domingo, 5 de março de 2017

26 de fevereiro de 2017

CARNAVAL EM GUPIARA

Bené Chaves 

                Quando meu pai chegou a Gupiara já era quase época de carnaval. Então ele fez logo amizade nos seus arredores e junto com pessoas de sua idade organizaram um bloco para a festa que se aproximava. E fundaram um de nome esquisito: O Inferno das Cuias.Apesar do nome feio e estrambótico, o pequeno grupo queria se divertir pra valer. E realmente aproveitaram aqueles dias de uma festa profana no dizer de velhas carolas que viviam cuidando mais de assuntos não pertinentes às mesmas. 
                Acho que Painhô não tinha ainda conhecido minha mãe, porque depois me disse que se enrabichou por uma suposta donzela que era um verdadeiro antro do prazer. Dessas de você ficar babando e depois comer (a baba, claro) com os próprios lábios. 
               Época difícil aquela, a idade era um martírio, meu pai ainda na agitação do espírito e querendo aproveitar o restinho de uma pós-adolescência. E a juventude, mesmo que um pouco tardia, seria adequada para a dita ocasião. 
                No lugar onde Painhô nasceu ele nunca brincara o carnaval, não existiam condições para isso. Ali, só havia uma seca brava, a enxada e a terra falavam melhor. E sua mãe, minha avó, portanto, exagerava nos cuidados de seus filhos. Sabia ela que eles eram jovens e queriam aproveitar a idade, principalmente Painhô, o mais velho de todos. 
              E meu pai vivia dizendo que o tempo não espera por ninguém, é efêmero e tem lá as suas encrencas. Mas, o melhor era não decifrá-lo por enquanto. Quando chegasse na hora ele teria um compromisso com a verdade. Nua e crua. 
              A vivência faz o homem, a consciência depende do lado humano, sua criação, o modo de olhar o mundo e julgá-lo. A festa do começo do ano era a alegria do povo, porém, era, também, paradoxalmente, a sua tristeza. Um desalento endógeno. 
               Seriam três ou quatro dias para desabafar incertezas, enganar-se nas desilusões. E depois viriam os resquícios das cinzas, apenas a desesperança que ficara para trás. Aquele mesmo borralho espalhado e absorvido pelo ser humano na continuidade de uma vida de valores inexistentes. 
            Mas, diante de si, Painhô olhou o entusiasmo na rua e não fez por menos, caiu no chafurdo com o bloco carnavalesco. Os outros na ilusão de noventa e seis horas, perdidos no meio da vida. Sumidos numa pseudo-alegria. 
           O carnaval fora embora. Nada mais de confetes, serpentinas ou pierrôs. Ou mesmo o palhaço fazendo muganga. As máscaras caíram nos esgotos de uma existência não atingível. 
          Sumiram arrastadas pela correnteza e desapareceram no meio de cinzas que circundavam nos ares desalinhados e presos de melancolia.     



                        

23 de fevereiro de 2017

MARCHINHAS

 

MIRANDA SÁ
 
“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho”. (Carlos Drummond De Andrade)

