele metro quadrado, determinou à mulher, Carmela Patti Salgado, que marcasse um jantar.
“A surpresa tinha razão de ser: eu não era frequentador assíduo de sua residência e tinha ido ali buscar a colaboração dele para o semanário ‘Idade Nova’, onde o meu artigo sobre Schmidt fora publicado… Não consigo me esquecer a pronúncia caipira que ele jamais perdeu, com o ‘r’ bem acentuado”, descreve. “Este foi o primeiro contato direto que tivemos e que se aprofundou longamente através dos anos – até a sua morte (em 1975). Já tinha lido todas as suas obras, publicadas até aquele momento, tanto as literárias, quanto as políticas e as religiosas”.
Gumercindo coordenou os “Discursos parlamentares” do mentor integralista. Pela GRD, editou “A quarta humanidade” e “Vida de Jesus”, além de incluí-lo na “Enciclopédia do Integralismo”, associado à Livraria Clássica Brasileira. Um quadro de Plínio Salgado permanece na sala de seu apartamento.
Ex-integralistas, Abdias do Nascimento (“O negro revoltado”), Miguel Reale (“Variações”) e Gerardo Mello Mourão (“O valete de espadas”) foram editados pela GRD. Dos tempos verdes, não se esquece da zanga dos companheiros do Rio Grande do Norte com as baforadas do folclorista Câmara Cascudo. “Deixem-me fumar um charuto, senão vou embora”, ameaçava o escritor nas reuniões.
Leitor de clássicos e contemporâneos, Gumercindo não identifica inovações recentes na literatura brasileira. “Comparando com os que lancei, por exemplo. Qual contista ombreia o Rubem dos dois primeiros livros? Qual poeta hoje se equipara a Gerardo Mello Mourão? Qual romancista se equipara a Nélida? Há um Samuel Rawet? José Alcides Pinto? Não tem”.
Na mesa de sua sala, os pratos são encaixados nos pequenos clarões dos recortes de jornais. Gumercindo ainda cozinha, lava a própria louça e se vira no café. Em um dos seis encontros entre 2014 e 2015, encomendou uma feijoada no restaurante vizinho, sem rejeitar o acompanhamento de uma cerveja. “Não repare. É a casa de um homem desorganizado”, advertiu.
Dias antes havia relido “As minas de prata”, de José de Alencar. “Fiquei uma semana voltado pra isso, e pensei: o que está acontecendo? A juventude de hoje nem sabe que existe uma obra como esta. As editoras não têm interesse. E, no entanto, é excepcional”. É com fascínio que insiste: “Se eu tivesse dinheiro, ia mostrar a essa gente o que é editar livros num país que tem fome”.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Por teimosia, Dilma não conseguirá reverter impeachment', diz Requião

  • Há 3 horas
Requião em evento em LisboaImage copyrightBBC BRASIL
Image captionRoberto Requião: ' O PMDB não é o partido nazista, é um partido que vive da diversidade de opiniões'
O senador Roberto Requião (PMDB-PR) não acredita que a presidente afastada Dilma Rousseff será bem-sucedida na tentativa de reverter o processo de impeachment.
Em entrevista à BBC Brasil, o ex-governador do Paraná - que, mesmo sendo do partido do presidente interino Michel Temer, vê o processo de impeachment como "golpe" - diz que Dilma não seria capaz de costurar as alianças necessárias, propondo mudanças radicais em suas políticas, "porque ela é muito teimosa".
Requião refuta ainda qualquer tipo de pressão interna em seu partido por ser contrário ao impeachment e ao governo interino de seu correligionário Michel Temer. "O PMDB não é o partido nazista", afirma.
O senador está em Lisboa para participar da cúpula da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-América (EuroLat), que reúne cerca de 120 parlamentares de países dos dois lados do Atlântico.
Ele faz parte de um grupo de senadores brasileiros contrários ao impeachment que quer buscar apoio da comunidade internacional.
