quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fonte: Revista FORUM.
14/01/2014 8:55 am
EUA: pesquisa em 68 países aponta o país como a maior ameaça à paz no mundo
No entanto, uma visão enraizada na população norte-americana acredita que o país é uma força do bem no planeta e que qualquer ação destrutiva em outros países torna-se tolerável
Por Paul Street, em ZNet | Tradução: Vinicius Gomes
De acordo com uma pesquisa mundial publicada no final de 2013, com 66 mil pessoas em 68 países, conduzida pela Worldwide Independent Network of Market Research (WINMR) e Gallup International, a população mundial enxerga os EUA como a mais significante ameaça no planeta. Os EUA foram eleitos com uma larga margem (24%), enquanto em segundo lugar ficou o Paquistão (8%), seguido da China (6%). Afeganistão, Irã, Israel e Coreia do Norte empataram no quarto lugar (4%) 
 “Um cheque em branco em seu ‘McMundo’”
Foto: “War bonds”, poster de N.C. Wyeth, de 1942
Uma manchete da International Business sobre a pesquisa da WINMR-Gallup pareceu questionar a validade e/ou racionalidade do resultado: “Em pesquisa da Gallup, a maior ameaça à paz mundial é… a  América?”, dizia a manchete. Enquanto, na realidade, a visão mundial quanto ao status dos Estados Unidos como, de longe, a maior ameaça para a paz, deveria ser tudo, menos surpreendente para qualquer observador sério para com a politica externa norte-americana e o cenário internacional. Os EUA representam, afinal de contas, quase metade de todo o gasto militar no mundo. Mantêm mais de mil bases militares em mais de 100 nações “soberanas” por todos os continentes. A administração Obama autoriza a ação das Operações Especiais em 75 a 100 países (a administração Bush contava com 60 em seu final) e conduz regulares ataques letais com drones contra alvos qualificados como terroristas (e um número muito maior de civis inocentes) no Oriente Médio, Sudeste Asiático e África. Mantém também um programa massivo de vigilância global dedicado a eliminar, de fato, a privacidade na Terra – um programa que espionou até mesmo os telefones pessoais de estadistas europeus, incluindo Angela Merkel, na Alemanha. Como o mais famoso jornal alemão, Der Spiegel, escreveu em 1997: “Nunca antes na história moderna um pais dominou totalmente o planeta como os EUA o faz hoje, a América é agora o Schwarzenegger da política internacional: exibindo os músculos, intrusivo e intimidante, os americanos, na ausência de limites impostos por qualquer um, agem como se tivessem um cheque em branco em seu ‘McMundo’”.
Sem pedido de desculpas
Esse Schwarzenegger decidiu fazer as coisas um pouco sozinho no atual milênio. Os EUA, desde o 11 de Setembro, mataram, marcaram e desalojaram milhões ao redor do mundo muçulmano como parte de sua Guerra ao (de) Terror. A violência é sempre conduzida em nome da paz, liberdade, democracia e segurança. Um incidente ilustrativo na guerra norte-americana ao/de terror ocorreu na primeira semana de maio de 2009. Foi quando um bombardeio norte-americano matou mais de 140 civis em Bola Boluk, um vilarejo na província de Farah, no oeste do Afeganistão. Noventa e três dos locais mortos, destroçados pelos explosivos norte-americanos, eram crianças. Apenas 22 eram homens de 18 anos ou mais velhos. Como o New York Times reportou:
“Em uma ligação telefônica colocada no viva-voz na quarta-feira para o parlamento afegão, o governador da província de Farah, Rohul Amin, disse que cerca de 130 civis morreram, segundo o legislador, Mohammad Naim Farahi, ‘o governador disse que os locais trouxeram dois tratores cheio de pedaços de corpo humano para seu escritório, a fim de comprovar as mortes que ocorreram…todos estavam chorando, olhando para a cena chocante’. O sr. Farahi disse que conversou com alguém que conhecia pessoalmente, e tal pessoa havia contado 113 copos sendo enterrados, incluindo muitas mulheres e crianças”.
A resposta inicial do Pentágono do Obama para esse incidente horrível – um entre muitos outros ataques aéreos maciços que mataram civis no Afeganistão e Paquistão desde 2011 – foi jogar a culpa das mortes às “granadas do Talibã”. A secretária de Estado, Hillary Clinton, disse “lamentar” a perda de vidas humanas, mas a administração se recusava a fazer um pedido de desculpas ou reconhecer a responsabilidade dos EUA. Em contraste, Obama havia acabado de oferecer um pedido completo de desculpas e demitir um funcionário da Casa Branca por assustar nova-iorquinos por conta de uma sessão de fotos do Força Aérea Um (o avião presidencial norte-americano) voando baixo sobre Manhathan o que lembrou as pessoas do 11 de Setembro.
A disparidade foi extraordinária: assustar nova-iorquinos levou o presidente Obama a um pedido de desculpas e à demissão de um funcionário da Casa Branca, enquanto matar mais de 100 civis afegãos não requeria o mesmo pedido. Ninguém foi demitido e o Pentágono teve a permissão de seguir com as afirmações absurdas de como os civis morreram – histórias levadas a sério pela mídia. Os EUA, subsequentemente, conduziram uma duvidosa“investigação” do massacre em Bola Boluk que reduziu a contagem de corpos e culpou o Talibã por colocar civis no caminho das bombas norte-americanas.
Filhas e Filhos
Outro claro exemplo do compromisso dos EUA com a paz e a segurança é Fallujah, no Iraque. Em um discurso sobre política externa na véspera do anúncio de sua candidatura à presidência, Barack Obama teve a audácia de dizer que “o povo americano tem sido extraordinariamente determinado. Eles viram suas filhas e filhos morrerem e se ferirem nas ruas de Fallujah”.
Fonte: globalresearch.ca
