terça-feira, 7 de janeiro de 2014

EUA sugeriram intervenção militar para tirar Jango do poder, diz site
SÃO PAULO - Documentos do período da ditadura militar revelam que o então presidente dos Estados Unidos John Kennedy (1917-1963) sugeriu intervenção militar no Brasil para depor o então presidente brasileiro João Goulart (1919-1976).
As informações foram reunidas pelo jornalista Elio Gaspari, autor de uma série de livros sobre o período, e publicadas pelo site "Arquivos da Ditadura", que estreou nesta segunda-feira, 6. Gaspari é jornalista e colunista dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.
A pergunta do então presidente norte-americano foi feita durante uma reunião na Casa Branca e revela que os EUA cogitaram participação do país no golpe de 1964 contra Goulart.
Além desse documento, o site também contém bilhetes, despachos, discursos e manuscritos de conversas dos principais personagens da ditadura juntados por Gaspari ao longo dos últimos 30 anos e que lhe serviram de base para a publicação de livros sobre o período - "A Ditadura Envergonhada", "A Ditadura Escancarada", "A Ditadura Derrotada", e "A Ditadura Encurralada".
As quatro obras de Gaspari serão relançadas em fevereiro pela editora Intrínseca, a mesma que elaborou o site.
Em dezembro, o Congresso Nacional devolveu o mandato do ex-presidente João Goulart num ato simbólico que contou com a presença da presidente Dilma Rousseff e outras autoridades. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pediu desculpas "pelas inverdades praticadas pelo Estado brasileiro" contra um "patriota".
Um mês antes, os restos mortais de Goulart foram exumados para investigações sobre a causa de sua morte. Familiares e o governo federal suspeitam de que ele não tenha sido vítima de infarto, como foi divulgado na época. Para eles, Jango teria sido morto por agentes ligados ao regime militar. 
Fonte: estadao.com.br

domingo, 29 de dezembro de 2013

Roberto Amaral » CARTA ABERTA AO POVO DO BRASIL, por Edward Snowden

Publicada na Folha de São Paulo em 17/12/2013
Por: EDWARD SNOWDEN
Edward Snowden
Seis meses atrás, emergi das sombras da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA para me posicionar diante da câmera de um jornalista. Compartilhei com o mundo provas de que alguns governos estão montando um sistema de vigilância mundial para rastrear secretamente como vivemos, com quem conversamos e o que dizemos.
Fui para diante daquela câmera de olhos abertos, com a consciência de que a decisão custaria minha família e meu lar e colocaria minha vida em risco. O que me motivava era a ideia de que os cidadãos do mundo merecem entender o sistema dentro do qual vivem.
Meu maior medo era que ninguém desse ouvidos ao meu aviso. Nunca antes fiquei tão feliz por ter estado tão equivocado. A reação em certos países vem sendo especialmente inspiradora para mim, e o Brasil é um deles, sem dúvida.
Na NSA, testemunhei com preocupação crescente a vigilância de populações inteiras sem que houvesse qualquer suspeita de ato criminoso, e essa vigilância ameaça tornar-se o maior desafio aos direitos humanos de nossos tempos.
A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria “segurança” –em nome da “segurança” de Dilma, em nome da “segurança” da Petrobras–, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas. E o fizeram sem pedir a permissão da população de qualquer país, nem mesmo do delas.
Hoje, se você carrega um celular em São Paulo, a NSA pode rastrear onde você se encontra, e o faz: ela faz isso 5 bilhões de vezes por dia com pessoas no mundo inteiro.
Quando uma pessoa em Florianópolis visita um site na internet, a NSA mantém um registro de quando isso aconteceu e do que você fez naquele site. Se uma mãe em Porto Alegre telefona a seu filho para lhe desejar sorte no vestibular, a NSA pode guardar o registro da ligação por cinco anos ou mais tempo.
A agência chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal ou visita sites de pornografia, para o caso de precisarem sujar a reputação de seus alvos.
Senadores dos EUA nos dizem que o Brasil não deveria se preocupar, porque isso não é “vigilância”, é “coleta de dados”. Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.
Existe uma diferença enorme entre programas legais, espionagem legítima, atuação policial legítima –em que indivíduos são vigiados com base em suspeitas razoáveis, individualizadas– e esses programas de vigilância em massa para a formação de uma rede de informações, que colocam populações inteiras sob vigilância onipresente e salvam cópias de tudo para sempre.
Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.
Muitos senadores brasileiros concordam e pediram minha ajuda com suas investigações sobre a suspeita de crimes cometidos contra cidadãos brasileiros.
Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina!
Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.
Seis meses atrás, revelei que a NSA queria ouvir o mundo inteiro. Agora o mundo inteiro está ouvindo de volta e também falando. E a NSA não gosta do que está ouvindo.
A cultura de vigilância mundial indiscriminada, que foi exposta a debates públicos e investigações reais em todos os continentes, está desabando.
Apenas três semanas atrás, o Brasil liderou o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas para reconhecer, pela primeira vez na história, que a privacidade não para onde a rede digital começa e que a vigilância em massa de inocentes é uma violação dos direitos humanos.
A maré virou, e finalmente podemos visualizar um futuro em que possamos desfrutar de segurança sem sacrificar nossa privacidade.
Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros.
Mesmo os defensores da vigilância de massa, aqueles que talvez não estejam convencidos de que tecnologias de vigilância ultrapassaram perigosamente controles democráticos, hoje concordem que, em democracias, a vigilância do público tem de ser debatida pelo público.
Meu ato de consciência começou com uma declaração: “Não quero viver em um mundo em que tudo o que digo, tudo o que faço, todos com quem falo, cada expressão de criatividade, de amor ou amizade seja registrado. Não é algo que estou disposto a apoiar, não é algo que estou disposto a construir e não é algo sob o qual estou disposto a viver.”
Dias mais tarde, fui informado que meu governo me tinha convertido em apátrida e queria me encarcerar. O preço do meu discurso foi meu passaporte, mas eu o pagaria novamente: não serei eu que ignorarei a criminalidade em nome do conforto político. Prefiro virar apátrida a perder minha voz.
Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.
Tradução de CLARA ALLAIN


Sent from my iPad

 Aspas nossas:

"Nossos direitos não podem ser limitados por uma organização secreta, e autoridades americanas nunca deveriam decidir sobre as liberdades de cidadãos brasileiros."