Acho que foi o diabo quem inventou essa história do “politicamente correto”. No carnaval é que se vê que esta barbaridade está na contramão da alegre confraternização social. Lembrando que é a inversão de valores que domina os temas carnavalescos.
Essa desgraça que se abateu sobre o mundo é a razão do fim das marchinhas políticas, caricaturais, denunciantes e de protesto. Na minha juventude cantei e gravei marchinhas do desabafo popular, começando por “DAQUI NÃO SAIO” de Paquito e Romeu Gentil.
Lembrando a agonia de despejo forçado pela modernização urbana do Rio de Janeiro, cantamos “Daqui ninguém me tira/ Onde é que eu vou morar/ O senhor tem paciência de esperar/ Inda mais com quatro filhos/ Onde é que vou parar? ”
Os protestos da época induziram uma nostalgia pelo governo de Getúlio Vargas e os compositores Haroldo Lobo e Marino Pinto “estouraram” no carnaval de 50 com “RETRATO DO VELHO” fazendo o povo cantar: “Bota o retrato do velho, outra vez/ Bota no mesmo lugar/ O sorriso do velhinho/ Faz a gente trabalhar”.
Eleito Getúlio, o Rio de Janeiro sem autonomia política, sofria problemas estruturais, o que levou Vitor Simon e Fernando Martins a comporem “VAGALUME”, o protesto uníssono dos cariocas: “Rio de Janeiro/ Cidade que nos seduz/ De dia falta água/ De noite falta luz. ” Sobre o mesmo tema, apareceu em 1954 “TOMARA QUE CHOVA”, de Romeu Gentil e Paquito: Tomara que chova/  Três dias sem parar (bis)/ A minha grande mágoa/ É lá em casa não ter água/ E eu preciso me lavar”…
Na minha velha cabeça sempre achei que as marchinhas traduziam o contentamento coletivo do reinado de Momo… E são insuperáveis. Há pelo menos umas 100 que se tornaram clássicas, e hoje mais fortes do que nunca pela bestialidade das proibições.
A mais antiga, e ainda cantada, é a “ABRE ALAS” da inolvidável Chiquinha Gonzaga. E vieram depois com a força da tempestade “LINDA MORENA” (Lamartine Babo), PIERROT APAIXONADO (Noel Rosa E Heitor Dos Prazeres) e “MAMÃE EU QUERO” (Jararaca e Vicente Paiva).
Me perdoem os “politiqueiros corretos” que não passam de uma tomografia computadorizada da imbecilidade reinante entre os que se autodenominam de “vanguarda”. Adoro “O TEU CABELO NÃO NEGA”, de Lamartine Babo; a MULATA É A TAL” (Braguinha-Antônio Almeida) e “NEGA MALUCA” (Fernando Lobo-Evaldo Rui). Procuro e não acho racismo nas letras destas canções.
Tampouco encontro misoginia e preconceitos em “ALLAH-LÁ-Ô” (Haroldo Lobo-Nássara), “AURORA” (Joel e Gaúcho), “NÓS OS CARECAS”, “MARA ESCANDALOSA”, “SASSARICANDO”, “BALZAQUEANA”, (Wilson Batista) e “CABELEIRA DO ZEZÉ”.
Ainda lembrando os protestos, tivemos “PRAÇA ONZE”, “ZÉ MARMITA”, “ACENDE A VELA”, “TOMARA QUE CHOVA”. Mas quando o romantismo aflorava, entoávamos “TAÍ” (Joubert de Carvalho) e “QUEM SABE, SABE” (Jota Sandoval-Carvalhinho).
Sob o domínio da alegria pura, dançávamos com a CHIQUITA BACANA” (Haroldo Lobo e David Nasser), “TOURADAS EM MADRI” e “YES, NÓS TEMOS BANANA” (Braguinha e Alberto Ribeiro). “SACA-ROLHA” (Zé da Zilda, Zilda do Zé e Waldir Machado, “ME DÁ UM DINHEIRO AÍ” (Ivan, Homero e Glauco Ferreira) e “CACHAÇA”(Mirabeau Pinheiro-Lúcio de Castro-Heber Lobato).
Dito isto, vê-se que abomino o “politicamente correto”, que não passa de uma “PIADA DE SALÃO” (Klecius Caldas e Armando) …

