terça-feira, 24 de outubro de 2017

Tim Vickery: Um brasileiro enxergou o autoritarismo que transformou o sonho da revolução russa em horror


Tim VickeryDireito de imagemEDUARDO MARTINO

Será que a grande tragédia do século 20 ocorreu exatos cem anos atrás?
A Revolução Russa é diferente. Pode-se pensar o que quiser sobre os ideais revolucionários, mas não há dúvida de que, na cabeça deles, pelo menos no início do processo, eles realmente acreditavam que estavam servindo a grande causa da libertação humana.
A tragédia fica no abismo entre o sonho e a triste, sangrenta, totalitária realidade em que se transformou a União Soviética nas décadas seguintes.
Um dos primeiros a cair no abismo foi um brasileiro: Antonio Bernardo Canellas foi delegado no 4º Congresso da Internacional Comunista, em 1922, tornando-se o primeiro brasileiro a visitar a Rússia após a revolução. De Niterói, mas ativo politicamente no Nordeste, Canellas, com 24 anos, era o mais jovem entre os quase 400 delegados.

Ele não parece ter sido uma figura fácil. Falava quando precisava ouvir. Tinha um ego enorme. Brigava com facilidade. E esquecia que, na verdade, não representava quase ninguém. Estava lá como homem do Partido Comunista do Brasil (PCB), organização na época em formação que pleiteava o direito de ser reconhecida pela Internacional. Mas já estava fora do país havia mais de dois anos, desatualizado quanto aos desdobramentos em curso no Brasil.

Manifestação durante a Revolução Russa, em outubro de 1917Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionManifestação durante a Revolução Russa, em outubro de 1917: sonho de libertação humana acabou virando realidade sangrenta e totalitária, diz colunista

Mas Canellas ganhou o direito de votar no Congresso. E, num ambiente em que as decisões eram sempre aprovadas por unanimidade, ele ousou quebrar o protocolo e votar contra.
E justamente em um voto crucial: sobre o direito da Internacional (ou seja, dos russos) de intervir (na prática, mandar) nos partidos comunistas no mundo todo. Até Lênin, debilitado e quase na fim da vida, via o equívoco de uma organização "inteiramente russa, permeada do espírito russo", quando "a experiência dos camaradas estrangeiros deve diferir da experiência russa".
A história mostra que Canellas tinha razão em votar contra. Mas o seu espírito de independência não seria perdoado.
Em consequência de seu voto, o PCB não foi aprovado pela Internacional, e, na volta para o Brasil, Canellas virou alvo de protestos dos outros membros. Seus colegas rapidamente viraram seus inimigos.
Ele acabou rompendo com o partido, que publicou um manifesto a seu respeito, chamando-o de "traidor, indigno e vil... É necessário dissecar este cadáver. É preciso desnudá-lo, rasgar-lhe o couro mau, desfibrar-lhe as carnes ruins, pôr-lhe as vísceras ao sol, espremer-lhe o figado esgorgitado de torpeza".
Isso em junho de 1924, menos de sete anos depois da revolução. O sonho da emancipação da humanidade já começava a virar um terror, que na União Soviética de Stálin transformou-se em pesadelo prolongado.
Como foi que tudo ruiu tão rapidamente em uma farsa mortal?

Capa de livro sobre Antonio CanellasDireito de imagemREPRODUÇÃO
Image captionCapa de livro sobre Antonio Canellas, o primeiro brasileiro a visitar a Rússia após a revolução

Me parece que passou batida uma observação da pensadora alemã Hannah Arendt: "Os revolucionários não fazem a revolução. Mas eles sabem onde pegar o poder quando está lá no chão".
Isso se aplica muito bem aos eventos de cem anos atrás. Porque, depois da revolução, os comunistas russos andavam que nem pavões, as grandes estrelas do movimento.
Tem uma ironia deliciosa aqui: em abril de 1917, quando Lênin voltou para o país com um projeto de liderar uma revolução comunista, muito deles eram contra. E mesmo depois de convencidos, não foram eles que fizeram a revolução. Uma sociedade arcaica despencou sobre as necessidades de lutar uma guerra moderna.
Tem quem argumente que o que aconteceu cem anos atrás foi mais para um golpe de soldados do que uma revolução no sentido pleno da palavra.
A ideia original de Lênin e Tróstki foi se aproveitar justamente dessa fraqueza para iniciar uma revolução que logo se espalhasse aos países mais avançados. Não rolou. Ter um Estado comunista somente na Rússia era impensável. Mas acabou acontecendo. E a Internacional Comunista virou um veículo para impor um modelo russo em cima de todos os partidos do mundo.
E esse modelo russo foi altamente autoritário - por necessidade. O novo regime estava lutando uma guerra civil a partir de uma posição muito fraca. Se as dificuldades externas eram grandes, as internas eram mais ainda, algo não previsto pelos articuladores originais de comunismo.

