segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Cultura - NOVO JORNAL

Natal, 31 de Dezembro de 2012 | Atualizado às 19:12
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Memórias da tortura

O jornalista Dermi Azevedo hoje convive com os reflexos do Mal de Parkinson, que descobriu em 2007 - fala mais pausadamente e também não anda com a mesma velocidade que tinha quando foi torturado duas vezes em São Paulo, entre o final da década de 60 e início de 70.

11:55 15 de Dezembro de 2012


 
Henrique Arruda
DO NOVO JORNAL
Quando olha para trás é até difícil enxergar o ponto de partida de um caminho que ele percorre há mais de 30 anos. As curvas foram muitas, mas nenhuma tão marcante quanto a que começou a atravessar a partir de 1964 com o início da ditadura militar no Brasil.

O jornalista Dermi Azevedo hoje convive com os reflexos do Mal de Parkinson, que descobriu em 2007 - fala mais pausadamente e também não anda com a mesma velocidade que tinha quando foi torturado duas vezes em São Paulo, entre o final da década de 60 e início de 70. Mas nem mesmo os recentes desafios são capazes de calar sua voz ou passar uma borracha na memória.

O desejo de ser jornalista começou quando ainda era um jovem acólito em Currais Novos e o monsenhor Paulo Herôncio de Melo lhe pedia para que, após as missas, Dermi lhe transmitisse os recados ano-tados. “Era eu quem lembrava o monsenhor das obrigações diárias, tudo anotado. A partir disso eu fui pegando gosto pela escrita”, lembra o jornalista, que se diz inspirado pelos colegas que gostam de boas doses de literatura em seus textos.
“Sempre gostei muito de Graciliano Ramos, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Berílo Wanderley, Gabriel Garcia Márquez e todos que vão no campo do ficcionismo”, explica. A TV está ligada em um filme qualquer da Sessão da Tarde enquanto Dermi, repousando no quarto nº 7 do Centro do Trabalhador em Educação, analisa o futuro do jornalismo. Ele acredita que o impresso não vai morrer.

“O hábito de leitura está impregnado há séculos e esse aspecto tátil nunca será superado. Gostamos de ter um objeto nas mãos e não gostamos que tudo já venha mastigado. Quando o audiovisual começou, também se dizia que iria substituir o impresso”, argumenta. Por mais que também esteja “online” e reconheça que a internet traga rapidez, ele condena a falsa impressão de diálogo do meio. “Falta aprofundamento nessa troca que os comentários oferecem. Na minha opinião é um diálogo superficial”, critica.

O garoto natural de Jardim do Seridó, quando chegou à cidade grande, preferiu prestar vestibular para Serviço Social porque o aprofundamento nos direitos humanos era uma meta estipulada desde o início. O ano era 1967. “Entender os direitos e deveres de uma pessoa me iluminou bastante nos trabalhos jornalísticos”, garante.
O curso teve que ser interrompido pouco tempo depois de ter começado. Mas antes de se afastar, Dermi foi eleito o primeiro presidente do Centro Acadêmico Dom Helder Câmara, da Escola de Serviço Social, e iniciou seus trabalhos no movimento estudantil preparando tudo o que fosse necessário para o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São Paulo. Foi nesta etapa de sua vida que o jornalista tomou ainda mais consciência de seu papel na luta a favor de uma “sociedade livre, democrática e soberana”.

O congresso da UNE em São Paulo reservaria algu-mas surpresas, sendo a principal delas a sua primeira prisão. Ao chegar a Congonhas, ele e seus companheiros foram levados vendados para o sítio onde iria ser realizado o congresso com mais de 600 estudantes, como ele também conta nas páginas de “Travessias Torturadas”, livro que fez questão de lançar em Natal na última sexta-feira, 14. “O avião não tinha pressurização, então chegamos todos surdos”, recorda, dando um sorriso nostálgico.

A manhã estava fria e chuvosa, pelo que se lembra, quando a Força Pública e os demais órgãos de repressão invadiram o congresso e leva-ram os estudantes em cima de caminhões para o presídio Tiradentes, no centro velho de São Paulo. “Foi bem menos traumática do que minhas outras prisões porque éramos vários, eles nem sabiam direito o que fazer com tantos estudantes. Fiquei em uma cela com 18 colegas, onde só cabiam nove. A gente se revezava para dormir. En-quanto um grupo deitava, o outro ficava em pé”, conta.

Em 69 ele retorna à Natal, mas para a sua segurança decide se exilar no Chile, onde existia um governo socialista. E assim ele cruzou a fronteira clandestinamente disfarçado de monge. A permanência no estrangeiro durou até 1971, quando Dermi não aguentou mais ficar distante de sua realidade política e voltou ao Brasil.

