domingo, 9 de abril de 2017

Como descobrir tudo que o Google sabe de você – e como apagar seu rastro

GoogleDireito de imagemREUTERS
Image captionComo o 'Grande Irmão' do livro '1984', de George Orwell, o Google tem acesso a um mundo de informações
"Quando usa os serviços do Google, você confia a nós sua informação", deixam logo claro os termos e condições de privacidade do principal site de buscas do mundo.
Pode ser que isso não te surpreenda, pois sabemos que o serviço coleta informações sobre seus usuários.
Mas estamos falando de exatamente quanta e qual tipo de informação?
Seu nome, seu endereço, sua idade, seu endereço de e-mail. Seu modelo de telefone, sua operadora de telefonia celular, seu plano consumo telefônico e de internet.
As palavras que usa com mais frequência em seus e-mailsTodos os e-mails que tenha escrito ou recebido, incluindo spam. Os nomes de seus contatos, seus endereços e telefones.
As fotos que faz com seu telefone Android, ainda que tenha apagado tudo e nunca publicado em redes sociais. Os sites em que navega, dentro e fora do país; a data da visita e o caminho que levou para chegar. A rapidez com que chegou. O cartão de crédito ou débito que usa para pagar.
O Google sabe muito sobre você, certo? E de quem é a culpa? Sua, claro
Lee Munson, especialista em segurança
Todos os sites da internet que visitou por meio do Google, a frequência e o que viu dentro de cada um. Em qual idioma procura. A hora em que navega. Com quem conversou via Hangouts. Quais vídeos te agradam e quais músicas escuta.
Essas e outras categorias aparecem no documento de política de privacidade do Google (aqui o link, em inglês), que soma 2.874 palavras.
"O Google sabe muito sobre você, certo? E de quem é a culpa? Sua, claro", diz Lee Munson, investigador em segurança da Comparitech.com.
"As pessoas confiam demais e compartilham sem pensar muitas informações sobre si, quando a recompensa é uma conta gratuita de e-mail, alguns gigas de armazenamento e a possibilidade de pertencer a um mundo virtual com seus amigos e conhecidos."
Tudo é feito de forma legal, assim que você marca concorda com os termos e condições da empresa.
Confira como você pode encontrar seus dados.

'Minha conta'

Desde junho de 2015, o Google reúne toda a informação que coleta sobre seus usuários em um lugar chamado "minha conta" ou "my account", em inglês.
Você tem uma conta do Google se já fez um e-mail Gmail ou até se já iniciou uma sessão em telefone ou tablet Android, se trabalhou em arquivos no Google Docs ou está registrado no YouTube.
Se você nunca fez nada disso, parabéns. Google ainda terá suas informações, mas não poderá associá-las a seu nomeAqui você pode comprovar se é uma dessas pessoas.
Segundo dados citados pela publicação Business Insider em janeiro deste ano, estima-se que haja 2,2 bilhões de usuários ativos no Google. Ou seja: é bem provável que seu nome esteja na lista.
Comecemos com sua conta no Gmail. O círculo no canto superior esquerdo com sua inicial é o ponto de partida.
Passo 1
Você chegará a uma página como a reproduzida acima.
Algumas categorias interessantes em termos de dados coletados são "aplicativos e sites conectados", "suas informações pessoais", "configurações de anúncios", "idiomas e ferramentas de entrada".
"Verificação de segurança" e "check-up de privacidade" são duas janelas que permitem ajustar e restringir informação diretamente.
Mas vamos seguir com a opção marcada pela seta: a janela "Minha atividade".
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
"Minha atividade" abre, de novo, várias opções.
A tela exibida abaixo é a geral (que aqui aparece em inglês, mesmo com a conta configurada para português como idioma principal). Inclui atividade diária no YouTube, busca, notificações, notícias e ajuda, item por item.
Mas é possível filtrar o material por data e produto específico, clicando na seta vermelha mais ao alto.
Há ainda a opção de apagar seu histórico, indicada pela seta mais abaixo na tela.
Mas antes de confirmar a ação, aparecerá uma mensagem do Google que diz que "sua atividade pode fazer com o Google seja mais útil, com melhores opções de transporte pelos mapas e melhores resultados de busca".
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
No canto superior esquerdo, o ícone de menu (três listas horizontais) abre outro mundo de dados.
Use a opção "outra atividade no Google" para acessar o que o Google guarda sobre suas viagens, telefone e muito mais.
Dentro de
Tudo o que já fez pelo Google Maps deverá estar registrado. Para checar todos os dados nessa categoria, volte a "minha atividade" e filtre os resultados pelas categorias "maps" e "maps timeline".
O Google dá a opção de informar o endereço de casa e do trabalho.
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
Outra categoria reveladora são os anúncios. Para chegar lá, volte ao primeiro passo, "minha conta".
Clique em "configurações de anúncios". Uma vez lá, selecione a opção "gerenciar as configurações de anúncios" e descubra o que o Google imagina que te interesse (a partir do que procura com mais frequência).
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
Você também pode solicitar ao Google uma cópia de toda a informação que a empresa guarda sobre você.
Para isso, volte a "minha conta" (canto superior direito, no círculo com sua inicial).
Logo abaixo de "configuração de anúncios" está "controlar seu conteúdo". Escolha essa opção e encontrará uma tela como esta:
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
"Criar arquivo" levará a uma janela com a opção de decidir quais dados de serviços.
O Google adverte que compilar os dados pode levar dias. No caso da repórter, em cerca de duas horas três arquivos chegaram ao Gmail.
Baixar os arquivos levou mais duas horas. E abrir alguns deles foi um pouco complicado: alguns vêm em formatos que não são comuns, como .json o .mbox.
Meu arquivo
Os arquivos continham todas as mensagens de e-mail da repórter - foi possível abri-las após encontrar uma programa que lia arquivos com extensão .mbox.
Não é possível acessar uma lista de "palavras mais usadas" nas mensagens - o Google diz que o processo de monitoramento das mensagens é "totalmente automatizado".
Arquivo de mensagens
Image captionO arquivo com as mensagens pessoais recuperadas
E o Google ainda tinha as fotos. Todas que a repórter havia feito com seu telefone nos últimos dois anos. Deletadas our não, compartilhadas ou não.