Stálin e Lenin durante a Revolução Russa, em 1917Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionStálin e Lênin durante a Revolução Russa, em 1917; 'Como foi que tudo ruiu tão rapidamente em uma farsa mortal?', questiona Vickery

No fim da vida, Friedrich Engels via com otimismo o progresso possível pelo processo democrático. Décadas antes, em 1848, Karl Marx havia escrito sobre a necessidade na revolução de um curto período de ditadura do proletariado. Mas isso numa sociedade onde a classe operária urbana era grande maioria. Na Rússia atrasada, entretanto, eles fizeram parte de uma minoria pequena de uma sociedade de camponeses.
A ditadura do proletariado russo, então, implicou enganar os camponeses - milhares de pessoas - com promessas de terra até o regime novo fosse forte suficiente para os destruir como força independente, os obrigando a virar funcionários de fazendas coletivas. Com custos altíssimos de vida.
O modelo de partido russo - centralizado e autoritário - mostrou-se totalmente inadequado para outras sociedades. Durante décadas, a Internacional Comunista só acumulou fracassos e até facilitou a ascensão nazista na Alemanha.
Antonio Bernardo Canellas não previu tudo isso. Mas, mesmo com a impetuosidade da juventude e seus excessos de ego, enxergou e entendeu os perigos da ausência de debate. No centenário da revolução, merece ser lembrado.
*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

Leia colunas anteriores de Tim Vickery:

domingo, 24 de setembro de 2017

Os riscos de manter o celular e outros dispositivos conectados ao Bluetooth

BBC - Há 4 horas.
Pessoas usando celularesDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNovo método de ataques a dispositivos conectados ao Bluetooth foi descoberto
Deixar o Bluetooth do celular ligado pode parecer inofensivo. No entanto, existem alguns riscos que os usuários nem imaginam.Dias atrás, um grupo de pesquisadores da empresa de segurança Armis encontrou uma nova falha que "afeta quase todos os dispositivos conectados ao Bluetooth".
Segundo a empresa, o problema não atinge apenas smartphones, mas também aparelhos de TV, tablets, computadores portáteis e até automóveis. A falha poderia afetar mais de 5,3 bilhões de dispositivos eletrônicos no mundo.
O problema consiste em um malware (programa malicioso) chamado BlueBorne, que "se expande como o ar" e permite que hackers tomem o controle de aparelhos. Assim, eles conseguem acessar dados pessoais e invadir outros dispositivos conectados.
Além do BlueBorne, há mais riscos vinculados a essa tecnologia, segundo os pesquisadores.
"Nós acreditamos que existam muitas outras vulnerabilidades nas plataformas que usam Bluetooth ainda a serem descobertas", afirmou a empresa Armis.
BluetoothDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionMais recente vulnerabilidade afeta não apenas celulares, mas também computadores, TVs e outros dispositivos que se conectam ao Bluetooth
Confira abaixo alguns dos perigos desse tipo de conexão e como os usuários podem se proteger.

'Bluebugging'

Esse tipo de ataque, considerado um dos mais graves, se aproveita de "bugs" (erros) na identificação do dispositivo para conseguir controlá-lo.
Os objetivos dos hackers vão da ciberespionagem e roubo de dados à propagação de vírus e criação da chamada botnet (grupo de máquinas infectadas).
O Blueborne não necessita de nenhuma ação do dono do aparelho para agir, como o click em um link. Bastam dez segundos para que o dispositivo conectado ao Bluetooth seja "invadido".

'Bluejacking'

Outro dos perigos é conhecido como "Bluejacking" - uma espécie de envio em massa de spam entre aparelhos conectados ao Bluetooth.
Neste caso, o hacker utiliza um protocolo do sistema para enviar mensagens à vítima através de um VCard (cartão eletrônico), uma nota ou um contato. Normalmente, ele nomeia o spam com o nome do próprio dispositivo para ser mais eficiente.
O principal objetivo do método é irritar usuários - ele não é tão nocivo quanto ataques por meio de malware. Mas hackers já desenvolveram ferramentas que conseguem acesso a agendas, mensagens e dados de celulares.
HackersDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionHackers usam conexão Bluetooth para enviar spam, roubar dados e contatos

'Bluesnarfing'

É mais perigoso que o Bluejacking, pois implica necessariamente o roubo de informações. O mais comum é o furto de contatos, mas a ferramenta também pode acessar outros tipos de dados privados em celulares, tablets e computadores, como mensagens e imagens.
Para conseguir, porém, o invasor deve estar a menos de dez metros do equipamento hackeado.

Como se proteger

- Microsoft, Google e Linux liberaram a seus clientes "patches" (espécie de programas que realizam correções em dispositivos com falhas);
- Equipamentos mais modernos podem solicitar um código de confirmação quando alguém tenta se conectar ao dispositivo;
- Configurar o aparelho para o "modo oculto" para que ele se torne invisível a hackers;
- É mais seguro manter o Bluetooth desligado quando ele não está sendo usado de fato.