Como não queria abandonar o ofício de jornalista profissional, mesmo tendo que medir bem todas as palavras que fosse usar, Dermi começou a trabalhar nas redações do “Última Hora”, dirigido por Samuel Weiner, mas ao longo da carreira acumulou no currículo também a passagem pelas redações do Estadão, Folha de São Paulo e Jornal da Tarde.

Sobre os tempos que passou nas redações potiguares, lembra que sua geração de jornalistas era ativa, que fundou, por exemplo, a Cooperativa dos Jornalistas de Natal, para diminuir as “brigas” entre os homens da notícia e os diagramadores.

“Não era diferente do jornalismo que se faz hoje, mas o espírito investigativo era maior. Dava-se mais valor à reportagem”, compara. “A minha geração é a mesma desses antigões que hoje em dia estão aí na imprensa potiguar. Falo de Vicente Serejo, Albimar Furtado, Jomar Morais, Cassiano Arruda Câmara e tantos outros”, completa.

Por aqui passou pela Tribuna do Norte e pelo Diário de Natal. Das matérias que fez, lembra muito de duas. “Uma sobre a utilização de laparoscopia para a esterilização de mulheres pobres e outra que, na verdade, foi uma série sobre a mineração no RN, mostrando como o subsolo era explorado retirando tungstênio para a indústria armamentista e como essas empresas pagavam pessimamente os funcionários”, recorda.
DITADURAS SÃO IGUAIS
Quatorze de janeiro de 1974. Era fim de tarde e ele ainda estava na redação da Folha de S. Paulo quando foi preso e levado ao DEOPS. “Foram duas prisões neste ano e entre elas eu estava lendo Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos e isso me marcou muito porque achei muito chocante comparar o que ele viveu no Estado Novo com o que eu estava vivendo anos depois. Ou seja, toda ditadura é igual”, afirma.
Pressionado para con-fessar sua suposta filiação ao PC do B, Dermi foi colocado no Pau de Arara, levou choque nos órgãos genitais, tapas nos ouvidos (o que eles chamavam de telefone) e o que mais lhe impressionava durante toda a situação era como ele poderia ser tratado como um bandido. “É uma sensação muito estranha ser preso. Eu ouvia nas conversas eles falando ‘O elemento já está preso’ e me perguntava como eu poderia ser um elemento, como poderia ser inimigo. Inimigo de quem?”, lembra.

Na segunda vez que lhe prenderam, ainda em 74, o motivo foi um álbum que ele montou para sua esposa contendo diversas fotos de família e de ícones da época. “Tinha muita gente e eles me interrogaram sobre cada personagem do álbum, desde Che Guevara até Fidel Castro. Nunca mais eu vi o álbum depois disso, ou ele sumiu, ou está escondido em algum lugar com alguém”, conta.

Além de receber a dor da tortura, Dermi carrega até hoje a dor maior de saber que sua família também foi torturada, já que a ditadura também pegou sua esposa e seu filho de apenas 1 ano e oito meses na época. “Minha esposa sofreu praticamente os mesmos traumas que eu; e meu filho eles jogaram no chão. Até hoje ele carrega no rosto as sequelas do espancamento”, diz.

“O senhor aceitaria passar por tudo isso novamente hoje em dia?”, questiona o repórter após uma pequena pausa na conversa. “Passaria pelas mesmas situações para garantir uma vida mais digna para todos porque isso nunca me silenciou e nunca deixei me silenciar. Pretendo até o final da minha vida não ficar calado diante uma situação de injustiça”, responde.
UMA VIDA DE NOTÍCIA
Se pudesse noticiar al-guma coisa que ele não teve a oportunidade, Dermi escolhe dois fatos “Pode inventar tam-bém alguma coisa que não aconteceu, né?”, pergunta. “Pode”, aceita o repórter. Para começar, ele diz que gostaria de ter noticiado a permanência do Papa João Paulo I no pontífice, porque, segundo Dermi, João Paulo I estava prestes a fazer revoluções profundas no catolicismo.

“Como, por exemplo, aceitar a ordenação de mulheres, acabar com o celibato, e há quem diga ainda que ele iria redimir Martinho Lutero. Gostaria de ter noticiado que ele permaneceu e promoveu essas mudanças, mas infelizmente morreu antes ou, como dizem também, foi vítima de um complô dentro do próprio Vaticano”, defende.
A segunda notícia que gostaria de dar é o fim da impunidade para pessoas desaparecidas na época da ditadura. “Gostaria que todos esses arquivos fossem abertos”, diz o jornalista acreditando também que os casos não ficarão para sempre sem uma solução. Para isso, a Comissão Nacional da Verdade, empossada pela presidente Dilma em maio deste ano, será essencial.

Hoje Dermi Azevedo é aposentado por ter adquirido mal de Parkinson e também por ser anistiado político, mas mesmo assim não pretende se afastar do jornalismo. Agora se dedica aos livros que pretende escrever até o final da carreira. O primeiro foi lançado na última sexta-feira, 14 em Natal. “Travessias Torturadas” conta detalhes do que sofreu com a ditadura militar.