Vale muitíssimo para o caso brasileiro.

 Fechaspas.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Aos 50 anos do Golpe, livros sobre a ditadura são aposta para 2014 

Reedição dos livros de Elio Gaspari sobre o regime militar começam a sair em fevereiro, pela Intrínseca

Leonardo Cazes 
Maurício Meireles


Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, em 1968, contra a ditadura: edições vão lembrar, sob diversos aspectos, a época do regime militar no Brasil
Foto: Arquivo Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, em 1968, contra a ditadura: edições vão lembrar, sob diversos aspectos, a época do regime militar no Brasil Arquivo
RIO - No ano em que se completam cinco décadas do golpe que instituiu o regime militar no Brasil, o assunto será tema de diversos lançamentos do mercado editorial. Entre as novidades, o carro-chefe promete ser uma reedição: os quatro livros do jornalista Elio Gaspari A ditadura envergonhada (2002), A ditadura escancarada (2002), A ditadura derrotada (2003) e A ditadura encurralada (2004) estreiam em nova casa, a Intrínseca. Com lançamento previsto para meados de fevereiro, as obras foram revistas e atualizadas e ganharão caprichadas edições em e-book, com fac-símiles de documentos citados, fotos, vídeos e áudios.

Outros três livros procuram repassar as duas décadas de regime militar. Em 1964: O golpe que derrubou um presidente e instituiu a ditadura no Brasil (Civilização Brasileira), Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes, professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), traçam um panorama do regime civil-militar e destacam personagens e momentos que marcaram o período.

Em Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988 (Zahar), Daniel Aarão Reis, também professor da UFF, propõe uma nova leitura do regime, especialmente da relação entre a sociedade civil e os militares. As duas obras estão previstas para fevereiro. Já o historiador Marco Antônio Villa publica Ditadura à brasileira (LeYa), em que apresenta as peculiaridades do regime e os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais de cada um dos cinco governos militares.

Na seara do comportamento, O verão do golpe (Maquinária Editora), do jornalista Roberto Sander, lançado este mês, recupera o cenário social e cultural da temporada que antecedeu a derrubada do presidente João Goulart, na primavera de 1964. Na mesma linha, a Companhia das Letras publica, da jornalista Ana Maria Bahiana, Almanaque 1964, que faz um balanço do clima cultural e político naquele ano.


O ano de 2014 também marca outra efeméride: os 100 anos do início da Primeira Guerra Mundial. A Rocco garantiu os direitos de publicação de Adieu à lEurope (Adeus à Europa), de Olivier Compagnon. O autor fez um estudo sobre como o conflito no Velho Continente afetou os países latino-americanos, entre eles o Brasil e a Argentina, fazendo aflorar questões identitárias e provocando uma reformulação do próprio nacionalismo. Pelo selo Alfaguara, sairá O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, romance de 1923 que é editado no Brasil pela primeira vez na íntegra e com tradução direta do tcheco. A obra é baseada, em partes, na própria experiência de Hasek, e expõe a máquina da guerra através do riso.
Fonte: O Globo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Por Travis Gettys, do The Raw Story | Tradução: Ítalo Piva
Os Estados Unidos declararam e lutaram uma amarga, brutal e violenta guerra contra a igreja, disse Chomsky (Foto: Wikimedia Commons)
Os Estados Unidos lutaram por décadas uma guerra contra católicos que praticavam os ensinamentos que levaram o Papa Francisco a ser eleito personalidade do ano pelaTimes, segundo o filósofo político Noam Chomsky.
Segundo Chomsky, em 1962, a conferência Vaticano II reformou os ensinamentos da Igreja Católica pela primeira vez desde o século IV, quando o Império Romano adotou o cristianismo como sua religião oficial, e isso teve um profundo impacto nos líderes religiosos da América Latina.
Leia também:
Jesus Cristo “capitalista” e Papa Francisco “marxista”?
Um dos futuros santos da Igreja, João Paulo II colaborou com a CIA
Na semana passada, em uma entrevista com o ativista de justiça social Abel Collins, Chomsky explicou que padres e laicos latino-americanos formaram grupos com camponeses para estudar o Evangelho e reivindicar mais direitos das ditaduras militares da região – que ficaram conhecidos como Teologia da Libertação.
“Há uma razão porque cristãos foram perseguidos pelos primeiros três séculos,” disse Chomsky. “Os ensinamentos são radicais – de um texto radical – que pregam basicamente um pacifismo radical com opções preferenciais aos pobres.”
Ele reafirmou que praticantes da Teologia da Libertação foram sistematicamente martirizados, ao longo de mais de 20 anos por forças apoiadas pelos EUA, que tentavam evitar que nações latino-americanas instalassem governos socialistas em benefício de seus próprios povos, contrariando interesses norte-americanos.
“Os Estados Unidos declararam e lutaram uma amarga, brutal e violenta guerra contra a igreja,” disse Chomsky. “Se existisse imprensa livre, é assim que representariam a historia.”
Ele explicou que os EUA apoiaram a “posse de governos e instituições ditatoriais com estilos neonazistas”, como parte de uma guerra que finalmente terminou em 1989 com a morte de seis jesuítas e duas mulheres na Universidade da América Central por tropas salvadorenhas.
Chomsky disse que aquelas tropas foram treinadas pelo governo norte-americano na Escola Kennedy de Guerra Contra a Insurgência, e agiram sob ordens oficiais do comando salvadorenho, que mantinha uma relação próxima com a embaixada norte-americana.
“Eu nem tenho que atribuir isso ao governo,” disse ele. “Já é aceito. A Academia das Américas, que treina oficiais militares latino-americanos – basicamente assassinos – um dos seus pontos de discussão é que o exército norte-americano ajudou a derrotar a Teologia da Libertação.”
O Papa Francisco, um jesuíta argentino, tem feito gestos simbólicos para uma nova aceitação da Teologia da Libertação na Igreja, depois de anos de condenação por suas aspirações políticas pelos papas João Paulo II e Bento XVI.
Seu recente Evangelii Gadium – ou Alegria do Evangelho – foi visto por muitos como um ataque ao capitalismo e economia de mercado livre, mas Chomsky acredita que até agora o Papa não transformou suas palavras em ações.
“Gosto do fato de que o discurso mudou, e de que há uma melhora na discussão sobre justiça social, mas temos que ver se isso chegará ao ponto de as pessoas se organizarem e insistirem por seus direitos percorrendo o caminho da opção preferencial pelos pobres, ou seja, de levar o Evangelho a sério.”
Fonte: revistaforum.