Como isso é possível?

A resposta é simples: tudo tem um preço.
Você não paga seu e-mail nem seu serviço de vídeos em dinheiro vivo, mas em dados.
Como diz o especialista em segurança Lee Munson, "a informação é a nova moeda de troca".
"É uma mina de ouro. Para o Google, representa bilhões de dólares", concorda Jonathan Sander, vice-presidente da Lieberman Software.
Logotipos do GoogleDireito de imagemAFP
Image captionOs dados são fonte de renda para o Google
Desde que diga que concorda com termos e condições que quase sempre não lê, você está entregando suas informações.
Mas há quem discorde dessas condições.
"A legalidade e a interpretação da lei dependem das regras e normais locais", afirma Mark James, especialista em segurança da ESET.
"O Google e a Europa já se enfrentaram por temas como privacidade, monopólio, direito a ser esquecido, coleta de dados. A empresa foi multada em alguns casos, mais geralmente se considera que opera dentro do marco legal."

O que fazer?

Estamos à mercê desse gigante da tecnologia então?
Especialistas concordam que há muito pouco a ser feito nesse sentido.
"É preciso um esforço consciente e organizado para evitar ser seguido (em sua navegação na internet). Por exemplo, não usar o Google e executar atividades diferentes em máquinas distintas, ou com contas diferentes", afirma James.
"Considere a possibilidade de apagar a localização, de usar contas de e-mail que na verdade não usa para entrar em sites de compras, usar datas de nascimento ligeiramente incorretas desde que seja legalmente possível e nunca, nunca, nunca diga ao Facebook, Twitter ou outra rede social o que comeu no café da manhã, e muito menos detalhes pessoais e principais fatos de sua vida", aconselha Munson.