Os próximos provavel-mente serão “Direitos Humanos: Teoria e Prática” e uma compilação, ainda sem nome, de suas melhores matérias publicadas ao longo da carreira. “Difícil é saber o que botar né? Mas já estou organizando”, garante. Sobre o livro lançado em Natal, Dermi garante que não sofreu ao relembrar de toda a história, só teve dificuldade mesmo para saber até que ponto contar.

Filho de Dermi Azevedo ainda sofre as agressões sofridas no DEOPS.

Comportamento
Isto É -  N° Edição:  2099 |  29.Jan.10 - 21:00 |  Atualizado em 31.Dez.12 - 18:34

"A ditadura não acabou"

Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era bebê. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos - sofre de fobia social

Solange Azevedo

No vídeo abaixo você confere os depoimentos de Dermi Azevedo, pai de Carlos Alexandre
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Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era bebê.
Ele tem olhos de aflição e feições de dor. Suas palavras saem cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”, diz. “Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que acabou com os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo – veio à tona no momento em que o governo brasileiro discute a criação da Comissão Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985). Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com exclusividade, à ISTOÉ depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Ministério da Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado “anistiado político”. Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter sido vítima dos militares. “Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti compreendido.
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Carlos aos 3 anos, com os pais
As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade”, alega. “A indenização não vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia é o reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social.” Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, estão guardados  na memória do pai, o jornalistae cientista político Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as lembranças da mãe, a pedagoga Darcy Andozia. “Minha família sempre foi muito retraída, sem diálogo. Não costumávamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre nós”, conta Carlos Alexandre. Ele descobriu o próprio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a uma porção de papéis, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na época por simbolizar a “esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974: Quando você ficar mais velho, seus pais vão te contar a sua história.” Parte do sofrimento da infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. “Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi. “Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os agentes levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa – seria trancafiada no Deops horas depois.
“Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social”  
Ela havia saído cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a segunda invasão à residência dos Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os cômodos em busca de “material subversivo”. Encontraram um livro intitulado “Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil” e o consideraram uma injúria às autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de resistência – abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o Exterior. O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas não sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez. Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades, Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva sistematicamente de contatos interpessoais – principalmente com pessoas do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado ou rejeitado.
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Dermi Azevedo, jornalista, pai de Carlos Alexandre, em frente ao prédio onde funcionava o Deops
O diagnóstico foi mencionado pela psicóloga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado à Comissão de Anistia. No texto, a psicóloga detalha a evolução do transtorno no paciente e situações relatadas pela família Azevedo. Mas não afirma categoricamente que o problema dele é consequência direta de tortura.  As situações vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com o médico Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de  Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca de 30% dos casos de fobia social têm origem genética. Os outros  70% se devem a vivências complexas.Os pais são o primeiro modelo para a criança. Observar como eles lidam com  as adversidades, se enxergam o ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável e ameaçador, se são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas e maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo que Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para  Currais Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A violência psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis sessões no pau de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos porões da ditadura de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom período, ele não foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O aperto financeiro desestabilizava ainda mais a família. Ele foi recuperando devagar a coragem de se levantar, ir à esquina, andar sozinho.
“Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vÍtima de choques elétricos e outras sevÍcias. ele foi jogado no chão e bateu a cabeça. maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade”
“Dermi não se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade humana”,  avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do documentário “Sobreviventes”, que narra experiências de pessoas que passaram por situações-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos – do primogênito e de dois meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento já em Currais Novos. Não interagia comoutras crianças, tornou-se agressivo e andava sempre triste. Às vezes, acordava agitado procurando pela mãe: “Mamãe, onde é o barulho do trem?” A sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na região da Estação da Luz. De lá, dava para ouvir o som do vai e vem das composições. Apesar de a família estar longe de São Paulo, onde a perseguição seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e discriminados pela vizinhança. Viviam sendo apontados como “bandidos”, “terroristas” e tratados como se tivessem alguma doença contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão, testemunhando as crises do pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir à escola. Não suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a dinâmica familiar contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. “A perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão intensa quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de amizade ou se adaptar completamente à escola.
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Darcy Andozia, pedagoga aposentada, mãe de Carlos Alexandre
O único período de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro anos – entre 1981 e o início de 1985, quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu lá. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo com uma universidade do município – já não eram encarados como “bandidos” ou “terroristas”, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A saída de Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre. “Era o único lugar em que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez. Parei de estudar e me tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na adolescência. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não se importava muito com o figurino. Os novos desafios da cidade grande o fizeram submergir no medo.  Ele já não era mais convidado para festas, se sentia incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser introvertido, não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu à crueldade adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades. Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de escritório.
“O meu filho apanhou dos policiais do deops porque estava chorando de fome. levou um tapa tão forte que cortou os lábios"
Ficou um ano no emprego – seu recorde com carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era tão penoso que Carlos Alexandre pediu demissão e foi demitido diversas vezes porque não suportava conviver com os colegas de trabalho. “As pessoas começavam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é muito cansativo para mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um incômodo muito grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em tratamento.” Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. Vão ao apartamento que ele divide com a mãe na região central de São Paulo. Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela rede, ele se protege da sociedade. “Quando rompo o ciclo vicioso, consigo até ter uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando, vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar. Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37 anos.”
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Donizeti