 

domingo, 22 de dezembro de 2013

AMÉRICA LATINA

Na esteira de reformas, Cuba pretende melhorar diálogo com os EUA

Após série de medidas de aproximação, presidente Raúl Castro pede que Washington estabeleça "relações civilizadas" com ilha. No Parlamento, líder cubano defendeu reformas econômicas rumo a "socialismo menos igualitário".
Obama aperta a mão de Raúl Castro em cerimônia fúnebre de Mandela
Cuba deseja melhorar as relações com os EUA. Embora o presidente cubano, Raúl Castro, tenha descartado, em discurso no Parlamento neste sábado (21/12), o fim do sistema de partido único ou uma mudança radical da ordem econômica na ilha caribenha, ele admitiu que EUA e Cuba trocaram ideias recentemente sobre algumas medidas de aproximação.
"Se nos últimos tempos, fomos capazes de trocar ideias sobre temas de benefício mútuo entre Cuba e os EUA, então consideramos que podemos resolver outros assuntos de interesse", disse Castro diante de cerca de 600 deputados na Assembleia Nacional. Na ocasião, Castro instou os Estados Unidos a "estabelecer uma relação civilizada entre os dois países."
Suas palavras chegam poucos dias depois do inédito aperto de mão com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a cerimônia fúnebre do herói sul-africano Nelson Mandela, uma imagem que foi interpretada como um gesto de aproximação entre os antigos rivais.
Rivais de meio século
Estados Unidos e Cuba são inimigos desde a revolução cubana em 1959. No entanto, recentemente, houve conversas entre os dois países sobre temas como imigração, serviços de correio, proteção de catástrofes e questões de segurança. Ambos os lados elogiaram tais diálogos como sérios e pragmáticos.
Apesar dos tímidos avanços com vista à melhora de relações, os EUA aplicam um embargo econômico sobre a ilha comunista há mais de meio século, e os dois países não possuem relações diplomáticas.
Washington financiou uma fracassada invasão a Cuba em 1961 e, segundo dados do governo cubano, tramou mais de 600 tentativas de assassinato contra Fidel Castro. No entanto, o líder revolucionário cubano sobreviveu e governou até 2006, ano em que transferiu o poder para o seu irmão mais novo, Raúl, por motivos de saúde.
Em breve, carros antigos podem ser coisa do passado em Cuba
Socialismo "menos igualitário"
Também neste sábado, Raúl Castro defendeu na Assembleia Nacional as reformas econômicas por que Cuba vem passando nos últimos anos. Ao comentar diante dos deputados a supressão da moeda dupla na ilha, Castro assegurou que medidas como essa "contribuirão de maneira decisiva para melhorar o funcionamento da economia", como também para a "edificação de um socialismo próspero e sustentável, menos igualitário e mais justo", informou a agência de notícias DPA.
A reforma monetária, que prevê a eliminação do CUC (Peso Cubano Convertível), a moeda cubana atrelada ao dólar, é considerada como a chave para a reestruturação do setor estatal na ilha. Em seu último discurso este ano no Parlamento, Castro enfocou os assuntos econômicos, principalmente os avanços das reformas de mercado conhecidas como a "atualização" econômica.
Castro anunciou para março uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional em Havana para debater um projeto de lei que fomenta os investimentos estrangeiros no país. Já há alguns anos, o governo cubano permite a formação de empresas mistas, mas ainda não autoriza que se constituam empresas privadas sob o controle estrangeiro.
Segundo Castro, a elaboração de uma nova lei de investimentos estrangeiros é um "fator de singular importância para dinamizar o desenvolvimento econômico e social do país". Na semana passada, Cuba suspendeu a proibição para a livre importação e comércio de carros novos do exterior, que estava em vigor na ilha desde 1959.
CA/dpa/rtr/afp


DW.DE

Um pouco de história:

CULTURA

Projeto disponiliza na internet filmes históricos sobre Primeira Guerra

Coordenado pelo Instituto Alemão de Cinema, "European Film Gateway 1914" marca centenário do início do conflito. Iniciativa tem participação de 26 parceiros de 15 países e digitalizou mais de 650 horas de material.
Weihnachtsfrieden 1914
Para marcar o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, o projeto europeu "European Film Gateway 1914", coordenado pelo Instituto Alemão de Cinema (DIF, sigla em alemão) digitalizou desde fevereiro de 2012 mais de 650 horas de filmes históricos sobre a Primeira Guerra Mundial e disponibilizou o material gratuitamente na internet.
"É um projeto memorialístico europeu sem precedentes e de imensa importância para pesquisas científicas e jornalísticas", afirmou Claudia Dillmann, diretora do DIF, em entrevista à agência de notícias alemã EPD.
A iniciativa conta, segundo Dillmann, com a cooperação de 26 parceiros de 15 países e já digitalizou quase 1.500 cinejornais, documentários, animações e filmes de longa-metragem, além de 5.600 documentos relacionados a produções cinematográficas sobre a Primeira Guerra.
Apoio do governo alemão e da UE
Até fevereiro de 2014, deverão ser acrescentados outros mil títulos. De acordo com estimativas, foram preservados apenas cerca de 20% dos filmes produzidos na Europa entre 1914 e 1918.
O empreendimento conta com o apoio do governo federal alemão, assim como do governo do estado alemão de Hessen. O "European Film Gateway 1914" é cofinanciado pela União Europeia, que contribui com 2,1 milhões de euros.
Os filmes podem ser vistos no site www.europeanfilmgateway.eu. O portal, especializado na divulgação digital de documentos ligados à história do cinema, também tem uma versão em português.

