terça-feira, 2 de maio de 2017

CULTURA

02.05.2017 - Deutsch Welle

"Olga acreditou até o fim que seria libertada"

Em entrevista à DW Brasil, escritora Sarah Helm, autora de "Ravensbrück", revela que Olga Benário assumiu papel de liderança entre as detentas no campo de concentração. Governo britânico foi responsável por sua prisão.
Campo de concentração, Ravensbruck
Ravensbruck foi o maior campo de concentração exclusivo para mulheres
A militante alemã Olga Benário Prestes, mulher do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, teve seu destino selado pela inteligência britânica por duas vezes, revela o livro Ravensbrück (Editora Record), que acaba de chegar às livrarias do Brasil. Escrito pela jornalista britânica Sarah Helm, o livro resgata a história do campo de concentração exclusivo para mulheres, onde Olga esteve presa.
Documentos obtidos por Sarah Helm revelam que a prisão de Olga [e Prestes] no Brasil, após a Intentona Comunista, só foi possível graças a informações repassadas pelo governo britânico em 1936. Logo veio o pedido de deportação para a Alemanha, já sob o governo de Adolf Hitler – uma grande ameaça para uma jovem comunista e judia.
Olga Benario
Olga Benário foi uma das primeiras mulheres a chegar a Ravensbrück
Os documentos mostram também que, no mesmo ano, a inteligência britânica avisou que os comunistas ingleses pretendiam interceptar o navio que levava Olga – grávida de sete meses – do Brasil para a Alemanha e libertá-la na Inglaterra. Por conta da informação, a escala britânica da viagem foi cancelada, e a militante seguiu direto para Hamburgo, onde foi entregue nas mãos da Gestapo.
Após sete anos presa, acalentando a ideia de que poderia ser libertada a qualquer momento, Olga foi enviada ao campo de extermínio de Bernburg, onde foi morta na câmera de gás, em 23 de abril de 1942, aos 34 anos de idade, junto com outras 199 prisioneiras.
Em entrevista à DW Brasil, Sarah Helm fala sobre o papel de liderança que Olga teve entre as mulheres no campo de concentração.
DW Brasil: Olga Benário teria chegado a Ravensbrück logo depois de ter sido separada de sua filha recém-nascida, Anita, certo?
Sarah Helm: Sim. Ela ficou um tempo em uma prisão de mulheres da Gestapo em Berlim, onde sua filha Anita nasceu e foi amamentada. Em março de 1938, depois de ser separada da filha, ela foi enviada a Litchenburg, um campo temporário, e, em 1939, para Ravensbrück. Ela estava entre as primeiras mulheres a chegar neste campo.
DW: Pesquisando para o livro, o que você descobriu de novo sobre Olga?
SH: Tive acesso à toda a coleção de cartas e descobri que, olhando para todas elas, temos uma ideia bem melhor da vida e da morte dela nos campos de concentração. Sabemos sobre os protestos que organizava, seu trabalho como chefe do bloco judeu. Era uma mulher forte, que se sobressaía, as outras prisioneiras ficavam muito impressionadas com ela.
DW: Qual era o trabalho de Olga em Ravensbrück?
SH: Ela era responsável por um dos blocos de prisioneiras, o das judias, o que significa que tinha que obedecer aos nazistas e manter a ordem no bloco. Para ela, foi uma tarefa difícil. Mas, por outro lado, ela também podia ajudar as prisioneiras. Ela conseguia fazer contato com outras prisioneiras comunistas e foi criando uma rede de resistência.