EM 02/08/2011 22:49:10
A Ditadura NÃO acabou. Têm muitos policiais nas ruas abusando das pessoas. As corregedorias não funcionam. Como pode um policial julgar o outro? o corporativismo é grande!! Nossos políticos deveriam criar leis para nos proteger das ações dos maus policiais. Muitos ameaçam se forem denunciados.

negrão

EM 31/07/2011 17:22:13
ditadura virou poupança ....sou negro será que posso receber ?????pois meus antepassados foram morto chicoteados tiveram sua cultura de mais de 1000 anos deturpada será que tenho direito a receber algo ,e a situação da áfrica de hoje em dia ????????

raspotin

EM 31/07/2011 17:17:08
o grau de recuperação de um ser humano é individual ,não coloque culpa na ditadura meu amigo e outra ditadura não é poupança vivi na rua e não fui militar e nem participei de nenhum movimento portanto pare de chorar sentir pena de sí mesmo e vá a luta vç é homem !!!!cara !!!

Sandro Paulino

EM 25/12/2010 22:42:39
Acho lamentável ler comentários tão toscos e imbecis como o que eu li aqui, como por exemplo: meu pai trabalhava na ditadura; o Lula e a Dilma são exploradores, pessoas que pensam assim, são passíveis de compaixão, pois são ignorantes, são os famosos analfabetos funcionais. É uma pena

Alexandra

EM 07/04/2010 16:56:22
E se fosse com um filho seu? E tenho dito.


Dermi Azevedo relata momentos de sua vida.

Extraído de: OAB - Rio Grande do Norte  - 13 de Dezembro de 2012

Clico da Verdade: jornalista Dermi Azevedo relata na OAB/RN momentos marcantes de sua vida durante a ditadura militar

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Atravessei a fronteira da Bolívia vestido de padre. Pedi hospedagem a um arcebispo que tinha acabado de celebrar uma missa, ressaltando o amor de Jesus e a misericórdia. Em um primeiro momento, negou-me abrigo, mas depois voltou atrás por minha insistência e me encaminhou para dormir em um lugar com insetos. Vi a diferença entre o falar e o praticar. Outro momento muito difícil foi quando invadiram minha casa e espancaram meu filho, que na época tinha 1 ano e 8 meses, deixando-o com sequelas até hoje, ressaltou o jornalista norte-riograndense Dermi Azevedo no Ciclo da Verdade e Memória, realizado hoje (13) na sede da OAB/RN.
O evento contou com a presença de estudantes, integrantes de movimentos sociais, representantes da Comissão da Verdade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, advogados e presos políticos. Conforme o presidente da Comissão da Verdade e Memória, Djamiro Acipreste, o objetivo é contar a história dos potiguares que enfrentaram inquéritos, processos e abusos durante ditadura militar a fim de produzir relatório e encaminhar para Comissão Nacional. Queremos contar a verdade e mostrar que há condições para os jovens conhecerem a memória verdadeira, disse Djamiro.
Jornalista Dermi Azevedo
Dermi trabalhou, entre outras publicações, nos jornais Diário de Natal, Tribuna do Norte, A Ordem, Salário Mínimo, Visão, Manchete, Fatos & Fotos, VEJA, Isto É (da qual foi correspondente na Itália), Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Informations Catholiques Internationales, da França. Como pesquisador, fez especialização em Relações Internacionais, na FESPSP, sobre a política externa do Vaticano, tornando-se, em seguida, Mestre em Ciência Política, na USP, com dissertação sobre a colaboração de agentes religiosos com a repressão de 1964/1985 e Doutor nessa mesma universidade, com uma tese sobre Igreja Católica e Democracia. Dermi foi presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Natal. Presidiu também a COOJORNAT - Cooperativa dos Jornalistas de Natal e foi um dos representantes brasileiros na II Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada, pela ONU, em 1993, em Viena, Áustria. Atualmente Dermi reside em Belém, no Estado do Pará.
Autor: Anne Medeiros

sábado, 22 de dezembro de 2012


MEMÓRIAS DA TORTURA

O JORNALISTA DERMI AZEVEDO HOJE CONVIVE COM OS REFLEXOS DO MAL DE PARKINSON, QUE DESCOBRIU EM 2007 - FALA MAIS PAUSADAMENTE E TAMBÉM NÃO ANDA COM A MESMA VELOCIDADE QUE TINHA QUANDO FOI TORTURADO DUAS VEZES EM SÃO PAULO, ENTRE O FINAL DA DÉCADA DE 60 E INÍCIO DE 70.