DW.DE

domingo, 15 de dezembro de 2013


 

O Movimento Estudantil do RN antes e durante a ditadura militar (I)

 

 DOIS PONTOS, 07 a 13 de maio de 1988

Texto de Luiz Gonzaga Cortez

 

 

 

 

            “Em muitos movimentos da vida nacional os estudantes se converteram em verdadeiras “pontas de lança” de uma sociedade amordaçada, reprimida e oprimida, atuando no sentido de desencadear movimentos de caráter mais amplo e que desembocaram em sérias transformações políticas no país. Bastam alguns exemplos (...) para comprovar isto: na campanha pela entrada do Brasil na luta contra o nazi-fascismo, no início da década de 40; na campanha pelo estabelecimento do monopólio estatal do petróleo e a criação da Petrobrás; nos protestos contra a ditadura, nos anos 1966 a 1968; em todos, foi decisiva a participação dos estudantes, ou seja, eles, enquanto componentes de um movimento, assumiram o papel de fenômeno político de primeiro plano”. (Antonio Mendes Jr., in Movimento Estudantil no Brasil, Editora Brasiliense, São Paulo, 1981, p.08).

 

            Israel Vieira da Silva, advogado e professor, atualmente filiado ao Partido Democrático Trabalhista,  foi líder estudantil em Natal, do final da década de 50 até os primeiros anos da década de 60, quando a capital potiguar tinha um forte e organizado movimento estudantil que se rivalizava, em acirradas disputas pela sua hegemonia, entre o Colégio Estadual do Atheneu professor Israel Vieira da Silva, atualmente filiado ao Partido Democrático Norte-rio-grandense e o Colégio Santo Antônio (Marista). Os dois estabelecimentos de ensino, um público e outro particular, reuniam pouco mais de dois mil estudantes e as suas disputas  eram mais intensas nas quadras e campos de esportes e/ou nas atividades culturais da época.

No período em que Israel Vieira liderou parte do movimento estudantil, Natal era mais provinciana do que é e as reivindicações dos estudantes eram quase as mesmas das levantadas pelos jovens de hoje. Entre o movimento estudantil de hoje e o do final da década de 50 só havia uma diferença, profunda: a falta de sintonia entre os partidos políticos, de esquerda e conservadores, e entre a massa e a liderança estudantil.

Naquela época, não existia a ligação do movimento estudantil e o movimento político. O movimento era direcionado para a vida estudantil,  para as necessidades dos estudantes, cujas reivindicações eram poucas, tais como problemas de transportes coletivos, mais ônibus e preços das passagens mais baratas. Natal só existia até a fábrica Guararapes, no bairro de Lagoa Seca: não existiam a Zona Norte, os conjuntos Cidade da Esperança, Candelária, o Instituto Kennedy, que foi construído no governo de Aluizio Alves. A cidade era muito pequena e as linhas de ônibus eram curtas. Isso ocasionava um problema porque os colégios eram concentrados no centro da cidade; não havia colégios na periferia e os estudantes deslocavam-se de ônibus para o centro, onde estavam as escolas mais importantes, como o Atheneu, Marista, Imaculada Conceição, Sete de Setembro, Escola Industrial e Escola Normal (feminina). Então, as exigências dos estudantes eram poucas e não existia a complexidade do movimento, como ocorre hoje. Sua complexidade é maior, evoluiu para a participação da esquerda e da direita e se vinculou a partidos políticos.

A política era diferente da de hoje, pois era baseada nas velhas lideranças, oriundas do coronelismo e do paternalismo que dominavam o Rio Grande do Norte. Tampouco o povo participava das campanhas políticas, tradição quebrada na campanha desenvolvida por Aluizio Alves, candidato a governador, em 1960, “levando homens, mulheres, velhos e crianças para as ruas”, disse o professor Israel, um dos fundadores da “Cruzada da Esperança”, movimento que juntou pessoas de vários matizes sociais, como Walter Gomes (hoje jornalista em Brasília), José Coelho Ferreira, Luciano Veras (coronel da PM), Quinho Chaves, professor e psiquiatra, o comerciante Militão Chaves, os estudantes José Martins, Paulo Herôncio, Manoel Martins da Silva, Magnus Kelly Rocha,  etc.

Numa época em que estudante não participava da política, tradicionalmente conservadora, a Cruzada da Esperança promoveu um comício no Grande Ponto  ( logradouro no centro de Natal) historicamente marcado pelo lançamento da candidatura do então deputado federal Aluizio Alves a Governador contra as forças mais reacionárias do Estado. Um ano depois os estudantes da Cruzada estavam subindo as escadas do Palácio Potengi com o seu novo líder.

AS LIDERANÇAS – Para  Israel Vieira as lideranças estudantis eram  Francisco Sales da Cunha, presidente do Diretório Estudantil “Celestino Pimentel”, do Atheneu, “muito atuante e, mais tarde, eleito vereador por conta dessa liderança política”; Jurandir Tahim, Waldir Freitas, ex-gerente das Casas Pernambucanas em Natal; Érico de Souza Hackradt, “um grande líder”. “Essas as principais lideranças, na minha opinião, do meu tempo, que atuaram no Centro Estudantal Potiguar - CEP e Associação Potiguar de Estudantes  - APE, recorda Israel.

