É preciso procurar bastante na capital Havana para encontrar referências
ao aniversário do líder revolucionário Fidel Castro, que completa 90
anos neste sábado (13/08). Em alguns muros foram pintados votos de
parabéns, aqui e ali veem-se cartazes, e nas vitrines de certas lojas
estatais afixaram-se mensagens de congratulações. Na vida quotidiana dos
cubanos, Fidel praticamente não é mais presente.
Pouco mais de dez anos atrás, a coisa era bem diferente. Na noite de 31
de julho de 2006 os cidadãos da república comunista foram confrontados
com o inconcebível: em horário nobre e com expressão séria, Carlos
Valenciaga, secretário particular de Fidel Castro, anunciava o retiro
temporário do "Comandante".
Depois de 47 anos à frente da nação, seu abalado estado de saúde – na
época ainda um segredo de Estado – obrigava Fidel a entregar todos os
postos importantes ao irmão Raúl, cinco anos mais novo.
Assim Fidel abandonava o palco da grande política, que ele adentrara em
1953, com o assalto ao Quartel de Moncada, em Santiago de Cuba,
acompanhada do famoso discurso "A história me absolverá". E, o mais
tardar, com o triunfo da Revolução Cubana em 1959. Em 2008, a despedida
provisória tornou-se permanente.
"Quando eu morrer mesmo, ninguém vai acreditar"
Sob o irmão Raúl, tido como mais pragmático, nos últimos anos o Estado
insular mudou. Agora é permitida a compra e venda de automóveis e
imóveis, foram abolidas as restrições às viagens e ampliado o acesso à
internet para a população. Além disso, Raúl Castro abriu a economia aos
investidores estrangeiros, reduziu o setor estatal, permitindo mais
iniciativas privadas.
Fidel com Hollande no ano passado
Desde então, centenas de milhares de cubanos se tornaram
trabalhadores autônomos. No entanto, a maior façanha política de Raúl
Castro é, possivelmente, a apenas iniciada aproximação aos Estados
Unidos. Uma iniciativa quanto a qual Fidel se mostra cético.
Após a histórica visita do presidente Barack Obama a Cuba, o ex-líder
esbravejou em sua coluna de opinião publicada a intervalos irregulares
no jornal do Partido Comunista de Cuba (PCC), o
Granma: "Não
precisamos de presentes do Império" – para, num pós-escrito, recordar
dos anos de sanções, atentados e os mortos das agressões americanas.
Um ex-chefe do serviço secreto cubano assegura que contra o próprio
Fidel teriam sido realizadas 638 tentativas de atentado pelos serviços
secretos dos EUA e por cubanos exilados. Em anos recentes, o
"Comandante" foi várias vezes dado como morto. Seu comentário: "Minha
morte foi inventada tantas vezes, que no dia em que eu morrer mesmo,
ninguém vai acreditar."
Despedida longamente anunciada
Aparentemente Fidel superou a grave enfermidade intestinal que o obrigou
a se retirar, porém à custa da antiga onipresença: ocasionalmente ele
recebe visitantes estrangeiros para conversas privadas, como o papa
Francisco e o presidente francês, François Hollande.
As imagens divulgadas pela mídia estatal mostram um homem grisalho,
visivelmente envelhecido, magro, de voz trêmula e roupa esportiva.
Contudo, mesmo sem poder político real, Fidel Castro permanece sendo uma
figura de peso para a ala ortodoxa do PCC, aquele para quem a virada
promovida por Raúl está indo longe demais.
"Os conservadores, que não querem nenhuma mudança, se aferram a Fidel,
disso não há a menor dúvida", declarou o ex-diplomata cubano Carlos
Alzugaray à agência de notícias AP.
No entanto trata-se também da herança de Fidel. "A hora de cada um de
nós chega, mas as ideias da Revolução Comunista vão perdurar"; afirmou
em abril, na sessão de encerramento do Congresso do PCC, realizado a
cada cinco anos. Essa seria "talvez uma das últimas vezes que falo neste
salão", disse o veterano. Entre os cerca de mil delegados presentes,
não eram poucos os que tinham lágrimas nos olhos.
Em 2009, com estudantes venezuelanos: aparições em públicos estão cada vez menos frequentes
Eterno jovem barbudo de uniforme revolucionário
Apesar de tudo, o país se preparou para a festa de aniversário de seu
antigo líder. A TV passa entrevistas da época do governo Fidel, e são
muitos os programas especiais para a ocasião.
Em Birán, no leste da ilha, onde ele nasceu em 1926, esperam-se centenas
de visitantes para as festividades deste sábado (13/08), e serão
plantadas árvores em sua homenagem. No entanto não está prevista nenhuma
cerimônia pública com a presença do aniversariante. Seu contato com o
povo deve se restringir à coluna que publicou neste sábado, no portal
Cubadebate, pedindo paz no mundo.
Pelas ruas de Havana, a importância do revolucionário é venerada. "Sou
fã de Fidel, isso eu digo abertamente", ostenta a professora sexagenária
Mirta Hernández. "Como ele, não há outro. Tomara que ele fique conosco
ainda por muitos anos."
Em contrapartida, Alejandro afirma: "Não ligo para política nem para
Fidel." Ele trabalha "por conta própria" e nasceu depois da Revolução,
assim como a maior parte de população. "Até Fidel e o Raúl dele irem
embora, nada vai mudar neste país", reforça.
Já o informático Fahd Perreira acha que "Fidel vai ser sempre uma
personalidade extraordinária, não só em Cuba, mas principalmente em
Cuba. Mas agora é hora de a juventude assumir e de as coisas andarem
adiante."
Quer absolvido pela história ou não, certo está: hoje Fidel Castro tem
lugar cativo na memória coletiva como aquele jovem barbudo de uniforme
verde-oliva, que liderou a revolta armada e depois resistiu aos Estados
Unidos durante décadas.