11:55 15 de Dezembro de 2012
 
Henrique Arruda
DO NOVO JORNAL
Quando olha para trás é até difícil enxergar o ponto de partida de um caminho que ele percorre há mais de 30 anos. As curvas foram muitas, mas nenhuma tão marcante quanto a que começou a atravessar a partir de 1964 com o início da ditadura militar no Brasil.

O jornalista Dermi Azevedo hoje convive com os reflexos do Mal de Parkinson, que descobriu em 2007 - fala mais pausadamente e também não anda com a mesma velocidade que tinha quando foi torturado duas vezes em São Paulo, entre o final da década de 60 e início de 70. Mas nem mesmo os recentes desafios são capazes de calar sua voz ou passar uma borracha na memória.

O desejo de ser jornalista começou quando ainda era um jovem acólito em Currais Novos e o monsenhor Paulo Herôncio de Melo lhe pedia para que, após as missas, Dermi lhe transmitisse os recados ano-tados. “Era eu quem lembrava o monsenhor das obrigações diárias, tudo anotado. A partir disso eu fui pegando gosto pela escrita”, lembra o jornalista, que se diz inspirado pelos colegas que gostam de boas doses de literatura em seus textos.
“Sempre gostei muito de Graciliano Ramos, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Berílo Wanderley, Gabriel Garcia Márquez e todos que vão no campo do ficcionismo”, explica. A TV está ligada em um filme qualquer da Sessão da Tarde enquanto Dermi, repousando no quarto nº 7 do Centro do Trabalhador em Educação, analisa o futuro do jornalismo. Ele acredita que o impresso não vai morrer.

“O hábito de leitura está impregnado há séculos e esse aspecto tátil nunca será superado. Gostamos de ter um objeto nas mãos e não gostamos que tudo já venha mastigado. Quando o audiovisual começou, também se dizia que iria substituir o impresso”, argumenta. Por mais que também esteja “online” e reconheça que a internet traga rapidez, ele condena a falsa impressão de diálogo do meio. “Falta aprofundamento nessa troca que os comentários oferecem. Na minha opinião é um diálogo superficial”, critica.

O garoto natural de Jardim do Seridó, quando chegou à cidade grande, preferiu prestar vestibular para Serviço Social porque o aprofundamento nos direitos humanos era uma meta estipulada desde o início. O ano era 1967. “Entender os direitos e deveres de uma pessoa me iluminou bastante nos trabalhos jornalísticos”, garante.
O curso teve que ser interrompido pouco tempo depois de ter começado. Mas antes de se afastar, Dermi foi eleito o primeiro presidente do Centro Acadêmico Dom Helder Câmara, da Escola de Serviço Social, e iniciou seus trabalhos no movimento estudantil preparando tudo o que fosse necessário para o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São Paulo. Foi nesta etapa de sua vida que o jornalista tomou ainda mais consciência de seu papel na luta a favor de uma “sociedade livre, democrática e soberana”.

O congresso da UNE em São Paulo reservaria algu-mas surpresas, sendo a principal delas a sua primeira prisão. Ao chegar a Congonhas, ele e seus companheiros foram levados vendados para o sítio onde iria ser realizado o congresso com mais de 600 estudantes, como ele também conta nas páginas de “Travessias Torturadas”, livro que fez questão de lançar em Natal na última sexta-feira, 14. “O avião não tinha pressurização, então chegamos todos surdos”, recorda, dando um sorriso nostálgico.

A manhã estava fria e chuvosa, pelo que se lembra, quando a Força Pública e os demais órgãos de repressão invadiram o congresso e leva-ram os estudantes em cima de caminhões para o presídio Tiradentes, no centro velho de São Paulo. “Foi bem menos traumática do que minhas outras prisões porque éramos vários, eles nem sabiam direito o que fazer com tantos estudantes. Fiquei em uma cela com 18 colegas, onde só cabiam nove. A gente se revezava para dormir. En-quanto um grupo deitava, o outro ficava em pé”, conta.

Em 69 ele retorna à Natal, mas para a sua segurança decide se exilar no Chile, onde existia um governo socialista. E assim ele cruzou a fronteira clandestinamente disfarçado de monge. A permanência no estrangeiro durou até 1971, quando Dermi não aguentou mais ficar distante de sua realidade política e voltou ao Brasil.