Ele informa que não havia distinção entre esquerda e direita no movimento estudantil, mas havia “grupos avançados e grupos menos avançados”. E exemplifica: “Havia grupos que defendiam os interesses dos patrões, dos donos de colégios e empresas de ônibus e dos estudantes. De um lado estava a liderança do Atheneu e do outro, a do Marista, que representava a escola particular e o Atheneu, a escola pública, cujos líderes defendiam mais verbas para o ensino público e gratuito em detrimento do ensino privado. A campanha do “Petróleo é nosso” também foi outra grande bandeira de luta. “Quem era da direita, defendia os interesses da escola particular. Quem era mais avançado , defendia o ensino público”, completou o advogado e professor Israel Vieira, hoje um brizolista juramentado.

Ele se lembra de alguns líderes estudantis secundaristas do seu tempo que assumiam posições conservadoras: José Augusto Othon, seu concorrente na eleição para a presidência da APE e Luiz Antonio Porpino, que foi gerente do Hotel Ducal, ambos alunos do Colégio Santo Antonio (Marista).

O Colégio Estadual do Athneu Norte-rio-grandense era o que tinha o maior número de alunos e, por isso, liderava o movimento estudantil de Natal e era o único instituto de segundo grau, público, com três turnos, só para homens, onde se estudava o “científico” e o “clássico”, após cursar o ginasial. Como o movimento era polarizado entre o Atheneu e o Marista, o Diretório Estudantil “Celestino Pimentel” comandava os estudantes das camadas pobres. Foi nesse grêmio estudantil que Sales da Cunha firmou a sua liderança e militância políticas, somente superada por outro líder famoso: Pecado, alcunha de Manoel Filgueira Filho. “O aluno ingressava no ginasial após o exame de admissão, um verdadeiro vestibular. Havia o “batismo” dos calouros e Pecado era o encarregado dessa festa, mas nunca passou da segunda série ginasial. Foi um estudante profissional, nasceu em Mossoró, morou em Natal muitos anos e terminou funcionário do Atheneu. Pecado não era de direita nem comunista, não era nada; foi um simples estudante profissional, um boa vida que só queria desfrutar das “benesses” do movimento estudantil, das mordomias, pois os estudantes gozavam de descontos de 50% nas passagens de ônibus,nos cinemas, liderava competições desportivas e todo mundo respeitava. E assim foi levando a vida, sem idéias comunistas”, conta Israel Vieira.

 

CIA financiou estudantes e padre em 1961 (II)

Dois Pontos, 14 a 20 de maio de 1988.

 

Ainda Pecado – No final dos anos 50, muitas passeatas foram comandadas por Pecado, uma figura que ficou folclórica em Natal, e eram realizadas no trecho compreendido entre o Atheneu, no bairro de Petrópolis, e o “Grande Ponto”, no meio da rua João Pessoa, na Cidade Alta. As causas das passeatas: precariedade e preços das viagens nos transportes coletivos.  Os ônibus eram escassos, velhos e caros. “Houve algumas tentativas de queimar ônibus, no Grande Ponto, mas nunca se concretizaram devido a presença da polícia”, disse o professor Israel Vieira da Silva, ex-presidente da Associação Potiguar de Estudantes-APE.

Com saudades, Israel relembra que as datas nacionais eram comemoradas todos os anos no âmbito dos estabelecimentos de ensino de primeiro e segundo graus (21 de abril, 7 de setembro, 15 de novembro, etc), além do dia 11 de agosto, Dia do Estudante, com concentrações de estudantes, reuniões, conferências, numa verdadeira simbiose escolar. As datas eram lembradas nas escolas, promovidas pelos grêmios ou diretórios estudantis, “sem grandes mobilizações de massa nas ruas”.

Ele não se lembra de que haja ocorrido qualquer repressão violenta ao movimento estudantil secundarista em Natal, na década de 50, mas recorda-se que os universitários, alunos da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, criada pelo governador Dinarte Mariz, eram mais atuantes, principalmente os estudantes da Faculdade de Direito, na praça Augusto Severo, Ribeira, no prédio onde hoje funciona a Secretaria da Segurança Pública.

“No governo de Aluizio Alves houve muita repressão. O secretário de segurança, coronel Manoel Leão Filho, mandava “baixar o cacete” nos estudantes. Nessa época, os líderes eram Hélio Vasconcelos, Danilo Bessa, gente de esquerda. A repressão era maior nos trotes, tendo em vista que nos trotes, os estudantes criticavam  com os seus cartazes a autoridade estabelecida e a administração de Aluizio, que foi muito duro nessa questão”, disse Israel.

Entre 1961/1965, Israel Vieira escreveu na “Tribuna do Norte”, onde tinha coluna dirigida aos estudantes, “Vida Estudantil”, na qual atirava flores à administração de Aluizio, de quem foi fiel correligionário e fundador da “Cruzada da Esperança”. Perdeu um ano do curso de direito para se dedicar à campanha de Aluizio Alves, tornando-se, mais tarde, chefe de gabinete de Duarte Filho, secretário da Saúde Pública. Ele lembra que Aluizio atraiu muitos estudantes para a sua campanha, pois foi o primeiro político a levar a juventude potiguar a acreditar em mudanças. “Até o hino da campanha era um hino de promessas. Por essa razão, eu e parte da estudantada participamos da campanha dele, pois acreditávamos que estávamos trabalhando para a transformação do nosso Estado”, conta Israel, que trabalhou com Aristófanes Fernandes e, após 1965, desencantado, abandonou a política. Somente retornou à política em 1985, com a candidatura de Waldson Pinheiro, do PDT, à Prefeitura de Natal.

ANUIDADES – Tal como hoje, as anuidades escolares já eram um problema grave para a estudantada, segundo informa Israel Vieira. O problema era mais agudo porque o número de escolas e de vagas era reduzido. Para se conseguir uma vaga numa escola pública ou privada era necessário um cartão de um político, “senão não se matriculava”. No Atheneu, o único colégio público, só se matriculava com um cartão de político, se o aluno fosse do interior.