Como copresidente do componente latino-americano do organismo, Requião também fez um discurso na sessão de abertura da cúpula, no qual fez duras críticas ao governo interino.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil: A participação em fóruns no exterior e o apoio da comunidade internacional podem reverter o processo de impeachment?
Roberto Requião: Acredito que o impeachment só seria revertido pela própria Dilma, criando um a aliança para formar um governo de coalizão nacional, uma mudança radical da política econômica, a busca pelo apoio popular, mas isso dificilmente ela fará, porque é muito teimosa. A Dilma vai seguir a mesma linha em que estava governando, que é uma linha inaceitável.
BBC Brasil: Por que o senhor considera inaceitável?
Requião: Porque, na verdade, ela começou a fazer o que o Temer quer fazer agora. Privatizações, a visão neoliberal da economia, a globalização e destruição de empresas públicas, cortes na saúde e na educação, cortes na Previdência, precarização das leis de trabalho… enfim, é a reação do capital vadio contra o Estado social.
Requião em evento em LisboaImage copyrightBBC BRASIL
Image caption'A Dilma vai seguir a mesma linha em que estava governando, que é uma linha inaceitável', disse Requião
BBC Brasil: Uma incapacidade do governo Temer poderia salvar o mandato da Dilma?
Requião: Dificilmente salvará o mandato dela, mas pode levar a uma mudança da orientação da política econômica do Brasil, com Dilma ou sem Dilma.
BBC Brasil: O senhor esperava, neste encontro em Lisboa, uma resposta dos países latino-americanos ao impeachment?
Requião: O componente latino-americano do EuroLat mostrou uma coerência e uma unidade impressionante em relação à democracia e rejeitou a interinidade deste atual governo brasileiro. Isso é muito importante. (...)Envia uma mensagem para a discussão da democracia no mundo, é um reflexo muito positivo na história política recente, no período que estamos vivendo.
BBC BrasilO senhor defende uma nova eleição presidencial em outubro. É possível realizar, sem muitos danos, um pleito tão importante em tão pouco tempo?
Requião: A eleição elimina os danos dessa transição. A Dilma perdeu o seu próprio apoio porque governou com a política econômica do adversário. Perdeu sua base e não ganhou outra. E ainda por cima se relacionou mal com o Congresso nacional. O Temer foi eleito na mesma chapa da Dilma, ou seja, com a mesma proposta política desenvolvimentista, nacionalista.
Mas ele tenta agora uma virada absurda para uma visão neoliberal, um programa muito parecido com o programa que destruiu a Grécia e sem a homologação da opinião pública. O Temer fica em uma dificuldade muito semelhante à da Dilma, que é a falta de apoio da sociedade civil, da população brasileira. E ele busca esse apoio da forma tradicional, dividindo cargos no Congresso nacional, que tem uma representatividade altamente questionável hoje em função do sistema eleitoral.
Requião em evento em LisboaImage copyrightBBC BRASIL
Image caption'A eleição elimina os danos dessa transição', opinou o senador
BBC Brasil: O senhor defende, então, eleições gerais e não apenas à Presidência?
Requião: O importante é começar pela eleição presidencial, mas depois temos de focar em mudar o sistema eleitoral. Já começamos a mudar. O Brasil já aboliu o financiamento de pessoas jurídicas de campanha eleitoral, esse é o primeiro passo e é muito importante.
BBC Brasil: Quais seriam os passos seguintes?
Requião: É preciso acabar com essa multiplicidade absurda de partidos, que na verdade são legendas negociais, que entram no jogo político para negociar apoio e posições no Parlamento e fora dele. A reforma política é essa, mas a reforma fundamental é econômica.
BBC Brasil: O posicionamento do senhor, contrário ao impeachment, tem causado alguma forma de pressão dentro do PMDB?
Requião: O PMDB não é o partido nazista, é um partido que vive da diversidade de opiniões. Na verdade, a minha opinião é a opinião histórica do partido, os outros é que estão mudando.