Essa seleção do lugar foi espantosa: Fallujah foi o local do maior atrocidade de guerra dos EUA – os crimes incluíram o assassinato indiscriminado de milhares de civis, ataques contra ambulâncias e hospitais e praticamente uma completa destruição de uma cidade inteira – pelos militares norte-americanos em abril e novembro de 2004. A cidade foi designada para destruição como um exemplo do incrível estado de terror prometido contra aqueles que ousarem resistir ao poder dos EUA. Em uma descrição:
“Os EUA lançaram dois ataques ferozes contra a cidade usando um poder de fogo devastador à distância, o que minimizou as baixas norte-americanas. Em abril, comandantes militares disseram ter alvejado com precisão forças insurgentes, no entanto, os hospitais locais reportaram que muitos ou a maioria das baixas eram civis, entre elas, mulheres, crianças e idosos…[refletindo uma] intenção de matar civis em geral. Em novembro, ataques aéreos destruíram o único hospital em território insurgente, para garantir que dessa vez ninguém pudesse documentar mortes de civis. As forças dos EUA então entraram na cidade, destruindo virtualmente tudo. Após isso, Fallujah parecia a cidade de Grozny, na Chechênia, quando as tropas de Vladimir Putin deixaram a cidade em escombros.
O uso de material radioativo nos ataques dos EUA em Fallujah ajudou a criar uma epidêmica mortalidade infantil, defeitos de nascimento, leucemia e câncer.
A cidade de Fallujah foi apenas um episódio especialmente ilustrativo de um vasto arco criminal de uma invasão que matou prematuramente pelo menos um milhão de civis iraquianos e deixou o país como “uma zona de desastre em uma escala catastrófica, dificilmente comparável na memória recente”.
 “Então jogue-os em Guantánamo”
Lawrence Wilkerson é um ex-combatente que já serviu como chefe de gabinete do então secretário de Estado Colin Powell. Conversando com o jornalista investigativo Jeremy Scahill, ele descreveu uma típica operação das forças especiais durante a ocupação do Iraque: “Você entra lá e colhe algumas informações e você diz ‘Oh, isso é realmente uma boa informação para ser usada como ataque. Aqui está a Operação Trovão Azul. Vá cumpri-la’. Então eles vão e matam 27, 30, 40 pessoas, que seja, e capturam sete ou oito. Depois você descobre que a informação era ruim e você matou um bando de gente inocente e que também você tem um monte de inocentes presos em suas mãos, então jogue-os em Guantanamo. Ninguém nunca saberá a respeito e então você prossegue para a próxima operação”. Realmente, um cheque em branco.
A Estrada da Morte em 1991 e outras maneiras de se matar
Em 1991, na primeira vez que os EUA estiveram no Iraque, as forças norte-americanas massacram dezenas de milhares de soldados iraquianos que já haviam se rendido e estavam saindo do Iraque, entre 26 e 27 de fevereiro daquele ano, no que ficou conhecido como “A Estrada da Morte”.
Além da violência física direta, existem outras maneiras de se matar também. Cinco anos após a Estrada da Morte, a secretária de Estado, Madeline Albright, disse ao programa 60 Minutos da CBS, que a morte de 500 mil crianças, devido às sanções impostas pelos EUA ao Iraque era um “preço que valia a pena pagar” para a continuidade dos objetivos norte-americanos.
Mantendo a “máquina de matar rodando”
Qualquer um que pense que a selvageria imperialista dos EUA entrou em algum tipo de misericordiosa pausa por conta da chegada de Barack Obama está vivendo em um mundo de fantasias. Obama pode ter tido a tarefa de acabar com as guerras que falharam no Iraque e no Afeganistão (o mesmo trabalho teria caído nos colos de McCain, caso eleito), mas xpandiu drasticamente a intensidade e o escopo da guerra com drones e a presença de tropas de forças especiais ao redor do mundo. Como o corajoso jornalista Allan Nairn destacou, Obama manteve a gigantesca e imperial “máquina de matar rodando”.
Foto: Mandel Ngan, AFP/Getty Image
O tom foi definido logo no começo, com Obama autorizando dois grandes ataques com drones no Paquistão em seu quarto dia como presidente. O primeiro ataque “matou de sete a quinze pessoas, todas elas praticamente civis”. O segundo “atingiu a ‘casa errada’ e matou de cinco a oito civis”, incluindo duas crianças. Menos de seis meses depois, mais um dos “ataques precisos com drones” atingiu um funeral e matou “inúmeros civis – com idades de 18 a 55 anos”. Em outubro de 2009, Scahill reportou: “Obama já autorizou, em 10 meses, a mesma quantidade de ataques com drones que Bush fez em seus oito anos de mandato”. Uma fonte militar contou a Scahill sobre uma operação de assassinato padrão das forças especiais na era Obama: “Se existe uma pessoa que eles estão atrás, mas no mesmo local estão outras 34, então 35 pessoas irão morrer”.
“Os Estados Unidos são os do bem”
Na semana passada, uma radialista do Irã me perguntou se eu pensei que a pesquisa do WINMR-Gallup iria incitar qualquer repercussão anti-imperial por parte dos cidadãos norte-americanos, eu tive que dizer que não, por três razões. Primeiro, por ter sérias dúvidas que qualquer parte da mídia dominante nos EUA iria prestar atenção a uma pesquisa que tivesse tido como resultado algo que eles considerariam radicalmente inconsistente com a já habitual ideia que os EUA são uma força de paz e estabilidade no mundo. Segundo, porque pesquisas similares já haviam sido – fracamente – reportadas em outras ocasiões e pouco impacto tiveram na opinião pública e na orientação política nos EUA, que permanece indiferente às visões que outras pessoas têm sobre a parte ruim do poder dos EUA.