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

BRASIL

Abre alas, elas querem passar

Foliãs jogam luz sobre lado obscuro da maior festa popular brasileira, num país onde mais de 60% dos homens afirmam que uma mulher que pula Carnaval sozinha não pode reclamar de assédio sexual.
Brasilien Karneval in Rio Samba Band Mulheres Rodadas (DW/C. Richardson)
O Mulheres Rodadas prepara para o seu terceiro Carnaval uma campanha de conscientização sobre assédio sexual
Ela não tinha nenhuma ginga no corpo, mas isso não impediu que Renata Rodrigues lançasse um bloco de Carnaval nas ruas do Rio de Janeiro dois anos atrás. Quando a mulher de 40 anos viu uma postagem viral no Facebook mostrando um cartaz que dizia "Eu não mereço mulher rodada", ela ironizou a mensagem ao fundar um bloco feminista chamado "Mulheres Rodadas".
A intenção é que o bloco fosse apenas uma brincadeira entre poucos amigos, mas quase uma centena de pessoas apareceu para o primeiro ensaio. Agora o bloco tem milhares de seguidores.
Neste ano, o Mulheres Rodadas está se preparando para o seu terceiro Carnaval promovendo uma campanha de conscientização sobre assédio sexual usando a hashtag #CarnavalSemAssedio. O Rio é conhecido por suas atitudes sexuais liberais, que atingem o ápice durante os desfiles de Carnaval.
 Desconhecidos se beijando pelas ruas são parte da tradição. Mas o ambiente "ninguém é de ninguém" também abre a porta para o assédio sexual desenfreado. Mulheres são apalpadas, imobilizadas pelos braços e beijadas à força.
"Em festas em que as pessoas estão nas ruas, como o Carnaval, as pessoas estão mais vulneráveis a sofrerem assédio ou estupro", afirma Renata Rodrigues.
Mas os brasileiros parecem não se preocupar muito com o problema. Uma pesquisa realizada em 2016 pelo instituto paulista Data Popular mostrou que 61% dos homens acreditam que uma mulher que vai pular o Carnaval sozinha não pode reclamar de assédio sexual, e 49% afirmaram que um bloco de Carnaval não é lugar para uma mulher decente.
"Carnaval sem assédio" tem o objetivo de conscientizar que ambas as partes em um Carnaval desinibido têm que consentir com o contato sexual. O Mulheres Rodadas espera educar os foliões de que "não" significa "não". Assim será possível ensinar os foliões sobre a se proteger e a lidar com casos de assédio.
A ideia de que o Carnaval funciona como uma grande festa democrática que reúne pessoas independente do gênero, raça ou classe acaba mascarando o racismo e sexismo profundamente enraizados. Imagens lascivas de mulheres negras vestindo nada além de penas e lantejoulas são transmitidas para o mundo todo.
Hiperssexualização e preconceito
Nas residências brasileiras, a hiperssexualização das mulheres negras era até este ano encarnada por uma mulata que escolhida anualmente para interpretar o papel de "Globeleza" – uma junção do nome da emissora de TV Globo e a palavra "beleza".
Brasilien Renata Rodrigues Gründerin des Carnival block Mulheres Rodadas (DW/C. Richardson)
Renata Rodrigues, do Mulheres Rodadas: "Nosso grupo começou como uma brincadeira, mas é muito sério"
A escolhida era sempre uma mulher negra pintada com glitter. Durante a temporada de Carnaval, a Globeleza aparecia em diversas inserções televisivas com closes que destacavam suas partes inferiores. Neste ano, a emissora anunciou que não iria mais promover uma mulata e optou por mostrar diferentes foliões – usando mais roupas.