As divergências eram também importantes entre as entidades estudantis da época, principalmente entre o Centro Estudantal Potiguar-CEP e a Associação Potiguar de Estudantes-APE. No Centro Estudantal houve uma direção muito criticada, a de Jurandir Tahim, que sempre se reelegia, “pois era uma espécie de clube fechado”.

“No Centro Estudantal só se filiava quem fosse de acordo com Jurandir Tahim; quem não fosse, ele não filiava. Jurandir era uma espécie de “coronel” do CEP. Então, se criticou a sua administração, se denunciou que ele não prestava contas, que ninguém sabia para onde ia o dinheiro que a entidade recebia, etc. E a entidade não atuava políticamente, ao contrário da APE, liderada por Érico Hackradt, antes de mim. A APE  era mais viva, mais atuante, mais aberta. Então, nesse ângulo houve uma grande rivalidade entre a APE e o Centro. Na minha gestão, levamos a eleição para o interior, pois antes só era realizada em Natal e de forma indireta. Fizemos a primeira eleição  direita, envolvendo todos os alunos das escolas de Natal, inclusive a Escola Doméstica, Colégio Agrícola de Jundiaí, escolas de Mossoró, Caicó, Assú, Macaíba e Parnamirim. Após a eleição e posse da diretoria, fizemos reuniões em Natal com as lideranças do interior e editamos um jornal impresso na Imprensa Oficial do Estado. Além disso, conseguimos um grande tento: legalizar a carteira de estudante. Até então, o estudante conduzia a carteirinha para identificação, mas com a Lei Érico Hackradt, em 1958, instituiu-se o abatimento de 50% nos cinemas e ônibus. Antes o abatimento só existia nos cinemas, o único grande meio de diversão para os estudantes”, disse Israel.

BALA EM ESTUDANTE – Como episódio quase trágico na sua vida de política estudantil, Israel lembra um comício que estava sendo realizado em frente ao Atheneu, durante a campanha de Aluizio Alves, em 1960. “Os estudantes discursavam na frente da casa do então deputado João Aureliano, o Coleguinha, que, achando-se incomodado com a “zoada”, sacou um revólver e apertou o gatilho várias vezes, no meio da concentração, mas atirando pra cima. Então, correu todo mundo e acabou-se o comício”, conta o ex-presidente da APE (ele foi sucedido  na APE por Edmilson Felipe, Paulo Ney de Lacerda (advogado em Brasília) e Pio Cavalcanti.

Segundo Israel, as bandeiras de lutas dos estudantes sempre foram nacionalistas, tais como a campanha pela defesa do petróleo brasileiro, das reservas minerais, etc. Mas houve um acontecimento que mexeu com os nacionalistas, comunistas e direitistas de Natal: o Congresso Latino-Americano de Estudantes - CLAE. “Estávamos em 1961, mas a presença da representação cubana foi quem ouriçou, pois Cuba estava no auge da sua revolução, graças a repressão dos Estados Unidos a Fidel Castro. A questão levantada foi por causa da chegada de representações da maioria dos países convidados: essa maioria era subvencionada pela CIA, pelo Departamento de Estado norte-americano. A confusão foi grande quando uma delegação do Panamá ou da Guatemala descobriu um telegrama da CIA dando orientações para os estudantes se conduzirem no congresso. Coube a um estudante de Cuba ou do Chile, não tenho certeza qual sua nacionalidade, ler o telegrama. Quando o estudante chileno ou cubano estava dizendo que ali havia representações pagas pelos americanos, então, o tiroteio começou no recinto. Foi bala pra burro , depois de luta corporal entre o estudante que estava com o telegrama e os que queriam arrebatar o telegrama. Então, alguém puxou o revólver e meteu bala, derivando-se em tiroteio que foi fotografado pelos repórteres e jornalistas,  o que levou alguns estudantes a quebrar as máquinas fotográficas. A bagunça foi grande e o congresso foi encerrado no segundo dia”, conta Israel Vieira.

O Congresso da CLAE foi realizado nas dependências da atual Escola Estadual Professor Anísio Teixeira, na praça Cívica Pedro Velho. Sabe-se, por outras fontes, que um padre indiano, Campos, comandou um grupo de estudantes da direita para atacar o Congresso e realizou reuniões nas dependências do Serviço de Assistência Rural-SAR, que contou com a presença de Ney Lopes de Souza, Adilson de Castro Miranda, João Maria Cortez Gomes (este ficou encarregado de panfletar e provocar os cubanos) e outros jovens da Juventude Estudantil Católica-JEC. Realizaram as tarefas, foram cobaias do padre Campos, mas muitos fugiram nas primeiras refregas.

O telegrama do Departamento de Estado, que dava orientações à representação do país, cujas despesas de viagens, diárias, alimentação e hotel eram pagas pelos americanos, teria sido interceptado na portaria do “Grande Hotel”, na Ribeira. “Não sei como conseguiram o telegrama. Sei que o telegrama dava orientações sobre o que fazer no congresso , como atacar Cuba, como defender tal e tal país, etc. Só sei que a Polícia interviu e acabou-se o congresso”, afirma Israel.

Ele assegura que a Igreja não colaborou para o fracasso do Congresso da CLAE, patrocinada pela União Nacional dos Estudantes-UNE, apesar de reconhecer que naquele tempo a Igreja Católica estava ligada aos poderosos.  “E havia grupos de direita dentro da Igreja: a Juventude Estudantil Católica- JEC e a Juventude Universitária Católica-JUC. Eram grupos muito fortes, além da Juventude Operária Católica-JOC, integradas e lideradas por estudantes que começavam  a se destacar no movimento estudantil. Eu fui participante da JUC, assim como João Faustino e a maioria dos líderes estudantis. Na Universidade, em 1961, já tinha gente de esquerda; na JUC, JEC, JOC, JIC, não.  No meio universitário, conhecíamos  como de esquerda Luiz Maranhão Filho, Hélio Vasconcelos, Danilo Bessa e outros. Eram pessoas que a cidade dizia ser de esquerda, mas como estudantes não discutiam ideologia. Eram envolvidos na luta nacionalista contra o truste estrangeiro”, comenta Israel.