Por ultimo, porque mesmo se a pesquisa e o que as pessoas no exterior pensam tivessem mais espaço na mídia norte-americana, parece irreal pensar que mais do que uma pequena minoria de cidadãos estejam prontos para aceitar a noção de que os EUA são realmente uma ameaça para a paz mundial, muito menos a maior ameaça. Considerando as reflexões do antigo correspondente internacional do New York Times Stephen Kinzer sobre as ações dos EUA na anexação do Havaí e das Filipinas, seu domínio sobre Porto Rico e seus golpes de Estado na Nicarágua e Honduras nos finais dos séculos 19 e 20:
“Por que os norte-americanos apoiam políticas que trazem tanto sofrimento às pessoas em terras estrangeiras? Existem duas razões para tal que, de tão interligadas, se tornam uma. A razão essencial é que o controle dos EUA em lugares distantes veio a ser visto como essencial para a prosperidade material dos EUA. Essa explicação, entretanto, está amarrada dentro de outra: a crença mais profunda da maioria dos norte-americanos de que o país deles é uma força para o bem no mundo. Então, consequentemente, até mesmo a mais destrutiva das missões em que os EUA embarcam para impor sua autoridade é tolerável. Gerações de políticos norte-americanos e líderes empresariais reconheceram o poder da nobre ideia do excepcionalismo dos EUA. Quando eles intervêm no exterior por razões estúpidas e egoístas, eles sempre insistem que, no final, suas ações irão beneficiar não apenas os EUA, mas também os cidadãos do país ao qual estão invadindo e, assim, por extensão, as causas da paz e da justiça no mundo”.
Esse problema do “excepcionalismo dos EUA” – a crença doutrinal de que os objetivos e comportamento dos EUA são inerentemente benevolentes, bem-intencionados e um bem para o mundo – permanece profundamente enraizado mais de um século depois. E é a principal razão para que as pessoas no mundo inteiro estejam corretas em identificar os EUA como a maior ameaça à paz no mundo. Nada é mais perigoso – e maléfico – que uma única superpotência militar que enxerga a si mesma além de qualquer reprimenda moral. Basta ler, a respeito disso, as seguintes declarações nacionalistas e narcisistas quanto à política externa norte-americana, tanto no partido democrata, quanto no republicano: “Um mundo uma vez dividido entre dois campos armados agora reconhece uma única e dominante potência, os Estados Unidos da América, e eles reconhecem isso sem temor, pois o mundo confia a nós com poder e o mundo está certo. Eles confiam em nós para sermos justos e comedidos. Eles confiam em nós para estar do lado da decência. Eles confiam em nós para fazermos o que é o certo”.  - Presidente George H.W. Bush, 1992.
“Quando eu fui eleito, eu estava determinado que nosso país entrasse no século 21 sendo ainda a maior força de paz e liberdade no mundo. Pela democracia, segurança e prosperidade”.  - Presidente Bill Clinton, 1996.
“A América foi escolhida para o ataque porque somos o mais brilhante raio da liberdade e oportunidade no mundo… Hoje, nossa nação viu o mal… Nossa força militar é poderosa e está preparada, nós iremos em frente para defender a liberdade e tudo o que é bom e justo em nosso mundo”. – Presidente George W. Bush, 11 de setembro de 2001.
“Nós lideramos o mundo combatendo males imediatos e promovendo o bem… A América é a última, a maior esperança da Terra… O maior propósito da América no mundo é promover e espalhar a liberdade. O momento americano não passou… Nós iremos aproveitar esse momento e renovar o mundo”.  - Candidato à presidência, Barack Obama, 23 de abril de 2007.
“Nossa segurança emana da justeza de nossa causa; a força de nosso exemplo; as qualidades moderadas de nossa humildade e comedimento”.  - Presidente Barack Obama, 20 de janeiro de 2009.
 “Os moralistas que pensam que não têm pecados”
Lendo essas declarações e considerando o quão criminosa, racista e imperial é a realidade da política externa dos EUA nesse e em outros séculos, pode-se pensar no que o M. Scott Peck, psicoterapista e autor do estudo do mal no ser humano, disse:
“O mal no mundo é cometido pelos moralistas que acham que não possuem pecados, pois não estão dispostos a sofrer do desconforto da autocrítica. Seu pecado mais básico é o orgulho – pois todos os pecados são reparáveis exceto o pecado de acreditar que não possui pecado. Uma vez que eles têm que negar sua própria maldade, é necessário enxerga-la nos outros. Eles projetam sua própria maldade no mundo”.
Isso soa como uma reflexão sobre a retórica norte-americana quanto ao “excepcionalismo dos EUA”. Quando combinada com o histórico alcance do poder militar norte-americano, o paralelo sugere que as pessoas no mundo estão perfeitamente certas em identificar a moralidade dos EUA como a maior ameaça à paz no planeta Terra.
O estudo de Peck, obviamente, era sobre indivíduos e não estruturas de poder. Até onde se sabe, Barack Obama é um indivíduo perfeitamente moral e caridoso em relação a sua família e amigos (o mesmo vale para George W. Bush).  Mas isso é irrelevante quando se fala de assuntos internacionais, onde o papel do presidente dos EUA e seus assessores de alto escalão é avançar no – encharcado de sangue – projeto imperial norte-americano, sob um pretexto de intenção benevolente e uma forma maligna e narcisista chamada de “excepcionalismo norte-americano”.
O mundo, claramente, não é mais enganado pela grande modificação de Obama quanto ao “Schwarzenegger da política internacional”. Ele entende, corretamente, que o primeiro presidente pós-Bush, eleito com as palavras “esperança” e “mudança”, não é nada mais do que um represente novo do império usando roupas velhas.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

