Henrique ArrudaDO NOVO JORNAL
Quando olha para trás é até difícil enxergar o ponto de partida de
um caminho que ele percorre há mais de 30 anos. As curvas foram muitas,
mas nenhuma tão marcante quanto a que começou a atravessar a partir de
1964 com o início da ditadura militar no Brasil.
O jornalista
Dermi Azevedo hoje convive com os reflexos do Mal de Parkinson, que
descobriu em 2007 - fala mais pausadamente e também não anda com a mesma
velocidade que tinha quando foi torturado duas vezes em São Paulo,
entre o final da década de 60 e início de 70. Mas nem mesmo os recentes
desafios são capazes de calar sua voz ou passar uma borracha na memória.
O
desejo de ser jornalista começou quando ainda era um jovem acólito em
Currais Novos e o monsenhor Paulo Herôncio de Melo lhe pedia para que,
após as missas, Dermi lhe transmitisse os recados ano-tados. “Era eu
quem lembrava o monsenhor das obrigações diárias, tudo anotado. A partir
disso eu fui pegando gosto pela escrita”, lembra o jornalista, que se
diz inspirado pelos colegas que gostam de boas doses de literatura em
seus textos.
“Sempre gostei muito de Graciliano Ramos, Rubem Braga,
Rachel de Queiroz, Berílo Wanderley, Gabriel Garcia Márquez e todos que
vão no campo do ficcionismo”, explica. A TV está ligada em um filme
qualquer da Sessão da Tarde enquanto Dermi, repousando no quarto nº 7 do
Centro do Trabalhador em Educação, analisa o futuro do jornalismo. Ele
acredita que o impresso não vai morrer.
“O
hábito de leitura está impregnado há séculos e esse aspecto tátil nunca
será superado. Gostamos de ter um objeto nas mãos e não gostamos que
tudo já venha mastigado. Quando o audiovisual começou, também se dizia
que iria substituir o impresso”, argumenta. Por mais que também esteja
“online” e reconheça que a internet traga rapidez, ele condena a falsa
impressão de diálogo do meio. “Falta aprofundamento nessa troca que os
comentários oferecem. Na minha opinião é um diálogo superficial”,
critica.
O garoto natural de Jardim do Seridó, quando chegou à
cidade grande, preferiu prestar vestibular para Serviço Social porque o
aprofundamento nos direitos humanos era uma meta estipulada desde o
início. O ano era 1967. “Entender os direitos e deveres de uma pessoa me
iluminou bastante nos trabalhos jornalísticos”, garante.
O curso
teve que ser interrompido pouco tempo depois de ter começado. Mas antes
de se afastar, Dermi foi eleito o primeiro presidente do Centro
Acadêmico Dom Helder Câmara, da Escola de Serviço Social, e iniciou seus
trabalhos no movimento estudantil preparando tudo o que fosse
necessário para o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São
Paulo. Foi nesta etapa de sua vida que o jornalista tomou ainda mais
consciência de seu papel na luta a favor de uma “sociedade livre,
democrática e soberana”.
O congresso da UNE em São Paulo
reservaria algu-mas surpresas, sendo a principal delas a sua primeira
prisão. Ao chegar a Congonhas, ele e seus companheiros foram levados
vendados para o sítio onde iria ser realizado o congresso com mais de
600 estudantes, como ele também conta nas páginas de “Travessias
Torturadas”, livro que fez questão de lançar em Natal na última
sexta-feira, 14. “O avião não tinha pressurização, então chegamos todos
surdos”, recorda, dando um sorriso nostálgico.
A manhã estava
fria e chuvosa, pelo que se lembra, quando a Força Pública e os demais
órgãos de repressão invadiram o congresso e leva-ram os estudantes em
cima de caminhões para o presídio Tiradentes, no centro velho de São
Paulo. “Foi bem menos traumática do que minhas outras prisões porque
éramos vários, eles nem sabiam direito o que fazer com tantos
estudantes. Fiquei em uma cela com 18 colegas, onde só cabiam nove. A
gente se revezava para dormir. En-quanto um grupo deitava, o outro
ficava em pé”, conta.
Em 69 ele retorna à Natal, mas para a sua
segurança decide se exilar no Chile, onde existia um governo socialista.
E assim ele cruzou a fronteira clandestinamente disfarçado de monge. A
permanência no estrangeiro durou até 1971, quando Dermi não aguentou
mais ficar distante de sua realidade política e voltou ao Brasil.
Como
não queria abandonar o ofício de jornalista profissional, mesmo tendo
que medir bem todas as palavras que fosse usar, Dermi começou a
trabalhar nas redações do “Última Hora”, dirigido por Samuel Weiner, mas
ao longo da carreira acumulou no currículo também a passagem pelas
redações do Estadão, Folha de São Paulo e Jornal da Tarde.
Sobre
os tempos que passou nas redações potiguares, lembra que sua geração de
jornalistas era ativa, que fundou, por exemplo, a Cooperativa dos
Jornalistas de Natal, para diminuir as “brigas” entre os homens da
notícia e os diagramadores.