Mas muitas das mais populares marchinhas de Carnaval ainda refletem velhas atitudes. Elas incluem letras racistas e sexistas sobre mulatas como O teu cabelo não nega.
O problema vai, porém muito além do assédio e do que ocorre no Carnaval; o Brasil tem índices de chocantes de violência sexual. De acordo com relatório de segurança pública de 2014, uma pessoa é estuprada a cada 11 minutos no país – e o número real deve ser muito maior se forem considerados os casos que não são reportados.
 O país também tem uma das mais altas taxas de homicídios contra mulheres no mundo. Ainda que o número de homicídios de mulheres brancas esteja em declínio, as estatísticas envolvendo mulheres negras dispararam.
Analba Brazão, uma ativista do SOS Corpo, uma organização feminista do Recife, afirma ser fã do Carnaval. No entanto, ela diz que a violência contra mulheres é amplificada em eventos de rua.
"As mulheres no Brasil não têm a liberdade de estar na rua. Elas ficam expostas", diz. "Nossa luta é pelo direito de pode sair em público e contar com segurança".
Antigas mazelas
Daiane Monteiro, de 29 anos, estava tomando algo em um café quando o bloco Mulheres Rodadas passou pelo local na última sexta-feira para um ensaio de pré-Carnaval. A jovem, que toca um instrumento de sinos chamado agogô em uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio, gostou da iniciativa do grupo, mas disse não achar que o assédio sexual ainda continua a ser um grande problema no Rio.
Ela apontou o crescimento da inclusão de mulheres em papéis tradicionalmente masculinos no Carnaval – por exemplo, a execução de instrumentos pesados como o surdo – como uma evolução positiva.
"Como mulheres nós temos a liberdade de exibir nossos corpos se quisermos", afirma. "Agora nós podemos até mesmo tocar em escolas de samba. No passado isso era uma atividade mais masculina."
Brasilien Karneval in Rio Samba Band Mulheres Rodadas (DW/C. Richardson)
Foliões do bloco Mulheres Rodadas no Rio de Janeiro
No entanto, Daiane Rodrigues pensa que assumir novos papéis na música não é o bastante. "Mulheres estão por toda parte nos blocos e escolas de samba, mas elas não se tornam mestres de baterias, não conduzem as bandas e não tomam decisões", conta.
Raquel Fialho, de 36 anos, vai tocar o xequerê com o Mulheres Rodadas pela primeira vez neste ano. "Eu vi eles no ano passado e fiquei encantada", afirma. "Foi algo muito poderoso, bonito e colorido".
Ela sabe que as tradições do Carnaval contam com décadas de história e que mudar as atitudes será um longo processo: "Não podemos esperar mudar as ideias em apenas alguns anos."
Muitos no Brasil também temem que direitos conquistados pelas mulheres estejam sob risco com o presidente Michel Temer, que lidera o governo mais conservador desde o fim do regime militar.
Quando Temer anunciou o seu primeiro ministério após assumir interinamente, as pastas não incluíam nenhuma mulher. Ele também aboliu o status de ministério das secretarias de Políticas para as Mulheres, de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, e de Direitos Humanos. As responsabilidades das pastas passaram a ser atribuição do Ministério da Justiça.
"Nosso grupo começou como uma brincadeira, mas é na verdade muito sério", reforça Renata Rodrigues, a criadora do bloco. "O Carnaval é talvez a mais importante forma de protesto no Brasil."
Clare Richardson está no Brasil com uma bolsa  do International Reporting Project (IRP).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Centenas de pessoas prestigiam lançamento de fotobiografia de Djalma Maranhão