José D. Costa seria o "seu Costa" dos anos 60 que foi a Catolé do Rocha divulgar o marxismo aos estudantes? Leiam a matéria publicada no Jornal de Hoje de Natal/RN.

Aos 81 anos, José Dantas Costa abre o baú para resgatar memórias

Por mais de 50 anos ele alimentou o sonho de transformar a realidade de camponeses esfomeados com um socialismo tropical

José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Foto: Divulgação
José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Foto: Divulgação
Conrado Carlos
Editor de Cultura
A menos de setecentos metros de alguns dos principais templos religiosos e capitalistas de Natal (a Igreja Universal da Salgado Filho, o Natal Shopping e a Arena das Dunas), mora um ex-comunista. Mas um ex-comunista de fato, com serviços prestados ao partidão em diversas unidades da Federação, com inúmeras prisões no currículo e uma histórica ocupação das margens da rodovia Belém-Brasília, a BR-010, com seus quase dois mil quilômetros de extensão, construída no final dos anos 1950. Hoje um homem com 81 anos de idade, de frágil compleição e traços fidalgos, herdados de antepassados portugueses, franceses e holandeses, José Dantas Costa um dia foi Pavel, um dos dirigentes da seção paraense do PCB. Por mais de cinquenta anos ele alimentou o sonho de transformar a realidade de camponeses esfomeados com um socialismo tropical inspirado na Revolução Popular de Mao Tsé-tung.
Ainda criança, viu com os próprios olhos a semiescravidão que senhores de engenho alagoanos impunham aos trabalhadores de pele escura. Ao abandonar a utopia da juventude, decepcionado com a corrupção de antigos companheiros, adotou a poesia, a fotografia e viagens pelo mundo como novas bandeiras. Em pouco menos de três décadas, percorreu dois terços do planeta em andanças existenciais.
Corria o ano de 1932 e Marechal Deodoro, a primeira capital de Alagoas que, ironicamente, tomou emprestado o nome do primeiro presidente do Brasil vivia um clima pesado, com famílias tradicionais em pé de guerra.
Uma época violenta, em que disputas por terra e pela honra terminavam em mortes com revide garantido. Foi nesse ambiente que Sr. Dantas nasceu. Mal chegou à adolescência e seus pais o enviaram a Maceió, já promovida ao posto de maior município de um dos Estados mais pobres do país. A casa de um tio foi seu destino. Foi matriculado em uma escola industrial e mantido longe de outro irmão de seu pai que comandava as ‘ideias revolucionárias’ no núcleo familiar.  “Eu entrei cedo no Partido Comunista. Ainda estava na escola. Com o avanço dos direitos sociais que Getúlio Vargas copiou do fascismo italiano, vi que a vida dos camponeses poderia ser bem melhor. E como em minha família tinham vários membros do PC, foi um caminho natural que segui”. Os meros 15 anos vividos forneciam a disposição para intercalar agitações de rua com anseios púberes que o levaram à farra. “Garotos do interior sempre foram mais vivos, por isso eu perdi a virgindade muito jovem”.
Em outubro de 1947 o Brasil rompeu relações com a União Soviética e ser comunista virou um tormento. Surpreso com a vigente caçada, Sr.
Dantas estreou em uma prisão. Participava de uma movimentação na Maceió de antanho quando a polícia o prendeu. Foram quinze dias atrás das grades, para desespero de seus pais. “Aquilo foi um desastre na família. Eu era muito querido por todos, mas tinha fama de rebelde.
Quando fui preso foi como se confirmassem tudo o que pensavam a meu respeito”. O fato virou um marco zero na carreira de militante de esquerda. Nos anos subsequentes, perdeu a conta de quantas vezes visitou cadeias pútridas. “Só em 1964 foram oito vezes”. Abraçado pelo PC, ele virou uma espécie de enviado especial em vários Estados, aonde chegava com a obrigação de desenvolver a organização do partido, obcecado por três pilares pessoais: resistência, conhecimento e dedicação. Para tanto, estudos aprofundados em política e filosofia os credenciaram como peça indispensável no topo da estrutura. Peregrinou temporadas por Vitória, Salvador, Recife e Rio de Janeiro e despertou para a poesia, ao começar a publicar escritos nos jornais sob domínio da Esquerda. Até que o mandaram para Belém do Pará, um lugar então inóspito que seria sua casa pelos próximos trinta e dois anos.
“Naquela época, recebíamos cursos do Partido. Só que não tinha nada de guerrilha, eram cursos intelectuais. Sempre foi uma de minhas premissas, a da não violência. Ocupávamos terras no Pará, mas sem armas, sem agredir ninguém”. Em plena selva Amazônica, o jovem revolucionário aproveitou a fartura de atrativos carnais que todo pedaço de chão distante da civilização tem a oferecer. “Eu caí na gandaia na Amazônia”. Logo ele foi promovido a membro dirigente, o que permitiu sentar à mesa de negociações com gestores paraenses. Era um trabalho de difícil assimilação para os nativos, pois vigorava uma falta de consciência política, para quem os brasileiros apartados dos acontecimentos nacionais e internacionais. Mesmo assim, uma epopeia com 30 mil camponeses foi armada às margens da estrada recém-construída para ligar a capital Belém à cidade projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer. “Eu falo isso, mas tem gente que acha que é mentira: reunimos trinta mil trabalhadores e ocupamos faixas de terra por toda a rodovia” – durante quatro anos, Sr. Dantas respondeu um processo devido ao episódio, livrando-se apenas ao entrar com recurso no Superior Tribunal Militar. Trabalhava na Petrobras, tinha separado da primeira mulher, com quem teve dois filhos, no momento em que topou vir a Natal.
“O PC no Pará era romântico e um das seções mais avançadas no Brasil. Achávamos realmente que iríamos mudar tudo”. Pavel, ou Sr. Dantas, chega ao Rio Grande do Norte para ocupar um cargo de almoxarife na Petrobras. Sustentou a militância por um tempo, só que desde o Pará tinha perdido o vigor. “O Partido não merecia mais confiança. Podiam nos chamar de tudo, de agitadores, radicais, tudo, menos de que fazíamos parte de algum esquema de roubo e corrupção”. Veio o desencanto que pegou parcela expressiva dos outrora comunistas. Sem ideologia a seguir, concentrou-se nos poemas e foi curtir a aposentadoria ao lado da segunda esposa, a advogada Aninha – mulher de fibra que se divide entre Natal e Belém, onde cuida da mãe enferma. Os temas de seus versos são variados, o que inclui críticas bem humoradas à política atual.
Com um livro preste a ser lançado, ele é moderado ao analisar o governo do PT. “Não existe governo que não tenha coisas positivas. O PT tinha um bom caminho para percorrer, mas houve absurdos nos acordos que o Lula fez. Esse tipo de coisa [acordos com partidos distintos] sempre foi tendencioso para casos de corrupção. Mas sem o apoio dos outros ele jamais poderia governar”.
Filho de uma geração que esnobou seus poetas, Sr. Dantas trava uma luta contra a DMRI, a Degeneração Macular Relacionada com a Idade, uma doença que pode causar cegueira. Seus olhos azuis estão gradativamente sendo atingidos na área nobre e central da retina. A captação de detalhes visuais tem sido cada vez mais difícil. O tratamento tem lhe custado caro no bolso e na paciência. Enquanto isso, novas viagens estão programadas para 2014. Há cerca de um mês ele voltou da Colômbia e do Panamá, e agora planeja conhecer o Equador, uma das poucas nações latino-americanas ausentes de sua lista. “Dizem que o comunista ficou rico”, fala com o sorriso aberto. Como em um poema, cuja manifestação artística parte da fantasia, da verdade ou da pura sensibilidade estética, a trajetória de José Dantas Costa manteve uma estrutura parecida com a rima e a métrica dos melhores versos. Ora alegre, ora triste, como no câncer mortal que vitimou a mãe dos dois filhos, sua vida daria um livro, talvez escrito por Graham Greene, ou um filme de 007. “Como na linguagem política, tudo tem vitórias e atrasos. Existe muita coisa que ainda quero observar e estou totalmente dedicado ao tratamento e pesquisas sobre a doença”.
 