Como não queria abandonar o ofício de jornalista profissional, mesmo tendo que medir bem todas as palavras que fosse usar, Dermi começou a trabalhar nas redações do “Última Hora”, dirigido por Samuel Weiner, mas ao longo da carreira acumulou no currículo também a passagem pelas redações do Estadão, Folha de São Paulo e Jornal da Tarde.

Sobre os tempos que passou nas redações potiguares, lembra que sua geração de jornalistas era ativa, que fundou, por exemplo, a Cooperativa dos Jornalistas de Natal, para diminuir as “brigas” entre os homens da notícia e os diagramadores.

“Não era diferente do jornalismo que se faz hoje, mas o espírito investigativo era maior. Dava-se mais valor à reportagem”, compara. “A minha geração é a mesma desses antigões que hoje em dia estão aí na imprensa potiguar. Falo de Vicente Serejo, Albimar Furtado, Jomar Morais, Cassiano Arruda Câmara e tantos outros”, completa.

Por aqui passou pela Tribuna do Norte e pelo Diário de Natal. Das matérias que fez, lembra muito de duas. “Uma sobre a utilização de laparoscopia para a esterilização de mulheres pobres e outra que, na verdade, foi uma série sobre a mineração no RN, mostrando como o subsolo era explorado retirando tungstênio para a indústria armamentista e como essas empresas pagavam pessimamente os funcionários”, recorda.
DITADURAS SÃO IGUAIS
Quatorze de janeiro de 1974. Era fim de tarde e ele ainda estava na redação da Folha de S. Paulo quando foi preso e levado ao DEOPS. “Foram duas prisões neste ano e entre elas eu estava lendo Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos e isso me marcou muito porque achei muito chocante comparar o que ele viveu no Estado Novo com o que eu estava vivendo anos depois. Ou seja, toda ditadura é igual”, afirma.
Pressionado para con-fessar sua suposta filiação ao PC do B, Dermi foi colocado no Pau de Arara, levou choque nos órgãos genitais, tapas nos ouvidos (o que eles chamavam de telefone) e o que mais lhe impressionava durante toda a situação era como ele poderia ser tratado como um bandido. “É uma sensação muito estranha ser preso. Eu ouvia nas conversas eles falando ‘O elemento já está preso’ e me perguntava como eu poderia ser um elemento, como poderia ser inimigo. Inimigo de quem?”, lembra.

Na segunda vez que lhe prenderam, ainda em 74, o motivo foi um álbum que ele montou para sua esposa contendo diversas fotos de família e de ícones da época. “Tinha muita gente e eles me interrogaram sobre cada personagem do álbum, desde Che Guevara até Fidel Castro. Nunca mais eu vi o álbum depois disso, ou ele sumiu, ou está escondido em algum lugar com alguém”, conta.

Além de receber a dor da tortura, Dermi carrega até hoje a dor maior de saber que sua família também foi torturada, já que a ditadura também pegou sua esposa e seu filho de apenas 1 ano e oito meses na época. “Minha esposa sofreu praticamente os mesmos traumas que eu; e meu filho eles jogaram no chão. Até hoje ele carrega no rosto as sequelas do espancamento”, diz.

“O senhor aceitaria passar por tudo isso novamente hoje em dia?”, questiona o repórter após uma pequena pausa na conversa. “Passaria pelas mesmas situações para garantir uma vida mais digna para todos porque isso nunca me silenciou e nunca deixei me silenciar. Pretendo até o final da minha vida não ficar calado diante uma situação de injustiça”, responde.
UMA VIDA DE NOTÍCIA
Se pudesse noticiar al-guma coisa que ele não teve a oportunidade, Dermi escolhe dois fatos “Pode inventar tam-bém alguma coisa que não aconteceu, né?”, pergunta. “Pode”, aceita o repórter. Para começar, ele diz que gostaria de ter noticiado a permanência do Papa João Paulo I no pontífice, porque, segundo Dermi, João Paulo I estava prestes a fazer revoluções profundas no catolicismo.

“Como, por exemplo, aceitar a ordenação de mulheres, acabar com o celibato, e há quem diga ainda que ele iria redimir Martinho Lutero. Gostaria de ter noticiado que ele permaneceu e promoveu essas mudanças, mas infelizmente morreu antes ou, como dizem também, foi vítima de um complô dentro do próprio Vaticano”, defende.
A segunda notícia que gostaria de dar é o fim da impunidade para pessoas desaparecidas na época da ditadura. “Gostaria que todos esses arquivos fossem abertos”, diz o jornalista acreditando também que os casos não ficarão para sempre sem uma solução. Para isso, a Comissão Nacional da Verdade, empossada pela presidente Dilma em maio deste ano, será essencial.

Hoje Dermi Azevedo é aposentado por ter adquirido mal de Parkinson e também por ser anistiado político, mas mesmo assim não pretende se afastar do jornalismo. Agora se dedica aos livros que pretende escrever até o final da carreira. O primeiro foi lançado na última sexta-feira, 14 em Natal. “Travessias Torturadas” conta detalhes do que sofreu com a ditadura militar.