“Não era diferente do jornalismo que
se faz hoje, mas o espírito investigativo era maior. Dava-se mais valor à
reportagem”, compara. “A minha geração é a mesma desses antigões que
hoje em dia estão aí na imprensa potiguar. Falo de Vicente Serejo,
Albimar Furtado, Jomar Morais, Cassiano Arruda Câmara e tantos outros”,
completa.
Por aqui passou pela Tribuna do Norte e pelo Diário de
Natal. Das matérias que fez, lembra muito de duas. “Uma sobre a
utilização de laparoscopia para a esterilização de mulheres pobres e
outra que, na verdade, foi uma série sobre a mineração no RN, mostrando
como o subsolo era explorado retirando tungstênio para a indústria
armamentista e como essas empresas pagavam pessimamente os
funcionários”, recorda.
DITADURAS SÃO IGUAIS
Quatorze de janeiro de 1974. Era fim de tarde e ele ainda estava na
redação da Folha de S. Paulo quando foi preso e levado ao DEOPS. “Foram
duas prisões neste ano e entre elas eu estava lendo Memórias do Cárcere
de Graciliano Ramos e isso me marcou muito porque achei muito chocante
comparar o que ele viveu no Estado Novo com o que eu estava vivendo anos
depois. Ou seja, toda ditadura é igual”, afirma.
Pressionado para
con-fessar sua suposta filiação ao PC do B, Dermi foi colocado no Pau de
Arara, levou choque nos órgãos genitais, tapas nos ouvidos (o que eles
chamavam de telefone) e o que mais lhe impressionava durante toda a
situação era como ele poderia ser tratado como um bandido. “É uma
sensação muito estranha ser preso. Eu ouvia nas conversas eles falando
‘O elemento já está preso’ e me perguntava como eu poderia ser um
elemento, como poderia ser inimigo. Inimigo de quem?”, lembra.
Na
segunda vez que lhe prenderam, ainda em 74, o motivo foi um álbum que
ele montou para sua esposa contendo diversas fotos de família e de
ícones da época. “Tinha muita gente e eles me interrogaram sobre cada
personagem do álbum, desde Che Guevara até Fidel Castro. Nunca mais eu
vi o álbum depois disso, ou ele sumiu, ou está escondido em algum lugar
com alguém”, conta.
Além de receber a dor da tortura, Dermi
carrega até hoje a dor maior de saber que sua família também foi
torturada, já que a ditadura também pegou sua esposa e seu filho de
apenas 1 ano e oito meses na época. “Minha esposa sofreu praticamente os
mesmos traumas que eu; e meu filho eles jogaram no chão. Até hoje ele
carrega no rosto as sequelas do espancamento”, diz.
“O senhor
aceitaria passar por tudo isso novamente hoje em dia?”, questiona o
repórter após uma pequena pausa na conversa. “Passaria pelas mesmas
situações para garantir uma vida mais digna para todos porque isso nunca
me silenciou e nunca deixei me silenciar. Pretendo até o final da minha
vida não ficar calado diante uma situação de injustiça”, responde.
UMA VIDA DE NOTÍCIA
Se pudesse noticiar al-guma coisa que ele não teve a oportunidade,
Dermi escolhe dois fatos “Pode inventar tam-bém alguma coisa que não
aconteceu, né?”, pergunta. “Pode”, aceita o repórter. Para começar, ele
diz que gostaria de ter noticiado a permanência do Papa João Paulo I no
pontífice, porque, segundo Dermi, João Paulo I estava prestes a fazer
revoluções profundas no catolicismo.
“Como, por exemplo, aceitar a
ordenação de mulheres, acabar com o celibato, e há quem diga ainda que
ele iria redimir Martinho Lutero. Gostaria de ter noticiado que ele
permaneceu e promoveu essas mudanças, mas infelizmente morreu antes ou,
como dizem também, foi vítima de um complô dentro do próprio Vaticano”,
defende.
A segunda notícia que gostaria de dar é o fim da impunidade
para pessoas desaparecidas na época da ditadura. “Gostaria que todos
esses arquivos fossem abertos”, diz o jornalista acreditando também que
os casos não ficarão para sempre sem uma solução. Para isso, a Comissão
Nacional da Verdade, empossada pela presidente Dilma em maio deste ano,
será essencial.
Hoje Dermi Azevedo é aposentado por ter adquirido
mal de Parkinson e também por ser anistiado político, mas mesmo assim
não pretende se afastar do jornalismo. Agora se dedica aos livros que
pretende escrever até o final da carreira. O primeiro foi lançado na
última sexta-feira, 14 em Natal. “Travessias Torturadas” conta detalhes
do que sofreu com a ditadura militar.
Os próximos provavel-mente
serão “Direitos Humanos: Teoria e Prática” e uma compilação, ainda sem
nome, de suas melhores matérias publicadas ao longo da carreira.
“Difícil é saber o que botar né? Mas já estou organizando”, garante.
Sobre o livro lançado em Natal, Dermi garante que não sofreu ao
relembrar de toda a história, só teve dificuldade mesmo para saber até
que ponto contar.