Crédito da Foto: João Gilberto

O lançamento da fotobiografia sobre Djalma Maranhão reuniu centenas de pessoas na noite desta quinta-feira (8), na Assembleia Legislativa. O livro, que foi viabilizado em comemoração aos 100 anos do ex-deputado estadual, federal e ex-prefeito de Natal. Deputados, familiares e os organizadores da fotobiografia enalteceram a história e o legado de Djalma Maranhão.

"Djalma Maranhão foi um dos maiores políticos do Rio Grande do Norte, com atuação destacada e revolucionária nas áreas de cultura e educação. Teve uma visão muito à frente de seu tempo e deixou lições para várias gerações. Essa fotobiografia dará a oportunidade para que sua obra seja conhecida por ainda mais pessoas", disse o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira (PSDB).

Reunindo mais de 260 imagens, a fotobiografia retrata diversos momentos da vida de Djalma Maranhão, desde fatos pessoais até momentos históricos em sua atuação política. O acervo estava com familiares e também com Roberto Furtado, que conviveu com o ex-prefeito de Natal. Furtado, inclusive, foi o responsável por impedir que vários registros fossem confiscados no período da ditadura militar, quando Djalma Maranhão foi preso e exilado para o Uruguai.

"Foram mais de mil imagens a que tivemos acesso e usamos essas 260 para fazer parte da fotobiografia, retratando todos os momentos. Contamos com o apoio importando de Roberto Furtado, que conviveu com Djalma, e de seus familiares, especialmente Haroldo Maranhão. O livro é parte de um trabalho em conjunto que tivemos o prazer de participar", disse Adriano de sousa, que foi organizador da fotobiografia ao lado de Giovanni Sérgio Rêgo.

O deputado Fernando Mineiro (PT), que foi o responsável por indicar emenda parlamentar para financiar a produção dos mil exemplares, acredita que a fotobiografia é um marco histórico. Mineiro explicou que a exposição fotográfica que estava no Salão Nobre da Assembleia percorrerá Natal e será levada também para o Rio de Janeiro, na escola que leva o nome do ex-prefeito de Natal.

"Foi um esforço conjunto para viabilizarmos essa obra, que só pôde ser finalizada e lançada neste ano. Estamos muito satisfeitos", disse o deputado.

Também presente ao lançamento, a Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Norte (OAB/RN) teve participação na elaboração do livro. O advogado Djamiro Acipreste, da comissão de Direitos Humanos da OAB/RN, discursou representando a classe e relatou o dia em que ele teve conhecimento sobre a obra de Djalma Maranhão, quando estava em Cuba e um idoso do país disse que esteve em Natal para conhecer a "revolução na educação" realizada pelo então prefeito.

"Tive que ir para Cuba para conhecer a obra de uma pessoa de Natal, que foi uma verdadeira revolução, mas sem armas. Djalma Maranhão é passado, é presente e também é o futuro. Que os jovens da nossa terra não precisem sair de Natal para saber pelo que lutar", desejou o representante da OAB.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Faleceu Sinfrônio Gonçalves um dos ícones da política em Catolé do Rocha


Catolé do Rocha perdeu um dos grandes personagens de sua história política neste domingo dia 04 de dezembro, Sinfrônio Gonçalves um dos ícones da antiga oposição catoleense faleceu aos 87 anos, e deixa um legado de realizações e uma descendência de vários filhos, netos, bisnetos e uma história de dedicação aos catoleenses.

Sinfrônio Gonçalves que é de tradicional família catoleense, foi vereador por vários mandatos, chegando a exercer a presidência da Casa de Clécio Barreto, e prefeito, onde em pouco tempo deixou uma boa marca de administrador.
Em 2008, Sinfrônio Gonçalves encerrou sua carreira política, deixando em seu lugar o filho Cláudio de Oliveira Costa ou simplesmente (Cláudio de Sinfrônio).

Sinfrônio Gonçalves participou em épocas passadas, de várias campanhas acirradas e históricas no auge da antiga oposição catoleense onde ficou marcada a famosa frase “ Catolé desassombrada”.
O corpo de Sinfônio Gonçalves está sendo velado na Câmara Municipal de Catolé do Rocha.

Domício Filho
Fonte: Riacho notícias -  Danilo Almeida - 04/12/2016 20h58m
A revolução sem ternura


Tomislav R. Femenick - Historiador

No final dos anos cinquenta do século passado, o mundo vivia o período da guerra fria ao mesmo tempo em que as ideias liberais e democráticas afloravam no mundo ocidental. Na França, um referendo popular aprovou a Constituição da V República, logo revisada para permitir a independência das antigas colônias. Na Inglaterra também se iniciou uma política de descolonização. 

No inicio da década seguinte, Kennedy foi eleito presidente dos Estados Unidos e Kubitschek presidente do Brasil. Foi nesse clima de boa vontade, que eclodiu a revolução que derrubou o frágil e corrupto governo do ditador cubano Fulgencio Batista e levou o “comandante” Fidel Castro ao poder, em 1959.