Campo de concentração em Ravensbrück
O maior campo de concentração para mulheres da Alemanha foi construído em 1939
DW: Em que consistia exatamente essa rede?
SH: Ela fazia muitas coisas pelas presas. Lia poemas, fazia exercícios físicos, organizou, com as comunistas, um grupo de leitura de Tolstoi [como o livro era banido pelo regime, os nazistas o usavam como papel higiênico, o que logo chamou a atenção das presas, que o resgataram]. Esse grupo de leitura foi descoberto certa vez, o que rendeu punições severas, com várias presas indo para a solitária e passando fome por semanas.
DW: O que mais te chamou a atenção na história de Olga?
SH: Ela realmente acreditou, quase até o fim, que conseguiria sair, ser libertada. Havia uma lei que garantia a liberdade se a pessoa fosse casada com alguém natural de um país estrangeiro, o que era o caso dela. E havia uma campanha mundial liderada pela mãe de Luís Carlos Prestes pedindo por sua libertação. Mas a guerra eclodiu antes que elas conseguissem o visto.
DW: Você menciona que a inteligência britânica selou o destino de Olga por duas vezes. Como foi?
SH: A inteligência britânica estava monitorando um comunista alemão, Arthur Ewert, que fazia parte do grupo de Prestes. Foi por meio desse monitoramento que eles descobriram o paradeiro de Prestes e Olga [que estavam na clandestinidade após a Intentona Comunista no Brasil] e o informaram para o governo brasileiro. Mais tarde, depois que Olga já tinha sido presa e estava sendo levada para a Alemanha, foi novamente a inteligência britânica quem interceptou um comunicado entre o Partido Comunista Soviético e o Partido Comunista Britânico, pedindo que Olga fosse resgatada durante a escala do navio em Southampton. Com a informação, o navio acabou seguindo direto para a Alemanha [até então se acreditava que a grande ameaça ao mundo era o comunismo, não o nazismo]. Então, sim, podemos dizer que, de certa forma, o governo britânico foi responsável pelo destino de Olga.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

COMISSÃO DA VERDADE
 
24/04/2017
 
11:54

Ditadura torturou, perseguiu, matou ou espionou 316 na UFRN

Relatório final da Comissão da Verdade da UFRN revela, pela primeira vez, íntegra dos nomes
Por Dinarte Assunção

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Tortura, desaparecimento, perseguição, mortes. As masmorras da ditadura, registra a história, costumaram ser mais impiedosas dentro dos círculos de efervescência cultural e política, que tinha no movimento estudantil uma de suas mais fortes expressões.
No Estado, o breu dos anos de chumbo tombou fortemente  sobre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que já experimentara nos anos anteriores ensaios de repressão à atividade política em face da polarização Dinarte Mariz x Aluízio Alves. Nada, no entanto, foi tão forte e cruel quanto o que estava por vir a partir daquele 1º de abril de 1964, data a partir da qual se instalou o regime totalitário.
Detalhes e nomes ficaram ocultos na linha do tempo e o breu sobre a verdade permaneceu. Professores e alunos que foram perseguidos, espionados, torturados e humilhados tiveram suas histórias enevoadas pela escuridão e o esquecimento. Os nomes e os enredos nunca vieram à tona em sua integralidade, o que permitiu que a escuridão ainda tivesse vida. Até agora.
Entre 1964 e 1985, 316 pessoas foram alvos de algum tipo de intervenção militar na UFRN. Foram cinco professores e 33 estudantes presos; 25 professores e dois estudantes expulsos por questões ideológicas; 13 membros torturados ou vítimas de tratamento degradante; um estudante expulso pelo Decreto-Lei nº 477; 10 membros sofreram repressão política sem serem presos; dois estudantes foram assassinados; um professor é tido como desaparecido político e 259 pessoas foram fichadas pelos órgãos de repressão e informações da Ditadura Militar.
As informações são resultado do trabalho da Comissão da Verdade da UFRN, cujo relatório final, que embasa essa reportagem, reúne documentos dos órgãos de repressão militares, especialmente a Assessoria de Segurança e Informação (ASI) da UFRN, o braço da repressão nas universidades criado a partir de determinação dos militares.
Abaixo, reproduzimos as listas, compiladas pelo tipo de circunstância de que foi vítima cada uma das 316 pessoas:
 Fonte: Portal no Ar - Natal/RN