Os próximos provavel-mente serão “Direitos Humanos: Teoria e Prática” e uma compilação, ainda sem nome, de suas melhores matérias publicadas ao longo da carreira. “Difícil é saber o que botar né? Mas já estou organizando”, garante. Sobre o livro lançado em Natal, Dermi garante que não sofreu ao relembrar de toda a história, só teve dificuldade mesmo para saber até que ponto contar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


INSTALAÇÃO DA COMISSÃO DA VERDADE DA UFRN – 18.12.2012

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No decorrer da existência, passei por três etapas fundamentais, onde pude assistir no palco da vida alguns fatos ligados à convivência entre as pessoas.
primeiro momento, eu era ainda muito jovem. Entrei na Faculdade de Direito da velha Ribeira no período mais grave da história recente do governo de exceção (1964-1968). Recém casado e pai, não pude me engajar nos movimentos políticos de então, nem na esquerda nem na direita, mas convivi com os percalços e com a fuga forçada de alguns contemporâneos. Fiz apenas o meu papel de estudante, aliviando os problemas dos colegas, que também me atingiam, postulando, com êxito, a realização das provas perdidas com as greves, de forma a que ninguém fosse prejudicado.
Num segundo momento, já em pleno exercício profissional e no esplendor da minha capacidade laborativa, fui eleito Presidente da OAB/RN, num pleito memorável, pois consegui a vitória contra um poderoso advogado, ex-governador do Estado e, por isso, obrigado a realizar uma correta administração. Foi aí que tive maior contato com a realidade e tomei a iniciativa de publicar um MANIFESTO para a criação de um movimento em favor dos oprimidos e perseguidos, que teve o nome de COMITÊ EM DEFESA DA VIDA, que assim se iniciava:
“Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”(art. V da Declaração Universal dos Direitos do Homem- ONU 10/12/48) a que corresponde o art. 5º, III, da Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor.
Esse Comitê foi instalado em sessão histórica, reunida a sociedade civil organizada, aproveitando a data da conquista da Lei nº 6.683 – Lei da Anistia, de 28 de agosto de 1979. Nesse ato colhemos o depoimento de quase todos os que responderam inquérito policial-militar e o registro foi feito em filme pelo Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, tendo à frente o, igualmente jovem, Roberto Monte.
Dizíamos: “DENTRO DESTE ESPÍRITO, CONCLAMAMOS TODA A SOCIEDADE NORTE-RIO-GRANDENSE a cerrar fileiras na luta contra a violência e a impunidade, respaldando e acompanhando as denúncias, visando a desestimular essas ações, MEDIANTE A PUNIÇÃO EXEMPLAR DOS CULPADOS, inclusive com divulgação das apurações dos fatos ocorridos, para que se coíba, de uma vez por todas, a permanência dessa indignidade, que é uma vergonha à civilização”.
O final do MANIFESTO transcrevia parte do Estatuto do Homem, do poeta THIAGO DE MELLO:
Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.!(Art. I).
Nosso esforço colheu alguns frutos e durou por mais dois mandatos, depois foi esquecido e eu cheguei a perder a fé.
Agora, vivo o terceiro momento, quando o outono povoa o meu ser, já alquebrado pelos primeiros sinais de velhice, recebo o convite da Magnífica Reitora para Presidir a Comissão da Verdade da UFRN, calcada nos objetivos da Lei Federal nº 12.528, de 18/11/2011, ofertando-me a última oportunidade de colaborar para a restauração da verdade histórica dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e possibilitar reparações de injustiças.
Assumo o encargo com coragem, mas sem ódio. Não quero perder o meu resto de tempo com revanchismo. Pretendo, com a inestimável colaboração dos nobres integrantes deste Colegiado, que representam vetores diversos da sociedade civil, conduzir os trabalhos dentro da racionalidade e, sobretudo da verdade dos fatos, para alentar, ainda, aqueles que tiveram o seu destino marcado e os seus ideais postergados, mas que não perderam a capacidade de se indignar com os atos de força e a sonhar com uma esperança verdadeira de reparação.
A data de instalação desta Comissão coincide com os 52 anos da federalização da nossa Universidade, que fora criada em 25 de junho de 1958 e instalada em sessão solene no Teatro Alberto Maranhão, a 21 de março de 1959.
Concluo dizendo:
FOI DECRETADO QUE AGORA SÓ VALE A VERDADE”.
SÓ DEPENDE DE NÓS!
O b r i g a d o.             
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES
Presidente da Comissão da Verdade da UFRN

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Soldados mataram ex-chefe do DOI-CODI do Rio de Janeiro.