A luta revolucionária começou sua vitória no verão de 1958, quando Fidel se firmou em Sierra Mestra, seu irmão Raul em Sierra Del Cristal e Che Guevara e Camilo Cienfuegos nas montanhas de Escambray. No dia primeiro de janeiro de 1959 Guevara e Cienfuegos ocuparam Havana. Fidel chegou à capital oito dias depois, quando formou um governo integrado por todos os que faziam oposição ao ditador Batista, assumindo o poder como um nacionalista, liberal e socialdemocrata. De sua plataforma constava a realização de eleições livres e a restauração da Constituição.

O famoso historiador comunista inglês Eric Hobsbawn, faz duas afirmações que devem ser levadas em conta. A vitória do exército rebelde foi genuinamente apoiada pela maioria dos cubanos como um momento de libertação e de infinitas promessas. No período de luta revolucionária, “nem Fidel Castro, nem qualquer de seus camaradas eram comunistas [...] e o Partido Comunista Cubano era notadamente não simpático a Fidel”. Entretanto, logo após a tomada do poder os revoltosos deram mostra da sua radicalização, quando o processo revolucionário extrapolou para o fuzilamento dos seus inimigos (reais ou pretensos), que eram julgados sem defesa e sumariamente fuzilados. As cenas de fuzilamento, em pleno campo de esportes de Havana, eram transmitidas pela televisão. Calcula-se que 400.000 pessoas foram detidas como prisioneiros políticos. Só em dezembro de 1961 Fidel Castro se proclamou marxista-leninistas e afirmou o caráter socialista da revolução cubana.

Mas a revolução cubana também teve as suas vítimas internas. Vários destacados guerrilheiros acabaram presos, exilados ou morreram de forma enigmática. Aníbal Escalante (fundador do Partido Comunista de Cuba e integrante do governo) foi mandado para o exilo e, em um segundo julgamento, condenado a 15 anos de prisão. O comandante Abel Palomino passou 30 anos de sua vida na prisão de “La Cabana”. Outro comandante, Huber Matos, foi condenado a 20 anos de prisão. O ministro da Reforma Agrária, comandante Sorí-Marin, foi preso e fuzilado. Houve estranhos acidentes, como o misterioso desastre aéreo em que morreu Camilo Cienfuegos, comandante do Exército Rebelde.

Existe, ainda, a polêmica: Che Guevara foi ou não alijado do governo e traído por Fidel? Há evidências que sim e outras que não. O certo é que a presença de Guevara “bipolarizava”, dividia, a liderança carismática da ilha entre ele e Fidel. É certo, também, que as informações que foram dadas ao argentino sobre as condições reais da revolução boliviana foram superdimensionadas, o que o induziu ao erro, fazendo com que caísse numa armadilha que o levou à morte. Quem faz essas acusações é Dariel Alarcón Ramírez, o “comandante Benigno”, ex-chefe e instrutor dos latino-americanos que treinavam em Cuba, um dos cinco que sobreviveram à campanha do Che na Bolívia e exilado na França. O bizarro é que Guevara e Cienfuegos estão enterrados no panteão dos heróis da Revolução Cubana, na catedral de Havana, ao lado dos túmulos de Cristóvão Colombo (?) e de José Martí, este o herói máximo dos cubanos.

O regime de Fidel Castro fuzilou entre 15 mil e 17 mil pessoas, 10 mil só na década de 1960. Entre as últimas vítimas do “paredón” cubano estão Lorenzo Enrique Copeyo Castillo, Bárbaro Leodán Sevilla García e Jorge Luis Martínez Isaac, executados em 2 de abril de 2004.

Em uma entrevista, a filha de Fidel Castro, Alina Fernandez Revuelta, disse: “O grande problema deste país [Cuba] é que várias gerações embarcaram na conquista de um sonho, mas só alcançaram um pesadelo, e não querem reconhecê-lo”.