Blog
Ontem o governo cubano divulgou dados sobre a mortalidade infantil na ilha em 2013. Segundo a mídia oficial, foi mais uma vitória na área da saúde, o que sempre foi destacado por eles, desde que chegaram ao poder, 55 anos atrás. Só esqueceram de combinar com Pedro Juan Gutiérrez, um de meus escritores prediletos. No blog (conradocarlos.jornaldehoje.com.br) eu fiz um breve comentário sobre sua obra e como ele retratou o Período Especial, a meia década (1991-1994) mais brutal já vivida pelos conterrâneos de Fidel Castro.
Circuito Verão
A capital do Seridó será a primeira cidade a receber o Circuito Verão, projeto realizado pelo Sistema Fecomércio RN, através do Sesc. Neste final de semana (04 e 05), na bonita Ilha de Santana, das 8h às 22h, com entrada gratuita, uma série de atividades esportivas e culturais, além de serviços na área d

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

UOL entrevista capitão Gary, o militar que prendeu CHE GUEVARA.

"Fiz coisas mais importantes na vida", diz militar que capturou Che Guevara

Marcel Vincenti
Do UOL, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
  • Marcel Vincenti/UOL
    O então capitão Gary Prado prendeu Che Guevara no interior da Bolívia em 8 de outubro de 1967
    O então capitão Gary Prado prendeu Che Guevara no interior da Bolívia em 8 de outubro de 1967
Na madrugada do dia 8 de outubro de 1967, ao receber a denúncia de que guerrilheiros andavam pela região da Quebrada del Yuro, o capitão da 8ª divisão do Exército boliviano, Gary Prado, não pensou duas vezes: arregimentou rapidamente 50 de seus melhores homens e os conduziu até o topo do cânion no qual, de fato, encontravam-se Che Guevara e parte de seu grupo armado, que havia quase um ano tentavam implantar um foco revolucionário no coração da América do Sul.
Após intensa troca de tiros, Che foi preso e conduzido por Prado ao vilarejo de La Higuera, onde foi executado a mando do então presidente da Bolívia, René Barrientos. 
Hoje com 74 anos, o agora general reformado ainda parece uma pessoa de prontidão para o combate – seja ele feito com armas ou palavras. Preso há mais de 30 anos a uma cadeira de rodas, devido a um projétil que destruiu sua espinha durante um evento militar (em um acidente nunca esclarecido), ele mostra-se um homem frio e de consciência tranquila: descreve com humor a ocasião em que, em 1968, quase foi assassinado por um grupo esquerdista no Rio de Janeiro (que queria vingar o guerrilheiro argentino) e rejeita com um sorriso irônico a "maldição do Che", à qual é atribuída a morte violenta de vários militares envolvidos na captura do revolucionário.
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Conheça o roteiro turístico que refaz as trilhas de Che Guevara na Bolívia28 fotos