DIREITA – Segundo o pedetista Israel Vieira, a Igreja apregoava que o comunismo acabava com a família, que matava as criancinhas. “Então, os líderes estudantis de direita lançavam  a palavra de ordem que o comunismo era a peste. A Igreja era profundamente reacionária, cujo discurso era que o Estado acabava com a família, que cada um era dono dos seus filhos, etc. Eles pregavam isso. Então, todo mundo movimento de direito tinha a família como alvo dos debates, com o objetivo de encostar os comunistas. O bom mesmo era ser de direita, pois era mais bem-visto, cortejado. Entre outros nomes que assumiam posições de direita posso adiantar José Augusto Othon, Pio Cavalcanti e padre Celestino Galvão, de Currais Novos. Esse era um padre que atuava mesmo no movimento estudantil. Ele morava em Caicó, mas se envolvia com os estudantes de Natal, Caicó, Currais Novos, Ceará-Mirim, Parelhas. Onde houvesse movimento, ele estava  metido, sempre como um padre conservador. O padre Galvão tinha uma liderança muito forte entre os jovens, principalmente em fundações e reuniões de grêmios, congressos, etc. Dom Eugênio Sales foi um líder na Igreja e sempre teve muita influência na juventude, mas não era um homem de se expor, de aparecer, ir lá. Por debaixo dos panos, ele sabia manipular e já era considerado um bispo conservador. Já os padres Agnelo Dantas Barreto, Oto Santana e Antonio Soares Costa atuavam na coordenação da JEC, JUC, JIC e JOC ”.

 

DEPUTADOS ENVERGONHARAM OS ESTUDANTES  (III)

Dois Pontos, de 21 a 25 de maio de 1988

 

Ö estudante aqui, como em muitos outros países da América Latina, é movido por algo mais do que o simples espírito anarquista que caracteriza o jovem moderno na Europa ou nos Estados Unidos. Esse algo mais, que torna o estudante brasileiro muito mais maduro, políticamente, do que o seu colega europeu ou norte-americano, refere-se a uma profunda decepção quanto à maneira como o Brasil foi conduzido no passado, de uma violenta revolta contra o modo pelo qual ele é dirigido no presente e de uma entusiástica disposição de governá-lo de outra forma no futuro. Devido a essa perspectiva de poder – que muitas pessoas imediatistas e carentes de imaginação, podem considerar utópica, mas que é, afinal, uma consequência inevitável das leis naturais – o estudante brasileiro é oposicionista nato”. (Arthur José Poerner, O Poder Jovem, história da participação política dos estudantes. Rio de Janeiro,. Civilização Brasileira, 1969, p.26).

 

 

 

Para Hélio Vasconcelos, ex-secretário de Educação do Estado do RN e atualmente exercendo as funções de Procurador da Assembléia Legislativa, a mais antiga entidade estudantil de Natal foi o Centro Estudantal Potiguar, criada em 1935, por um grupo de alunos do Atheneu Norte-rio-grandense que representou uma espécie de “pré-universidade do Rio Grande do Norte”. De lá, também  saíram as grandes lutas, como a do “O petróleo é nosso” e outras reivindicações.

--Desse grupo, entre outros nomes, relembro as figuras de Luiz Maranhão Filho, Alvamar Furtado, José Cândido, Vivaldo Ramos de Vasconcelos. Destes, estão vivos o professor Alvamar Furtado e José Cândido. Luiz Maranhão foi morto pelo golpe de 64 e Vivaldo Vasconcelos também. Depois de alguns anos, nos idos de 47/48, surge uma cisão no movimento estudantil secundarista, que eu vejo como um marco: a Associação Potiguar de Estudantes, formada por alunos da Escola Técnica de Comércio, Escola Industrial de Natal, Colégio Imaculada Conceição, Colégio das Neves, com a liderança de Érico Hackradt, o grande líder estudantil desta época, Moacir de Góis, João Ururahy Nunes do Nascimento, Omar Pimenta e um estudante chamado Hitler Miranda. Na época não se falava em reacionário, conservador, progressista, direita, esquerda, nada disso. Esta cisão teria sido em decorrência de uma eleição que este pessoal da APE acusava de ter sido uma eleição viciada. Eles haviam perdido e me faz lembrar as campanhas políticas da época, pois quando a UDN perdia uma eleição, queria ganhar no tapetão. Nesta época, surge a APE e isso abalou muito a força do movimento secundarista, porque se dividiu entre esses estudantes, com Érico Hackradt à frente, e o Centro Estudantal, do qual fui presidente em 1955/56”, historia o professor Hélio Vasconcelos.

O Centro Estudantal Potiguar tinha sede, funcionários, prestava contas de suas atividades ao seu quadro social. Era uma entidade estudantil burocratizada para poder distribuir as carteirinhas estudantis. Nos tempos da liderança de Hélio Vasconcelos, o CEP funcionou em duas sedes: uma na avenida Rio Branco e, depois, na rua Princesa Isabel, onde hoje é o Café São Luiz.

O CEP se mantinha de uma subvenção do Estado e da renda dos sócios que pagavam as mensalidades. Como órgão de classe, lutava por abatimentos dos estudantes nos ônibus e cinemas e realizava algumas atividades sociais e recreativas (festas dançantes), jogos desportivos, mantinha uma biblioteca que era muito consultada pelos estudantes e havia até um grêmio literário na própria estrutura do Centro Estudantal.

A APE tinha também muita movimentação, conta Hélio Vasconcelos, relembrando a época em que lutou pela integração das entidades com vistas ao fortalecimento do movimento estudantil. “O movimento já era fraco e dividido se tornava mais fraco ainda. Mas isso nunca foi conseguido porque aí já se tinha um divisor mais ou menos claro: o Centro Estudantal, por ter sido criado em 1935, tinha a pecha de ser entidade ligada aos comunistas. Lembro-me bem que em duas vezes em que assumi a presidência, houve um congresso de estudantes em Natal e o Centro Estudantal teve muita dificuldade em participar desse congresso porque era um congresso feito por estudantes católicos. Eu tive que falar com o Arcebispo, Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas, e ele, uma pessoa generosissíma, disse “para mim isto não tem maior valor, acho que vocês todos são estudantes, vocês não têm nenhuma definição de conteúdo ideológico”. Ele pensava assim, na primeira visita que eu fiz. Mas a maioria tinha prevenção contra o Centro Estudantal Potiguar.