sexta-feira, 17 de março de 2017

BRASIL -

Deutsche Welle - 17.03.2017

Há um ano Dilma dava a última cartada

Após nomeação de Lula como ministro para tentar pacificar base aliada, divulgação de grampo telefônico do ex-presidente desgastou ainda mais imagem dos petistas e deu força ao impeachment, selando o destino de Dilma.
Dilma e Lula em 2016
Dilma e Lula após nomeação do ex-presidente para a Casa Civil
Há um ano, a última tentativa de Dilma Rousseff de estabilizar seu governo e salvar seu mandato fracassou espetacularmente. Após meses de turbulência, a presidente decidiu nomear o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu mentor e padrinho político, como um "superministro" da Casa Civil para tentar pacificar a base aliada e, assim, frear o andamento do processo de impeachment.
A nomeação de Lula para um posto-chave já vinha sendo especulada há meses. Petistas saudosos do ex-presidente e descontentes com a atuação de Dilma celebraram, apontando que o governo iria agregar a capacidade de articulação política e de comunicação de Lula – qualidades que faltavam em Dilma. O presidente do PT, Rui Falcão, deu o tom do que se esperava de Lula ao chamá-lo de "o ministro da esperança".
Mas ao olhar apenas para os possíveis ganhos, o governo Dilma e os petistas acabaram ignorando o alto risco dessa estratégia, que no mínimo iria escancarar ainda mais a incapacidade político-administrativa da presidente. A desgastada Dilma arriscava virar uma líder decorativa. Críticos disseram que Lula estava assumindo um "terceiro mandato". O ex-presidente chegou fazendo exigências e falando em povoar os ministérios com nomes do seu antigo governo e em mudar a política econômica.
Só que em vez de capacidade de articulação, o ex-presidente acabou trazendo seus próprios problemas ao coração de um governo fragilizado. A nomeação veio na esteira de uma série de encrencas de Lula com a Justiça. Doze dias antes, ele havia sido levado coercitivamente pela Polícia Federal para prestar depoimento. Na semana anterior à nomeação, o Ministério Público de São Paulo apresentou uma denúncia contra o ex-presidente e pediu sua prisão.
Nesse contexto, a indicação foi encarada como uma tentativa de afastar Lula da Justiça comum e blindá-lo com o foro privilegiado reservado aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Jornais resgataram uma antiga frase proferida por Lula nos anos 80: "quando um pobre rouba, vai para a prisão; quando um rico rouba, vira ministro". Críticas também vieram da imprensa internacional. O The New York Times escreveu que "os brasileiros estão enojados de seus líderes, com razão."
Dilma havia subestimado o desgaste da imagem pública de Lula. Mas a rejeição das ruas não desempenhou um papel decisivo no fracasso da cartada. Esse papel foi reservado ao juiz Sérgio Moro, o responsável por analisar os casos da Operação Lava Jato na primeira instância.
A noite dos grampos
Com uma atuação dura nos tribunais, mas até então publicamente discreta, Moro tomou a decisão que incendiou de vez a controvérsia. Horas depois do anúncio pelo Palácio do Planalto, jornalistas que normalmente cobrem a atuação da Lava Jato foram avisados de que Moro havia decretado o fim do sigilo sobre uma série de gravações de telefonemas do ex-presidente.
Entre essas conversas estava um diálogo que acabou sendo considerado pela imprensa a "arma fumegante" e uma prova de que a nomeação de Lula era uma tramoia para livrá-lo da Justiça comum – e a conversa envolvia justamente a então presidente Dilma. Uma leitura dramática dos diálogos pelos apresentadores do Jornal Nacional ajudou a potencializar tudo.
A conversa mais reveladora foi captada no mesmo dia da nomeação de Lula. Nesse diálogo de apenas 1 minuto e 35 segundos, Dilma disse a Lula que estava enviando um emissário para lhe entregar o termo de posse. A presidente disse ainda que ele deveria usar o documento "em caso de necessidade", o que sugeria que o termo era também uma espécie de salvo-conduto caso uma ordem de prisão fosse expedida.
A reação foi imediata, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar em diversas cidades. A oposição aumentou o volume das críticas. O jornal alemão Süddeutsche Zeitung resumiu o episódio todo com a frase: "Atualmente nada mais é inimaginável no Brasil".
Protesto contra Dilma em março de 2106
Protesto na Avenida Paulista na noite da divulgação dos grampos
No meio do escândalo, passou praticamente despercebido que a gravação desse diálogo específico ocorreu duas horas depois de uma ordem do próprio Moro para interromper as interceptações.
Também surgiram questões sobre a legitimidade da divulgação de conversas envolvendo a presidente. Com a nomeação de Lula, esperava-se que Moro remetesse as investigações contra o ex-presidente ao STF. Antes disso, ele resolveu tornar público o que tinha.
No entanto, as críticas ao juiz acabariam sendo diluídas em meio à tempestade que o caso gerou no governo. Os grampos telefônicos fizeram com que diversos juízes federais concedessem liminares para barrar a posse de Lula por suspeita de obstrução da justiça.
Efeito devastador
Lula chegou a tomar posse no dia seguinte, mas, pouco depois, o ministro do STF Gilmar Mendes, um notório crítico dos petistas, tomou a decisão de suspender a nomeação até que o caso fosse analisado. Até hoje o STF não revisou a liminar em plenário ou respondeu à pergunta se Lula poderia ter sido ministro ou não.
Moro chegou a receber um puxão de orelhas de outro ministro do STF, Teori Zavascki, então relator da Lava Jato. O juiz paranaense fez uma espécie de mea culpa ao apresentar "respeitosas escusas" ao tribunal pela polêmica gerada pelo caso. A partir daí, críticas pontuais à atuação de Moro se tornaram mais comuns no meio jurídico e em alguns setores da imprensa, mas sua imagem junto à opinião pública continua bastante favorável.
Juiz Sérgio Moro
O juiz Sérgio Moro incendiou a controvérsia ao divulgar grampos, mas sua imagem junto à opinião pública continuou favorável
Para Dilma, o efeito do episódio foi devastador. O fracasso em trazer Lula ao governo ajudou a desagregar ainda mais o que restava de sua base aliada. O então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), ganhou mais força para reiniciar o processo de impeachment, que vinha se arrastando desde dezembro de 2015.
Na mesma semana, entidades antes hesitantes, como a Ordem dos Advogados Brasil (OAB), anunciaram seu apoio ao impeachment. Sem Lula no governo, dezenas de deputados que ensaiavam uma reaproximação com base nas promessas do ex-presidente de dar um novo rumo ao Planalto se voltaram de vez contra Dilma.
Um dia depois do imbróglio, a Câmara finalmente elegeu os integrantes da comissão especial responsável por analisar o processo de afastamento de Dilma. Pouco menos de um mês depois, o caso foi levado ao Plenário da Câmara, onde uma votação arrasadora praticamente selou a sorte da presidente.
O episódio ainda rendeu problemas legais para Dilma. No momento, ela e Lula são alvo de um inquérito no STF que apura as circunstâncias da nomeação e a suspeita de que eles atuaram para obstruir o trabalho da Justiça.