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Busto gigante de Che Guevara adorna a praça central de La Higuera, o remoto vilarejo boliviano no qual o guerrilheiro argentino foi executado em 9 outubro de 1967 Leia maisMarcel Vincenti/UOL
A mesma atitude é adotada na hora de explicar a atual acusação que pesa sobre ele: a de participar de um complô em 2009, organizado por membros da elite de Santa Cruz (que supostamente buscavam separar a província da Bolívia), para matar o atual presidente boliviano, Evo Morales. "Não tive nada a ver com isso, e o governo fica me chamando de terrorista". 
Prado exibe diversas condecorações do Exército boliviano e já foi embaixador do país no México e na Inglaterra. Na parede de sua casa na cidade de Santa Cruz de la Sierra, aparece em uma foto dando a mão para o papa João Paulo 2º.  "Fiz coisas mais importantes na vida do que capturar Che Guevara", afirma ele. 
Qual foi a reação de Che Guevara no momento em que ele se viu capturado?
Eu tenho duas imagens do Che neste momento. A primeira é a de um homem acabado, que se rendia. Muita gente me pergunta: o que você sentiu quando se viu na frente do Che? E eu digo: me deu pena. Era um homem em péssimo estado físico, com a roupa suja, e seu estado de ânimo não era melhor. Ele estava totalmente deprimido. Nas horas em que combateu nossos soldados, Guevara viu morrer vários de seus companheiros e, quando já estava sob nosso controle, me disse: "isso está acabado".  Porém, curiosamente, ao perceber que o tratávamos bem, seu estado de ânimo melhorou. Foi nesse momento em que ele começou a se preocupar com seu futuro e a perguntar o que iríamos fazer com ele. Nesse momento não havia nenhuma instrução do que não deveríamos fazer com os prisioneiros e minha resposta foi simples: você será julgado em Santa Cruz de la Sierra, que é a sede do comando da divisão que o capturou. Ele provavelmente imaginou que seu julgamento se transformaria em uma causa célebre. São essas as duas imagens que tenho dele naqueles instantes: o homem deprimido logo após a captura e uma pessoa mais otimista em La Higuera.  
Como foi a última vez em que o senhor viu Che Guevara vivo?
Foi manhã do dia 9 de outubro, quando chegou a La Higuera de helicóptero o comandante da minha divisão, o coronel Joaquín Zenteno. Eu lhe entreguei meus dois prisioneiros [Che Chevara e o boliviano Simeón "Willy" Sanabria] e os materiais capturados na operação. Zenteno me pediu para levá-lo até a zona em que havíamos prendido os guerrilheiros. Após observar a área, ele me disse que tinha que falar com La Paz e voltou a La Higuera. Eu fiquei perto da Quebrada del Yuro, pois tinha que fazer uma varredura para acabar com os guerrilheiros que ainda restavam na zona. Matamos mais dois guerrilheiros em um combate e então regressamos a La Higuera. Quando chegamos ao vilarejo, um major veio até mim: "o Che foi executado. Ordens de La Paz". Durante todo o dia, havia um helicóptero transportando corpos de soldados e guerrilheiros entre La Higuera e Vallegrande, e a ordem do coronel Zenteno era que o corpo de Che fosse levado na última viagem. O cadáver dele já estava sendo amarrado aos patins do helicóptero. Eu me aproximei do corpo e amarrei meu lenço em volta de sua mandíbula, para que seu rosto não deformasse. Ele ficou parecendo com uma pessoa com dor de dente. Essa é a última imagem que eu tenho dele, o momento em que ele partia no helicóptero.
O senhor acredita na "maldição do Che", que teria ocasionado a morte de várias pessoas envolvidas em sua captura [como o coronel Joaquín Zenteno, assassinado em Paris em 1976, e o próprio presidente René Barrientos, morto em um acidente aéreo em 1969]?
[Sorrindo e balançando a cabeça negativamente] Isso é um disparate.
  • Arquivo pessoal/Gary Prado
    Gary Prado em 1967, durante a campanha que capturou Che Guevara na selva boliviana
E o que o exatamente aconteceu no Rio de Janeiro em 1968, quando um grupo armado de esquerda assassinou um militar alemão pensando que era o senhor?
Em 1967, eu havia recebido uma bolsa para fazer um curso na Escola de Estado Maior do Brasil, na Praia Vermelha. Eu vivia em Copacabana e estudava com oficiais de vários países, como argentinos, paraguaios, portugueses, italianos. E havia um alemão, que vivia perto de mim. Um dia, vestidos como civis, pegamos o ônibus juntos. Eu desci primeiro e ele desceu umas duas quadras depois. O que sabemos é que, no momento em que ele se aproximava de sua casa, dois homens apareceram entre os carros e dispararam diversos tiros contra ele. Quando souberam da história, os oficiais da Escola Maior foram até minha casa para me levar para um lugar seguro. Uma das possibilidades levantadas foi a de que os assassinos o tinham confundido comigo, que o atentado deveria ser feito contra mim. Mas isso nunca foi comprovado e minha vida continuou relativamente normal. De qualquer modo, eu tive uma vantagem, pois comecei a morar dentro do edifício militar da Praia Vermelha, junto com oficiais brasileiros, o que me fez poupar pelo menos três anos de aluguel no Brasil. Recentemente, em 1999, um colega me ligou dizendo: "O 'Fantástico', da Rede Globo, está mostrando uma reportagem sobre as pessoas que tentaram te matar e haviam se enganado". Ele me mandou uma gravação e lá estavam os caras que tentaram me matar, que supostamente pertenciam a uma célula comunista.
Hoje o senhor é um general reformado com uma longa carreira no Exército e no governo boliviano. O senhor gosta de ser recordado principalmente como o homem que capturou Che Guevara?
Na minha vida, fiz coisas mais importantes do que capturar Che. Mas isso é algo com que eu tenho que me acostumar a viver, certo? Neste escritório [apontando para dezenas de retratos nas paredes], sempre ouço a mesma pergunta: 'mas como você não tem nenhum foto do Che aqui?'. E a minha resposta é a mesma: por que vou ter uma foto do Che aqui? Fiz coisas mais importantes na minha vida. Mas tenho muitos livros publicados sobre ele, como referência.
Como seriam a Bolívia e a América do Sul caso a guerrilha de Guevara tivesse tido êxito?
Um governo dessa natureza não teria sobrevivido na Bolívia, que não tem saída para o mar e na época estava rodeada de ditaduras militares [de direita]. É impossível pensar que uma guerrilha de esquerda conseguiria tomar o poder na Bolívia. Nossas fronteiras e espaço aéreo seriam fechados, ninguém mais iria entrar aqui. Era uma utopia, um sonho complicado. Por outro lado, o que Cuba fez com o Che foi uma traição: o abandonaram. O governo de Fidel Castro o mandou para a Bolívia para se livrar dele. Em 1965, Fidel leu publicamente a carta em que Che se despedia de Cuba e renunciava a seus cargos no governo da ilha. Naquele momento, Che estava conduzindo uma guerrilha na República Democrática do Congo e li [em um relato escrito pelo guerrilheiro cubano Daniel Alarcón Ramírez, que acompanhava Che na empreitada], que Guevara ficou furioso ao saber da publicação de sua carta. Ele queria que essa carta só fosse publicada caso ele fosse morto no Congo, para que Cuba fosse isentada de qualquer responsabilidade de intervenção no país africano. Isso fechou seu caminho de volta a Cuba, pois ele havia renunciado a tudo. E a mesma coisa aconteceu quando ele chegou a Bolívia: ele teve pouquíssimo suporte de Cuba para conduzir sua guerrilha.     
  • Arquivo pessoal/Gary Prado
    Che Guevara sob custódia no vilarejo de La Higuera, momentos antes de ser executado
Escolher o Sudeste da Bolívia como área de operação da guerrilha foi um erro?
A população dessa região já era dona de suas terras e nunca havia sido oprimida como o foram os mineiros bolivianos, por exemplo, que se encontram em outras regiões da Bolívia. Além disso, é uma área que concentrava muitos ex-combatentes da Guerra do Chaco [conflito territorial sangrento ocorrido entre Bolívia e Paraguai de 1932 a 1935], todos extremamente nacionalistas e zelosos de seu território. O Che não iria conseguir nunca recrutar essa gente para sua guerrilha. Além disso, a partir de 1964, o presidente René Barrientos conduzia um programa chamado "Ação Cívica", em que o Exército fazia diversos trabalhos sociais para a gente do campo. Os camponeses gostavam do Exército e viraram delatores do movimento guerrilheiro.     
Matar Che Guevara foi a melhor decisão?
Nesse momento [após ele ser capturado] não me pareceu a melhor decisão. Mas foi algo compreensível. Em 1976, o general Alfredo Ovando [que comandava o Exército da Bolívia em 1967] me contou como foi a reunião com o presidente Barrientos que decidiu o destino de Guevara. Eles consideraram um julgamento, mas logo descartaram a ideia, pois seria um show midiático. Além disso, em um julgamento, Guevara teria que ser condenado a pelo menos a 30 anos de prisão, pois ele tinha invadido a Bolívia e matado diversos soldados bolivianos. E onde prendê-lo? Na época, as cadeias na Bolívia mal tinham paredes, só ficava preso quem queria. Seguramente iríamos ter que lidar com diversas tentativas para libertá-lo. Seria um fator de agitação permanente. Assim que a conclusão do alto poder foi a seguinte: era necessário executá-lo.
Mas isso também criou um mártir...
O procedimento da execução foi errado. Nós [diversos oficiais presentes em La Higuera] não fomos consultados sobre qual era a melhor forma de sair daquele impasse. Não tínhamos ordem para matar Che no momento em que o capturássemos e diversos camponeses o viram saindo vivo da Quebrada del Yuro e caminhando em direção a La Higuera. O governo quis informar que Che havia sido morto em uma troca de tiros, mas todos já sabiam que isso não tinha acontecido. Ter sido capturado em combate e morto em uma escolinha em um lugar isolado da Bolívia contribuiu para a criação do mito em torno dele.  