O Centro participou do congresso e aí houve a cisão na APE. Alguns líderes saíram da APE, como Geraldo Lago de Oliveira, hoje juiz de direito, era grande orador estudantil; Francisco das Chagas Rocha saiu e foi para o Centro e Arnaldo Arsênio de Azevedo, entre outros. Nesse pouco de história, dava para sentir o início de uma certa maturidade, um pouco das coisas que devia realizar”, disse Hélio Vasconcelos.

Na sua opinião o marco central de todo o movimento estudantil partiu do Colégio Estadual do Atheneu Norte-rio-grandense, que era o maior estabelecimento e que se equiparava “aos melhores colégios da capital”, tendo em vista que o seu ensino era sério. Hélio e Varela Barca foram alunos do Atheneu, assim como milhares de estudantes de diversas gerações. Como Secretário de Educação , no governo de José Agripino Maia (1982-1986), o professor Hélio Vasconcelos teve oportunidade de dialogar com estudantes do Atheneu, que faziam reivindicações, ocasião em que tentou renascer o movimento estudantil, mas sem obter êxito, conforme revelou ao repórter.

--No meu tempo de estudante o Atheneu era o grande foco de reivindicações”, relembra, acrescentando que a participação política dos seus alunos era intensa, enquanto os colégios particulares eram mais fechados, políticamente, por serem mais elitistas”, conta Hélio. Ele adianta que os estudantes das escolas privadas também fizeram alguns movimentos de rua, mas não deixavam de ser elitistas, por culpa da própria cúpula dirigente das escolas.

No início do governo de Dinarte Mariz, em 1956, tiraram o professor Celestino Pimentel da direção do Atheneu e nomearam o padre-professor João da Mata Paiva. Os estudantes se rebelaram e contaram com o apoio do Centro Estudantal, segundo informa Hélio Vasconcelos, considerando o ato estudantil como uma verdadeira “insurreição” do Atheneu.

“O governo, que estava começando, não recuou, manteve a nomeação do monsenhor Mata, que permaneceu diretor do Atheneu. Mas, Celestino Pimentel conseguiu sair com todas as glórias e honras e ser uma espécie de diretor dos estudantes. Ele consagrou-se, ao meu ver, como o diretor da preferência dos alunos. O monsenhor Mata assumiu e teve problemas difíceis na fase inicial, mas depois conseguiu superá-los. Foi o primeiro embate do governo com os estudantes, pois houve muitas passeatas, atos públicos e comícios, sem repressão policial. No governo de Dinarte Mariz não houve repressão policial aos estudantes. Num desses atos, em frente ao Atheneu, falava-se muito do governo, por mais que a gente quisesse conter um pouco os ânimos dos mais exaltados, ninguém conseguia conter. Falavam muito mal do governo, muitos desaforos, muitas críticas”, conta Hélio Vasconcelos, registrando que Manoel Filgueira Filho, vulgo Pecado, já estava começando a agitar massa estudantil de Natal.

Presidiu o Centro Estudantal Potiguar o estudante Serquiz Farkatt, grande figura humana e que procurou dar ao Centro a importância da mais antiga entidade secundarista do Rio Grande do Norte. Realizou concursos literários, incentivou a prática dos esportes e foi um excelente administrador, relembra o professor e advogado Hélio Vasconcelos.  Serquiz tornou-se jornalista e foi um dos editores do jornal “Correio do Povo”, localizado na praça padre João Maia, Centro, de propriedade de Dinarte de Medeiros Mariz.

NÃO HOUVE TIROTEIO – Em virtude de falta técnica no gravador, a transcrição da entrevista com o professor Israel Vieira da Silva, publicada em duas edições anteriores, provocou um equívoco sobre o Congresso Latino-Americano de Estudantes – CLAE, realizado em Natal, em 1961. Na verdade, não houve intenso tiroteio no segundo dia ( e último) do congresso. Os congressistas sacaram revólveres, sem dispará-los. O que houve foi muito quebra-quebra e barulho.

O professor Israel destacou que Hélio Vasconcelos foi o maior líder estudantil universitário, enquanto Manuel Filgueira Filho, vulgo, Pecado, teve atuação destacada entre os secundaristas. Após o golpe de abril de 1964, Pecado foi acusado de denunciar diversos companheiros e, por isso, foi recompensado com um emprego na secretaria do Atheneu. Depois de Hélio, a grande liderança estudantil foi Francisco Sales da Cunha, tendo em vista que a sua atuação ocorreu nos colégios públicos e privados. Israel atribui a Pecado a fundação da Cooperativa dos Estudantes de Natal Ltda., que continua funcionando na rua Felipe Camarão, Centro.

Israel comenta que uma das maiores movimentações de massas, na década de 1950, em Natal, foi o seqüestro do busto de Amaro Cavalcanti da Assembléia Legislativa, destacando-se Hélio Vasconcelos como um dos principais oradores dos comícios realizados no centro da cidade. Quando a movimentação da direita contra o congresso da CLAE, Israel informa que um dos mais brilhantes oradores foi o atual procurador do Estado, Francisco de Assis Fernandes, que esbravejou contra o comunismo e Fidel Castro.

O professor Israel Vieira acha difícil que a juventude de hoje repita o movimento estudantil repita o movimento estudantil das décadas 50 e 60, tendo em vista que, na sua opinião, a sociedade brasileira perdeu a sua identidade e “o jovem está perdido, desinteressado, imitativo e um simples espectador do processo histórico”. Ele adianta que os jovens estão alienados pela sociedade consumista.