Tribuna do Norte. Natal, 03 dez. 2016

sábado, 26 de novembro de 2016

AMÉRICA LATINA

Morte de Fidel Castro repercute pelo mundo

Quer aliados ou opositores, líderes políticos internacionais registram morte do líder socialista cubano como grande virada de página na história do século 20. Obama diz que a história julgará "essa figura singular".
Fidel Castro discursa na Praça da Revolução de Havana no Dia do Trabalho, em 2006
Castro discursa na Praça da Revolução de Havana no Dia do Trabalho, em 2006
Logo em seguida ao anúncio da morte do líder cubano Fidel Castro, aos 90 anos, chefes de governo e de Estado de todo o mundo se apressaram em apresentar suas mensagens de condolências neste sábado (26/11).
Em comunicado, o presidente da França, François Hollande, observou que Castro encarnava tanto as "esperanças" como as "decepções" da Revolução Cubana.
"Como protagonista da Guerra Fria [...] ele representava para os cubanos o orgulho de rejeitar a dominação externa", disse, referindo-se à decisão do revolucionário, no início da década de 1960, de distanciar seu país dos Estados Unidos. Esse afastamento foi mantido até 2015, mesmo depois de a presidência cubana ser assumida, em 2008, pelo irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro.
Photo published for François Hollande : Castro a « incarné la révolution cubaine »
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que a história "registrará e julgará o imenso impacto" da "figura singular" que foi Fidel Castro. O presidente acrescentou que a Casa Branca estende a "mão da amizade" ao povo cubano depois da morte de Fidel e lembrou que, como presidente, "trabalhou arduamente" para abrir um novo capítulo nas relações entre os Estados Unidos e Cuba.
Como observou o ministro italiano do Exterior, Paolo Gentiloni, na rede social Twitter, a morte de Castro marca "a virada de uma das grandes e trágicas páginas da história do último século". O presidente da China, Xi Jinping, limitou-se a declarar que "o camarada Castro viverá para sempre".
Havana decretou nove dias de luto nacional por seu antigo presidente, que será cremado já neste sábado. As cinzas serão enterradas na cidade de Santiago, no sul, após quatro dias de procissão através do país.
Rússia e Castro: velhos camaradas
O chefe de Estado russo, Vladimir Putin, louvou o histórico líder: "O nome desse destacado homem de Estado é corretamente considerado o símbolo de uma era na história do mundo moderno [...] Fidel Castro era um amigo sincero e confiável da Rússia."
Por sua vez, o primeiro-ministro Dimitri Medvedev tuitou uma foto sua ao lado do líder cubano, comentando que este tinha "um interesse pronunciado nos eventos do mundo e da Rússia".
We last spoke on the phone in August. Fidel Castro had a keen interest in the events in the world and in Russia
As relações entre a república insular caribenha e a extinta União Soviética se aprofundaram no fim da década de 50 e início da de 60, devido ao impasse entre Havana e Washington. Para diversos analistas, essa foi a época em que o mundo esteve mais perto de uma guerra nuclear.
O ex-líder soviético Mikhail Gorbatchov afirmou que Castro deixou um legado significativo para Cuba. "Fidel se levantou e fortaleceu seu país durante o mais duro bloqueio americano, quando a pressão sobre ele era colossal. E ele ainda conduziu sua nação para fora desse bloqueio, a caminho do progresso independente." Por isso, Castro será recordado como um "político proeminente", que teve a capacidade de "deixar uma marca profunda na história da humanidade", concluiu Gorbatchov.
Amigos e admiradores em diversos continentes
O presidente Michel Temer disse que Fidel Castro foi um líder de convicções. "Ele marcou a segunda metade do século 20 com a defesa firme das ideias em que acreditava".
 