50 anos da resistência dos camponeses de Mari.


Notícia enviada por Roberto Monte. 50 ANOS DA RESISTÊNCIA DE MARI Neste dia 15 de janeiro de 2014, presta-se uma justa homenagem aos camponeses de Mari, que, há exatos 50 anos, estando ordeiramente lavrando e semeando a terra, resistiram heroicamente à agressão armada pelos latifundiários. Na ocasião, tombaram: o líder sindical Antonio Galdino da Silva e os camponeses José Barbosa do Nascimento, Pedro Cardoso da Silva e Genival Fortunato Félix. Entre muitos feridos, lembramos os nomes de Antonio Galdino Pessoa e Manoel Fernandes da Silva. O COMITÊ PARAIBANO MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA, entidade civil que reúne professores, estudantes, profissionais liberais, representantes sindicais e dos movimentos sociais, convida todos, especialmente a população do Município de Mari, para participar dos atos públicos que serão realizados em homenagem aos heróis desta resistência. PROGRAMA 9 horas – Abertura Oficial - Ginásio de Esporte O Marcão – BR-073, km 21 – Entidades organizadoras e convidados. Coordenação: Rafael Freire Santana, Gleyson Ricardo Melo e Athamir Araújo. Palestra As Ligas Camponesas - Antonio Augusto Homenagem aos familiares - Antônio Galdino da Silva, Pedro Cardoso da Silva, Genival Fortunato Felix e José Barbosa do Nascimento. Coordenação: Victor Figueiredo, Marlene Almeida e Nazaré Zenaide. Lançamento do Cordel Resistência em Mari – Medeiros Braga. Coordenação: José Emilson Ribeiro e Antonio Augusto Atividades Culturais com cantadores, emboladores e capoeira – Fundação Cultural de João Pessoa – Coordenação: José Emilson Ribeiro e Igor 12 horas – almoço 14 horas - Caminhada da Resistência ao local do conflito. Coordenação: Marquinho, Felipe e Victor Ato religioso com a participação de Pe. Bosco – Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos. Coordenação: Josália Gomes do Vale e Adarlan (MST), Antonio Severino (Paróquia de Mari) e Guiany (CEDH). Ato Político com lideranças sociais locais e nacionais - Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mari. Coordenação: José Calistrato e Gleyson Ricardo Melo (CPMVJ) e José Martins (Sindicato Rural de Mari). Apoio: Prefeitura Municipal, Câmara Municipal e do Sindicato Rural de Mari, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato dos Bancários, Sindifisco, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Sindicato dos Jornalistas, Associação Cultural José Martí (ACJM), Associação Paraibana dos Amigos da Natureza (APAN), Levante Popular da Juventude, Consulta Popular, Movimento do Espírito Lilás (MEL), Centro de Referência dos Direitos Humanos, Partido Comunista Revolucionário (PCR), Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE, Ação Libertadora Nacional - ALN.

Fim da conversa no bate-papo

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

EUA sugeriram intervenção militar para tirar Jango do poder, diz site
SÃO PAULO - Documentos do período da ditadura militar revelam que o então presidente dos Estados Unidos John Kennedy (1917-1963) sugeriu intervenção militar no Brasil para depor o então presidente brasileiro João Goulart (1919-1976).
As informações foram reunidas pelo jornalista Elio Gaspari, autor de uma série de livros sobre o período, e publicadas pelo site "Arquivos da Ditadura", que estreou nesta segunda-feira, 6. Gaspari é jornalista e colunista dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.
A pergunta do então presidente norte-americano foi feita durante uma reunião na Casa Branca e revela que os EUA cogitaram participação do país no golpe de 1964 contra Goulart.
Além desse documento, o site também contém bilhetes, despachos, discursos e manuscritos de conversas dos principais personagens da ditadura juntados por Gaspari ao longo dos últimos 30 anos e que lhe serviram de base para a publicação de livros sobre o período - "A Ditadura Envergonhada", "A Ditadura Escancarada", "A Ditadura Derrotada", e "A Ditadura Encurralada".
As quatro obras de Gaspari serão relançadas em fevereiro pela editora Intrínseca, a mesma que elaborou o site.
Em dezembro, o Congresso Nacional devolveu o mandato do ex-presidente João Goulart num ato simbólico que contou com a presença da presidente Dilma Rousseff e outras autoridades. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pediu desculpas "pelas inverdades praticadas pelo Estado brasileiro" contra um "patriota".
Um mês antes, os restos mortais de Goulart foram exumados para investigações sobre a causa de sua morte. Familiares e o governo federal suspeitam de que ele não tenha sido vítima de infarto, como foi divulgado na época. Para eles, Jango teria sido morto por agentes ligados ao regime militar. 
Fonte: estadao.com.br