Política
As suspeitas sobre o assassinato por encomenda de um coronel reformado do Exército, em novembro, em Porto Alegre, caíram por terra. Para a Polícia Civil gaúcha, o ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio de Janeiro, no início da década de 1980, foi morto em uma tentativa de assalto.
Na casa do ex-militar assassinado foram encontrados documentos referentes ao desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva (foto). Foto: Agencia Brasil
Digna de roteiros hollywoodianos, a morte do oficial ganhou ares espetaculosos depois que foram encontrados em sua casa documentos sobre o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, em 1971, e o atentado ao Riocentro, em 1981, ambos ocorridos durante a ditadura militar brasileira.
Quem assassinou o coronel aposentado do Exército Júlio Miguel Molinas Dias, de 78 anos, foram dois policiais miliares, segundo as investigações. A dupla se divide entre o policiamento ostensivo e assaltos ao comércio na zona norte de Porto Alegre.
Conforme o titular da 14ª DP da capital gaúcha, delegado Luiz Fernando Martins Oliveira, os brigadianos assassinaram Molinas depois de uma reação do militar, durante uma tentativa de entrarem sua casa e levar seu arsenal particular de estimação.
Nesta terça-feira cerca de cem agentes da Polícia Civil e membros da Corregedoria da Brigada Militar prenderam os dois soldados – lotados no batalhão responsável pela segurança do bairro em que Molinas morava – a namorada de um deles e um cunhado. Foram apreendidas armas e drogas. Vinte pedras de crack foram encontradas dentro do próprio quartel.
O bando vinha sendo investigado há alguns meses. A polícia chegou até eles depois de encontrar impressões digitais no carro usado no assalto ao coronel, abandonado logo em seguida.
Arquivo morto. No dia 27 de novembro, os documentos sobre Rubens Paiva e o Riocentro foram entregues à Comissão Nacional da Verdade. Os arquivos haviam sido entregues à polícia pelas filhas de Molinas, logo no início das investigações sobre sua morte.
Um dos documentos é uma espécie de “minutário”, escrito de próprio punho, no qual registra todo o desenrolar do atentado ao Riocentro, minutos após a bomba ser detonada. Na ocasião, Molina era comandante do DOI-Codi do Rio.
Outro é uma relação de objetos pessoais que foram apreendidos pelos militares no momento em que o deputado Rubens Paiva ingressou em um quartel no Rio, em 1971. Isso comprovaria que o deputado, de fato, ingressou nas instalações militares, algo até hoje negado pelo Exército.
Conforme a versão vigente, Paiva foi procurado em casa por uma equipe da repressão, mas lhe foi permitido acompanhar os militares até um quartel dirigindo seu próprio carro. Durante o trajeto, o veículo teria sido interceptado e Paiva, nunca mais visto.
Os papéis encontrados agora mostram a relação de objetos, como documentos, cinto, paletó e livros que os militares confiscaram no ingresso de Paiva às suas dependências.
“Certamente tem muitos arquivos guardados em gavetas. Por isso citamos as pessoas a entregarem, colaborem com a reconstrução da verdade”, avaliou o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles.

sábado, 15 de dezembro de 2012





Dermi Azevedo, meu colega no curso de jornalismo da UFRN, nos anos setenta, é natural de Currais Novos/RN e uma das grandes criaturas de boa índole, católico, amigo dos seus amigos, solidário e grande jornalista. Não fui ao lançamento do livro, mas espero adquiri-lo breve para conhecer mais sobre a vida de Dermi, que há uns oito anos não vejo. Um abração, Dermi. a) Luiz G. Cortez Gomes de Melo.



Osair comenta lançamento livro do jornalista Dermi Azevedo

Foto da capa livro/divulgação
O blog replica comentário do jornalista Osair Vasconcelos, de seu facebook, por ocasião do lançamento do livro de outro jornalista potiguar Dermi Azevedo, ontem, sexta(14), em Natal, confira:
 
“Dermi Azevedo lançou ontem, no Bella Napolli, "travessias torturadas", o relato de como atravessou os anos da ditadura. Sofreu e sobreviveu, pagando um preço alto. Dermi é um exemplo de jornalista e ativista social. Tenho o prazer de ter trabalhado e participado - junto com ele e outros jornalistas de Natal - da criação da Coojornat, do Sindicato de Jornalistas, do Comitê de Imprensa da A.L. e de termos feitos eventos e manifestações culturais e políticas quando isso era ousado.
 
Dermi vale um livro, vale uma amizade, respeito e admiração. Muita gente foi lá, para demonstrar exatamente essas coisas.”
 
- Sobre a Coojornat – Cooperativa dos Jornalistas de Natal, era o pilar de sustentação dos profissionais de jornalismo no início da década de 1980, com a produção de material informativo da categoria, com a edição de periódico,  e produção gráfica para o segmento local com a geração de renda e emprego no mercado profissional.