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Uma breve história do líder da Revolução Cubana

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou como "a perda de um irmão mais velho" a morte de Castro, que para ele foi "o maior de todos os latino-americanos".
"Para os povos de nosso continente e os trabalhadores dos países mais pobres, especialmente para os homens e mulheres da minha geração, Fidel foi sempre uma voz de luta e esperança", escreveu Lula no Twitter. Sobre o ex-metalúrgico, Castro declarara, certa vez: "Tem alma de campeão, admiro a sua perseverança. É o otimismo e a esperança da região."
Também aliado próximo do regime cubano, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pronunciou palavras combativas na estação de TV Telesur: "Vamos continuar vencendo e continuar lutando. Fidel Castro é um exemplo da luta por todas as pessoas do mundo. Vamos seguir adiante com esse legado." O antecessor de Maduro, Hugo Chávez, é citado como "filho espiritual" de Fidel
 

Uma breve história do líder da Revolução Cubana

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou como "a perda de um irmão mais velho" a morte de Castro, que para ele foi "o maior de todos os latino-americanos".
"Para os povos de nosso continente e os trabalhadores dos países mais pobres, especialmente para os homens e mulheres da minha geração, Fidel foi sempre uma voz de luta e esperança", escreveu Lula no Twitter. Sobre o ex-metalúrgico, Castro declarara, certa vez: "Tem alma de campeão, admiro a sua perseverança. É o otimismo e a esperança da região.
Igualmente aliada de Cuba na era socialista, a Índia registrou pesar pela morte do líder latino-americano, com o presidente Pranab Mukherjee prestando "condolências comovidas pelo triste falecimento do líder revolucionário cubano, antigo presidente e amigo da Índia".
Em Bruxelas, a chefe da política externa da União Europeia, Federica Mogherini, rendeu homenagem ao "homem decidido e figura histórica", frisando: "Ele morre em tempos de grandes desafios e incertezas. E de grandes mudanças em seu país." Agora, a UE deseja cooperar mais estreitamente com Cuba, acrescentou a política italiana.
Membros da comunidade cubana em Miami celebram morte de líder odiado Fidel Castro
Membros da comunidade cubana em Miami celebram morte de líder odiado
Cuban-americans festejam
Depois que Fidel Castro assumiu o governo, em 1959, muitos cidadãos fugiram da ilha, estabelecendo-se nos Estados Unidos, sobretudo em Miami e Nova Jersey.
Em grande parte, esses exilados eram adeptos do presidente Fulgencio Batista, deposto pela revolução castrista; outros consideravam a política do socialista excessivamente opressiva. No fim de 2014, Cuba e Estados Unidos anunciaram a retomada e normalização de suas relações bilaterais, após 54 anos.
Na cidade de Miami, milhares de imigrantes cubanos, de diferentes gerações, comemoraram neste sábado a notícia da morte do ex-presidente. "Estamos todos celebrando, isso é como um carnaval", comentou o cuban-american Jay Fernandez, de 72 anos à agência de notícias AP. "Satã, Fidel agora é teu, dá a ele o que ele merece, não deixa ele descansar em paz!"
A notícia da morte do revolucionário caribenho polarizou a imprensa dos EUA. Para o New York Times, ele foi alguém que "demonizou 11 presidentes americanos e por um breve tempo propeliu o mundo até a beira da guerra nuclear".

Fidel Castro was seen as a ruthless despot by some and hailed as a revolutionary hero by others.

Apesar disso, Castro "se tornou uma figura internacional de destaque, cuja importância no século 20 excedeu de longe o que se poderia esperar do chefe de Estado de uma ilha caribenha com 11 milhões de habitantes", completou o diário nova-iorquino.
Washington Post, por sua vez, relembrou o estadista revolucionário como "um fanal espiritual da extrema esquerda mundial", enquanto "seus detratores o viam como um líder repressivo, que transformou Cuba num Gulag de fato".
AV/afp/ap/efe/lusa/dpa/abr

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