domingo, 9 de abril de 2017

Como descobrir tudo que o Google sabe de você – e como apagar seu rastro

GoogleDireito de imagemREUTERS
Image captionComo o 'Grande Irmão' do livro '1984', de George Orwell, o Google tem acesso a um mundo de informações
"Quando usa os serviços do Google, você confia a nós sua informação", deixam logo claro os termos e condições de privacidade do principal site de buscas do mundo.
Pode ser que isso não te surpreenda, pois sabemos que o serviço coleta informações sobre seus usuários.
Mas estamos falando de exatamente quanta e qual tipo de informação?
Seu nome, seu endereço, sua idade, seu endereço de e-mail. Seu modelo de telefone, sua operadora de telefonia celular, seu plano consumo telefônico e de internet.
As palavras que usa com mais frequência em seus e-mailsTodos os e-mails que tenha escrito ou recebido, incluindo spam. Os nomes de seus contatos, seus endereços e telefones.
As fotos que faz com seu telefone Android, ainda que tenha apagado tudo e nunca publicado em redes sociais. Os sites em que navega, dentro e fora do país; a data da visita e o caminho que levou para chegar. A rapidez com que chegou. O cartão de crédito ou débito que usa para pagar.
O Google sabe muito sobre você, certo? E de quem é a culpa? Sua, claro
Lee Munson, especialista em segurança
Todos os sites da internet que visitou por meio do Google, a frequência e o que viu dentro de cada um. Em qual idioma procura. A hora em que navega. Com quem conversou via Hangouts. Quais vídeos te agradam e quais músicas escuta.
Essas e outras categorias aparecem no documento de política de privacidade do Google (aqui o link, em inglês), que soma 2.874 palavras.
"O Google sabe muito sobre você, certo? E de quem é a culpa? Sua, claro", diz Lee Munson, investigador em segurança da Comparitech.com.
"As pessoas confiam demais e compartilham sem pensar muitas informações sobre si, quando a recompensa é uma conta gratuita de e-mail, alguns gigas de armazenamento e a possibilidade de pertencer a um mundo virtual com seus amigos e conhecidos."
Tudo é feito de forma legal, assim que você marca concorda com os termos e condições da empresa.
Confira como você pode encontrar seus dados.

'Minha conta'