domingo, 29 de dezembro de 2013

Roberto Amaral » CARTA ABERTA AO POVO DO BRASIL, por Edward Snowden

Publicada na Folha de São Paulo em 17/12/2013
Por: EDWARD SNOWDEN
Edward Snowden
Seis meses atrás, emergi das sombras da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA para me posicionar diante da câmera de um jornalista. Compartilhei com o mundo provas de que alguns governos estão montando um sistema de vigilância mundial para rastrear secretamente como vivemos, com quem conversamos e o que dizemos.
Fui para diante daquela câmera de olhos abertos, com a consciência de que a decisão custaria minha família e meu lar e colocaria minha vida em risco. O que me motivava era a ideia de que os cidadãos do mundo merecem entender o sistema dentro do qual vivem.
Meu maior medo era que ninguém desse ouvidos ao meu aviso. Nunca antes fiquei tão feliz por ter estado tão equivocado. A reação em certos países vem sendo especialmente inspiradora para mim, e o Brasil é um deles, sem dúvida.
Na NSA, testemunhei com preocupação crescente a vigilância de populações inteiras sem que houvesse qualquer suspeita de ato criminoso, e essa vigilância ameaça tornar-se o maior desafio aos direitos humanos de nossos tempos.
A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria “segurança” –em nome da “segurança” de Dilma, em nome da “segurança” da Petrobras–, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas. E o fizeram sem pedir a permissão da população de qualquer país, nem mesmo do delas.
Hoje, se você carrega um celular em São Paulo, a NSA pode rastrear onde você se encontra, e o faz: ela faz isso 5 bilhões de vezes por dia com pessoas no mundo inteiro.
Quando uma pessoa em Florianópolis visita um site na internet, a NSA mantém um registro de quando isso aconteceu e do que você fez naquele site. Se uma mãe em Porto Alegre telefona a seu filho para lhe desejar sorte no vestibular, a NSA pode guardar o registro da ligação por cinco anos ou mais tempo.
A agência chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal ou visita sites de pornografia, para o caso de precisarem sujar a reputação de seus alvos.
Senadores dos EUA nos dizem que o Brasil não deveria se preocupar, porque isso não é “vigilância”, é “coleta de dados”. Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.
Existe uma diferença enorme entre programas legais, espionagem legítima, atuação policial legítima –em que indivíduos são vigiados com base em suspeitas razoáveis, individualizadas– e esses programas de vigilância em massa para a formação de uma rede de informações, que colocam populações inteiras sob vigilância onipresente e salvam cópias de tudo para sempre.
Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.
Muitos senadores brasileiros concordam e pediram minha ajuda com suas investigações sobre a suspeita de crimes cometidos contra cidadãos brasileiros.
Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina!
Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.
Seis meses atrás, revelei que a NSA queria ouvir o mundo inteiro. Agora o mundo inteiro está ouvindo de volta e também falando. E a NSA não gosta do que está ouvindo.
A cultura de vigilância mundial indiscriminada, que foi exposta a debates públicos e investigações reais em todos os continentes, está desabando.
Apenas três semanas atrás, o Brasil liderou o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas para reconhecer, pela primeira vez na história, que a privacidade não para onde a rede digital começa e que a vigilância em massa de inocentes é uma violação dos direitos humanos.
A maré virou, e finalmente podemos visualizar um futuro em que possamos desfrutar de segurança sem sacrificar nossa privacidade.
Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros.
Mesmo os defensores da vigilância de massa, aqueles que talvez não estejam convencidos de que tecnologias de vigilância ultrapassaram perigosamente controles democráticos, hoje concordem que, em democracias, a vigilância do público tem de ser debatida pelo público.
Meu ato de consciência começou com uma declaração: “Não quero viver em um mundo em que tudo o que digo, tudo o que faço, todos com quem falo, cada expressão de criatividade, de amor ou amizade seja registrado. Não é algo que estou disposto a apoiar, não é algo que estou disposto a construir e não é algo sob o qual estou disposto a viver.”
Dias mais tarde, fui informado que meu governo me tinha convertido em apátrida e queria me encarcerar. O preço do meu discurso foi meu passaporte, mas eu o pagaria novamente: não serei eu que ignorarei a criminalidade em nome do conforto político. Prefiro virar apátrida a perder minha voz.
Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.
Tradução de CLARA ALLAIN


Sent from my iPad

 Aspas nossas:

"Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros."

Vale muitíssimo para o caso brasileiro.

 Fechaspas.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Aos 50 anos do Golpe, livros sobre a ditadura são aposta para 2014 

Reedição dos livros de Elio Gaspari sobre o regime militar começam a sair em fevereiro, pela Intrínseca

Leonardo Cazes 
Maurício Meireles


Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, em 1968, contra a ditadura: edições vão lembrar, sob diversos aspectos, a época do regime militar no Brasil
Foto: Arquivo Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, em 1968, contra a ditadura: edições vão lembrar, sob diversos aspectos, a época do regime militar no Brasil Arquivo
RIO - No ano em que se completam cinco décadas do golpe que instituiu o regime militar no Brasil, o assunto será tema de diversos lançamentos do mercado editorial. Entre as novidades, o carro-chefe promete ser uma reedição: os quatro livros do jornalista Elio Gaspari A ditadura envergonhada (2002), A ditadura escancarada (2002), A ditadura derrotada (2003) e A ditadura encurralada (2004) estreiam em nova casa, a Intrínseca. Com lançamento previsto para meados de fevereiro, as obras foram revistas e atualizadas e ganharão caprichadas edições em e-book, com fac-símiles de documentos citados, fotos, vídeos e áudios.

Outros três livros procuram repassar as duas décadas de regime militar. Em 1964: O golpe que derrubou um presidente e instituiu a ditadura no Brasil (Civilização Brasileira), Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes, professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), traçam um panorama do regime civil-militar e destacam personagens e momentos que marcaram o período.

Em Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988 (Zahar), Daniel Aarão Reis, também professor da UFF, propõe uma nova leitura do regime, especialmente da relação entre a sociedade civil e os militares. As duas obras estão previstas para fevereiro. Já o historiador Marco Antônio Villa publica Ditadura à brasileira (LeYa), em que apresenta as peculiaridades do regime e os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais de cada um dos cinco governos militares.

Na seara do comportamento, O verão do golpe (Maquinária Editora), do jornalista Roberto Sander, lançado este mês, recupera o cenário social e cultural da temporada que antecedeu a derrubada do presidente João Goulart, na primavera de 1964. Na mesma linha, a Companhia das Letras publica, da jornalista Ana Maria Bahiana, Almanaque 1964, que faz um balanço do clima cultural e político naquele ano.


O ano de 2014 também marca outra efeméride: os 100 anos do início da Primeira Guerra Mundial. A Rocco garantiu os direitos de publicação de Adieu à lEurope (Adeus à Europa), de Olivier Compagnon. O autor fez um estudo sobre como o conflito no Velho Continente afetou os países latino-americanos, entre eles o Brasil e a Argentina, fazendo aflorar questões identitárias e provocando uma reformulação do próprio nacionalismo. Pelo selo Alfaguara, sairá O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, romance de 1923 que é editado no Brasil pela primeira vez na íntegra e com tradução direta do tcheco. A obra é baseada, em partes, na própria experiência de Hasek, e expõe a máquina da guerra através do riso.
Fonte: O Globo.