Desde junho de 2015, o Google reúne toda a informação que coleta sobre seus usuários em um lugar chamado "minha conta" ou "my account", em inglês.
Você tem uma conta do Google se já fez um e-mail Gmail ou até se já iniciou uma sessão em telefone ou tablet Android, se trabalhou em arquivos no Google Docs ou está registrado no YouTube.
Se você nunca fez nada disso, parabéns. Google ainda terá suas informações, mas não poderá associá-las a seu nomeAqui você pode comprovar se é uma dessas pessoas.
Segundo dados citados pela publicação Business Insider em janeiro deste ano, estima-se que haja 2,2 bilhões de usuários ativos no Google. Ou seja: é bem provável que seu nome esteja na lista.
Comecemos com sua conta no Gmail. O círculo no canto superior esquerdo com sua inicial é o ponto de partida.
Passo 1
Você chegará a uma página como a reproduzida acima.
Algumas categorias interessantes em termos de dados coletados são "aplicativos e sites conectados", "suas informações pessoais", "configurações de anúncios", "idiomas e ferramentas de entrada".
"Verificação de segurança" e "check-up de privacidade" são duas janelas que permitem ajustar e restringir informação diretamente.
Mas vamos seguir com a opção marcada pela seta: a janela "Minha atividade".
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
"Minha atividade" abre, de novo, várias opções.
A tela exibida abaixo é a geral (que aqui aparece em inglês, mesmo com a conta configurada para português como idioma principal). Inclui atividade diária no YouTube, busca, notificações, notícias e ajuda, item por item.
Mas é possível filtrar o material por data e produto específico, clicando na seta vermelha mais ao alto.
Há ainda a opção de apagar seu histórico, indicada pela seta mais abaixo na tela.
Mas antes de confirmar a ação, aparecerá uma mensagem do Google que diz que "sua atividade pode fazer com o Google seja mais útil, com melhores opções de transporte pelos mapas e melhores resultados de busca".
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
No canto superior esquerdo, o ícone de menu (três listas horizontais) abre outro mundo de dados.
Use a opção "outra atividade no Google" para acessar o que o Google guarda sobre suas viagens, telefone e muito mais.
Dentro de
Tudo o que já fez pelo Google Maps deverá estar registrado. Para checar todos os dados nessa categoria, volte a "minha atividade" e filtre os resultados pelas categorias "maps" e "maps timeline".
O Google dá a opção de informar o endereço de casa e do trabalho.
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
Outra categoria reveladora são os anúncios. Para chegar lá, volte ao primeiro passo, "minha conta".
Clique em "configurações de anúncios". Uma vez lá, selecione a opção "gerenciar as configurações de anúncios" e descubra o que o Google imagina que te interesse (a partir do que procura com mais frequência).
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
Você também pode solicitar ao Google uma cópia de toda a informação que a empresa guarda sobre você.
Para isso, volte a "minha conta" (canto superior direito, no círculo com sua inicial).
Logo abaixo de "configuração de anúncios" está "controlar seu conteúdo". Escolha essa opção e encontrará uma tela como esta:
GoogleDireito de imagemREPRODUÇÃO
"Criar arquivo" levará a uma janela com a opção de decidir quais dados de serviços.
O Google adverte que compilar os dados pode levar dias. No caso da repórter, em cerca de duas horas três arquivos chegaram ao Gmail.
Baixar os arquivos levou mais duas horas. E abrir alguns deles foi um pouco complicado: alguns vêm em formatos que não são comuns, como .json o .mbox.
Meu arquivo
Os arquivos continham todas as mensagens de e-mail da repórter - foi possível abri-las após encontrar uma programa que lia arquivos com extensão .mbox.
Não é possível acessar uma lista de "palavras mais usadas" nas mensagens - o Google diz que o processo de monitoramento das mensagens é "totalmente automatizado".
Arquivo de mensagens
Image captionO arquivo com as mensagens pessoais recuperadas
E o Google ainda tinha as fotos. Todas que a repórter havia feito com seu telefone nos últimos dois anos. Deletadas our não, compartilhadas ou não.

Como isso é possível?

A resposta é simples: tudo tem um preço.
Você não paga seu e-mail nem seu serviço de vídeos em dinheiro vivo, mas em dados.
Como diz o especialista em segurança Lee Munson, "a informação é a nova moeda de troca".
"É uma mina de ouro. Para o Google, representa bilhões de dólares", concorda Jonathan Sander, vice-presidente da Lieberman Software.
Logotipos do GoogleDireito de imagemAFP
Image captionOs dados são fonte de renda para o Google
Desde que diga que concorda com termos e condições que quase sempre não lê, você está entregando suas informações.
Mas há quem discorde dessas condições.
"A legalidade e a interpretação da lei dependem das regras e normais locais", afirma Mark James, especialista em segurança da ESET.
"O Google e a Europa já se enfrentaram por temas como privacidade, monopólio, direito a ser esquecido, coleta de dados. A empresa foi multada em alguns casos, mais geralmente se considera que opera dentro do marco legal."

O que fazer?

Estamos à mercê desse gigante da tecnologia então?
Especialistas concordam que há muito pouco a ser feito nesse sentido.
"É preciso um esforço consciente e organizado para evitar ser seguido (em sua navegação na internet). Por exemplo, não usar o Google e executar atividades diferentes em máquinas distintas, ou com contas diferentes", afirma James.
"Considere a possibilidade de apagar a localização, de usar contas de e-mail que na verdade não usa para entrar em sites de compras, usar datas de nascimento ligeiramente incorretas desde que seja legalmente possível e nunca, nunca, nunca diga ao Facebook, Twitter ou outra rede social o que comeu no café da manhã, e muito menos detalhes pessoais e principais fatos de sua vida", aconselha Munson.